Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 153

Capítulo 153

Tradução: Emma

Capítulo 153


A porta fechou-se atrás dela sem produzir um único som. O ar frio e estático do cômodo desabitado fazia até a ponta de seu nariz arder. Sua boca secou com a tensão. Vanessa trancou cuidadosamente a porta pelo lado de dentro, certificando-se de não fazer barulho.

Apesar de ser meio-dia, o quarto estava tão escuro, com as cortinas fechadas, que era necessário acender uma lâmpada a gás. Ela aumentou a chama da lâmpada na parede e examinou o ambiente com cautela. Aquela era a primeira vez que ficava sozinha naquele espaço desde a morte de seu pai.

O escritório do Conde era, efetivamente, o coração de Somerset. Seu valor permanecera inalterado mesmo sete anos antes, quando venderam a casa da cidade em Linden, e continuava o mesmo agora, embora toda a sua glória começasse a desbotar lentamente.

Seus antepassados haviam guardado todo tipo de itens preciosos naquele vasto escritório. Registros de terras, testamentos, documentos sensíveis demais para serem confiados até mesmo a um mordomo, relíquias preciosas concedidas pelo Rei… Claro, nada era exatamente igual a quando seu pai ainda estava vivo. Não obstante, uma certa sensação de intimidação pairava claramente no ar.

— ……

Vanessa encarou a maciça escrivaninha de mogno. A parede atrás dela estava inteiramente coberta por prateleiras, lotadas de vários documentos e registros que repousavam em um estado de completa desordem. Parecia estar diante de um cemitério feito de papel.

Encontrar o que queria em um espaço como aquele parecia quase impossível. Felizmente, o documento que precisava encontrar era o testamento original.

Havia três requisitos para um testamento válido. Primeiro: deveria ser escrito à mão. Segundo: a data e a hora em que foi escrito deveriam estar claramente declaradas. Terceiro: deveria conter uma assinatura manuscrita.

Em outras palavras, ela poderia ignorar quaisquer documentos datilografados sem examiná-los de perto. Qualquer coisa escrita em papel relativamente limpo e novo também poderia ser descartada. Vanessa examinou rapidamente várias prateleiras antes de seguir em frente. Sua mão, deslizando pelas lombadas dos livros, puxava alguns fichários para verificá-los antes de colocá-los de volta no lugar.

Não desse jeito.

Talvez aquele fosse o momento de usar cada gota de sua imaginação. Ao mesmo tempo, também era um momento para lógica e dedução.

Pense.

E se ela transformasse seu tio Wyatt em um personagem de seu romance? Em uma figura perversa, o vilão perseguido pela “Senhorita Welsh”?

O “Conde” era um homem imprudente, desconfiado, afeiçoado ao jogo e à bebida, movido por um desejo insaciável de controle e ostentação. Ao mesmo tempo, era alguém capaz de fazer qualquer coisa para satisfazer a própria ganância. Se um homem tão cruel e profundamente paranoico guardasse algo precioso por muito tempo…

Ele manteria isso em algum lugar ao alcance das mãos a todo momento. Para poder tirar e verificar sempre que se sentisse ansioso.

O “Conde” passava a maior parte do tempo no castelo, dentro do escritório, em seu quarto ou na biblioteca anexa ao escritório. Isso o fazia parecer menos o mestre da casa e mais um sentinela. Ou um dragão ganancioso guardando seu tesouro.

O “tesouro” era, naturalmente, o testamento e as escrituras das terras concedidas com o título. Ele poderia tê-los retirado dali algumas vezes recentemente, mas não os teria manuseado de maneira descuidada.

Ele não os misturaria entre os registros ou documentos. É um homem cheio de preocupações e suspeitas.

Então, seria possível que os carregasse consigo? Pouco provável. O “Conde” bebia com frequência e frequentava casas de jogos. Costumava perder coisas e já havia retornado para casa com o colarinho e os botões arrancados depois de se envolver em uma briga. Um homem assim não carregaria itens preciosos junto ao corpo.

Assim como a chave do escritório estava naquele momento em sua própria mão. Se fosse esse o caso, que lugar um homem tão profundamente desconfiado consideraria o mais seguro do mundo?

Um cofre.

A razão pela qual o “Conde” trancava o escritório com a chave toda vez que saía poderia ser um cofre… Esse raciocínio parecia racional. Parecia se encaixar perfeitamente na personalidade do “Conde”.

Vanessa estreitou os olhos e examinou atentamente o vasto escritório. Geralmente, cofres eram volumosos e exigiam obras estruturais para serem instalados. Também custavam uma grande quantia de dinheiro. Embora o “Conde” desperdiçasse dinheiro livremente com prazeres, era um homem que se recusava a gastar sequer um único centavo com qualquer outra coisa.

Era improvável que um homem que adiava até mesmo os reparos do castelo tivesse gasto uma grande quantia para instalar um cofre novo. Se já houvesse um usado anteriormente, havia uma grande probabilidade de que continuasse a utilizá-lo. Se fosse assim, onde diabos estava o cofre? Seus olhos, percorrendo lentamente o cômodo, pararam em um ponto.

Em algum lugar não muito longe da escrivaninha.

O chão era estruturalmente impossível, e à esquerda havia a janela. Vanessa encarou calmamente a parede direita. Ela estava decorada com uma cabeça de cervo empalhada, várias medalhas, retratos e uma grande tapeçaria. Em outras palavras, parecia um lugar apropriado para esconder um segredo antigo e suspeito.

Ela ergueu a antiga e pesada tapeçaria que retratava uma deusa sentada à beira de um lago.

— ……

A primeira dedução falhara miseravelmente, acompanhada por uma nuvem de poeira. Vanessa tossiu e devolveu a tapeçaria ao lugar.

Um lugar que possa ser facilmente aberto sem uma escada ou um banquinho.

Não importava o quão grande fosse o escritório, os lugares onde um cofre poderia estar escondido eram limitados.

Nos romances, geralmente há algum mecanismo que move as prateleiras.

Ela ajoelhou-se no chão e verificou o tapete diante das prateleiras em busca de qualquer sinal de arranhões periódicos. Logo se levantou, decepcionada.

Está limpo. Não há um único vestígio.

Vanessa mordeu o lábio, ansiosa. Checou atrás dos retratos e até mesmo dentro da lareira, mas sem sucesso. Se ao menos não estivesse sob a pressão de ter que devolver tudo o que tocasse ao estado perfeito, poderia tentar várias coisas com mais tranquilidade… Seu olhar retornou naturalmente ao primeiro conjunto de prateleiras.

Será que não era um cofre? No fim de seus pensamentos vacilantes, uma ideia surgiu subitamente. Vanessa correu de volta às prateleiras. Examinou meticulosamente as prateleiras que estavam ao seu alcance, uma por uma. E, finalmente…

Eu sabia. Há marcas onde a poeira foi limpa recentemente.

Vanessa retirou com urgência todos os livros daquela prateleira. Havia algo suspeito na parede dos fundos da estante. No exato momento em que pensou ter visto um tênue reflexo de luz, encontrou uma placa de metal gravada com algum tipo de imagem.

Ela tocou a fina placa de cobre e a puxou da ranhura onde estava encaixada sem firmeza. Então, o cofre escondido atrás dela se revelou.

Realmente há um cofre!

Ela acariciou cautelosamente a superfície do cofre. Tinha certeza. Era um cofre doméstico de disco de ferro fabricado pela Companhia Nocturne. Como eram usados de maneira tão universal, tornaram-se um elemento comum em romances de mistério. Claro, a “Senhorita Welsh” já havia usado um antes.

Aquele, em particular, parecia ter sido comprado pelo menos quinze anos antes. Naquela época, a Companhia Nocturne incrustava decorações de ouro nas maçanetas dos cofres que vendia, e essas marcas também eram visíveis naquele cofre. E, se era daquela época…

Significa que a pessoa que instalou este cofre foi meu pai.

As características de um cofre Nocturne eram claras. Ele consistia em um disco de três dígitos, e o código inicial definido não podia ser alterado.

Vanessa mordeu o lábio, agitada. Se foi seu pai quem preparará o testamento tão minuciosamente, preocupado com a possibilidade de ela ficar sozinha, certamente teria deixado algo que ela pudesse reconhecer.

O problema é que meu tio provavelmente descobriu isso também.

Vanessa encarou fixamente a placa de cobre em sua mão. Morte, um leão sangrando, um ceifador esperando ao lado da cabeça do leão para que sua alma escapasse, um papiro esmagado sob a pata maciça do leão, como algum tipo de testamento…

O testamento!

Diante daquela súbita percepção, Vanessa quase gritou. Como não havia pensado nisso imediatamente, mesmo depois de olhar para o testamento tantas vezes que praticamente o memorizará? Apressou-se a tirar a cópia do testamento que escondera em suas roupas.

A primeira frase da página que declarava que ela herdaria a empresa sempre começava assim:

D, V, ll, lX, CLXXXXll

Se alguém tomasse D como “direita”, o significado daqueles números ficava claro: 5, 2, 9, 192. O 1 girava cinco vezes para a direita, o 9 girava duas vezes para a esquerda e o 2 girava nove vezes para a direita novamente.

Vanessa girou o disco sob uma tensão extrema. Depois de alinhar o último número, um som metálico de metal se chocando ressoou, e a porta do cofre se abriu.

Seus lábios pálidos tremeram.

Wyatt jamais imaginaria.

Quão longe ela ousara ir. E quão mais longe iria dali em diante…

“Tenho que me apressar.”

Dentro do cofre, vários tipos de documentos estavam organizados com precisão. Diferentemente da desordem do escritório, aquele espaço parecia ser cuidadosamente mantido. Um maço de documentos de hipoteca, escrituras de terras, contratos que pareciam envolver algo ilegal… E, finalmente.

O testamento original.

Ela encontrou o testamento guardado no fundo dos documentos. Vanessa trocou a cópia pelo original com mãos trêmulas. Então, estava prestes a fechar o cofre depois de reorganizar rapidamente os documentos espalhados, devolvendo-os ao estado original.

Theodore Liam Battenberg

Uma assinatura rabiscada em um pedaço de papel chamou sua atenção.