Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 150

Capítulo 150

Tradução: Gheo

Capítulo 150


– Nós mesmos cuidaremos disso.

– Tudo bem. Eu confio que vocês vão conversar e se acertarem. Olha só a hora! Preciso desligar para arrumar minhas coisas. Enquanto eu estiver fora, você será o chefe da casa, então cuide bem da sua mãe e de Rosalind.

– Sim, pai.

Pai. Aquela palavra, que ele pronunciara com tanta naturalidade durante toda a vida, agora parecia presa na ponta da língua. Raspava como uma pedra antes de se cravar como um espinho doloroso.A ligação estava prestes a terminar. Blair, que já havia abaixado o fone até a metade, apertou-o com força, incapaz de conter um impulso avassalador.

– Você sabia? Que nós… não somos seus filhos biológicos.

Ele não sabia por que aquela única frase fizera suas palmas suarem frio. Seus olhos ardiam em vermelho, como se fossem saltar das órbitas, e a tensão extrema lhe causava um zumbido nos ouvidos.

Era natural, pois aquelas palavras afetaram a sua vida. E o que ele havia perdido por causa disso… Blair parou de pensar e soltou um suspiro lento e cansado. Ele havia perdido tudo, então agora precisava ganhar pelo menos uma coisa.

Unir-se à família Bronte era a maior demonstração de respeito que ele poderia oferecer ao seu "pai". Já que o homem os acolhera de bom grado e os criara como Winchesters, apesar de não serem seus próprios filhos, era também um voto de que Blair dedicaria o resto da sua vida apenas ao bem da família.

– Hah.

Após um silêncio sufocante, um suspiro tão frio quanto a geada chegou aos seus ouvidos.

– Foi a Louise que te contou isso?

– …Então você já sabia.

– Eu disse às empregadas várias vezes para não deixarem nenhuma garrafa ao alcance dela. Parece que elas foram negligentes na supervisão novamente. O que exatamente Louise lhe disse?

Blair mordeu os lábios ressecados com força. Ele falou logo em seguida.

– Ela disse que nunca nos quis. Que foi forçado.

– ...Tornar-se imprudente quando bêbada é um velho hábito de Louise. Ela causa problemas pelos quais não pode se responsabilizar e fala qualquer coisa que lhe vem à mente quando está embriagada pelas próprias emoções. É, de fato, bem a cara dela.

Tudo começou com uma leve sensação de dissonância. Seu pai costumava ser quase obsessivamente sensível em relação a qualquer coisa que envolvesse sua mãe. Para um homem assim, seu tom era cínico demais para alguém que mencionava um "acidente infeliz" sofrido por sua esposa.

– Não se prenda ao que ouviu. Não espere que sua mãe, que está bêbada há mais da metade do ano, esteja em seu juízo perfeito.

– Pai.

Blair soltou um suspiro pesado e sufocado. A ansiedade de que pudesse estar perdendo algo crucial percorreu sua espinha. Assim, seu apelo soou dolorosamente desesperado.

– Eu… quero saber a verdade.

Seguiu-se o silêncio mais longo desde o início da ligação. A dignidade da esposa contrastava com o desespero do filho que ele criara com as próprias mãos para ser seu sucessor. Era um dilema impossível. Seria possível explicar em poucas palavras aquele destino cruelmente entrelaçado…?

Após uma intensa luta interna, o Marquês respirou fundo. Então, finalmente, abriu a boca.



Mary alisou habilmente suas roupas amassadas e se levantou. Sua mão foi cautelosa ao pegar o dinheiro deixado sobre a mesa. Três libras e sete pence. Era muito menos do que ela deveria receber, mas ela prendeu a respiração, com cuidado para não irritar Wyatt.

O conde parecia bastante feroz hoje. No entanto, ela não podia recuar agora. Se não revelasse seus motivos naquele momento, não havia como prever quando veria o Conde novamente. Ultimamente, Wyatt vinha passando mais tempo fora da mansão do que em qualquer outro lugar.

– O que é?

Quando a criada, que normalmente saía do quarto imediatamente após terminar suas tarefas, permaneceu parada ali, o conde franziu a testa, fazendo um gesto com a testa novamente.

– Vá embora agora. Não vou ligar para você novamente hoje.

– …Hum, Mestre.

Mary apertou o tecido da saia, o rosto pálido. Tentou falar com sua expressão estoica habitual, mas manter a compostura não era um tarefa fácil.

– Você por acaso se lembra de ter prometido me ajudar a encontrar meu pai, que fugiu há algum tempo?

– Ah, isso.

Wyatt olhou para ela como se ela estivesse dizendo algo trivial, mas depois assentiu com a cabeça como se se lembrasse.

– Você disse que ele fugiu para o Novo Mundo? E daí?

– Acho que ele nunca saiu de Ingram. Quando participei da cerimônia de comissionamento do navio com Lady Vanessa da última vez… eu o vi claramente a bordo. O segui imediatamente, mas o perdi de vista.

– …….

– Se meu pai ainda estiver em Ingram, preciso encontrá-lo. Ele fugiu com todas as minhas economias e tudo de valor que havia em casa, então, entre as dívidas, as contas do hospital do meu irmão… até o aluguel está apertado agora. Já que o senhor conhece tanta gente, meu senhor, eu estava pensando se poderia dar mais uma olhada nisso…

– Mary.

Um suspiro de exasperação escapou com uma baforada de fumaça de cigarro.

– Você está dizendo que menti sobre o paradeiro do seu pai? É isso?

– …Não era essa a minha intenção.

– Já estou bastante ocupado. Algumas moedas insignificantes ou seu pai patético não importam agora.

Algumas míseras moedas. Para alguém que havia vendido até mesmo seu orgulho por aquelas poucas moedas, as palavras dele foram devastadoras. Mary mordeu os lábios trêmulos e olhou para baixo.

– O que Vanessa está fazendo?

– Ela deveria estar descansando em seu quarto.

– Você não a deixou sair sem motivo, deixou?

– Ela saiu rapidamente uma vez para comprar material de escrita. Eu a acompanhei.

– Quem ela encontrou?

– Ninguém… em particular.

Wyatt emitiu um som pensativo.

– Bem, não a reprima tanto, deixe-a em paz. Principalmente quando ela se encontrar com o Duque, não interfira em nada do que ela fizer.

– Ela ainda nem conheceu o Duque.

– Isso é muito estranho.

– …….

– Bem, por agora, é melhor deixar as coisas como estão em vez de interferir. O valor dela aumentou graças ao escândalo com o Duque, então não há pressa. O problema são essas questões problemáticas bem na minha frente…

Mary seguiu o olhar de Wyatt e deu uma olhada nos documentos da hipoteca espalhados sobre a mesa. Mesmo para seus olhos inexperientes, era evidente que uma parte significativa de seus bens estava hipotecada.

Ultimamente, os gastos do conde tinham ultrapassado todos os limites da razão. Era como se ele tivesse encontrado algo confiável para se apoiar, ou talvez fosse uma reação negativa por conter seus gastos recentemente… De qualquer forma, parecia que ele havia perdido a pouca cautela que lhe restava e agora estava à beira de um abismo perigoso. Wyatt, irritado, empurrou os documentos para o lado e resmungou como se estivesse dando uma desculpa.

– Desta vez, perdi uma boa parte das ações que recebi como investimento, mas ainda tenho bastante para usar como capital inicial. Se eu der sorte uma vez, ficarei literalmente sentado em uma montanha de ouro.

– …Será que aquele boato sobre Lady Vanessa era mesmo verdade? Aquele que os tabloides estavam espalhando?

– Se você acredita que é verdade, então até uma mentira se torna verdade. Essa é a beleza dos tabloides de fofoca.

Uma sombra de choque cruzou momentaneamente o rosto de Mary, que mal conseguia manter a compostura.

– …Será que esse escândalo foi intencional da sua parte, Mestre?

– Que menina ingênua. Claro que foi. Pode haver alguns aproveitadores que ouviram informações de outros lugares e se aproveitaram delas, mas que tabloide de fofocas ousaria usar sua caneta contra um nobre sem permissão? Principalmente em relação a algo assim?

– Mas.

Maria umedeceu os lábios ressecados.

– Vai ficar tudo bem? Deixando Vanesss de lado, a outra parte é um Battenberg…

– Naturalmente, eu fiz isso porque tenho alguém em quem confiar. Depois que finalizamos o contrato, eles me pediram para não prosseguir com o casamento de Vanessa por enquanto, dizendo que queriam adicionar uma pequena condição. Então, deve ter acontecido algo entre os dois.

– …….

– Bem, que diferença faz? Eu só preciso usar ativamente tudo o que estiver ao meu alcance para conseguir mais dinheiro.

Wyatt cantarolava alegremente enquanto abria o cofre e guardava os documentos lá dentro. Era como se já tivesse esquecido o apelo desesperado da empregada. Mary ficou parada em silêncio por um instante antes de sair do quarto.

Ela caminhou com passos firmes pelo corredor e desceu as escadas. Ao passar pela impecável Ala Leste e entrar na negligenciada Ala Oeste, uma paisagem desolada foi a primeira coisa que a recebeu. Sem hesitar, abriu as portas duplas de madeira no final do corredor familiar.

– Minha Senhora.

Mary elevou a voz ao atravessar a sala de estar mal iluminada. A senhora, que normalmente teria reconhecido sua presença, estava estranhamente quieta naquele dia. Uma sensação sinistra a dominou de repente.

– Senhorita Vanessa?

Quando sua confusão estava prestes a aumentar, Mary olhou ao redor e encontrou Vanessa dormindo, absorta em uma poltrona de encosto alto. Parecia que ela havia caído em um sono profundo enquanto lia um livro com um cobertor sobre o colo. Só então Mary soltou um suspiro de alívio.

Mary ajoelhou-se lentamente aos pés de Vanessa. As pálpebras adormecidas dela pareciam incrivelmente frágeis e, ao mesmo tempo, tão belas que ela sentiu que não ousaria se aproximar. Como a estátua de Védice que vira numa revista. Uma estátua daquela cidade maravilhosa que ela sempre quisera visitar pelo menos uma vez…

Uma menina nascida sob uma estrela da sorte.

Essa foi a primeira impressão que ela teve. Mesmo vivendo em uma mansão decadente, ela era uma dama. Mary a julgou, pensando que, enquanto ela própria era infeliz dia e noite, aquela moça havia encontrado uma boa família e vivia sendo tratada como uma joia preciosa.

Uma tola que anseia pelo afeto das pessoas.

Sua próxima impressão também não foi das melhores. Uma mulher tão ingênua que, mesmo sendo evitada e abertamente ignorada pelos criados que temiam Wyatt, nunca se esquecia de trazer guloseimas sempre que retornava ao castelo. E agora…

Uma força repentina tomou conta das mãos de Mary enquanto ela puxava o cobertor, que havia escorregado, de volta para os joelhos de Vanessa. Bem no momento em que Mary se preparava para encostar o corpo cansado e descansar a cabeça no colo de sua senhora, os olhos de Vanessa se abriram de repente.

– …Mary?