Difícil de Atravessar [Novel]

Antes do exame de entrada na faculdade, Shi Sui foi forçada a se mudar para a casa da família de um amigo de seu pai, onde conheceu o filho deles, Yan Tingli. Naquele momento, o jovem estava de pé na escada com um suéter de gola alta preto, toda a sua presença fria e desolada, olhando para ela como se ela não fosse nada. Ele parecia não reconhecê-la, mas Shi Sui conhecia Yan Tingli. Ele era refinado e bonito, o famoso aluno honorário da escola, amado por inúmeras garotas. Ela nunca imaginou que, a portas fechadas, até mesmo um bom aluno pudesse descartar sua pele externa e devorar pessoas sem cuspir os ossos. “Quero te beijar.” “Eu não quero.” “Seja boazinha, abra a porta agora.” Irmã tímida e gentil × canalha refinado O protagonista masculino tem um desejo possessivo muito forte, é bastante louco e bom em se disfarçar, mas é um apaixonado. Atenção: Aqueles com altos padrões morais para o protagonista masculino não devem ler.

Capítulo 27 - Mesmo Cavando Três Metros no Chão, Eu Vou…

Capítulo 27 - Mesmo Cavando Três Metros no Chão, Eu Vou…

Hard to Cross Tradutora: Haru Yoru Scanlator

Capítulo 27 – Mesmo Cavando Três Metros no Chão, Eu Vou…

Em meados de agosto, como Yan Tingli tinha previsto, finalmente apareceu alface refogada verdinha na mesa deles.

Cinco dias depois.

Yan Tingli serviu pontualmente carne de porco refogada com pimentões.

Mas os pimentões da horta eram diferentes dos que Yan Tingli estava acostumado — eram extremamente picantes.

Depois de uma mordida, Yan Tingli engasgou e tomou meio litro de água de uma vez.

Shi Sui mordeu os hashis, rindo sem conseguir se controlar.

Vendo ele terminar o jantar, como se fosse vingança, ele pegou todos os pimentões que sobraram e colocou em sacos.

“O que você vai fazer?”

Yan Tingli: “Mandar para o Su Ye. ” Shi Sui: “ …?” Ele estava planejando prejudicar o mentor dele?

Yan Tingli disse preguiçosamente: “Considere um presente de desculpas por ter dado bolo nele o verão inteiro. ” “Só mandar pimentões?”

“Eu que plantei — presente leve, mas sentimento pesado. ”

Shi Sui quase podia imaginar a cara do Professor Su, cheio de ódio e bufando.

O fato de ele ter mencionado Su Ye de repente fez Shi Sui perceber que por mais de um mês, Yan Tingli estava ocioso todos os dias, e o celular dele não tocou uma única vez. Quando ela perguntou, descobriu que ele tinha colocado no modo avião, bloqueando propositalmente todas as mensagens.

C/T Haru: Namorado que coloca a atenção dele 100% nela Yan Tingli voltou para o quarto e jogou a sacola de pimentões dentro da mala. Parecia finalmente lembrar de pegar o celular que estava parado num canto, desligado por falta de bateria, pegando ele devagar e colocando para carregar.

Assim que ligou e conectou na rede.

O celular de Yan Tingli começou a vibrar violentamente.

Mensagens surgiram por todos os lados.

Ele deslizou o dedo pela tela, e a curva dos lábios foi sumindo devagar. Os olhos estavam meio claros e meio escuros, escondidos na luz fraca do entardecer.

Shi Sui estava na espreguiçadeira, aproveitando o vento fresco. Ao ver os movimentos dele, o balançar do seu leque foi diminuindo, e a expressão ficou meio perdida.

Parecia que num instante.

O Yan Tingli que tinha ficado brincando com ela na cidadezinha simplesmente sumiu.

Ele virou de novo aquela pessoa que ficava no alto da escada olhando para baixo, segurando o queixo dela, exigindo e ameaçando.

Shi Sui sentiu o coração apertar enquanto olhava, baixando os olhos.

De repente, Yan Tingli soltou uma risada estranha pela garganta.

“Tenho outro irmão, de dois meses. ” Ele inclinou a cabeça.

Antes que Shi Sui processasse a informação, ouviu ele rir feliz: “Mas ainda bem que já morreu. ” Um assunto tão assustador dito por Yan Tingli com uma voz tão leve e alegre.

Shi Sui sentiu um arrepio gelado, os olhos preto-e-branco olhando pra ele em pânico.

“Não precisa ter medo, não fui eu, ” ele riu de novo, dando dois passos até parar agachado na frente dela, apoiando o queixo e olhando pra cima pra confortá-la.

O rosto de um jovem bonito, mas as palavras que saíam eram sombrias e arrepiante: “Eu nem tive tempo de agir. ” Como uma corrente gelada passando.

Shi Sui ficou rígida, sentindo frio.

Mas as pupilas de Yan Tingli estavam muito brilhantes.

Com uma doença estranha e calma, ele ficou agachado perto dos joelhos dela, falando sem parar.

“Agradeço à minha boa mãe. Com ela lá, eu nem preciso fazer nada. ” Yan Tingli continuava rindo enquanto falava.

Mas Shi Sui não sentia um pingo de felicidade nele, apenas era forçada a receber as informações das palavras.

Durante o mês em que tinham ficado longe da capital, outro acontecimento chocante tinha acontecido na família Yan.

As palavras que Yan Zecheng tinha jogado na cara de Yan Tingli naquela briga não eram ameaças, como Shi Sui imaginava.

Depois que Yan Tingli continuou desobedecendo e violando os arranjos da família, Yan Zecheng realmente cumpriu o que disse: arrumaria outro herdeiro para criar.

Mas o resultado foi decepcionante. Em vários meses, só uma amante engravidou.

Yan Zecheng valorizou muito essa gravidez, mas por mais que escondesse, Song Jie acabou descobrindo.

A criança tinha só dois meses de gestação e já confirmada como menino quando Song Jie arrombou a porta ao ouvir a notícia.

Depois de uma briga, a criança acabou sendo abortada.

Quando Yan Zecheng soube, ficou furioso.

Mas quando saíram os exames do hospital, mostraram anormalidades no esperma — mesmo sem a intervenção de Song Jie, aquela gravidez provavelmente não iria adiante.

Isso significava que Yan Zecheng quase não tinha como gerar filhos saudáveis de novo.

Song Jie estava quase rindo de tanto chorar. A mansão da família Yan foi destruída inteira durante a briga.

Agora, os dois estavam procurando pelo mundo por Yan Tingli.

“Sui Sui, você sabia?”

Os lábios de Yan Tingli se curvaram num arco frio, o peito tremendo de risada: “Minha família finalmente vai ficar sem descendentes. ”

Só de ouvir isso, Shi Sui já estava sufocada por uma escuridão intensa e emoções opressivas. Ela nem conseguia imaginar como Yan Tingli — que estava no meio de tudo — estava se sentindo.

Ela abriu os lábios, mas nenhum som saiu.

Apenas levantou devagar a mão e passou levemente pelos cabelos de Yan Tingli, tirando um pouco de pó que tinha caído enquanto ele cozinhava.

Ela ficou perdida em pensamentos.

Se ao menos todas essas coisas bagunçadas que cercavam ele também pudessem ser limpas com um toque gentil.

“Um vidente disse que eu trago desgraça a parentes e irmãos, ” ele riu baixo, segurando o pulso dela e abaixando a cabeça para dar um beijo frio com os lábios, “bem preciso. ” O olhar de Yan Tingli ficou preso no rosto dela.

As emoções pesadas que ele estava segurando quase fizeram Shi Sui não aguentar.

Shi Sui fechou os olhos e abaixou o pescoço.

Ela segurou o rosto de Yan Tingli, bloqueando o que ele ia dizer em seguida.

Talvez percebendo que o auge do verão estava indo embora, as cigarras gritavam pelo céu inteiro, mas não conseguiam segurar o verão que escapava.

De madrugada, uma tempestade forte caiu. As folhas faziam muito barulho com o vento, o trovão e os relâmpagos.

A chuva caía das telhas como uma cortina d’água, respingando nas janelas de vidro fosco.

O barulho branco misturado cobria os sons vagos e pegajosos dentro do quarto.

Com a chuva, o ar não estava tão abafado, então o ar-condicionado não estava ligado.

Yan Tingli estava com uma mão cobrindo os olhos.

Pelos espaços entre os dedos, os cílios pretos tremiam para cima e para baixo. O pomo de adão subia devagar, a respiração pesada.

“Sui Sui… ” Os dedos dele no cabelo dela repentinamente apertaram.

Devido aos movimentos inexperientes dela, veias saltaram no dorso da mão.

Shi Sui se afastou devagar , os olhos cheios de umidade, bochechas coradas: “Eu já estava sendo muito cuidadosa, é porque você é muito… ” Ela não conseguiu continuar.

Mas Shi Sui não conseguiu falar a frase inteira.

Pela luz fraca da janela.

Ela viu os cílios de Yan Tingli úmidos por causa dela.

Mesmo com a falta de jeito, ele ainda parecia sentir muito prazer, as pupilas dilatadas, o peito subindo e descendo sem parar, o cabelo molhado de suor caindo na testa.

O punho dele pressionava os olhos, como se não aguentasse, escondendo a expressão.

A voz dele também estava baixa, totalmente sem o temperamento feroz de sempre.

“Só não me morde. ”

Antes, ele sempre era o dominante, controlando todas as reações dela, observando cada estado embaraçado.

Esse tipo de intimidade transgressora nunca tinha feito parte do entendimento de Shi Sui.

Shi Sui nunca imaginou que um dia ela também poderia fazer Yan Tingli perder a compostura assim.

Um novo mundo se abriu. Ela sentiu uma animação inédita pela iniciativa dela naquele dia.

Ela olhou para baixo para Yan Tingli, piscando: “Mas eu não sei como. ” Ouvindo essa provocação proposital, Yan Tingli apertou mais forte os dedos dela.

Pensando em como ela costumava chupar pirulito enquanto fazia lição, com as bochechas estufadas.

A escuridão nos olhos dele se aprofundou: “Você geralmente sabe chupar pirulito muito bem. ” Shi Sui ficou vermelha só com uma frase.

“Como isso é a mesma coisa?”

“É igual. ” O pomo de adão dele se moveu, quase não aguentando, a palma da mão pressionando a cabeça dela de novo.

Ele persuadiu: “Tenta. ” Esse homem era dominador demais, sempre querendo recuperar o controle imediatamente.

Shi Sui não gostou. Ela apertou o pomo de adão dele com força enquanto o apertava a outra mão: “Para de mandar em mim. ”

Sendo pressionado assim de repente.

Yan Tingli franziu a testa e fechou os olhos, um som rouco escapando da garganta enquanto o corpo inteiro tremia violentamente.

Shi Sui ficou chocada, olhando para baixo sem saber o que fazer.

Como ele simplesmente…?

Alguns segundos de silêncio.

Yan Tingli abriu os olhos, o rosto terrível, o olhar negro encarando ela como um animal selvagem.

Shi Sui estremeceu sob aquele olhar.

Antes que pudesse reagir, ela já tinha sido virada.

Yan Tingli deu um tapa na sua bunda, a voz fria e baixa: “Deita direito. ” Do lado de fora da janela, a chuva caía ainda mais forte.

A cortina de chuva escorria pelas janelas, tudo borrado, sem forma.

Depois de enlouquecerem a noite inteira, Shi Sui estava exausta.

Quando ela começou a pegar no sono, a chuva também foi diminuindo aos poucos.

Ouvindo o som da chuva caindo no beiral, Shi Sui fechou os olhos.

Parecia que ela não tinha nem fechado os olhos por muito tempo quando foi despertada por ser apertada forte demais no calor.

Sem a brisa fresca, o ar tinha ficado abafado de novo.

Shi Sui foi abraçada até começar a suar.

Ela abriu os olhos sonolenta, encarando diretamente os olhos negros de Yan Tingli acima dela.

Ela murmurou: “Para de brincar, eu ainda tô com sono. ” “Eu tive um sonho. ” Yan Tingli encarou ela.

Shi Sui não levou a sério, bocejando e perguntando com a voz arrastada:

“Que sonho?”

“O sonho estava cheio de neblina. ” O rosto de Yan Tingli estava muito ruim, muito pálido. “Eu ficava procurando, mas não te encontrava. ” O coração de Shi Sui deu um salto forte, ela despertou na hora.

Os cílios dela tremeram levemente enquanto olhava pra ele.

“Eu não conseguia te achar. ” Ele enterrou a cabeça no pescoço dela, o cabelo macio roçando na orelha dela. Como se achasse engraçado, ele riu baixo:

“Como eu poderia não te achar?”

“Se Sui Sui desaparecesse, mesmo cavando três metros no chão, eu ia te achar. ” A voz de Yan Tingli era lenta e sombria, a ponta dos dedos circulando o antebraço dela, o olhar como se tivesse caído em algum tipo de pesadelo doentio:

“Aí eu te trancaria, colocaria correntes, te prenderia na cama. Você só poderia me ver todo dia. ” Shi Sui sentiu um frio percorrer a espinha, o corpo ficando rígido. Aquele medo instintivo e fisiológico tomou conta dela.

Ela disse tensa: “Não fala essas loucuras. ” Yan Tingli riu baixo, o tom voltando a ficar suave: “Claro. Como é que a Sui Sui ia me deixar?”

“Certo?”

Como um robô executando um comando, Shi Sui só pôde — e só ousou — responder afirmando: “ …Certo. ” Yan Tingli pareceu muito satisfeito.

A aura sombria ao redor dele se dissipou quando ele a abraçou forte.

“Eu tenho que voltar pra capital amanhã. ” Yan Tingli fez uma pausa, beijando o topo da cabeça dela. “Se você quiser, volte pra Hangzhou, fica com o tio e a tia por meio mês. ” “Quando as aulas começarem, eu venho aqui te buscar pra voltarmos. ” Ele pensou por um momento e acrescentou: “E colho os tomates também. ” Shi Sui ficou chocada: “ …Você vai embora por meio mês? Vai fazer o quê?”

Um frio passou pelos olhos de Yan Tingli: “Resolver umas merdas.”

Ele se referia aos primos da família que queriam aproveitar o caos pra pegar uma parte das coisas.

Shi Sui ficou confusa.

Ele se importava com essas coisas? Sempre quis que a família desmoronasse.

Yan Tingli: “As minhas coisas, mesmo que eu não queira, só podem ser minhas. ” Ele sorriu: “Eles valem o quê?”

Shi Sui se sentiu totalmente drenada, sem falar nada por muito tempo.

Yan Tingli parecia com sono, bocejando e murmurando: “Você quer legitimidade, então eu vou casar com você legitimamente. ” “No futuro, ninguém vai ousar falar nem meia palavra. ” Yan Tingli finalmente beijou a bochecha dela: “Dorme. ”

“Hoje eu não vou deixar o Ping An entrar pra fazer barulho. ” A tempestade parou.

O horizonte já estava com o branco de barriga de peixe surgindo.

A respiração de Yan Tingli estava estável.

Mas Shi Sui não tinha vontade nenhuma de dormir e não conseguiu mais pregar os olhos.

Meio mês depois, em setembro.

Quando ele voltasse, ela já estaria matriculada na Califórnia.

Ela achava que ainda tinham pelo menos uma semana juntos, nunca imaginou que a separação viria tão de repente.

O coração de Shi Sui foi perfurado por uma dor contínua, como agulhas.

Essa dor veio de repente, mas era tão intensa que quase deixou a mente dela em branco.

Ela não encontrava nenhuma forma de aliviar.

Shi Sui se encolheu.

O nariz ardendo, mas ela não ousava fazer nenhum som.

De manhã, Yan Tingli arrumou a maior parte da bagagem. Do vilarejo até o aeroporto da capital provincial ainda levava quase o dia inteiro, então ele comprou um voo noturno de volta para a capital.

Yan Tingli chamou um carro particular caro pra buscar ele.

Shi Sui usou o comportamento mais normal possível pra acompanhar ele até a saída do pátio e até o carro.

Vendo o carro se afastar, Shi Sui ficou parada, atordoada, mexendo inconscientemente no portão de bambu com a ponta dos dedos.

Até que uma dor aguda veio.

Uma farpa tinha entrado fundo na carne dela.

Shi Sui não ligou, virou e voltou cambaleando para o pátio pequeno.

Apertando os joelhos, ela sentou na cadeira de bambu onde sempre se encostava, olhando vazia pra fora.

Talvez sentindo algo, Ping An andou até ela, olhou, e esfregou-se nas pernas dela.

Shi Sui abaixou e pegou ele no colo.

O clima de verão sempre mudava rápido. O céu escureceu de repente com nuvens pesadas.

Shi Sui olhou para o céu e voltou a encarar o portão.

Ela não sabia quanto tempo tinha passado.

Ping An começou a miar, provavelmente com fome, esfregando sem parar nas mãos dela.

Shi Sui levantou-se mecanicamente e foi até onde Yan Tingli normalmente preparava os peixinhos para fazer comida pro gato.

Ele tinha deixado vários peixes ali, suficientes pra mais de dez dias.

Quando a mão dela entrou na água, uma dor forte atingiu. Shi Sui percebeu o que tinha acontecido, vendo a farpa enterrada e o dedo já inchado.

Ela franziu levemente a testa, pensando vagamente em voltar para a casa pequena pra procurar uma agulha e tirar a farpa.

Mas ao passar pelo balde de água, ela tropeçou no balde com os peixes.

Por sorte, a queda não machucou muito.

Ao lado havia a horta onde Yan Tingli tinha cavado a terra.

Shi Sui se apoiou no chão com os braços.

O olhar vazio fixou-se no chão, nas mudinhas de vegetal tombadas pela tempestade.

A última fileira de tomates tinha caído toda, parecendo completamente sem vida.

Shi Sui ficou olhando por um tempo.

Sentiu algo cair dos olhos, com gosto salgado e amargo.

Nesse momento, as emoções que ela tinha segurado explodiram como uma enchente.

Shi Sui finalmente não conseguiu segurar mais.

Como uma criança, começou a chorar alto.

Ela se arrependeu.

Por que ela tinha trazido Yan Tingli pra cá?

Eles deveriam ter se separado de forma decisiva e limpa.

Não deveria ter existido nenhum vínculo.

O trovão ribombou baixo.

Gotas grandes de chuva começaram a cair.

Até que Shi Sui foi puxada por trás e, na visão borrada, encontrou a expressão descontente de Yan Tingli.

Ele puxou ela de volta para a casa pequena.

Com o rosto frio, usou uma toalha para limpar a chuva e a lama do corpo dela: “O que você tá fazendo?”

A mente de Shi Sui ainda estava em choque, lágrimas secas no rosto enquanto olhava pra ele, boba: “ …Como você voltou?”

“Se eu não voltasse, não ia ver você agindo como uma louca. ” Ele olhou pra ela com nojo, mas os dedos tocaram suavemente o canto dos olhos dela. “Tá chorando por quê?”

O coração de Shi Sui era um caos. Olhando pra ele, ela precisou de toda a força pra segurar o desmoronamento.

“Minha mão dói. ” Ela mostrou o dedo devagar, “E eu caí. ” “Nossos vegetais morreram também. ” Yan Tingli limpou o rosto dela: “Se morreram, a gente planta de novo. ” Ele pegou a mão dela e viu a ponta inchada. Franziu a testa, carregou ela até o quarto, agachou e pegou uma agulha pra tratar o dedo.

“Então… ” Shi Sui olhou pra ele, vazia, “Por que você voltou de repente?”

“O motorista disse que ia ter tempestade com trovões hoje à noite, ” Yan Tingli focou no dedo dela, “você ia ficar com medo. ” “Amanhã eu te levo pra Hangzhou, e de lá eu voo de volta pra capital. ” Shi Sui fungou levemente.

“E também, ” a expressão de Yan Tingli ficou estranha e um pouco fria.

“Mm?”

“Eu me senti muito desconfortável. ” Shi Sui ficou chocada.

Mas, junto com a dor aguda na ponta do dedo, ele apertou com força.

Shi Sui soltou um “ai” .

Yan Tingli abaixou a cabeça e levou o dedo dela à boca, a sensação quente aliviando a dor.

Depois de chupar por um tempo, ele soltou.

Ela olhou para a atitude dele, surpresa, os cílios tremendo de leve.

“Dessa vez que eu fui embora, eu me senti muito desconfortável. ” Vendo o estado todo desgrenhado dela, Yan Tingli encontrou o motivo desse desconforto.

“Esquece. ” Ele estalou a língua. “Quando as aulas começarem, não fica me esperando aqui. Eu venho mais cedo te esperar, e a gente volta junto. ” Depois da tempestade daquela noite, no dia seguinte o céu estava limpo e ensolarado.

Antes de irem embora, Yan Tingli replantou a última fileira de tomates.

“Eles não morreram completamente. ” Ele falou casualmente. “Talvez ainda dê pra salvar. ” *** “Sui Sui. ” Li Yin olhou para a filha, que andava calada e desanimada desde que voltou pra casa. “O que anda acontecendo ultimamente?”

Suspeitando que fosse porque a ida pro exterior estava próxima e a filha nunca tinha ido tão longe sozinha, ela falou, preocupada: “Se não der certo, não vai? Estudar aqui também é bom. ” Shi Sui levantou devagar os cílios para olhar o rosto preocupado da mãe.

Por um instante.

O rosto de Yan Tingli apareceu na mente dela, e ela vacilou um pouco.

Mas no segundo seguinte.

Ela balançou a cabeça com força e fechou os olhos.

Você tá maluca?

Pra fugir dele, você se esforçou tanto.

Só por causa de um pouco de gentileza, você esquece todas as dificuldades e dores de antes.

Quer ir catar matinhos selvagens?

Quem te deu a ideia de que a sua mísera energia seria capaz de fazer o Yan Tingli mudar?

Quer que o seu pai e a sua mãe sejam desprezados por sua causa?

Depois de se xingar por completo dentro da cabeça, Shi Sui se sentiu um pouco melhor.

Ela balançou a cabeça de leve e respondeu com firmeza para Li Yin: “Eu quero ir. ” Li Yin fez um carinho no cabelo dela, a contragosto, e suspirou: “Você tá certa, quando a gente é jovem tem mais é que sair pro mundo. Vai, Sui Sui, a mamãe e o papai apoiam você. ”

“Isso mesmo, tem que ver mais o mundo lá fora. ” Shi Yue falou animado ao lado. “Na Inglaterra, vai ver e fazer tudo que tiver vontade. Se o dinheiro não der, pede pro pai. ” Da mesma forma, até os pais dela só sabiam que ela ia pra Inglaterra.

O nariz de Shi Sui ardeu enquanto ela olhava pra eles e assentia.

Ela falou, com a voz embargada: “Eu vou sentir saudade. ” “A mamãe e o papai vão te visitar quando der. ” Shi Yue sorriu. “E você com certeza vai voltar nas férias. ” Shi Sui ficou sem resposta. Nem ela sabia que dia seria esse.

O tempo que restava passou tão rápido que parecia impossível segurar.

Nos últimos dias, Shi Sui voltou sozinha mais uma vez pra cidadezinha.

Ela deixou o Ping An na casa da Vó Zhao, que sempre tinha sido muito boa com ela desde pequena. A avó tinha uma netinha que adorou o Ping An, perguntando com os olhos arregalados: “Irmã Sui Sui, eu posso ficar com o Ping An pra sempre?”

Shi Sui balançou a cabeça de leve, dizendo com a voz rouca: “Um irmão vai vir buscar ele. ” Ping An miou para ela.

Shi Sui não teve coragem de olhar mais e saiu correndo com os olhos vermelhos.

De volta ao pátio, tudo ainda estava como antes.

Shi Sui reparou que os tomates que Yan Tingli tinha replantado antes de ir embora estavam crescendo bem ao sol, e um deles já tinha dado um tomatinho pequeno.

Ela respirou fundo, bateu a porta com força e saiu correndo.

Correndo ao longo do riacho da cidade, ela subiu a montanha.

Só depois de deixar tudo no pátio para trás é que ela conseguiu respirar direito.

Ela se concentrou e continuou subindo a montanha.

Levantou a cabeça e olhou para o ponto preto no pico mais alto — ali havia um pequeno templo. Embora não pudesse ser comparado aos templos enormes da capital, as pessoas da cidadezinha eram muito devotas, subindo a pé para fazer preces sempre que tinham algo no coração.

O pai dela, Shi Yue, sempre contava que, no ano do vestibular, ele subiu sozinho três quilômetros de madrugada para acender incenso e fazer um pedido no templo.

Naquele ano, ele se tornou o único universitário da cidade.

A trilha da montanha era íngreme e distante. Até o próprio Shi Yue demorou alguns dias para se recuperar depois de subir.

Mas o pai dizia que aquilo era o teste de sinceridade do Buda.

O protetor da cidade abençoaria todos os devotos que fossem fazer seus pedidos.

Shi Sui não tinha muita resistência física.

Subindo sozinha da manhã até a noite, quando chegou, as pernas estavam tremendo e o rosto mais branco que papel.

Shi Sui se ajoelhou em frente ao templo.

Ela fechou os olhos e juntou as mãos.

O templo era pequeno, só tinha um monge morando ali o ano inteiro.

Foi dele que Shi Sui conseguiu um saquinho de bênçãos.

No dia antes de ir embora, Shi Sui encontrou Zhou Xuyan, que tinha vindo especialmente para vê-la. A expressão animada no rosto dela sumiu, e ela olhou para Shi Sui com os olhos cheios de lágrimas.

Shi Sui empurrou as coisas que tinha preparado na direção dela: “Yanyan, me ajuda a colocar isso lá pra mim. ” “Deixa isso comigo. ” Zhou Xuyan respondeu com a voz embargada. “Eu garanto que vou cumprir a missão. ” Antes de ir embora, Zhou Xuyan abraçou ela.

Respirando fundo, ela disse: “Sui Sui, veja mais do mundo. ” “Estou esperando encontrar uma versão ainda melhor de você. ” Shi Sui abraçou ela de volta e assentiu com força: “Tá bom.”

O avião cruzou o céu, cortando as nuvens. Shi Sui olhou lá pra baixo pela janelinha.

Por muito tempo.

Ela apertou o peito dolorido e fechou os olhos devagar.

No fim de agosto, a cidadezinha estava envolta numa garoa contínua.

Fios de chuva caíam sobre a superfície do lago, abrindo lentamente ondas concêntricas. Como uma pintura de tinta de Jiangnan, cada quadro era bonito como um quadro.

O portão de bambu do pátio rangeu quando alguém, segurando um guarda-chuva, empurrou e entrou.

Ping An, que tinha sido trazido de volta, rodeou a barra da calça dele, miando feliz.

As luzes na casa antiga ficaram acesas por duas noites.

Alguém esperou por três dias.

No terceiro dia.

Os tomatinhos que tinham acabado de crescer bem foram esmagados pela sola do sapato de alguém na terra, espirrando suco vermelho vivo.

“Você mentiu pra mim. ” Ele soltou uma risada baixa.

Mas a voz já tremia sem controle.

“Mentiu pra mim de novo. ” “Sui Sui. ” Os lábios de Yan Tingli tinham um sorriso calmo, mas as pupilas eram completamente escuras, sem nenhum traço de luz, o corpo todo cheio de uma tempestade prestes a explodir.

“Dessa vez, quando eu te achar, como é que eu deveria te punir?”