Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 126

Capítulo 126

Tradução: Amme

Capítulo 126


— Duas delas já faliram. Outras duas estão simplesmente ignorando minhas cartas. Uma empresa respondeu, porém. Avisaram que, se eu entrasse em contato mais uma vez, notificariam meu tutor legal.

Benjamin a observou com um olhar cada vez mais profundo.

Dizer algo como "Então por que não visitá-los pessoalmente?" teria sido inútil. Alguém trataria com seriedade uma jovem mulher mal chegada à maioridade? Já estavam reagindo com tamanha aspereza a simples cartas.

E se, por algum acaso, o Conde de Somerset tivesse providenciado algo separadamente para a filha, então o fato de que ninguém a tivesse contatado durante todo esse tempo apontava para uma única conclusão.

Fosse qual fosse a verdade, os envolvidos temiam que ela viesse a público e talvez estivessem até trabalhando juntos para mantê-la enterrada.

Talvez seja o tio dela quem esteja bloqueando tudo nos bastidores.

Perdido em pensamentos, Benjamin observava Vanessa em silêncio.

Mesmo em um lugar como aquele — que certamente a deixara profundamente desconfortável — ela mantinha uma postura perfeitamente ereta, sem o menor sinal de desmoronar. Seus punhos tremiam violentamente sob a mesa, cerrados com tanta força que quase chegavam a estremecer, e ainda assim tudo o que era visível acima da mesa permanecia composto e calmo.

Entre os jovens de sua geração, ela era incomumente sensata.

Parecia compreender que jamais se deve revelar todas as cartas na mão durante uma negociação, embora sua falta de experiência de vida se mostrasse em uma pequena falha: suas emoções ainda não haviam aprendido a obedecer a essa lição.

— ...

Se a Senhorita Vanessa fosse verdadeiramente astuta, teria se escondido atrás de sorrisos vagos e ignorância fingida.

Se fosse tola, ele a teria descartado sem hesitar. Mas era difícil dar as costas a alguém tão desesperado, tão sincero e tão íntegro apesar da solidão que devia ter suportado.

Com um suspiro discreto, Benjamin puxou o guardanapo para mais perto de si.

— Muito bem. Vamos ver no que isso vai dar.



Vanessa saiu para o convés, pressionando o dorso das mãos contra as bochechas em brasa, para esfriá-las.

Somente depois que o vento frio do rio roçou sua pele a realidade começou lentamente a se assentar de volta.

Ela imaginara que persuadir Benjamin Dawson lhe traria nada além de felicidade.

Em vez disso, a primeira coisa que a invadiu foi um estranho tipo de medo. Porque, a partir daquele ponto, realmente não haveria mais volta com o tio.

Se ele a tivesse entendido mal ou não, isso já não importava mais. Essa era a natureza da suspeita. Uma vez que entrava em um relacionamento, deixava feridas que jamais cicatrizavam por completo.

— Senhorita.

Vanessa vinha segurando de leve o corrimão do navio quando se virou ao ouvir a voz de Mary atrás dela.

A criada de algum modo conseguira abrir caminho pelo convés impossivelmente lotado e agora estendia um pequeno prato que claramente protegera com a própria vida. Nele havia frutas cortadas em pedaços pequenos, biscoitos e chocolates, dispostos com cuidado.

— Trouxe algo para a senhorita comer.

— Obrigada, Mary. Estava tudo tão avassalador que nem pensei em comida.

— Eu poderia ter vindo antes, mas os oficiais da marinha estavam bloqueando completamente a escada para o convés.

Vanessa estava prestes a morder uma uva quando as palavras de Mary a fizeram parar.

— ...Oficiais da marinha?

— Aparentemente são os heróis que lideraram a vitória em Potsdam. Ouvi dizer que a Companhia Santal os convidou pessoalmente.

Diante disso, Vanessa instintivamente se virou em direção à escada. Se eram os heróis de Potsdam... será que River Ross também estaria ali?

Segundo os boatos que ouvira, River Ross servia diretamente sob o famoso Duque de Battenberg como um de seus oficiais.

— Se a senhorita não pretende comparecer ao baile, deveria voltar para a cabine e descansar agora. Lady Rosalyn deixou a chave comigo.

Aparentemente, a expressão de Vanessa enquanto estava perdida em pensamentos parecera pior do que ela imaginava. Para Mary, devia ter parecido exaustão. A criada apressou-se em colocar a mão na testa de Vanessa para verificar se havia febre.

— Ainda bem, não parece estar tão alta.

Desde a infância, Vanessa sofria de um terrível enjoo quando passava tempo demais a bordo de algo que balançava.

Febres, náuseas — essas eram comuns o bastante. Às vezes, chegava a ficar de cama por dias depois, como se tivesse contraído alguma doença.

Mas, comparado a isso, hoje era uma das raras ocasiões em que se sentia surpreendentemente bem. Além de uma leve febre, seu corpo parecia quase mais leve do que o normal, como se sua própria constituição tivesse mudado.

— Mary. E você?

— Eu... deveria ficar ao lado da senhorita.

Apesar da resposta cumpridora do dever, o olhar pálido de Mary havia se desviado para outro lugar.

Como se tivesse avistado um rosto conhecido em algum ponto daquele espaço lotado.