Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 151

Capítulo 151

Tradução: Emma

Capítulo 151


— Vamos fugir. Eu assumirei a responsabilidade por tudo.

— Se fugirmos, a renda mensal do Almirantado também vai desaparecer, não vai?

— Dinheiro é algo que vai e vem. O importante é estarmos juntos.

— Como a senhorita pode ser tão inconsequentemente romântica?

Como sempre, o sonho era nebuloso, carecendo do menor traço de contexto. Era como se meramente refletisse os desejos físicos que mediavam o subconsciente.

Em seu sono, ela sentiu uma mão puxando a coberta que havia escorregado. Sentiu pontas de dedos se entrelaçando hesitantes às suas. Embalada pela sensação agradável, Vanessa suspirou e se agitou antes de abrir os olhos num estalo. Ali, viu uma mulher ajoelhada aos seus pés.

— …Mary?

Esfregando os olhos cansados, Vanessa murmurou com incerteza. Até um momento atrás, ela estava sonhando que estava no jardim com River Ross, mas, ao acordar, encontrava-se em seu quarto na mansão de Gloucester. Realidade e sonhos se misturavam, nublando seu julgamento.

Ela esperou um pouco para que seus sentidos voltassem e, nesse breve lapso de foco, Mary, que terminará de ajeitar a coberta, levantou-se com uma expressão fria.

— A senhorita está dormindo sem nem mesmo comer?

— Sim… Só comi o suficiente para enganar a fome.

Vanessa bocejou por trás da mão e se sentou. Ultimamente, toda vez que se encostava em algo, seu corpo inteiro ficava tão letárgico que não conseguia manter a lucidez. Suor frio grudava de forma pegajosa em sua testa.

— Se vai ficar assim, deveria ao menos trocar de roupa e dormir confortavelmente.

— Deveria? Não sei por que estou tão tomada pelo sono ultimamente. Talvez seja a mudança de estação…

Abanando as bochechas coradas com a mão, ela caminhou em direção à janela. Através da vidraça aberta, uma brisa suave entrava junto com a luz turva do sol da tarde. Embora fosse um dia fresco em comparação aos outros, seu corpo parecia incomumente quente.

Enquanto olhava para o jardim, seus pensamentos naturalmente desviavam para River Ross. Ele teria chegado a Linden em segurança? O que estaria acontecendo com a questão que disse que precisava resolver? E…

O que raios ele quis dizer?

Apenas imaginar as possibilidades fazia seu coração inflar com uma esperança imerecida. Talvez fosse a possibilidade de ter sido finalmente aceita no futuro dele, ou de ter ultrapassado alguma linha que ele havia traçado.

— Suas roupas estão prontas, senhorita.

Vanessa espreguiçou-se abrindo os braços e se virou. Naquele momento, um lampejo de choque atingiu o rosto de Mary, que esperou silenciosamente com as roupas. Com um olhar que era horrorizado ou atônito — sua face tornando-se de um tom gélido de branco —, ela deu passos largos à frente.

— O que houve?

Sem saber o motivo, Vanessa foi puxada pela mão para parar diante do espelho. O rosto pálido da criada estava tão drenado que até suas sardas pareciam brancas. As mãos de Mary passaram pelo baixo ventre de Vanessa, pela cintura e pelos quadris, antes de parar subitamente em seu busto. Seus olhos, um tanto estreitados com ferocidade, e seus lábios estavam tingidos de uma tonalidade avermelhada.

— Já faz quanto tempo?

— Já faz quanto tempo… O que você quer dizer?

— Desde que sua menstruação atrasou. Estou perguntando há quanto tempo faz.

O rosto de Vanessa também ficou pálido. Ela forçou os lábios, rígidos de choque, em uma linha fina.

— Passou apenas um pouco mais de uma semana da data prevista.

— Então já faz pelo menos cinco semanas.

— Com certeza não, Mary. Isso não… Pode ser. Você se enganou em algo.

— Como pode ter tanta certeza?

— Isso é…

Vanessa baixou a voz para um sussurro, sua confiança vacilando.

— Ele disse que não podia ter filhos.

— Seus seios estão inchados. Mais do que o normal.

— ……

— Eu conheço esses sinais melhor do que ninguém. Já ajudei parteiras em partos várias vezes.

A voz de Mary, pressionando-a com certeza, estava mais feroz do que o habitual. Vanessa cobriu a boca com uma mão trêmula. Queria dar uma desculpa, mas sentia as mudanças físicas mais claramente do que qualquer um.

O sono aumentado, o calor corporal subindo e, exatamente como Mary dissera, seus seios estavam inchados a ponto de doer. Quando compartilharam seus corpos, ela ficou mais sensível a cada sensação do que o normal.

Se todas aquelas coisas que ela atribuía à mudança de estação fossem, na verdade, sinais de gravidez…

Você realmente fica mais bonita quando está completamente nua.

Cinco semanas. Se ela realmente estivesse grávida, era provável que fosse daquele dia. O dia em que se reencontrara com River Ross após mais de dez dias separados. O exato momento em que entrelaçou seu corpo com o daquele homem, que retornará ao jardim pisando no orvalho da manhã.

Vendo a expressão no rosto dela ao perceber a verdade, Mary mordeu o lábio com força. Agarrou o pulso de Vanessa — Vanessa, que parecia meio incapacitada pelo choque — e a interrogou novamente.

— Aquele homem sabe disso?

— Ele… Não, antes disso, eu sempre fui irregular. Você sabe disso. Nem é certo ainda…

— Foi o Sr. River Ross, não foi? Aquele que partiu para Linden hoje cedo.

Lendo a confirmação no silêncio de Vanessa, Mary virou-se com resolução.

— Vou contar ao jardineiro. Ele deve estar na estufa agora mesmo.

— Não! Não faça isso!

Vanessa apressou-se em envolver os braços ao redor das costas de Mary. Àquele contato quente, Mary soltou um suspiro lento. Os ombros e o pescoço da criada se ergueram como se ela estivesse reprimindo uma onda de emoção. Desfazendo o braço de Vanessa de seu corpo, Mary girou sobre os calcanhares e esbravejou.

— Por quê? Aquele homem deveria assumir a responsabilidade pela senhorita. Vocês deveriam fugir juntos agora mesmo. Antes que o Patrão perceba.

— E depois que eu fugir assim? Você sabe que todos na mansão vão se machucar. E… Eu nem consigo imaginar o quão cruel meu tio pode se tornar agora…

— ……

— Enquanto você mantiver a boca fechada, meu tio não saberá de quem é o filho. Agora que há um escândalo com o Duque, meu tio não poderá me forçar a me livrar da criança ou me machucar tão facilmente, dado o seu caráter…

Quanto mais ela falava, mais seus pensamentos se tornavam um emaranhado confuso. Ao contrário da intuição de que aquela situação não era inteiramente má, havia uma nítida sensação de choque. Gravidez, e um escândalo terrível o suficiente para cobrir todo o círculo social. Vanessa continuou as palavras que vinha mantendo na boca por hábito.

— Então, se eu realmente estiver grávida, acho que na verdade é para o melhor.

Embora o envolvimento do nome do Duque fosse um fardo, na verdade era um alívio poder somar escândalo sobre escândalo.

A atenção do público é limitada. A alta sociedade era propensa a despejar rumores provocativos dia após dia, e quando uma nova fofoca emergia, as anteriores eram facilmente esquecidas. Se o escândalo anterior era meramente um rótulo vil e terrível, o significado mudaria inteiramente assim que a gravidez começasse a ser discutida publicamente.

Os fofoqueiros tagarelariam que a criança em seu ventre era da linhagem do Duque. E esse equívoco público serviria como seu escudo mais forte, ainda que temporariamente.

Agora, devo usar esse escândalo a meu favor.

Pelo menos até que desse à luz a criança em segurança e a batalha legal com seu tio prosseguisse. Depois, assim que herdasse sua pensão, poderia construir uma base para uma vida independente. Até lá, seria revelado que a criança não era do Duque, mas isso não importaria.

Eu escrevo. Sobre as coisas que vivenciei. Às vezes uso um pseudônimo, mas na maioria das vezes uso os nomes reais das pessoas envolvidas.

Depois que a criança nascesse, não importaria para qual cama Wyatt tentasse empurrá-la, aquelas palavras a fariam parecer a mulher mais perversa imaginável.

Exatamente como o plano que fizera no dia em que propôs com firmeza “comprar” River Ross. Uma pena, uma mulher e uma mãe. Ela seria talvez chamada de a bruxa mais terrível desde a fundação de Ingram. Ainda mais do que a senhora Rowan.

No passado, ela nem se atreveria a pensar em algo assim. Mas agora, tinha que usar tudo ao seu dispor. Porque perceberá que seu tio — não, Wyatt — era um homem que prejudicaria até os próprios parentes em benefício próprio.

Se há um grande problema neste plano, esse problema é River Ross.

Como ele reagiria quando descobrisse que ela estava grávida? Ficaria feliz? Ou ficaria desconcertado por algo tão não planejado? Sim, ele ficaria chocado. Já que disse que não podia ter filhos.

Mas como diabos isso aconteceu?

O corpo de River Ross fora curado? Sem que ele ao menos soubesse? Ou ele esteve enganado desde o início… Talvez fosse um tipo de milagre concedido por Deus. Um milagre. Assim que pensou dessa forma, o choque da situação começou a parecer suportável.

Ela continuou seus pensamentos ansiosos. No fim, havia apenas uma conclusão. Mesmo que tivesse a criança, tinha que manter seu relacionamento com River Ross estritamente escondido. Ele era um plebeu e por acaso estava conectado ao Duque de Battenberg, com quem ela estava envolvida no escândalo. Era melhor para o futuro dele não dar margem para conversas desnecessárias.

Mary pareceu perceber vagamente a resolução de Vanessa. Encarou-a com um rosto sombrio e abatido e murmurou.

— …A senhorita deveria procurar uma maneira de se livrar da criança, mesmo agora.

— Eu não posso fazer isso.

— Vai ser difícil.

Ela sabia. Aquele era o mundo ao qual pertencia desde o nascimento. Embora filhos ilegítimos fossem comuns na alta sociedade, era extremamente raro uma mulher solteira dar à luz. Ela teria que navegar por tudo sozinha de agora em diante. Seria difícil suportar sem uma determinação extraordinária. No entanto, era exatamente por isso.

Será a sua força motriz para uma vida da qual não me envergonhe.

Dar à luz e criar uma criança sozinha não era nada de que se envergonhar. Certamente não era um ato que violava a moralidade ou algo tão terrível que seus falecidos pais ficassem de luto.

Vanessa pressionou com força seu coração trêmulo. Embora estivesse aterrorizada agora que estava realmente acontecendo, apesar de ter se preparado há muito tempo, nada mudará. Sua decisão de se rebelar contra o tio fora tomada há muito tempo, e agora ela simplesmente tinha mais um motivo pelo qual absolutamente precisava triunfar.