Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 108

Capítulo 108

Tradução: Gheo

Capítulo 108


O advogado soltou um suspiro, seguido por um estalo estático. Vanessa afastou o fone da orelha por um segundo, apenas para puxá-lo de volta desesperadamente.

– Você tem ideia de quantos advogados no mundo dividem um escritório?

– Mas relações que envolvem troca de cartas de recomendação são raras. Foi por recomendação do Sr. Heather que você foi contratado como consultor da nossa família. Estou enganada?

– …Como você descobriu isso…? Não, isso não importa. Não é como se fosse um grande segredo. De qualquer forma, não tenho mais nada a dizer sobre ele.

– De acordo com as informações que encontrei…

– Senhorita Vanessa.

A voz do advogado, ao interromper Vanessa, transbordava exaustão. Era o tom de um homem que só mantinha a paciência porque ela era sobrinha de seu patrão.

– Você parece ter seus próprios motivos urgentes, então serei franco. Fomos apresentados por acaso e compartilhamos um escritório por pouco mais de seis meses. Só isso. Quase não tive conversas particulares com ele.

– Você não o viu desde então?

– Juro por Deus. Essa resposta é suficiente para você?

– Só mais uma coisa.

Vanessa prosseguiu rapidamente, desenrolando o fio telefônico retorcido com os dedos.

– Confirmei que três advogados estavam registrados naquele escritório na época: você, o Sr. Heather e mais um. Ouvi dizer que ele foi o primeiro advogado da nossa família. Mas a pessoa que me deu a informação disse que os registros dele foram apagados a pedido. Aparentemente,cinco anos depois de ele ter sido afastado judicialmente…

– O Conde sabe que você está investigando essas coisas?

– Ainda não, ele não sabe.

Vanessa ignorou a pontada aguda de sua consciência. As palavras do advogado soavam como um interrogatório, perguntando como ela podia suspeitar de seu próprio parente de uma maneira tão terrível, mesmo que não fosse a verdadeira intenção dela.

– Sei que estou fazendo um pedido descabido. Mas você não poderia simplesmente aceitar que este assunto é importante o suficiente para mim a ponto de eu precisar fazer isso?

O advogado ficou em silêncio por um longo tempo. Tanto tempo que, não fosse o som ocasional de sua respiração, Vanessa teria pensado que ele já havia desligado.

Vanessa apertava ansiosamente o medalhão de ouro que usava no pescoço. O laudo da joalheria havia chegado naquela manhã. O medalhão era de ouro maciço e, dado o estado do trabalho, a probabilidade de ser uma réplica era extremamente baixa.

Era quase certamente um item que a nobreza, ou até mesmo a classe mais baixa, guardava como herança de família…

Ela não estava em seu juízo perfeito desde que soube da notícia.

Talvez haja algo sobre a morte dos meus pais que eu não conheça.

Essa ideia se consolidou quando ela foi à delegacia tentar ver o vagabundo novamente. Os policiais pareciam perplexos, afirmando que nunca haviam abrigado um vagabundo sob custódia e que não conheciam nenhum policial com aquela descrição.

Disseram que nem sequer tinham patrulhado aquela área de manhã e que não havia um único boletim de ocorrência registrado.

Se ele estava tão desesperado por dinheiro, por que não vendeu o medalhão antes?

Só havia uma resposta: era roubado. Se ele tentasse passá-lo adiante, a história de como o conseguiu viria à tona. Mesmo assim, ele não conseguia se desfazer dele; carregou-o por anos, sem sequer ser capaz de consertá-lo direito. Se o fecho não estivesse tão frouxo, ela talvez nunca o tivesse recuperado.

A suspeita de que talvez não tivesse pertencido aos seus pais não passava de uma desculpa esfarrapada. Qual era a probabilidade de uma joia idêntica àquela que ela guardava na memória também tivesse gravada a inicial exata da sua mãe? E, além disso, o retrato que continha…

Vanessa rapidamente conteve seus pensamentos descontrolados. Não era hora de se perder em fantasias inúteis.

– Quero saber sobre esse advogado. Se você me der o nome ou endereço dele, não entrarei em contato novamente. Dou minha palavra.

– Por que está procurando por um advogado? Você já sabe muito bem que uma mulher não pode herdar terras ou títulos.

– Não posso entrar em detalhes, mas… está relacionado a uma certa pintura que encontrei. Uma que meus pais encomendaram.

A estática crepitou novamente na linha. Repentinamente ansiosa, Vanessa apertou o fone com as duas mãos.

– Alô?

– …Vou te dar apenas o nome e o endereço.

– Um momento.

Vanessa apressou-se a pegar uma folha de papel limpa e mergulhou a pena de escrever no tinteiro. Em seguida, pressionou o receptor entre a bochecha e o ombro para mantê-lo no lugar.

– Só um momento… Tudo bem, estou pronta.

– Visconde Benjamin Dawson. Se ele não se mudou, deve continuar residindo no número 427 da Rua Lethe. A idade o afastou do trabalho há algum tempo, de modo que ele provavelmente já não recebe novos clientes.

– Lethe… Rua 427… Muito obrigado, de verdade.

Enquanto ela expressava seus sinceros agradecimentos, soltando um profundo suspiro de alívio, um pequeno resmungo misturado a um suspiro veio do outro lado da linha. Ele já parecia estar se arrependendo de sua intromissão desnecessária.

– Lembre-se das minhas palavras. Se o Conde perguntar, diga que eu nunca lhe disse esse nome, minha senhora.