Difícil de Atravessar [Novel]

Antes do exame de entrada na faculdade, Shi Sui foi forçada a se mudar para a casa da família de um amigo de seu pai, onde conheceu o filho deles, Yan Tingli. Naquele momento, o jovem estava de pé na escada com um suéter de gola alta preto, toda a sua presença fria e desolada, olhando para ela como se ela não fosse nada. Ele parecia não reconhecê-la, mas Shi Sui conhecia Yan Tingli. Ele era refinado e bonito, o famoso aluno honorário da escola, amado por inúmeras garotas. Ela nunca imaginou que, a portas fechadas, até mesmo um bom aluno pudesse descartar sua pele externa e devorar pessoas sem cuspir os ossos. “Quero te beijar.” “Eu não quero.” “Seja boazinha, abra a porta agora.” Irmã tímida e gentil × canalha refinado O protagonista masculino tem um desejo possessivo muito forte, é bastante louco e bom em se disfarçar, mas é um apaixonado. Atenção: Aqueles com altos padrões morais para o protagonista masculino não devem ler.

Capítulo 26 - Você Só Pode Amar a Mim

Capítulo 26 - Você Só Pode Amar a Mim

Hard to Cross Tradutora: Haru Yoru Scanlator

Capítulo 26 – Você Só Pode Amar a Mim

Depois de tomar o remédio, a febre de Yan Tingli baixou no dia seguinte.

Mas ele ainda parecia desanimado, esfregando os olhos antes mesmo do amanhecer e sentando-se na cama.

Ainda era uma cama antiga de tábuas de madeira.

Com o corpo alto de Yan Tingli, qualquer movimento fazia tudo ranger.

Shi Sui foi acordada por ele. Ela abriu os olhos semicerrados e esticou a perna para chutar ele: “O que você tá fazendo? Que barulho. ” Yan Tingli apoiou o queixo na mão, as pálpebras caídas preguiçosamente.

O cabelo dele estava bagunçado, e a camiseta pendia frouxa no corpo, revelando as clavículas frias, pálidas e bem definidas.

Shi Sui olhou para ele, e duas palavras surgiram em sua cabeça.

Deliciosamente bonito.

Com o temperamento de Yan Tingli, ficando nesse ambiente antigo, era difícil não pensar em um jovem mestre caído em desgraça.

Depois de um bom tempo.

Ele abriu os lábios e soltou algumas palavras: “Não consigo dormir. ” Shi Sui: “?”

“Essa tábua não é reta, ” Yan Tingli disse sem expressão, “minhas costas doem com os calombos. ” Dias atrás, ele também tinha dito que não conseguia dormir, reclamando da falta de ar-condicionado.

Agora que o ar-condicionado tinha chegado, ele estava reclamando que a cama não era reta.

Shi Sui segurou a irritação: “Então quer que eu arrume um edredom de plumas com vinte camadas pra servir de colchão?”

“Duas camadas já tá bom. ” “ … ” , Shi Sui deu outro chute nele: “Que tal eu te dar dois chutes então?”

“Você não sente os calombos?”

Os olhos de Shi Sui rolaram devagar: “Eu não sou tão cheia de frescura quanto você. ” Mas Yan Tingli de repente deu um resmungo, como se tivesse lembrado de algo: “Agora faz sentido. ” Shi Sui olhou para ele.

“Você não quer ficar por baixo, insiste em sentar em cima de mim e ficar mexendo. ” “Até dorme em cima de mim. ” Ele segurou o tornozelo dela, que ia chutar de novo, e deu um sorriso frio: “Tá me usando como colchão?”

“ … ” As pequenas táticas de Shi Sui foram expostas, e seu olhar desviou silenciosamente.

Yan Tingli encarou ela como se estivesse vendo pela primeira vez.

Ele se inclinou, chegando perto: “Como é que eu nunca percebi antes?”

Shi Sui fingiu: “Hmm?”

“Como você é terrível. ” Shi Sui pensou por um momento e percebeu que realmente tinha ficado bem arrogante ultimamente.

Talvez a cidade pequena fosse pacífica demais, fazendo ela expor a verdadeira natureza sem perceber.

Antes, ela sempre se segurava, e se segurava de novo.

Shi Sui encarou ele atentamente, reprimindo o pânico instintivo quando ele questionava de tão perto, e respondeu desafiadora: “Eu sempre fui assim. Vai fazer o que sobre isso?”

Depois que falou isso, ela viu os lábios de Yan Tingli se curvarem, seus olhos e sobrancelhas filtrados pela luz do sol nascente, parecendo cobertos por uma camada de névoa suave.

Ele de repente abaixou a cabeça.

E encostou de leve na bochecha dela.

“Assim tá bom. ” Depois do beijo, ele se levantou e tirou a camisa para trocar de roupa.

Cheio de energia.

Shi Sui: “ …Hã?”

“Feliz. ” Ela realmente não entendia cada vez mais o estado mental de Yan Tingli.

Ela tinha feito as costas dele doerem, e ele tava feliz com isso?

“O que você vai fazer?”

Yan Tingli: “Comprar um colchão Simmons. ” Shi Sui: “ … ” Pelo visto, Yan Tingli não tinha vindo para umas “férias” , mas sim para participar do “projeto de reforma da casa velha” da família dela.

O fluxo do tempo na cidade pequena parecia mais lento que o normal, e até a rotina de Yan Tingli ficou surpreendentemente regrada.

Ele, que não acordava cedo nem em dez mil anos, agora abria os olhos exatamente às 6h30 todas as manhãs.

Porque o sol nascia e batia direto no rosto dele.

Mesmo que quisesse dormir, não dava.

Acordar cedo também significava dormir cedo.

Às dez da noite, acompanhado pelo som infinito das cigarras nas árvores da casa velha, ele caía no sono de cansaço.

A cidade não tinha atividades de lazer. Tudo que podiam fazer era ficar em casa e assistir TV no computador de Yan Tingli.

Os dias pareciam calmos por fora, mas— Sem inteligência artificial, Yan Tingli era completamente inútil nas habilidades básicas da vida.

Yan Tingli tinha várias reclamações e não queria mais ir ao pequeno restaurante da cidade.

Achava insalubre e queria cozinhar ele mesmo.

Shi Sui acompanhou, indo com ele ao mercadinho comprar legumes.

Mas Yan Tingli não sabia usar o fogão antigo. Quando viu que as pessoas ainda cozinhavam com lenha, o choque nos olhos dele era como ver homens das cavernas fazendo danças sugestivas.

Com a orientação passo a passo de Shi Sui, ele finalmente conseguiu acender a lenha com muita dificuldade.

Mas como a chaminé da casa velha estava entupida depois de anos sem uso, a cozinha inteira encheu de fumaça preta.

Os dois saíram tossindo, cobrindo a boca.

Yan Tingli pegou água em silêncio para apagar o fogo.

Quando saiu, seu rosto claro e delicado estava todo manchado de preto e branco, cheio de fuligem.

Shi Sui riu até desabar ao lado dele.

Ele então passou a mão cheia de cinzas no rosto dela, sem dó.

Olho por olho.

Shi Sui gritou.

Furiosa, voltou para a cozinha e propositalmente sujou as mãos de cinza.

Ela pulou para passar no rosto de Yan Tingli.

Ele a deixou fazer o que queria, depois segurou o rosto dela e esfregou contra o dele.

C/T Haru: Aiii que cena fofa T.T Aaaaah!

Eles não comeram nada e ainda ficaram exaustos.

Cobertos de cinza que nem água conseguia tirar direito.

Shi Sui, com o rosto cinzento e toda desgrenhada, exigiu que fossem lavar no rio.

Yan Tingli franziu a testa ao ouvir isso: “Aquele rio onde o povo lava roupa e verdura?”

“Sim. ” “Não vou. ” “Por quê?”

Ele virou o rosto: “Sujo. ” Shi Sui: “A parte de cima do rio não é suja. Se você não for, eu vou sozinha. ” “Você também não tem permissão para ir. ” Shi Sui já estava acostumada a discutir com ele: “Por quê?”

Yan Tingli continuou com a expressão fria: “Você não pode tomar banho do lado de fora. ” Shi Sui: “ … ” Ela virou e saiu andando.

Yan Tingli encarou ela, a voz mais profunda: “Sui Sui. ” Era o tom de sempre, quando ele pressionava ela.

Os cílios de Shi Sui tremeram e ela parou sem pensar.

Quando percebeu, apertou os lábios e se virou.

Ela levantou o rosto, encontrou o olhar dele e ficou em silêncio para mostrar sua posição.

Os dois ficaram se encarando por alguns segundos.

A expressão de Yan Tingli parecia levemente irritada.

Depois de alguns segundos.

Ele finalmente falou: “Se você for, a gente vai junto. ” Shi Sui piscou e abriu um sorriso bajulador.

Deu dois passos pra perto, ficou na ponta dos pés e passou a mão no cabelo dele: “Irmão Tingli, você tá tão bom hoje. ” Yan Tingli segurou a mão dela.

Parecendo achar tudo isso estranho, a expressão dele ficou muito esquisita.

“Você assim. ” É tipo treinar um cachorro?

Yan Tingli franziu a testa, parou, sem querer dizer o resto da frase.

Ainda menos disposto a admitir que ele não estava infeliz com isso.

Shi Sui disse devagar: “ …Hmm?”

Yan Tingli baixou a voz: “Isso é uma tática comum de adestrador de cachorro. ” Sendo exposta, a pequena satisfação que tinha acabado de surgir no coração de Shi Sui esfriou na hora.

Tentar manipular Yan Tingli.

Era mais difícil do que subir ao céu.

Quando ela ainda estava hesitando em como desviar, Yan Tingli já tinha segurado ela friamente: “A gente vai ou não vai?”

Shi Sui ficou travada, sentindo uma coceirinha sutil no coração.

Ela não conseguiu evitar olhar para o perfil dele, de fininho.

Será que… ela tinha conseguido no fim?

Seguindo o riacho até a parte mais acima, eles chegaram no lugar que Shi Sui tinha indicado.

Vendo o local de verdade, a expressão de Yan Tingli melhorou um pouco.

Não era o córrego pequeno que ele tinha imaginado, cheio de gente dentro.

Esse lugar era rodeado por montinhos dos quatro lados, abraçando uma curva de um poço de água fundo e tranquilo, com uma pequena queda d’água caindo lá de cima.

O riacho corria fazendo barulho, e a superfície espelhada da água era totalmente transparente, dava pra ver as pedrinhas e os peixinhos no fundo.

“Quando eu era pequena, nas férias de verão, ” Shi Sui sentou na beira, seus pés branquinhos tocando a superfície da água com cuidado, o tom meio nostálgico, “meu pai me trazia aqui pra nadar. ” Mas depois, Shi Yue ficou ocupado com trabalho, e seus avós foram falecendo um por um, então aquelas memórias ficaram pra sempre congeladas na infância.

Tudo aquilo era novo demais pra Yan Tingli.

Os cílios pretos dele abaixaram enquanto ele pegava água com a mão. Os peixinhos embaixo se assustaram e nadaram pra longe, abanando o rabinho.

Alguns segundos depois, ele levantou a cabeça pra ela, o pomo de adão se mexendo devagar, como se fosse dizer algo.

Shi Sui percebeu e levantou o rosto para encontrar o olhar dele.

“No futuro, todo ano nessa época, ” Yan Tingli falou como se fosse casual, “a gente pode vir aqui. ” Ele fez uma pausa.

Depois acrescentou duas palavras.

“A gente. ” Os dedos de Shi Sui congelaram.

Seu rosto empalideceu um pouco, e ela desviou o olhar rapidamente.

Ela queria dizer algo, mas parecia que a garganta tinha enchido de algodão.

Com medo de ser óbvia demais, Shi Sui simplesmente pulou direto na água, espirrando tudo.

Também molhou Yan Tingli inteiro.

“Vem me pegar, ” Shi Sui abriu os braços na água.

A expressão de Yan Tingli escureceu, e ele pulou na água atrás dela.

Ele teve treinadores profissionais desde pequeno; Shi Sui não tinha chance nenhuma.

Em poucos segundos, ela foi pega, segurada pela cintura por trás, o sopro quente dele batendo no ouvido dela.

Dentro da água, os movimentos dele eram levianos e ousados. Com intenção de punição, ele foi subindo a mão pela coxa dela.

Shi Sui ficou rígida na hora, um vermelho subindo no rosto, “ …A gente ainda tá fora!”

“Você ousa tomar banho do lado de fora?” Yan Tingli falou como se fosse óbvio, “Então qual o problema de eu te tocar um pouco do lado de fora?”

De fato, treinar cachorro era arriscado.

Principalmente com alguém louco igual Yan Tingli.

Com meia dúzia de movimentos, ele fazia Shi Sui ficar mole, mordendo o lábio inferior, se recusando a fazer som.

“Sui Sui, ” Yan Tingli tirou a mão e falou no ouvido dela, “como você pode ser tão sensível?”

……

“Cala a boca!” Shi Sui afastou a mão dele com um tapa.

Yan Tingli adorava ver as expressões tímidas dela, rindo baixinho.

Depois de provocar o suficiente, ele abaixou o pescoço e veio beijá-la.

Quando os lábios se encostaram, foi quase suave, diferente dele.

Shi Sui fechou os olhos, sentindo o coração afundar e flutuar na água junto com o corpo.

Ela sentiu um gosto amargo, tentando dizer a si mesma para aprender a se contentar.

As pessoas não podiam ser felizes pra sempre, mas conseguir lembrar cuidadosamente desses poucos momentos já era o bastante.

Shi Sui não esperava que Yan Tingli fosse querer ficar tanto tempo. Ela tinha planejado só tomar banho e voltar, mas ele parecia alguém que nunca tinha brincado na água antes. Depois de lavar a fuligem, nadou várias voltas.

Quando terminou, sentou na beira com o cabelo molhado, todo bagunçado, jogando pedrinhas na água como uma criança, competindo com Shi Sui pra ver qual pedra fazia o barulho na água maior.

Quando ele ganhava, levantava o queixo como se isso fosse algo muito impressionante.

Shi Sui ficou sem palavras.

Só quando o céu estava quase escuro ela arrastou Yan Tingli: “Vamos, tô cansada. ” O sol distante já estava se pondo no oeste, prestes a recolher sua última luz.

Voltando pelo riacho, a estrada rural estava silenciosa, só a brisa suave da tarde de verão batendo no rosto.

De repente, enquanto andavam, Shi Sui ouviu um som fraco.

Ela parou e olhou para Yan Tingli: “Você ouviu alguma coisa?”

Yan Tingli escutou um momento, o olhar indo na direção de um ponto.

Shi Sui seguiu o olhar dele e viu um monte de arbustos — era dali que vinha o som.

Depois de ouvir com atenção, os olhos de Shi Sui se iluminaram: “É um gatinho miando!”

Ela correu até lá, prestes a afastar os arbustos, quando Yan Tingli puxou ela para trás e tomou a frente.

“Não deixa te morder. ” Shi Sui observou ele afastar o mato, e então viram o gatinho.

Era um vira-lata tricolor mais comum de zona rural.

Tinha uns dois ou três meses, o rabinho enrolado no próprio corpo, olhando pra eles com medo.

“É mesmo um gatinho, ” Shi Sui ficava sacudindo o braço de Yan Tingli, “pega ele, vamos ficar com ele. ” Mas Yan Tingli não se mexeu, virando o rosto, os olhos escuros observando ela calmamente.

Vendo a expressão dele, ela perguntou baixinho: “Você… não quer ficar com ele?”

“Não. ” “Por quê?” ela insistiu.

Shi Sui não ousava pensar muito sobre por que ela queria tanto que Yan Tingli ficasse com aquele gatinho.

Talvez fosse porque...

Ele sempre parecia tão sozinho.

Yan Tingli olhou de novo para o gatinho tricolor escondido nos arbustos.

Sem saber o que ele estava pensando, quando falou de novo, sua voz era um pouco distante: “Coisas ruins acontecem quando se cria gatos. ” O coração de Shi Sui apertou.

Ela não disse mais nada.

Ela pensou no que fazer com o gatinho: “Então eu vou levar pra Hangz—” “A gente, ” Yan Tingli interrompeu de repente, “a gente vai levar juntos. ” Ele enfatizou: “Eu quero criar ele junto com você. ” A noite escondia a palidez que apareceu no rosto de Shi Sui.

Depois de um longo tempo, ela respondeu baixinho: “ …Tá bom.”

A lua esticava a sombra dos dois pelo chão.

O gatinho estava muito comportado nos braços de Yan Tingli, até ronronando satisfeito.

“Que nome você quer dar?” Shi Sui perguntou.

“Ping An. ” ( Paz/Segurança) Shi Sui olhou pra ele meio desconfiada.

Como alguém que era capaz de inventar nomes tão poéticos como “Sui Sui” na infância tinha regredido tanto na habilidade de nomear agora adulto?

Será que era porque....

“Sui Sui Ping An” soava bem quando dizia junto?

Como se tivesse percebido o que ela pensou, Yan Tingli disse indiferente:

“Aquele não se chamava Sui Sui, se chamava Xiao Yuan. ” (Redondinha) Shi Sui: “ … ” Que rancoroso.

Ele fez uma pausa, seu olhar passando rápido por ela.

Com um tom casual: “É Sui Sui Ping An. ” (Paz/Segurança da Sui Sui) Ping An era um gatinho muito levado.

Corria pela casa de madrugada e miava pontualmente de manhã pra acordar todo mundo.

Depois que pegaram Ping An, os dois passaram a acordar no horário todos os dias, como treinamento militar.

Nos dias longos, ficar em casa o tempo todo realmente era difícil de aguentar.

Eles tinham visto dezenas de filmes e finalmente ficaram cansados de ficar dentro de casa.

Yan Tingli então desenvolveu outras coisas pra fazer, como a plantação de hortaliças que ele morria de vontade de tentar.

Ele vivia encarando a horta da vizinha com um olhar profundo e misterioso.

Isso fez Shi Sui achar que ele queria roubar legumes, então ela tentou segurar a moral dele: “Aquela tia é meio brava. Se você quiser pegar alguma coisa, eu posso te levar na casa da Vó Zhao, ela… ” Yan Tingli bateu de leve no topo da cabeça dela com o nó do dedo: “Quem quer roubar legumes?”

Shi Sui: “ … ” “Eu quero plantar. ” Certo, o quintal da casa ancestral tinha justamente dois pedacinhos de terra.

Shi Sui ficou quieta olhando ele trabalhar.

Apesar de Yan Tingli ser preguiçoso muitas vezes, sua capacidade de execução era forte. No dia seguinte, ele foi ao mercadinho comprar mudas e ficou vendo vídeos de aprendizado com muita seriedade.

…Ele não estudou assim nem para o vestibular.

Shi Sui assistiu a um jovem mestre mimado, que no começo nem sabia reconhecer muda de vegetal, semear, soltar terra e colocar fertilizante direito.

No começo de agosto, a horta já estava bem verdinha, com as mudinhas todas florindo.

Yan Tingli anotava no caderno todo dia, calculando: “Daqui uns dez dias, você vai poder comer a alface que eu plantei. ” “Daqui quinze dias, você vai comer os pimentões que eu plantei. ” De repente, ele franziu a testa, olhando frio para a última fileira de tomates: “Por que vocês estão crescendo tão devagar?”

Shi Sui: “ …?”

Como alguém conseguia ficar bravo com tomates?

Yan Tingli olhou pra ela, descontente: “Você não vai conseguir comer antes das aulas começarem. ” “Eu posso pedir pros vizinhos virem colher… ” “Não, ” ele abaixou a cabeça e riscou algo no caderninho com a caneta:

“Eu vou arrumar um tempo pra voltar em setembro. ” Shi Sui ficou chocada: “ …Pra quê?”

“Pra colher os legumes. ” Ele fechou o caderno, “e voltar pra cozinhar pra você. ” Shi Sui sentiu como se o coração tivesse sido espetado por uma agulha.

Uma dor surda, difícil de descrever, se espalhou, quase impedindo ela de ficar ereta.

Quando eles chegaram, ela sentia o tempo passar devagar.

Mas mais pro fim, os dias passaram tão rápido que deixaram Shi Sui zonza.

Ela viu o verão indo embora devagar, os dias encurtando e as noites ficando mais longas, e até o som infinito das cigarras nas árvores começou a falhar.

Nessa noite, Yan Tingli voltou carregando um balde, empurrando o portãozinho de bambu que rangia.

Ao ouvir o barulho, Ping An pulou do seu ninhozinho com um “tum” , balançando o rabo enquanto corria até a porta, miando em volta do balde de água de Yan Tingli.

Shi Sui também se levantou da espreguiçadeira pra ver a “colheita” dele do dia.

Ele tinha desenvolvido um hobby de pescar recentemente, acrescentando sempre algo a mais nas refeições de Ping An.

Ping An não se interessava pela ração cara importada nem pelas latas compradas online, só comia aquilo a contragosto, como refeição de sobrevivência.

Yan Tingli tinha uma paciência especial com esse gatinho enjoado.

Depois de testar mais de dez tipos de comida e ver que Ping An ainda não engordava, Shi Sui sugeriu comprar peixinhos de rio pra fazer comida de gato.

Depois de pensar um pouco, ele comprou equipamento de pesca e passou a ir ao riacho pescar a cada dois dias.

No começo, ele arrastava ela junto, mas Shi Sui achou muito calor e se recusou a ir. Embora ele não ficasse muito feliz, ao ver o rosto dela todo vermelho do calor, ele acabou concordando, de mau humor.

Yan Tingli também era bem bom em pescar. Parecia que não tinha nada no mundo que realmente fosse difícil pra ele. Ele sempre voltava com o balde cheio.

Como ele sempre dizia.

Tudo o que ele queria, ele conseguia.

Shi Sui olhava para o meio balde que ele trazia todo dia e suspeitava seriamente que ele ia acabar com os poucos peixes daquele riacho.

Yan Tingli colocava luvas e preparava os peixes com cuidado, depois juntava peito de frango, abóbora, gema de ovo e camarão, moía tudo até virar uma pasta e cozinhava no vapor.

Ele se abaixava pra alimentar o Ping An, que já estava impaciente.

Shi Sui observava do lado.

Enquanto Yan Tingli alimentava o gato, ela discretamente pegou a câmera CCD que tinha comprado fazia tempo e mirou no perfil dele e do Ping An.

“Click. ” Ela tirou uma foto.

Shi Sui não conseguiu se controlar.

Um pedacinho da ponta do dedo dela apareceu na lente.

Assim, essa foto tinha ela dentro também.

“Você tá me fotografando escondido?” Yan Tingli virou a cabeça e olhou pra ela.

Ele sempre era muito sensível a esses movimentos mínimos.

Shi Sui largou a CCD e fingiu que nada tinha acontecido.

Yan Tingli estendeu a mão: “Me dá aqui. ” Ela não deu: “Relaxa, eu não te deixei feio. ” “Me dá aqui. ” Vendo que não tinha como escapar, Shi Sui entregou a câmera, a contragosto.

Ele pegou e deu uma olhada.

“Pra que tirar foto?”

Shi Sui: “ …Só achei que tava bonito. ” “Eu não gosto de tirar foto. ” O dedo de Yan Tingli parou no botão de excluir.

Shi Sui não teve coragem, e instintivamente segurou a mão dele.

Era a única foto que ela tinha de Yan Tingli. Ela não resistiu e disse: “Não apaga. Considera como uma lembrança. ” “Pra que a gente precisa de lembrança?” Ele rebateu, falando leve: “Só quem vai se separar é que precisa de lembrança. ” Shi Sui era facilmente deixada nervosa pelo que ele dizia. O coração dela subia e descia como numa montanha-russa, mas por fim voltou ao normal quando ela respondeu, meio vaga: “É verdade, então você… pode apagar. ” Depois de esperar um bom tempo.

A CCD foi enfiada de volta na mão dela. Olhando a foto, Shi Sui ficou surpresa.

Yan Tingli estava de cabeça baixa, a mão fazendo carinho na cabeça de Ping An.

“Considere a foto de comemoração dos cem dias do Ping An. ” Os traços dele estavam especialmente suaves sob a luz do pôr do sol.

Tão irreais que Shi Sui quase não conseguiu evitar pensar que aquilo tudo era um sonho.

Ela ficou olhando pra Yan Tingli e finalmente fez a pergunta que queria fazer há muito tempo: “Você é tão bom com o Ping An. ”

“Por que você fez aquela cirurgia?” Shi Sui escolheu as palavras com cuidado, “não quer ter filhos?”

Yan Tingli levantou o rosto e olhou pra ela devagar .

Ele falou meio divertido: “Filho serve pra quê?”

Shi Sui: “ …Hã?” Que tipo de resposta era essa?

“Gatinho sabe me deixar feliz, ” Yan Tingli falou sem se importar, “criança sabe?”

Shi Sui tentou com força achar algum motivo: “Mas com um filho a mais, teria mais uma pessoa no mundo que ama você. ” Os dedos de Yan Tingli pararam.

Depois de muito tempo, como se tivesse achado graça, ele soltou um “heh” pela garganta e virou o rosto pra olhar pra ela: “Sério? Você acha que eu amo o Yan Zecheng?”

Shi Sui ficou chocada.

Ela ouviu ele dizer, sem emoção: “Amar ele a ponto de desejar que ele morra na cama de uma mulher — isso conta?”

Vendo que ele estava dando sinais de outro surto, Shi Sui rapidamente balançou as mãos: “ …Você não pode usar exemplos tão extremos. ” Ela também não sabia por que queria continuar essa discussão.

Igual quando quis que ele ficasse com o gatinho.

Talvez...

Ela ainda achasse que ele era solitário demais.

Se no futuro pudesse ter mais alguém que ficasse ao lado dele.

De preferência alguém mais corajosa e mais confiante, que pudesse dar ao Yan Tingli uma família saudável e completa.

Não alguém covarde como ela.

Shi Sui se esforçou pra ignorar o azedo e a dor surda no peito e continuou:

“Crianças criadas com amor vão amar muito os pais. Igual eu amo muito os meus. ” Yan Tingli não reagiu a essas palavras, mas olhou pra ela, desconfiado:

“Você quer ter filhos?”

Shi Sui: “ …Ah. ” “Mesmo que você queira, eu não vou te dar nenhum. ” Ele guardou o potinho que o Ping An tinha terminado de comer, o tom ainda tão possessivo quanto sempre.

“Você só pode me amar, só a mim. ”