Tradução: Amme
Capítulo 127
— O que foi?
— Achei que tinha visto alguém que conheço... Não. Tenho quase certeza de que era alguém que conheço, na verdade, mas isso não faz sentido algum...
— Alguém que você conhece? Entre os oficiais da marinha? Quem?
Diante disso, Mary finalmente trouxe o olhar distante de volta para Vanessa. Encarou-a por um instante com olhos estranhamente sabedores antes de balançar a cabeça devagar.
— Não é um oficial da marinha. E também não é um homem que a senhorita conheceria.
Foi uma resposta tão perfeitamente cronometrada que Vanessa quase se perguntou se Mary de algum modo lera o pensamento que ela vinha escondendo, se River Ross poderia estar ali.
Subitamente envergonhada sem motivo algum, Vanessa mordeu um pedaço de chocolate e voltou a atenção para o mar. Quando já havia terminado cerca de metade do prato, Mary de repente a segurou pelo cotovelo.
— Se a senhorita não vai comparecer ao baile, poderia voltar para a cabine agora? Preciso ficar com a senhorita até que esteja em segurança lá dentro. Depois preciso trancar a porta por fora.
Mary parecia profundamente ansiosa enquanto falava. Continuava mordendo o lábio nervosamente, e havia uma urgência inconfundível em sua expressão.
Vanessa não sabia quem Mary tinha visto, mas era óbvio que aquela pessoa importava muito para ela. Percebendo que os pensamentos de Mary estavam completamente em outro lugar, Vanessa assentiu prontamente.
— Tudo bem. De qualquer forma, eu deveria descansar um pouco.
— Então, por favor, se apresse.
Mary de repente agarrou seu pulso e puxou. Vanessa quase deixou o prato cair.
Somente depois que pedaços de chocolate e uvas se espalharam ruidosamente pelo convés Mary pareceu perceber o que havia feito.
Assustada, ela imediatamente se agachou no lugar, o rosto ficando vermelho como uma cenoura. Apressou-se em recolher as frutas e chocolates caídos, como se tentasse desesperadamente consertar a situação sozinha.
Vanessa se agachou ao lado da criada sem hesitar.
Sinalizando calmamente com os olhos para um mordomo próximo, tirou um lenço e gentilmente segurou as mãos grudentas de Mary, limpando-as ela mesma.
— Calma, Mary. Está tudo bem.
— Não precisa me ajudar. Vai só sujar as suas mãos também, senhorita.
A aspereza na voz de Mary saiu quase como uma repreensão. Então ela soltou um longo suspiro, soando imediatamente arrependida.
— ...Se a senhorita esperar na cabine por um instante, eu trago o jantar em breve.
— Está tudo bem. O que você já trouxe é mais do que suficiente.
— Como frutas e chocolate poderiam saciar a senhorita? Além disso, a maior parte acabou no chão de qualquer jeito. Ouvi dizer que a comida do banquete é excelente.
Talvez fosse mesmo. Mas, agora, Vanessa não queria realmente comer nada mais pesado.
Os cheiros que vinham do salão de banquetes eram tão ricos e oleosos que revolviam seu estômago, e as especiarias eram fortes demais.
Sinceramente, o que a decepcionava mais do que a comida era deixar o mar noturno para trás tão cedo.
Mesmo agora, se fechasse os olhos, ainda conseguia sentir o vento suave roçando o rosto, ouvir o forte borbulhar das hélices cortando a água, ver o céu noturno cristalino acima do Rio Altempose transbordando de estrelas.
E, mais tarde naquela noite, também soltariam fogos de artifício do convés...
— Vamos. Vamos agora.
Ao chamado de Mary, Vanessa entregou as uvas e os chocolates recuperados a um mordomo e se apressou atrás dela.
No entanto, diferente de antes, o corredor que levava às cabines agora estava lotado, ombro a ombro. Aparentemente houvera algum problema de comunicação com passageiros estrangeiros a respeito das designações de cabines de terceira classe.
— Aqueles desgraçados sem-vergonha dos Turtan... Ah— desculpe, senhorita.
Mary voltou depois de se afastar brevemente para avaliar a situação, resmungando praguejamentos entre dentes.
— Acho que teremos que seguir outra rota. Este é o caminho mais rápido, mas, se formos em direção à proa do navio, há uma escada reservada para passageiros de primeira classe.
— Vai ficar tudo bem mesmo assim? Você teria que voltar até aqui sozinha depois.
— Bem... sim, mas...
— Então não se preocupe comigo. Vá na frente. Consigo encontrar minha cabine sozinha.
Uma sombra escureceu o rosto sardento de Mary. A expressão que costumava parecer tão madura foi se desfazendo aos poucos, até que ela parecesse quase perdida.
— Eu não deveria ter trazido a senhorita até aqui. Se eu não tivesse insistido tanto em encontrar um bom lugar para ver os fogos...
— Eu gostei daqui. No convés superior, teria olhos demais observando. Provavelmente eu não conseguiria relaxar.
Vanessa sorriu enquanto dava tapinhas leves no cotovelo de Mary.
Pela primeira vez, Mary finalmente parecia ter a idade que tinha. Não a jovem calma e mundana demais que costumava fingir ser, mas simplesmente uma garota. Depois de mastigar o lábio nervosamente por um instante, Mary pareceu tomar uma decisão.
Pegou a mão de Vanessa e colocou algo nela.
Um pequeno disco dourado amarrado com uma fita verde.
