Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 142

Capítulo 142

Tradução: Emma

Capítulo 142


Olhos verdes. Um nariz reto e elegante. Os cabelos ruivos herdados da linhagem materna e traços delicados e harmoniosos.

Da cabeça aos pés, eram um reflexo perfeito dela em miniatura.

Foi naquele instante que a culpa começou.

Com toda certeza, aquele era o castigo de Deus — por ela ter desejado, ainda que por um breve momento, que as crianças se parecessem mais com Raymond, o irmão mais velho, do que com Wyatt.

— Quer você estivesse bêbada ou tenha confundido seu parceiro sob o efeito de remédios, houve uma testemunha que viu você ir ao jardim com Wyatt.

— Mas, Pai… Eu juro por Deus, se estivesse em meu juízo perfeito, jamais teria feito uma coisa dessas… O senhor me conhece…

— …Louise, sua menina tola.

— É verdade… Nunca foi algo que eu quis. Nem uma única vez… Eu nunca o desejei…

— Dizem que, por fora, você parecia perfeitamente composta. Isso significa que não podemos acusar o Conde de Somerset de manchar sua honra. E, como o próprio homem fugiu, tampouco podemos exigir que o irmão assuma a responsabilidade.

— Pai, por favor…

— Não importa o quanto esteja devastada, o mundo jamais a verá como uma mulher que foi forçada.

— Blair.

Uma vida que ninguém compreendia. E, dentro dela, aquele amor grotesco que jamais conseguira abandonar. Se era assim que o mundo a enxergava, então, em algum momento… Ela própria passara a acreditar nisso.

— Seu verdadeiro pai é… Na verdade…

Nos olhos daquele menino, ela via um afeto inevitavelmente voltado para si. O amor de um filho por sua mãe frágil.

Ele fora a criança que se agarrara à manga de seu vestido, em lágrimas, quando ela se inclinara sobre o terraço, pronta para tirar a própria vida.

Aquele amor ardente, inevitável, insuportavelmente intenso… E o resultado distorcido que dele nascerá. Incontáveis dias e noites em que, em segredo, ela sobrepunha o rosto daquele homem ao rosto deste menino.

Quando finalmente decidiu enterrar o horror, o arrependimento, o desprezo por si mesma e a culpa… Escolheu amá-los mesmo assim.

Jurou que aquelas crianças seriam criadas como herdeiras da família Winchester. Que jamais voltariam a se envolver com aquela família, sob nenhuma circunstância.

Para cumprir esse juramento, Louise podia ser mais covarde e mais cruel do que qualquer outra pessoa. Mesmo que isso significasse atravessar o coração do próprio filho com uma lâmina… Mesmo que lhe deixasse uma ferida que jamais cicatrizaria.

Seus cílios trêmulos baixaram lentamente, como um suspiro.

Uma única lágrima caiu, pousando sobre seus lábios que tanto detestava.

— Você nasceu de uma coerção.



A porta do quarto rangeu lentamente ao se abrir sob a luz tênue do entardecer.

Na cama, encolhida sob um cobertor revolvido, havia uma pequena figura. O suave roçar do tecido e os soluços abafados denunciavam que ela chorava havia muito tempo.

Blair aproximou-se em silêncio e sentou-se cuidadosamente na beira da cama.

— …Rosalind.

Olhos inchados e avermelhados surgiram por baixo do cobertor.

Diferentemente da jovem sempre preocupada em agir como uma dama elegante, …Rosalind parecia ter voltado aos cinco ou seis anos de idade.

Por um instante, Blair apenas a observou, esquecendo todo o resto.

Sim… de volta àqueles dias melhores.

— A Mamãe… Contou a você também?

Fungando, …Rosalind aceitou o lenço que ele lhe ofereceu. Quase imediatamente, seus olhos voltaram a se encher de lágrimas.

Blair apoiou uma das mãos na cama e afastou com delicadeza os cabelos desalinhados da irmã.

— Uma parte.

— Só agora… Finalmente entendo… A mamãe…

Sua garganta fina estremeceu quando outra onda de soluços escapou.

— Não chore.

Ele tentou consolá-la por puro hábito, mas carregava a mesma culpa. A cada respiração, era como se um pecado original apertasse ainda mais sua garganta.

Como …Rosalind havia dito… Só agora tudo fazia sentido. O dia em que a mãe deles desabara em lágrimas de repente, olhando para os dois com o olhar perdido. Sua dependência do álcool, que aumentava ano após ano. Até mesmo o pai deles, que ora era gentil, ora severo de maneira assustadora com ela.

— No começo… Eu só sentia pena dela.

— ……

— Depois conversei com ela… Lembra quando éramos pequenos… E encontramos aquela fotografia por acaso? A foto de formatura… Da mamãe com a mãe da Vanessa…

— ……

— Eu pensei… Que queria ter uma relação assim com ela também… Exatamente igual…

— ……

— Mas agora… Não sei mais como olhar para ela… Nem como tratá-la… Então eu simplesmente continuo…

As palavras balbuciadas, parecendo uma desculpa mal formulada, desapareceram no silêncio. Seu olhar perdeu-se no vazio, enquanto uma amarga expressão de autodesprezo aflorava em seus lábios.

— Ela deve estar sofrendo…

— …Rosalind.

— É horrível… Pensar naqueles momentos… Em que eu comi e dormi naquela casa…

— Respire. Devagar.

— Eu realmente pensei… Que tudo ficaria bem se vocês dois se casassem… Mesmo que o papai e a mamãe fossem contra… Achei que vocês poderiam simplesmente fugir…

Blair passou lentamente a mão pelo rosto.

Gostaria de conseguir chorar como …Rosalind. Em vez disso, sentia-se como um boneco quebrado. Algo essencial dentro dele simplesmente deixará de funcionar.

Nem tristeza. Nem raiva. Nem ressentimento.

Apenas exaustão.

E…

Ele engoliu uma risada vazia.

Se Vanessa fosse apenas uma prima distante, ele teria encontrado algum caminho. Mesmo que a sociedade desaprovasse, em alguns países aquilo sequer era ilegal.

Mas aquela história dizia respeito à ferida mais profunda da mãe deles. À parte mais frágil de uma mulher que foi deixada ensanguentada e sozinha, escondendo durante toda a vida a verdade de que havia sido vítima de um crime.

— Blair, eu…

…Rosalind mordeu o lábio até que ele adquirisse um tom avermelhado, enquanto sua voz falhava.

— Acho que… Nunca mais vou conseguir encarar a Vanessa. Mesmo sabendo… Que a culpa não é dela…