Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 147

Capítulo 147

Tradução: Gheo

Capítulo 147


– Então… você poderia simplesmente fazer o mesmo.

– Você quer dizer fazer o que eu quiser?

– Você vem fazendo isso o tempo todo, então por que parar agora…?

Ele soltou uma risada seca diante da resposta atrevida dela e, de repente, a pegou no colo. Era como se estivesse perguntando se ela realmente podia assumir a responsabilidade por aquelas palavras. Os pés dela deixaram o chão tão abruptamente que Vanessa engasgou e, instintivamente, jogou os braços em volta do pescoço de River Ross. Seus quadris tocaram o colchão macio um instante depois.

A força com que ele a colocou no colchão foi incrivelmente gentil. Sua habitual ternura parecia particularmente comovente hoje. De forma ridícula, seu nariz começou a coçar. Era tudo culpa dele. Num momento em que o mundo a condenava, tratando ilusões como verdades, agir assim só a faria recair em seus delírios…

– Sinto muito se foi isso que você pensou.

Certo, era uma ilusão. Como River Ross havia dito, nós estávamos em um relacionamento em que desejávamos apenas o corpo um do outro, sem futuro. Já que se tratava de um acordo contratual temporário, estabelecido desde o início, havia limites claros, não importava o quanto fingíssemos ser amantes.

E, no entanto, ela ansiava por isso o tempo todo. Esse calor, esse momento em que duas pessoas pressionam a pele uma contra a outra, confortando e sustentando a existência uma da outra.

Ela vinha se segurando, fingindo que tudo estava bem, mas, olhando para trás, parecia que tinha sido tão difícil que respirar se tornou uma luta. Seria uma coisa se ela tivesse planejado isso, mas ser apedrejada depois de se envolver em um escândalo por razões que nem ela mesma sabia, ter Rosalind evitando suas ligações por dias e até mesmo suspeitar que seu tio fosse o assassino de seus pais…

Vanessa enxugou rapidamente uma lágrima que lhe escapou. O súbito choro a pegou de surpresa. Não, sério, era mesmo motivo para chorar tanto assim…?

Enquanto fungava levemente, agarrando a camisa de River Ross, ele perguntou, incrédulo.

– Você está chorando, Vanessa?

– Não! Eu não estou… Só por um instante… vamos ficar assim.

Ela acrescentou rapidamente, com medo de que River Ross pudesse se afastar.

– Depois disso… você consegue.

Theodore encarou Vanessa, momentaneamente sem palavras, antes de cair na gargalhada, incrédulo. Sentiu que finalmente entendia como era visto na cabeça daquela mulher. Talvez como um cão no cio. Por outro lado, já que eram praticamente inseparáveis sempre que seus olhares se cruzavam, essa poderia ser uma conclusão natural. Mesmo agora, ele a levara para a cama primeiro.

Ele não teve mais pressa. De bom grado, cedeu um pedaço da camisa, encostou a bochecha na testa arredondada de Vanessa e riu baixinho. Apoiou-se melhor na mão que o sustentava contra a cama, enquanto, com a outra mão, delicadamente, colocava os cabelos dela — que pareciam raios de sol espalhados — atrás da orelha.

– E você estava me dizendo para fazer o que eu quisesse.

– …Estou quase me acalmando. Só um instante…

– Não vou fazer nada agora, então levante a cabeça.

– Por que…

– Porque eu quero te ver.

Ele queria vê-la. Ao ouvir essas palavras, o rosto de Vanessa ficou completamente vermelho num instante. Ela não tinha como suportar River Ross. Ele estava fazendo isso mesmo sabendo que ela gostava dele.

Se a temperatura das emoções pudesse ser medida, a dela seria sempre mais intensa que a daquele homem. Como naquela noite no navio. Como naquele momento em que ela gostou tanto dele que não conseguia pesar nada nem fazer cálculos superficiais.

– Espere um momento. Agora mesmo… meu rosto está uma bagunça…

– Deixe-me ver.

A mão grande e quente de River Ross segurou o queixo dela e o ergueu. Seu olhar percorreu o rosto dela cuidadosamente, como se quisesse confirmar algo.

– …….

Com o polegar, ele acariciou delicadamente suas bochechas molhadas, seus olhos e seus lábios mordidos. Incrivelmente, naquele instante, ela se lembrou da língua quente de Dahlia. Daquela cachorrinha úmida e carinhosa que lambia cada arranhão que ela recebia da tesoura de jardinagem.

É claro que River Ross não era um cachorro, nem um homem tão afetuoso quanto Dahlia. No fim, Vanessa soltou uma risada entre lágrimas.

– Faz cócegas.

– Não sei se está uma bagunça, mas parece que você emagreceu um pouco.

– De jeito nenhum. Ultimamente, tenho vivido só de doces…

– Você também parece estar com um pouco de febre.

– É simplesmente porque está muito quente.

– Seu rosto está vermelho demais.

– É porque você está… me olhando tão de perto…

– Vanessa.

No instante em que seu nome foi chamado, ela ergueu a cabeça bruscamente, deixando-a cair. Imediatamente, seu olhar encontrou os olhos azuis claros que a encaravam.

– Se as coisas estiverem difíceis, não se force a suportá-las. Apenas me diga.

– …Não é tão difícil assim.

Vanessa balançou a cabeça e baixou o olhar. Estava mais chateada porque as lágrimas continuavam a cair por algo tão trivial. Mordeu o lábio com força e depois sorriu como se nada tivesse acontecido.

– Não importam os rumores que estejam circulando por aí, ou o que os jornais estejam noticiando, não é verdade. E eu estou perfeitamente bem, sem um arranhão sequer.

Enquanto ela insistia teimosamente, ele a olhava de uma maneira que ela não conseguia compreender. Como se estivesse olhando para algo estranho, incompreensível. Após um longo e tenso impasse, ele assentiu lentamente.

– Certo – murmurou, com voz doce.

– Se você está tão bem assim, então fico feliz.

– Tudo isso porque você chegou sem dizer uma palavra… Se eu soubesse, teria me preparado. Eu nem sabia que você chegaria hoje.

– Meus negócios no sul terminaram um pouco mais cedo. Mas tenho que voltar para Linden daqui a quatro dias.

Vanessa olhou para ele sem expressão, com os olhos arregalados. Queria agir com indiferença, mas não conseguia esconder completamente a sensação de vazio em seu coração.

– …Em quatro dias? Tão cedo?

Ele assentiu como se nada tivesse acontecido e levantou-se da cama. Seus movimentos foram naturais enquanto abria a caixa de charutos que estava ao lado da escrivaninha, tirava um cigarro e o pressionava contra o lábio inferior.

Como um hábito do qual ele quase não se dava conta, sua mão, que procurava um fósforo como se fosse acendê-lo imediatamente, parou de repente. Ele passou a mão lentamente pelos cabelos que lhe caíam sobre a testa, parecendo um tanto frustrado.

– Ainda tenho algumas questões a resolver.

– É uma pena que a agenda seja tão curta… Aliás, eu também tenho uma consulta amanhã.

Se fosse qualquer outra coisa, ele poderia ter adiado ou cancelado, mas era um encontro marcado com o Sr. Benjamin Dawson. Além disso, era uma reunião na presença de uma figura importante a quem ele se referia como o “Pintor”.

O Sr. Dawson desempenhou um papel fundamental ao persuadir alguém que se recusava a se assumir. Como não havia previsão de quando seria possível marcar outra consulta caso esta fosse cancelada, a prioridade era clara.

– Voltarei assim que os negócios em Linden estiverem resolvidos.

– …Quanto tempo você acha que vai levar?

– Não tenho certeza. Uns dez dias? Há várias questões interligadas.

Vanessa olhou para ele com os olhos semicerrados.

Será que River Ross acredita mesmo que aquele verão nunca irá acabar?

A essa altura, já seria a última semana de agosto. Considerando o calendário em que os soldados em licença prolongada tinham de regressar ao serviço militar na primeira semana de setembro, o tempo que lhes restava era agora realmente curto. Porque o verão estava chegando ao fim.

Ela sentiu um leve arrependimento por sua versão anterior, que tinha tanta certeza de que não se agarraria a ele nem choraria. Ela não deveria ter feito aquela aposta. Deveria ao menos ter pedido, fingindo compostura, para estender o contrato até o outono, não, até a próxima primavera…

Ela soltou um suspiro. De qualquer forma, tudo não passava de uma suposição inútil. Talvez fosse melhor assim. Ela não precisaria se preocupar com o relacionamento com ele enquanto já estivesse ocupada demais com a questão envolvendo o tio…

– E quando esse assunto estiver resolvido, Vanessa.

Foi a voz de River Ross que a despertou de seu ciclo interminável de pensamentos negativos. Uma emoção rara se refletia em seu belo rosto. Ele parecia um tanto solene, ou talvez rígido. Seus olhos, excepcionalmente azuis naquele dia, capturaram seu olhar instantaneamente.

Foi naquele momento, quando ela se perdeu brevemente naquela luz.

– Quando chegar a hora, terei algo para lhe dizer.



A Casa de Chá Welder não tinha outros méritos além de ser silenciosa. A loja estreita estava repleta de mesas velhas e sujas, e não havia clientes além de um velho roncando no balcão.

Vanessa sentou-se perto da janela suja e pediu um copo de limonada. Quando começou a surgir a ansiedade de que talvez tivesse ido ao lugar errado, a campainha da entrada tocou.

– Vanessa. Você chegou primeiro.

O Sr. Benjamin Dawson e um homem com o chapéu abaixado aproximaram-se dela. Suas roupas estavam fortemente impregnadas com o cheiro da chuva de verão.

– Estamos atrasados por causa de uma chuva repentina. Você está esperando há muito tempo?

– Está tudo bem. Mas tenho menos tempo do que mencionei antes. Uma empregada doméstica deve vir me buscar em trinta minutos.

– Então precisamos nos apressar. Este é o Sr. Jack Wiltshire, representante da Moretz Investment Company.

– Sr. Wiltshire. Obrigada por ter vindo. Meu nome é Vanessa Siren Somerset.

Foi no momento em que ela lhe ofereceu a mão com um sorriso delicado que um leve sorriso surgiu no rosto pálido do homem que a olhava.

– Na verdade… não é a primeira vez, Lady Vanessa. Eu a vi quando você veio com seu pai quando era criança.

– É mesmo?

– Naquela época, eu costumava carregá-la nos ombros.

O homem, ao relembrar o passado, logo soltou um profundo suspiro.

– Se não fosse por essa lembrança, eu não teria… aceitado participar de algo assim.

O homem olhou em volta da loja com olhos extremamente ansiosos. Como se alguém pudesse invadir a reunião com uma arma a qualquer momento.