Tradução: Amme
Capítulo 124
Na verdade, toda a sua vida não passara de uma tentativa de imitar os momentos mais felizes que ainda conseguia lembrar.
A voz de sua mãe. A postura ereta de seu pai. Sua compostura, gentileza, paciência...
E, em algum momento, aquilo também se tornara uma batalha sem fim contra a dúvida.
A memória humana era imperfeita por natureza, e os únicos 'adultos bons' que ela tivera à sua volta para observar e aprender haviam sido professoras desmotivadas ganhando oitenta libras por mês.
De certa forma, a crítica dura de Rosalind estivera certa. Vanessa realmente enterrara a vida inteira dentro dos túmulos dos pais.
Mesmo agora, sempre que se olhava no espelho, via os pais mortos a fitá-la de volta. Fora deles que aprendera tudo o que sabia sobre o mundo.
— Obrigada por dizer isso.
Vanessa sorriu, como se deliberadamente se impedisse de mergulhar fundo demais no sentimentalismo.
— E obrigada também por confirmar o medalhão. Encontrei-o por puro acaso, então não tinha certeza se realmente pertencera aos meus pais.
— Certamente não foi guardado nas melhores condições. Posso perguntar onde o encontrou?
— Perto de nossa propriedade... na rua.
— Então faz sentido que você duvidasse.
Aparentemente já tendo formado suas conclusões sobre o caráter dela, Benjamin lhe ofereceu um sorriso caloroso e generoso. O velho parecia achar que o assunto entre eles havia se encerrado. Mas, para Vanessa, ali era onde o verdadeiro propósito começava.
— Há mais uma coisa que preciso que o senhor examine.
Removendo o chapéu, Vanessa retirou os papéis dobrados que escondera dentro dele. O movimento foi suave o bastante para que, aos olhos de quem observasse, parecesse apenas que ela ajustava a fita solta do chapéu.
Ela nunca sabia quando poderia encontrar Benjamin Dawson, então sempre carregava consigo dois itens específicos. Mas em um lugar como aquele, havia apenas duas coisas que uma mulher podia trazer abertamente sem despertar suspeitas: uma sombrinha ou um leque.
Ela não podia simplesmente erguer as saias em público, tampouco andar por aí carregando documentos às claras, então, se precisasse esconder algo, suas opções sempre haviam sido limitadas desde o início.
Benjamin a observava com calma, como um homem havia muito acostumado a ver mulheres esconderem segredos em lugares elegantes.
— Isto é...
— Uma cópia do testamento que meu pai supostamente escreveu. Foi lavrado como documento cartorial sem qualquer contestação quanto à sua autenticidade, e então guardado nos arquivos do tribunal estadual por sete anos depois disso. Eu mesma o copiei.
Benjamin olhou para o testamento com leve surpresa antes de tirar um par de óculos e colocá-lo. Depois de folhear várias páginas, ergueu os olhos para ela, visivelmente perplexo.
— Você copiou tudo isso... à mão?
— Não tudo. Era papel demais. Mas, enquanto lia, notei algumas coisas estranhas, então me concentrei principalmente naquelas partes.
— E o que exatamente seriam?
— Se o senhor olhar entre a terceira e a quarta página, notará indícios de uma interrupção.
— É mesmo? As frases em si ainda fazem sentido.
— As frases sim. Mas observe a posição do ponto final. Se a passagem realmente continuasse naturalmente, não deveria haver um ponto logo no início da quarta página.
— Você não poderia simplesmente ter errado a posição ao copiar?
— Só comecei a transcrever depois de descobrir a discrepância. Com cuidado suficiente para entender o fluxo ao redor daquele trecho.
Na verdade, ela copiara muito mais do que isso. Mas havia apenas tanto papel quanto cabia dentro de um chapéu.
Benjamin ficou em silêncio enquanto relia cuidadosamente o testamento. As linhas na ponte do nariz se aprofundaram levemente.
— Hum.
Depois do que pareceu uma eternidade, ele finalmente tirou os óculos e os colocou sobre a mesa.
— Acredito que a parte inicial do testamento tenha sido de fato redigida enquanto eu servia como consultor jurídico. Mas esta última seção...
— Ela mudou?
— Bem. Já se passaram muitos anos, então minha memória não é perfeita. Mas não creio ter visto esta passagem naquela época. E, considerando o caráter do conde à época, é bastante estranho. Ou ele passou por uma profunda mudança de coração depois que eu saí... ou, no mínimo, as prioridades do testamento foram significativamente alteradas.
— O senhor poderia me dizer exatamente o que mudou?
Em vez de responder, Benjamin observou Vanessa em silêncio. Somente após um longo silêncio ele finalmente voltou a falar.
— Senhorita Vanessa.
— Sim?
— Temo que isso não seja mais algo que eu possa discutir levianamente.
A firmeza na voz do velho fez Vanessa morder o lábio, ansiosa.
— O senhor quer dizer...
— Um advogado não pode simplesmente divulgar assuntos ligados à honra ou à confiança de um antigo cliente. Compreendo que, por se tratar do seu pai, esteja desesperada até pela menor pista. Mas há princípios que devem ser mantidos, a despeito das circunstâncias.
Vanessa olhou brevemente para as mãos do homem mais velho enquanto ele dobrava o testamento.
Então ergueu o olhar.
Benjamin recostou-se novamente na cadeira, parecendo composto e inabalável. O calor desaparecera de seus olhos azul-claros, substituído mais uma vez por uma frieza profissional.
— Eu gostaria de ajudá-la. Mas este assunto... é delicado.
