Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 148

Capítulo 148

Tradução: Gheo

Capítulo 148


Benjamin Dawson, que trouxe pessoalmente dois copos de cerveja escura, tirou um grosso maço de documentos da sua mochila. A pilha de papéis amontoava-se indefinidamente sobre a mesa, que estava incrustada com restos de alguma comida velha não identificada.

Com uma expressão rígida, Vanessa alternava o olhar entre o Sr. Dawson e os documentos. Ela reconheceu de imediato que eram os testamentos de seus pais. Estavam encadernados no mesmo formato do documento apresentado ao tribunal.

– Para ir direto ao ponto, como você já suspeitava, o testamento era de fato uma falsificação. Do começo ao fim, tudo.

Vanessa pegou rapidamente o documento de cima e folheou várias páginas. Logo em seguida, pegou o próximo pacote que estava embaixo e o examinou da mesma maneira, depois o próximo…

Incrível, eram todas as cópias originais dos testamentos anteriores que haviam sido anulados. Pelo que parecia, o pai dela atualizava o testamento todos os anos desde que herdou o título de Conde de Somerset.

– Como é que isso aconteceu…?

– O Sr. Wiltshire disse que tem guardado todos eles.

– O que eu trouxe hoje se refere apenas aos últimos anos. O conde redigiu seu testamento consistentemente por quase quinze anos – interrompeu o Sr. Wiltshire na conversa com uma expressão ansiosa.

– Sempre que ele atualizava o testamento, os anteriores eram enviados para mim. Eu os mantive no cofre da empresa, conforme o desejo do Conde, durante sua vida.

– É claro que, como esses testamentos já foram anulados, será difícil reconhecê-los como tendo força legal. Cada página está carimbada como "descartada". No entanto…

– Podemos verificar o que foi omitido ou alterado arbitrariamente no testamento atual.

Vanessa tocou levemente os lábios. As palavras que pronunciou pairaram na ponta da língua como metal frio. De repente, uma estranha premonição a invadiu. A sensação de que, uma vez confirmado o conteúdo daqueles testamentos, não haveria mais volta.

– Sim. Eu resumi as partes que você precisa verificar absolutamente.

Vanessa ajustou a postura com determinação e pegou o testamento. Antes mesmo de virar algumas páginas, surgiu uma página que começava com uma frase que ela nunca tinha visto antes.

Rapidamente, ela tirou um par de óculos de aros grossos da bolsa e os colocou. Não tinham grau, mas usar aqueles óculos — uma lembrança do pai — sempre a ajudava a se acalmar. Em momentos como aquele, ela sabia que precisava controlar a agitação e analisar as coisas com frieza.

Ela respirou fundo e verificou a linha superior.

D, V, ll, lX, CLXXXXll

Seria isso algum tipo de código? Ou apenas uma simples sequência de números? Visto que se repetia no início de cada página, parecia ter algum significado… mas ela não tinha tempo nem pistas para deduzi-lo agora. Por ora, desviou o olhar para a próxima frase.

Por um tempo, apenas o som das páginas sendo viradas ecoava no silêncio. Além do tique-taque do relógio na parede ou do sussurro ocasional enquanto Vanessa lia uma frase em voz alta, reinava um silêncio.

– …não deve exceder…

As pontas dos dedos que repousavam sobre a última frase tremeram. Benjamin Dawson empurrou rapidamente o copo de água sobre a mesa em direção a ela. Vanessa tomou um gole agradecida e olhou diretamente para o Sr. Wiltshire.

– Portanto, se o que está escrito aqui for realmente verdade, então isto é…

O Sr. Wiltshire, que vinha lançando olhares desconfiados para um homem cochilando no bar, apoiou um braço na mesa e baixou a voz para responder.

– Simplificando, significa que a senhora está destinada a herdar uma empresa privada de responsabilidade limitada.

– Isso é legalmente possível?

– É quase uma brecha na lei. É extremamente raro, mas não sem precedentes.

Benjamin Dawson, dando um gole em sua cerveja escura, bateu com o dedo na mesa enquanto continuava a explicação.

– Como você sabe, um título de nobreza está atrelado ao feudo concedido a cada casa pelo Rei. Herdar um título é sinônimo de herdar o feudo. As leis de Ingram proíbem estritamente apenas as mulheres de herdarem estas terras.

Ela já sabia disso. O Código Parlamentar de Ingram era baseado na antiga lei imperial. E essa lei imperial arcaica, que outrora fora descartada, foi reinstaurada há cerca de 150 anos por Malua de Derobeus.

Durante a Guerra de Sucessão, com o objetivo de derrubar a legitimidade de sua irmã.

– No entanto, não existem restrições específicas à sucessão de uma sociedade limitada privada. É um conceito relativamente moderno.

– Desde que você nasceu, o falecido Conde buscou novas possibilidades desde cedo. Considerando que era uma época em que a maior parte da riqueza da nobreza estava ligada a terras, ele foi verdadeiramente… um homem notável.

– Esta Moretz Investment Company, que você herdará, foi criada com essa visão. Ele investiu uma certa quantia de capital quando cinco empresas — incluindo a Grint Shipping, a May Textiles e a Dirk Coal — foram fundadas, e ela opera recebendo uma parte dos lucros.

– …Por que eu não sabia disso até agora?

– Porque a pessoa que atualmente controla a gestão da Moretz Investment Company é o Sr. Townes.

– Sr. Townes…?

O Sr. Wiltshire pressionou o dedo indicador firmemente contra os lábios, como se temesse que alguém pudesse ouvir o nome às escondidas e espalhar o boato.

– Ele é o dono da maior gangue do sul. Ele tem até ligações com membros da Câmara dos Comuns.

– Você reconhece isso?

Um pedaço de papel amarelo, que ela achava já ter visto em algum lugar, foi colocado sobre a mesa. Com o rosto rígido, Vanessa olhou para Benjamin Dawson e depois para o papel.

Era uma espécie de renúncia de herança. E a pessoa que assinou na parte inferior era…

– Vanessa Siren Somerset. É a sua assinatura. Provavelmente você a assinou quando era muito jovem.

Seu coração afundou ao ver o papel repleto de jargões jurídicos. Ela nem precisou vasculhar a memória. Havia um momento em que ela conseguia adivinhar. Depois do funeral dos pais, o advogado a levou até o tio.

Ela tinha uma vaga lembrança de ter assinado o documento enquanto sofria com uma febre alta, sem saber o que ele continha. Lembrava-se das palavras doces sobre como tudo era para o tio, para a família, sempre que hesitava. Porque, naquela época, ela acreditava que o tio cuidaria dela com carinho agora que era órfã.

– O original está no tribunal, e este é o que foi submetido à empresa.

– O conteúdo é tão confuso que até eu acho difícil de entender à primeira vista… mas, resumindo, é um documento que afirma que, se você não seguir os procedimentos corretos dentro de um ano após atingir a maioridade, os direitos de herança passarão para o seu tio, Wyatt.

– Meu Deus…

Vanessa cobriu o rosto com as mãos trêmulas. Era uma armadilha, armada com muita astúcia desde o início. Secreta, como uma teia de aranha, de um tempo tão remoto que ela nem sequer poderia imaginar. E agora ela finalmente entendia. O comportamento do tio, como ele conseguia viver em casas de jogos por mais da metade do ano enquanto reclamava das dívidas da família.

Até mesmo sua obsessão mórbida por ela, seus esforços desesperados para mantê-la na ignorância e completamente isolada do mundo.

– Como você assinou o documento sendo menor de idade, ele pode ser anulado. Isso é possível mesmo se você o tivesse assinado apenas uma semana antes de completar 18 anos, quanto mais sete anos atrás. Mas, primeiro, precisamos provar que o testamento atual não é autêntico.

– Você precisa encontrar o testamento original. É provável que ele não o tenha destruído. Seja para alterar o proprietário ou renunciar à herança, você precisa primeiro herdar como beneficiário principal… seguindo os estatutos da empresa estabelecidos por meio de procedimentos para garantir a validade legal. O falecido conde até mesmo providenciou isso.

Pai.

Enquanto ela buscava em suas memórias desvanecidas a lembrança dele, uma única lágrima que se acumulava em seus olhos caiu sobre sua face pálida. Observando-a com o coração pesado, o Sr. Wiltshire falou com cautela.

– Dizem que fazer um testamento é uma tarefa para a vida toda, mas numa situação normal, ele provavelmente não o teria feito com tanta… obsessão. A ponto de deixar cópias de todos os registros de revisões.

– ……

– Acho que ele sabia. Que algum dia a morte prematura chegaria.



O céu, carregado de nuvens escuras, estava tão sombrio que parecia prestes a desabar em chuva a qualquer momento. O fim de sua caminhada sem rumo a levou à entrada de um jardim familiar. Vanessa ergueu os olhos embaçados para observar o Jardim de Rosas.

Ela nem sabia como tinha chegado ali. Mal conseguia se manter lúcida. Cambaleou por mais alguns passos antes de desabar no chão, atordoada. Uma onda de náusea subiu por sua garganta fraca.

De repente, pensou que não devia deixar ninguém na mansão vê-la tão agitada... mas não conseguia mexer nenhum centímetro.

Sua mente estava em branco enquanto ela repassava a conversa de momentos atrás. Com a Mansão de Gloucester envolvida em uma densa neblina.

– Na verdade, houve alguém que entrou em contato comigo antes de eu receber sua resposta. Um homem chamado Norman… Você conhece esse nome?

– Não. É a primeira vez que ouço isso.

– Primeiro, mostrei-lhe o testamento. Depois, ele me deu uma grande quantia em dinheiro. Disse-me para não contar nada a ninguém. A princípio, achei uma condição estranha, mas comecei a suspeitar que talvez ele estivesse tentando impedir que a senhorita descobrisse a verdade.

– ……

– Na verdade, os lucros que a empresa está obtendo atualmente não são tão grandes. Embora eu tenha aconselhado você a encontrar o testamento… não é uma escolha sábia entrar em uma disputa de poder com o Sr. Townes, minha senhora.

Um suspiro trêmulo escapou de seus lábios com as lágrimas. Ela estava consumida pelo peso daquela terrível decepção. Que tipo de monstro ela vinha chamando de "Tio" todo esse tempo?

Sem reconhecer o inimigo que matou seus pais, ansiando tolamente por afeto, prendendo a respiração mesmo sob tratamento injusto para não ofendê-lo… Olhando para trás, para os anos em que foi completamente pisoteada, era horrível. Agora, sentia como se o mundo inteiro a estivesse enganando. Porque, a menos que fosse intencional, isso não poderia estar acontecendo com ela.

Nesse instante, uma chuva torrencial repentina começou a castigar seus ombros magros. Ela inclinou lentamente a cabeça para trás, em direção ao céu. Gotas de chuva se acumularam em sua testa arredondada e em seus cílios frágeis e trêmulos antes de caírem rapidamente. Estava frio. Ela se sentia profundamente sozinha.

Ela ansiava por calor. Não importava quem fosse. Fossem seus amigos que não entravam em contato há dias, ou até mesmo um completo estranho que encontrasse na rua.

Contanto que fosse alguém que pudesse ficar ao lado dela naquela chuva torrencial que era difícil de suportar. Contanto que essa pessoa não a pisoteasse nem a enganasse. Quem quer que fosse.

– Vanessa.

Como que em resposta à sua prece desesperada, um homem que vinha correndo pela chuva a agarrou pelo braço e a ajudou a se levantar.