Tradução: Emma
Capítulo 143
Blair engoliu um gemido baixo. Estendeu o braço e, vagarosamente, puxou a irmã soluçante para seus braços. Os batimentos cardíacos dos dois pulsavam no mesmo ritmo, tornando-se uma espécie de consolo doloroso.
— Não pense em nada. Apenas descanse, Rosalind.
Sempre que fechava os olhos, a memória daquele dia ainda retornava com vivacidade.
Uma garota de um verão distante, com os cabelos presos no alto e vestindo um vestido branco. Debaixo de uma árvore carregada de folhas, ela se voltara para ele com um sorriso.
Seu rosto pequeno. Suas bochechas coradas pelo calor recente. As gotas de suor na nuca. Seus lábios macios. O aroma suave de morangos silvestres que pairava a cada respiração…
Aquele foi o primeiríssimo momento em que pensara que queria protegê-la.
— Blair.
A voz ressoou em seus ouvidos como uma alucinação vívida. Ele ergueu a cabeça em um sobressalto. Uma risada cristalina, como o soar de um sino, ecoou como se ela pudesse surgir da escuridão a qualquer momento.
Ele encarou o vazio com o olhar perdido antes de deixar escapar um sorriso torto.
O fim de uma relação tão profundamente quebrada, além de qualquer possibilidade de reparo, era miserável daquele jeito. Como cinzas deixadas após um incêndio florestal. Como os galhos despidos durante o rigor do inverno.
Talvez eles nunca devessem ter se conhecido, para começo de conversa. Mesmo nos momentos mais felizes, a amizade deles jamais passará de uma imitação distorcida de algo que pertencia a outras pessoas.
Rosalind, seguindo a mãe a quem tanto amava quanto ressentia. Vanessa, movida por uma solidão que cortava fundo demais. E ele…
Uma respiração trêmula escapou entre seus dentes cerrados.
Fora uma longa e deliberada dissimulação. Nem uma única vez pensara em Vanessa apenas como uma amiga. Nem mesmo naqueles dias inocentes da infância, quando a conhecera.
Era um sentimento que guardara em segredo, até mesmo de sua própria irmã gêmea. A esperança de que, um dia, todas as primeiras vezes dela lhe pertenceriam, e todas as primeiras vezes dele seriam dela.
Há momentos em que até mesmo aquilo de que jamais abriríamos mão precisa ser abandonado. Como ser arrastado por um maremoto. Como ser soterrado por um deslizamento de terra. Empurrado por uma força contra a qual nenhum ser humano é capaz de resistir.
Uma única lágrima escorreu por sua bochecha havia muito ressequida.
Talvez agora, finalmente… Ele pudesse…
— Que inesperado. Eu presumia que o próprio Duque estivesse por trás daquele escândalo.
Eles estavam em uma sala privativa de um clube, a terceira para a qual Theodore se mudara na tentativa de despistar os repórteres insistentes.
Theodore fitou sua interlocutora com um olhar frio.
Em vez da pessoa com quem havia combinado de se encontrar, era uma mulher agora familiar que ocupava a cadeira à sua frente. Ela entregou naturalmente o casaco encharcado pela chuva a um criado.
— Não tomarei muito do seu tempo. Pelo que parece, o senhor tem outro compromisso depois.
— Senhorita Morton.
O Duque soltou um suspiro pesado.
Fora um dia longo e exaustivo. Depois de uma sequência de entrevistas que haviam consumido sua paciência até o limite, ver Hayley Morton apenas aprofundava sua fadiga.
— Pensei ter deixado claro que não aprecio encontros organizados dessa maneira.
— Decidi que o método não importava. Mesmo que eu tivesse sido mais educada, duvido que o senhor estivesse mais disposto a me receber. Então escolhi a única abordagem que ao menos tinha garantia de funcionar.
Ela sustentou o olhar dele sem vacilar, um sorriso suave formando-se em seus lábios.
Sua aparência mudará de forma notável desde a última vez. A maquiagem fora reduzida a algo quase natural, as roupas eram discretas a ponto de parecerem sufocantes, e os cabelos, presos apenas pela metade, caíam soltos.
Theodore soltou uma breve risada incrédula.
Porque aquela aparência não passava de uma reprodução minuciosa de Vanessa.
— Então, desta vez também, a senhorita chantageou o proprietário do clube usando as fraquezas dele?
— Ora, não foi chantagem. Foi cooperação. E, desta vez, a avó deu uma ajudinha.
Um brilho venenoso atravessou os belos olhos de Hayley Morton.
— Afinal, Vossa Graça simplesmente se recusava a me receber.
— Talvez eu devesse informar à minha avó que a senhorita é completamente inadequada para o neto dela.
— Isso é realmente necessário? Tenho certeza de que o senhor sabe que sou sua melhor opção.
Theodore pousou a caneta sobre a mesa e recostou-se na cadeira, como se lhe concedesse a gentileza de ouvir mais um absurdo.
Evitá-la agora não resolveria nada. Ela simplesmente encontraria outro meio de entrar.
— Estou aqui para propor um contrato. Ou, talvez… Um acordo.
Theodore deixou escapar uma risada baixa.
— Um acordo exige uma troca equivalente. E não enxergo tal valor na senhorita, “senhorita”.
— E se for a respeito da senhorita Vanessa?
