Tradução: Emma
Capítulo 10
Então, o que será de mim?, Se perguntou. Serei exibida até ser vendida pelo maior lance? A um homem que deseja apenas minha juventude, minha aparência e meu sobrenome, sem se importar com o que eu mesma quero?
— Enquanto meu valor no mercado matrimonial não despencar, meu tio não desistirá. — murmurou, as palavras que ela mesma dissera certa vez agora retornando como um mantra sufocante. A cada respiração, sentia-se diminuir um pouco mais. Quando o silêncio se tornou insuportável, um som chegou até ela — passos vindos do extremo do jardim, perto das roseiras.
Quem é?
Vanessa se endireitou, afastando-se do corrimão. O som que se aproximava parou exatamente abaixo de sua varanda. Então, o odor acre da fumaça subiu pelo ar. Até mesmo Vanessa, que não conhecia as nuances do tabaco, reconheceu que aquele não era o aroma de um charuto de cavalheiro, mas o cheiro áspero de um cigarro barato.
Semicerrando os olhos por causa da fumaça pungente, espiou a escuridão abaixo. Era ele. O homem que havia surgido e desaparecerá como um fantasma alguns dias antes. A luz das lâmpadas do jardim lançava um suave brilho avermelhado sobre seu rosto.
— Você tem esses estranhos momentos de coragem. — A voz de Rosalind ecoou na memória de Vanessa, como partículas de poeira dançando no ar. — Precisa ser mais cautelosa, Vanessa.
Talvez, pensou Vanessa com ironia, agarrando-se ao corrimão da varanda. Se ninguém vai me salvar, então terei de salvar a mim mesma.
— Posso usar o automóvel amanhã à tarde? — perguntou Vanessa. Wyatt, curvado sobre sua escrivaninha, ergueu os olhos, franzindo a testa diante do pedido inesperado. Vanessa entrelaçou as mãos com força, tentando esconder o nervosismo. — Tenho uma pequena tarefa para resolver na cidade.
— Na cidade?
— Minha caneta-tinteiro quebrou. Quero ver se pode ser consertada.
Wyatt a encarou por um instante, então balançou firmemente a cabeça enquanto mergulhava novamente a pena no tinteiro. — Não.
— Mas, tio…
— Este é um período crucial. Até que seu casamento esteja resolvido, prefiro que não fique vagando fora do castelo. Boatos desnecessários seriam… inconvenientes.
….
— Agora, se entendeu, volte para o seu quarto. E tente controlar essa expressão. — Wyatt fez uma careta, como se tentasse sufocar o lampejo de desafio que via nos olhos dela. Vanessa mordeu os lábios trêmulos e se virou. Pouco antes de alcançar a porta, ouviu o tio murmurar: — Terei de colocar mais guardas. Ela anda estranhamente rebelde ultimamente…
Vanessa voltou para o quarto, ainda sentindo o ardor nos lábios. Seu pedido para sair do castelo havia sido recusado, mas isso não significava que não houvesse outra forma de enviar seu manuscrito. Felizmente, alguns dos empregados da casa ainda estavam dispostos a atender seus pequenos pedidos. Lançando um olhar para o relógio, puxou o manuscrito e a caneta para perto.
Já fazia três meses desde que começara a publicar suas histórias, em formato seriado, em uma revista semanal, usando um pseudônimo. Era um passatempo um tanto arriscado para uma dama, mas a alegria de escrever sempre superava o perigo. Pelo menos enquanto escrevia, conseguia escapar das complicações de sua vida.
— Com licença, senhorita. — anunciou Mary, entrando abruptamente sem bater. Seu rosto, como sempre, permanecia impassível. Ao ver as mãos manchadas de tinta de Vanessa, suspirou com exasperação. — Ainda nisso? O jantar já está quase pronto.
— Vou me limpar. Só um momento. — Vanessa rabiscou rapidamente mais algumas palavras, então reuniu cuidadosamente as páginas nas quais havia trabalhado nas últimas noites e as colocou dentro de um envelope. Enquanto isso, Mary derramava óleos perfumados em uma bacia de água e pegava o vestido que Vanessa escolhera para o jantar.
— Sente-se aqui. Irei escovar seu cabelo.
Vanessa obedeceu e sentou-se diante da penteadeira. As mãos de Mary, embora não fossem delicadas, eram rápidas e eficientes enquanto desembaraçavam seus cabelos. — O almoço será servido mais tarde amanhã. Todo o pessoal da cozinha, foram designados para a caçada e para preparar o salão do banquete.
— Todos eles?
— Estão desesperadamente sem gente. Contrataram alguns trabalhadores extras, mas três deles fugiram depois do almoço do primeiro dia.
Trabalhadores. A palavra trouxe alguém imediatamente à sua mente. Erguendo os olhos para o reflexo de Mary no espelho, Vanessa perguntou:
— Mary, conhece aquele homem? O que parece ser o novo ajudante do jardineiro?
— Quem?
— O bonito. Ele também é um dos trabalhadores temporários?
O bonito.
A mão de Mary, que ainda escovava os cabelos de Vanessa, parou.
