Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 7 - Algo Mais Assustador do que Isso

Capítulo 7 - Algo Mais Assustador do que Isso

Tradução: Amme

Capítulo 07

Algo Mais Assustador do que Isso


A princípio, Layla achou que estava vendo coisas. Isso lhe acontecia às vezes. Como sua visão era muito ruim, vez ou outra confundia uma fruta caída na trilha da floresta com um esquilo, ou se assustava com um tronco flutuando na água que parecia uma pessoa.

Mas, neste caso, a forma que via na água era inconfundivelmente humana. Conseguia perceber que era um homem. Um homem alto sem roupa nenhuma. Quando os cabelos negros e molhados entraram em seu campo de visão, ela teve de abandonar a ideia de que estava vendo coisas.

Não havia engano possível. O que flutuava no rio não era um objeto — era o Duque Matthias von Herhardt.

Largou o jornal de susto. Ele esvoaçou até o chão lá embaixo. Se não tivesse se agarrado instintivamente ao tronco da árvore, teria ido atrás do jornal. Uma voz interior começou a guiá-la. Feche os olhos. Não, desça da árvore e vá para casa. Ou ao menos grite. Mas tudo o que conseguia fazer era encarar, paralisada, o homem nu.

O mesmo se passava com o Duque Herhardt. Sem fazer nenhuma tentativa de cobrir o próprio corpo, ele fitava Layla de volta enquanto continuava a flutuar na água.

Será que ele não pode pelo menos flutuar rio abaixo?!, pensou ela. Naquele exato instante, o duque se virou bruscamente na água e começou a nadar em direção à margem perto de onde Layla estava.

— N-não! — gritou ela, a voz límpida ecoando ao longe. — Não faça isso! Não venha por aqui! O senhor não pode!

Desceu da árvore às pressas, em pânico. Esqueceu as boas maneiras e não fez nenhuma saudação formal ao duque. Esqueceu também o chapéu e a cesta.

Simplesmente correu. As pernas a carregaram pela trilha da floresta a uma velocidade incrível. Quando havia percorrido mais ou menos a metade do caminho de volta à cabana, alguém gritou:

— Layla!

Sem diminuir o ritmo, olhou e viu que era Kyle.

Com os olhos desviados da trilha, começou a tropeçar. Kyle correu para ampará-la antes que caísse.

— Onde você estava? — perguntou ele. — Não estava na cabana, fiquei te procurando por todo lado.

— Kyle, Kyle, o que eu faço? — murmurou ela, meio fora de si, ainda tentando recuperar o fôlego.

— Por quê? O que foi? Você encontrou algum animal selvagem?

Ela sacudiu a cabeça com veemência. Ainda mais confuso, Kyle olhou ao longe pela trilha na direção de onde ela vinha.

Não havia nada. A floresta estava calma e serena como sempre.

— O que foi, então? — perguntou ele. — Por que você está tão assustada?

— O que eu faço...? — perguntou ela. Os olhos começaram a se encher de lágrimas, e ela se deixou cair no chão. Erguendo o avental para cobrir o rosto, sacudiu a cabeça várias vezes, angustiada. Imagens do que vira continuavam surgindo na mente, por mais que não quisesse. Então, segurando os próprios cabelos, repetiu: — O que eu faço? O que eu faço, Kyle?

— Não consigo responder isso sem saber o que aconteceu. Então, o que aconteceu? — perguntou ele, franzindo o cenho enquanto se inclinava na direção dela.

Depois de um momento, ela ergueu os olhos para ele. O rosto estava vermelho como uma framboesa madura. O lábio tremeu como se fosse dizer algo, mas as lágrimas voltaram a aflorar e ela enterrou o rosto no avental outra vez.

Nesse ponto, Kyle não conseguiu evitar uma risada. — Ei, o que diabos você viu? Um fantasma?

Não, algo mais assustador do que isso, ela quis responder. Mas quando tentou falar, só conseguiu soltar suspiros quentes de ar.



Matthias explodiu em gargalhadas diante da cena que acabara de se desenrolar à sua frente. Pingos d'água escorriam dos cabelos até a ponte do nariz, de onde continuavam descendo. Nadou de volta ao cais próximo à cabana, vestiu-se e voltou até a árvore. Todos os pertences de Layla estavam espalhados no chão.

Examinou cada um deles com atenção. Aos pés da árvore, havia uma cesta grande e um chapéu. Por perto, havia um jornal e um lenço molhado. Deu uma risada ao ver a quantidade de framboesas na cesta. Será que ela estava tentando extinguir a espécie de framboesa de Arvis? Não conseguia acreditar que uma jovem tão miúda estivesse carregando uma cesta tão pesada.

Ocorreu-lhe então que aquela árvore parecia ser a mesma em que ela estava empoleirada tantos anos atrás, quando a confundira com um pássaro e quase a alvejara. Ergueu os olhos para os galhos superiores do tronco largo. Ainda se lembrava da imagem do rostinho dela lá em cima, olhando para baixo. Soltou outra risada.

Não me diga que ela ainda sobe em árvores por diversão.

Pensou em correr atrás dela, mas mudou de ideia e começou a caminhar de volta à mansão.

Naquela tarde, tinha de se reunir com o conselho de administração da empresa da família. Ainda não estava diretamente envolvido na gestão dos negócios, mas assumiria essa responsabilidade depois de ser licenciado do serviço militar. Por isso, era importante que adquirisse o entendimento mais completo possível da estrutura e do funcionamento da companhia.

Com base no patrimônio fundiário que já possuíam, a família Herhardt havia expandido enormemente o escopo de seus negócios, tanto no comércio quanto na exploração de recursos naturais. A imensa riqueza que a família detinha hoje havia sido acumulada principalmente pelo avô de Matthias, que tivera a ousadia de investir em petróleo no Novo Mundo.

Toda a honra e o poder que a família acumulara desde então recairiam agora sobre Matthias. Plenamente consciente disso, considerava a preservação dessa honra e o exercício correto desse poder como seu dever mais importante como duque. Tinha plena confiança de que seria capaz de cumprir esse dever melhor do que qualquer outro. Era uma convicção da qual jamais duvidara, nem por um instante.

Ao chegar de volta à mansão, foi direto ao quarto, onde trocou de roupa e penteou o cabelo desalinhado.

Depois de se arrumar, acomodou-se na cadeira à janela no lado oeste do quarto. Ainda faltava cerca de uma hora para a reunião. Concluindo que uma hora era tempo demais para desperdiçar sem fazer nada, estava prestes a se levantar e sair do quarto quando ouviu um pio.

Olhou na direção de onde vinha o som e viu que o canário na gaiola sobre a mesa estava cantando. Desde que o pássaro fora trazido para o quarto, estivera tão quieto que Matthias pensara que ele não sabia cantar. Mas, ao ouvir aquela bela melodia agora, percebeu o quanto estava enganado.

Aproximou-se da gaiola e abriu a portinha. O canário parou de cantar, bateu as asas cortadas e conseguiu escapar da gaiola.

Decidindo não sair do quarto afinal, Matthias recostou-se no parapeito da janela e ficou observando o pássaro. Era surpreendentemente ativo para um bichinho tão pequeno. Tentava voar e caía. Tentava de novo e voltava a cair. Continuou saltitando pelo quarto dessa forma sem parar por um bom tempo.

Por fim, pareceu ter se esgotado, e pousou com delicadeza no braço da poltrona. Matthias o recolheu para colocá-lo de volta na gaiola. Em vez de se debater e guinchar como fizera antes, o canário se entregou obedientemente às suas mãos com suavidade.

Intrigado com essa mudança de comportamento, Matthias tentou pousar o pássaro no próprio dedo. Para sua surpresa, o canário não tentou escapar — ficou ali, tranquilo, encarando-o de volta sem nenhum medo.



— É como se eu estivesse vislumbrando um mundo novo — murmurou Layla, atônita.

O óptico de cabelos grisalhos deu uma risada simpática.

— Levando em conta como sua visão era ruim, acredito. Deve ter sido muito difícil.

— Não foi tão ruim assim, exceto quando tentava ler — respondeu ela, animada, enquanto tirava os óculos e os colocava de novo.

Ao fazê-lo, o mundo turvo se tornava milagrosamente nítido. A surpresa ainda não havia passado.

Havia transformado os montes de framboesas colhidas na floresta em geleia, que então vendera. Assim que juntara dinheiro suficiente para comprar óculos, foi de bicicleta até a cidade. Não teve dificuldade em encontrar a ótica, pois havia fitado longamente a vitrine muitas vezes antes.

Depois de conversar mais um pouco com o óptico, saiu da loja. O mundo ao redor, incrivelmente nítido, parecia novo e maravilhoso.

A cada passo, descobria um novo detalhe desse mundo recém-revelado. Sentia-se repleta de amor e gratidão pelas framboesas silvestres da floresta de Arvis que haviam tornado isso possível. Também se orgulhava de si mesma por todo o esforço que fizera — não só para colhê-las, mas também para ficar parada diante de um fogão quente, mexendo a geleia até sentir que o braço ia se partir.

Mas por que, num momento tão maravilhoso como este, essas lembranças indecentes continuam me invadindo a mente?, pensou, franzindo o cenho enquanto tentava expulsar da cabeça a memória de quando vira, sem querer, o corpo nu do duque.

Naquele dia ficara tão agitada e assustada que esperara até o entardecer para buscar a cesta. A essa hora, a floresta já estava quieta e o rio corria tranquilo. A calma do lugar finalmente lhe trouxe alívio. Apanhou o chapéu e a cesta e foi embora. Ainda assim, as bochechas continuavam quentes. Estava tão distraída que nem sentia o peso da cesta cheia nos braços. Depois daquele dia, sentiu-se acanhada perto de homens — até mesmo perto de Bill e de Kyle.

Mesmo que seja a terra dele, por que o duque nada nu em plena luz do dia?

Sacudiu a cabeça para tentar se livrar da memória desagradável.

É melhor eu não voltar ao rio enquanto o duque ainda estiver em Arvis.

Feita essa resolução, voltou a caminhar, quando ouviu uma voz conhecida.

— Layla...?

A voz alta e aguda parecia ser a de Claudine von Brandt.

Chegou a hora. Layla parou um instante para se recompor e, compondo um sorriso cortês, virou-se devagar.

Para sua grande surpresa, porém, a pessoa que viu era justamente o homem que tanto vinha perturbando seus pensamentos — o Duque Herhardt.

Estava ali, em pleno meio daquele mundo recém-nítido. O susto foi tamanho que levou um momento para notar Claudine ao lado dele. Claudine havia parado de visitar Arvis durante o período em que o Duque Herhardt serviu no exército, e Layla não a via havia muito tempo. Nesse intervalo, Claudine havia se transformado em uma nobre perfeita.

Layla fez uma reverência educada, e os dois corresponderam com um aceno gracioso.

— Desde quando você usa óculos? Quase não te reconheci — disse Claudine. Layla esperara que simplesmente passassem sem dizer nada, mas agora não tinha outra escolha senão continuar sorrindo cortesmente para Claudine, tendo o cuidado de não olhar para o Duque Herhardt.

— Tem passado bem? — perguntou Claudine, observando Layla de perto com os olhos semicerrados.

— Sim, senhorita.

— Estávamos a caminho de tomar um chá — disse Claudine, sorrindo enquanto lançava um olhar para o hotel do outro lado da rua. Layla ficou sem saber qual era a resposta adequada. Devo dizer "Sim, senhorita"...? Ou talvez "Que bom, senhorita"?

Antes que tivesse chance de dizer qualquer coisa, Claudine teve piedade dela.

— Você devia vir conosco, Layla.

— Como, senhorita?

— Faz tanto tempo que não nos vemos, adoraria tomar um chá com você. Está bem assim para você, Duque Herhardt?

Matthias sorriu sutilmente em sinal de concordância. Layla registrou mentalmente que Claudine não lhe perguntara se estava bem para ela. Aquilo não era nenhuma novidade, é claro.

Matthias e Claudine continuaram caminhando. Os acompanhantes, que aguardavam nas proximidades, os seguiram. Layla soltou um suspiro e virou a bicicleta. O rangido das rodas gastas se mesclava ao clique dos sapatos caros dos nobres sobre o calçamento.