Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 123

Capítulo 123

Tradução: Amme

Capítulo 123


Uma tensão pálida se instalou sobre seus lábios.

Encontrar o olhar penetrante do velho tornou difícil falar de imediato. Vanessa percebeu que era exatamente essa a intenção dele — flagrar o momento em que ela baixasse a guarda, o instante em que revelasse uma fraqueza em sua inocência, e atacar para ver como ela reagiria.

Os pensamentos e explicações que ela organizara cuidadosamente se embaralharam dentro do silêncio ansioso. Ela precisava de tempo para se recompor, para recuperar o fio que havia perdido.

— Antes de explicar... posso pedir um copo de água com gás?

— Claro.

Com um aceno de mão, um mordomo logo chegou com um copo de água com gás guarnecido com limão. Vanessa ofereceu ao mordomo um pequeno sorriso de agradecimento, e sentiu imediatamente olhares próximos se voltarem para a mesa deles antes de se dispersarem silenciosamente outra vez.

Parecia que a curiosidade em torno do encontro entre duas pessoas sem ligação aparente era bastante intensa. Quantos daqueles olhares pertenciam às pessoas do tio dela, ela se perguntava...

Mas já era tarde demais para se preocupar com isso agora. Além disso, as mesas estavam suficientemente espaçadas para que ninguém pudesse ouvi-los.

— Gostaria que o senhor olhasse isto primeiro.

Vanessa colocou cuidadosamente o medalhão — protegido dentro de um lenço — sobre a mesa.

— E o que é isto?

— Acho... que era algo que meu pai carregava consigo naquela época. No momento do acidente.

— ...

— Só o encontrei recentemente. Tenho tentado encontrar alguém que possa me dizer se isto realmente pertenceu ao meu pai.

Benjamin ergueu a borda do lenço e observou o medalhão desgastado antes de soltar um suspiro discreto.

— ...Entendo.

A rigidez cautelosa própria dos homens idosos foi se suavizando aos poucos em seu rosto.

Para ele, Vanessa era, afinal, apenas uma jovem cuja idade era próxima da de seus netos. Mais próxima de uma criança do que de uma mulher adulta, ao seu ver.

Crianças que perdem os pais ainda jovens costumam se apegar desesperadamente aos pertences deixados para trás. A aparição repentina dela — trazendo consigo o sobrinho-neto dele, ainda por cima — o pegara de surpresa a princípio, mas como poderia ele dar as costas a sentimentos como esses? Como poderia descartá-los como mero sentimentalismo infantil?

Especialmente quando a Senhorita Vanessa se mostrara nada além de educada e digna desde o momento em que se sentara diante dele.

— Fiquei imaginando se talvez o senhor se lembrasse de tê-lo visto antes.

— Bem... talvez. E talvez não.

Benjamin examinou o medalhão com incerteza antes de notar o fecho meio quebrado. Olhou para Vanessa, perguntando silenciosamente se podia abri-lo.

Quando ela assentiu, soltou cuidadosamente o fecho com dedos gentis. Vanessa cerrou os punhos com força no colo, os olhos fixos nele.

Click.

O som de um metal se destravando já havia ecoado tão alto assim em sua vida?

— Oh.

Diante da suave exclamação, Vanessa engoliu a respiração e ergueu os olhos.

— Sim. Ver esta fotografia traz tudo de volta agora. Meu Deus... eu vi isto muitas vezes.

A ruga profunda entre as sobrancelhas de Benjamin se suavizou enquanto um riso caloroso lhe escapava.

— O jovem conde costumava tirá-lo sempre que tinha oportunidade. Aquele homem severo e reservado se transformava completamente sempre que começava a se gabar da filha... No instante em que abria a boca, era sempre sobre o quão adorável e preciosa era sua menininha. Como um homem que só tinha dois filhos, lembro-me de sentir uma inveja terrível dele por isso.

Era um fragmento inesperado do passado.

Por um breve instante, Vanessa sentiu como se tivesse vislumbrado a sombra do pai através das palavras do velho. Como ele deveria ter sorrido, como abriria o medalhão para mostrar às pessoas, como deveria ter se orgulhado dela sem parar.

Porque, em algum lugar dentro de suas próprias memórias nebulosas, ainda restavam vestígios disso.

Vanessa lutou para conter as emoções que se avolumavam em seu peito antes de finalmente sorrir através dos olhos úmidos.

— Ele fazia isso?

Então ele fora um homem severo.

As poucas memórias que ainda guardava do pai eram preenchidas apenas de calor e gentileza. O modo como ela rira da barba por fazer dele quando ele chegava em casa ocupado demais para se barbear — e como ele teimosamente mantivera a barba por um ano inteiro depois disso.

O modo como ele a erguia nos braços sem se importar com as aparências sempre que ela se agarrava às calças dele. As promessas ridículas de que lhe daria o mundo inteiro.

Mesmo naquela época, as pessoas o provocavam sem piedade, dizendo que qualquer homem que adorasse tanto a filha certamente vivia apavorado com a esposa.

— Ver seu retrato assim me faz lembrar daqueles dias, você realmente cresceu para se tornar uma linda dama.

Os olhos de Vanessa se arregalaram. Então, incapaz de suportar aquilo por mais tempo, ela baixou o olhar imediatamente.

Você realmente cresceu para se tornar uma linda dama. Em toda a sua vida, ninguém jamais lhe dissera palavras como estas.