Tradução: Amme
Capítulo 08
Um Mundo Seguro
O porteiro estava visivelmente desconcertado.
Layla acenou para ele com um sorriso compreensivo, como quem reconhece que uma bicicleta velha e surrada não era exatamente o tipo de objeto que se esperava ver diante do melhor hotel da cidade.
O homem a observou com desconfiança, depois pousou o olhar no Duque Herhardt e em Claudine, e voltou a olhar para Layla mais algumas vezes. Por fim, relutante, permitiu que ela entrasse e mandou um carregador guardar a bicicleta no depósito. Layla o agradeceu e adentrou o hotel.
O salão de chá, que incluía uma área de pátio aberta, ficava ao lado direito do saguão principal. O gerente apressou-se a recebê-los e os conduziu a uma mesa no pátio, com vista para o rio. Layla foi a última a se sentar e, para sua surpresa, acabou posicionada diretamente de frente para o Duque Herhardt.
A lembrança do modo como ele a fitara naquele dia à beira do rio veio de imediato, fazendo-a baixar os olhos. A fina armação dourada dos óculos reluzía ao sol de verão que entrava obliquamente pelo toldo. O duque a observava com descontração, como se não houvesse nenhum motivo para constrangimento entre os dois.
Por que sou eu que sinto vergonha, se foi ele quem foi visto nu, não eu?, pensou Layla. Suponho que seja porque os nobres nos veem, a nós plebeus, mais como móveis ou quadros do que como pessoas de verdade. Ninguém se envergonharia de ficar nu diante de um móvel, nem se preocuparia que um quadro ficasse chocado ao vê-lo assim.
Enquanto chegava a essa conclusão, a mesa de chá foi posta. Uma xícara de café forte foi colocada diante do Duque Herhardt, sem que ele precisasse pedir. Ele a ergueu com os dedos longos e elegantes e tomou um gole.
Em seguida, ele e Claudine retomaram a conversa como se houvessem esquecido por completo que Layla estava ali. Discutiram sobre a exposição de arte que haviam visitado mais cedo, notícias de parentes em comum e a festa planejada para o fim de semana seguinte. A voz suave e grave de Matthias e a voz clara e aguda de Claudine se revezavam em intervalos regulares.
Layla não entendia por que a haviam convidado se não tinham interesse em conversar com ela, mas decidiu não pensar nisso. O comportamento de Claudine há muito superava sua capacidade de compreensão — e isso era assim desde aquele primeiro verão em que se conheceram, quando Layla tinha doze anos.
— Então, Layla, como vai a escola? Está sendo divertido? — perguntou Claudine em um tom ainda mais agudo, pousando a xícara no pires. Embora tivesse apenas um ano a mais do que Layla, sempre lhe falava como um adulto falaria a uma criança pequena.
— Sim, senhorita — respondeu Layla. Mentalmente, repetia a frase Pelo tio Bill em silêncio, como havia se acostumado a fazer para se armar de paciência na presença de Claudine.
Claudine assentiu satisfeita e fez mais algumas perguntas sobre a vida escolar. Layla respondeu a cada uma com um sorriso educado e um "Sim, senhorita". Sabia que era exatamente isso que Claudine esperava dela.
— Então você vai se formar no ano que vem? — perguntou Claudine, mantendo o tom amigável apesar do ar de tédio estampado no rosto.
— Sim, senhorita — respondeu Layla, continuando a desempenhar o papel que lhe havia sido atribuído.
— E o que pretende fazer depois de formada?
— Vou me certificar como professora.
— Professora...? — repetiu Claudine, arrastando a palavra enquanto erguia a xícara. O laço e a corsage em seu pequeno chapéu balançaram com o aceno de cabeça. — Que excelente meta, Layla. Acho que vai combinar muito bem com você. — O tom era o de quem elogia uma criança. — Não acha, Duque Herhardt?
Sem pensar, Layla seguiu o olhar de Claudine e se virou na direção do duque. Com os óculos, o azul claro de seus olhos sobressaía de maneira tão marcante que levou um instante para registrar que aqueles olhos estavam fitando diretamente os dela, e então baixou o olhar de imediato.
— Suponho que sim — concordou ele, com descontração.
Depois dessa breve demonstração de interesse, os dois pareceram esquecê-la novamente. O alívio que sentiu foi genuíno. Esperava que aquele chá entediante terminasse logo. Havia combinado de encontrar Kyle no centro depois do treino de tênis, e torcia para não se atrasar.
Inquieta, ergueu os olhos. Nesse instante, Matthias se virou para olhá-la. Desta vez, em vez de desviar o olhar, ela o encarou de volta.
Quando criança, os olhos dele lhe lembravam bolinhas de gude azuis, e certa vez imaginara que, se se chocassem, produziriam um tilintar cristalino. Ao ver aquele pensamento infantil ressurgir na memória, sentiu-se ainda mais distante do duque. Era como se a nitidez recém-descoberta em sua visão tivesse tornado seus sentimentos igualmente mais nítidos. Os lábios começaram a tremer com o crescente desconforto.
Logo se ouviu dizer:
— Com licença, Vossa Graça e senhorita Claudine. Posso me retirar? — Desviou o olhar de Matthias para Claudine, o que lhe permitiu recuperar um pouco o fôlego. — Tenho um compromisso com uma amiga em breve — acrescentou, com um fio de ansiedade na voz.
Claudine deu uma risadinha discreta e acenou com a cabeça em sinal de permissão. Layla soltou um suspiro de alívio. Em seguida, despediu-se com educação e saiu apressada do hotel. Assim que o carregador lhe devolveu a bicicleta, montou e partiu pela movimentada rua da cidade. Estranhamente, quanto mais se afastava do duque, mais nítido o rosto dele se tornava em sua mente.
Deve ser por causa dos óculos, pensou enquanto pedalava ofegante. Eu o vi com mais clareza, por isso estou me lembrando dele com mais clareza. Aquela racionalização a confortou um pouco. O que teria acontecido se eu estivesse usando os óculos naquele dia fatídico à beira do rio?
Justamente quando os pensamentos começavam a se tornar perturbadores, chegou ao ponto de encontro. Kyle, que já estava lá, acenou animado para ela com um sorriso radiante. Ela estava de volta ao mundo confortável e seguro que conhecia.
— Ela cresceu bastante, não foi? Parece uma moça de verdade agora — comentou Claudine, acompanhando com os olhos a saída de Layla. Falava com o tom de uma mãe comentando sobre a filha, embora tivesse apenas um ano a mais.
— Porque ela já é — respondeu Matthias, com um leve sorriso.
— É, acho que tem razão. Já tem idade suficiente para ser chamada assim — disse Claudine, afundando por um instante em seus pensamentos. Depois sorriu com vivacidade e mudou de assunto com habilidade: — Ah, por falar nisso, você soube que a Riette comprou um automóvel maravilhoso?
A conversa aristocrática prosseguiu. Era como se Layla jamais tivesse estado ali. Ela, no entanto, voltaria a aparecer em um lugar inesperado.
No caminho de volta a Arvis com Claudine, depois do tranquilo chá da tarde, Matthias olhava pela janela do carro enquanto o tráfego parava, e foi então que avistou Layla empurrando a bicicleta ao lado de um rapaz pela calçada. Devia ser o amigo com quem havia combinado de se encontrar.
O rosto do rapaz lhe pareceu familiar. Depois de um momento, reconheceu-o: era o filho do médico da família, Kyle Ettman, se não se enganava.
Layla gritou algo quando o rapaz ficou insistindo em tocar seus óculos com o dedo. Isso só fez com que ele redobrasse a manha. Por fim, ela suspirou e estourou em risadas.
Os dois riram e conversaram animadamente por um bom tempo, até pararem diante das escadarias da biblioteca. Layla desceu da bicicleta, abriu o apoio e sentou-se no degrau mais baixo.
Kyle retirou uma sacola de papel da cesta que carregava e sentou ao lado dela. Tirou de dentro duas garrafinhas de água com gás e um sanduíche. Compartilharam o lanche lado a lado. Cada vez que o rapaz dizia algo, ela ria; cada vez que ela ria, ele também ria.
Enquanto isso, o tráfego voltou a fluir, e Matthias se virou para a frente. Claudine, que havia estado olhando pela janela do seu lado, também se voltou para ele. Trocaram um sorriso e retomaram a conversa. Algum tempo depois, o pensamento de Matthias derivou da conversa de volta para o chá. Ocorreu-lhe que Layla não tocara a xícara uma única vez. Sentara com as mãos no colo durante todo o tempo, antes de se retirar em silêncio.
Ela me deixou para ir ao encontro daquele rapaz.
Ruminando esse pensamento, lembrou-se da expressão ansiosa e desconfortável no rosto dela enquanto o encarava.
Deve ter sido porque queria ir ver o rapaz.
Lembrou-se também da pressa com que ela deixara o pátio, quase como uma fuga.
Estava fugindo de mim para correr ao encontro dele.
O carro já havia chegado à Estrada Platanus, que levava a Arvis. Ao passarem pelo trecho mais ou menos no meio da estrada onde Layla caíra da bicicleta, Matthias pensou: Layla Llewellyn não significa nada para mim... Então por que ela me afeta assim?
— Já que você pagou o sanduíche, a sobremesa fica por minha conta — disse Layla alegremente, levantando-se dos degraus da biblioteca. Recolheu a sacola de papel vazia e as garrafinhas e as colocou na cesta da bicicleta.
— Não se preocupe. Não sou mesquinho com essas coisas — respondeu Kyle com um sorriso acanhado, ao sentar na bicicleta.
Layla ocupou o bagageiro. Kyle sentia o calor do corpo dela mesmo sob o sol forte do meio-dia.
A própria temperatura começou a subir, então começou a pedalar, esperando que a brisa o refrescasse. Ela segurava levemente a camisa dele com as pontas dos dedos enquanto andavam. Ele queria que ela o abraçasse pela cintura, mas não tinha coragem de pedir. Mesmo assim, não conseguia evitar sorrir ao sentir a proximidade dela.
Havia deixado a própria bicicleta em casa intencionalmente, só para poder andar na dela junto com ela. Tinha certeza, porém, de que ela não percebera isso.
— Sabe, Kyle? — disse ela, a voz suave se misturando ao tilintar da corrente da bicicleta.
— O quê? — respondeu Kyle. Seus nós dos dedos embranqueceram de antecipação no guidão.
— Vou comprar sua sobremesa de qualquer jeito. Sorvete tá bom?
Kyle deu uma risada. Achara que ela fosse dizer algo sério. — Seja honesta: você só está oferecendo porque está com vontade de comer sorvete.
— Não, não é isso... — respondeu ela, pouco convincente.
Kyle guiou em direção ao café em que ele e Layla sempre paravam no caminho de volta da escola. Enquanto colocava o apoio da bicicleta, ela entrou no café à sua frente. Em vez de segui-la, ficou esperando do lado de fora, na sombra fresca do toldo. Pouco depois, ela reapareceu segurando dois cones de sorvete de baunilha.
Saborearam os cones lado a lado. Era uma atividade cotidiana que repetiam incontáveis vezes, e mesmo assim, para Kyle, tudo parecia novo. Mal conseguia tirar os olhos dela. Devem ser os óculos novos, pensou.
Sem aguentar mais, sussurrou:
— Layla.
Quando ela o olhou, percebeu que suas bochechas estavam rosadas. O coração deu um salto, embora soubesse que provavelmente era só por causa do calor. Engoliu em seco, nervoso, depois deu uma mordida generosa no sorvete já meio derretido e disse:
— Está bom. O sorvete, quero dizer.
Layla sorriu sem convicção.
— Está, né? Baunilha é meu favorito — disse ela, erguendo o olhar para o céu azul e límpido de verão.
Ele contemplou o pescoço dela — longo e esguio — e percebeu que estava encarando. Voltou os olhos ao sorvete. Deu mais uma mordida. Era frio e doce.
