Tradução: Amme
Capítulo 70
Você Não é Nada
— Tomou a decisão certa, senhorita Llewellyn. Não há lugar melhor para ensinar do que na nossa escola da aldeia — disse a diretora, sorrindo alegremente.
Sentada do outro lado da mesa da sala de estar, Layla esboçou um sorriso fraco e baixou os olhos, parecendo constrangida com a mudança repentina de planos. — Me desculpa por ter lhe causado preocupação desnecessária pedindo a transferência.
— Não há com que se preocupar, senhorita Llewellyn. Fico só feliz que vai ficar. Mas queria perguntar... A senhora realmente não tem interesse em ver o Theo de novo?
— Como? Theo...? Ah! — Levou um momento para lembrar que esse era o nome do filho do dono do armazém.
Por sorte, a esposa da diretora entrou naquele instante, trazendo uma bandeja de chá. — Não a pressione, querido — disse ela. — Está constrangendo a moça!
— Não estava tentando pressioná-la, só acho uma pena — respondeu ele. Examinou o rosto de Layla, que parecia desconfortável. Perguntou-se se ela considerava o filho de um comerciante aquém de suas expectativas, já que havia sido noiva do filho de um médico. De qualquer forma, certamente havia percebido a essa altura que mirar tão alto era imprudente. Depois de ruminar em silêncio por um momento, deu uma risadinha constrangida e mudou de assunto. — A propósito, senhorita Llewellyn, o que acha de ser escalada para a peça do próximo espetáculo beneficente? Acho que aumentaria consideravelmente as doações.
Aquela brincadeira inesperada fez Layla explodir em risadas. Era a primeira vez que ria com sinceridade em muito tempo.
Conversaram sobre a escola, os alunos e os planos de Layla para o próximo semestre enquanto tomavam o chá. Depois ela saiu da casa da diretora. Em meio à multidão de pessoas caminhando apressadas pela calçada naquela tarde invulgarmente fria, ela era a única que andava bem devagar. Não gostava do frio, mas também não estava com vontade de correr de volta para Arvis.
Depois de perambular pelo distrito comercial, contemplando as vitrines das lojas sem prestar muita atenção ao que via, parou no meio da praça em frente à Estação Central de Karlsbar.
E se eu subisse num trem e fosse embora de Karlsbar agora mesmo?
Assim que aquele pensamento surgiu, sabia que era uma fantasia vã. Não podia ir embora. Como poderia abandonar o tio Bill? E para onde iria? Mesmo que conseguisse persuadir o tio Bill a ir com ela, o duque certamente os encontraria. Isso poderia deixá-la em uma situação ainda pior do que a atual. Para encerrar esses pensamentos frustrantes, fechou os olhos e se virou resignada.
As intenções do duque ao permitir que o tio Bill continuasse a viver e trabalhar em Arvis eram claras. Era por causa de nada mais do que a lascívia mesquinha que sentia por ela. Agora que havia dormido com ela, provavelmente logo ficaria entediado e a descartaria. Sentia-se ainda mais certa disso do que antes. Afinal, ele havia deixado claro naquela noite o que ela significava para ele.
Por favor, que ele fique entediado de mim o quanto antes, ela pediu em silêncio enquanto dobrava para a Estrada Platanus.
Naquele instante, pensou nas cartas de Kyle.
Minha querida Layla — ele havia começado cada uma das dezenas de cartas da mesma forma. Havia lido e relido cada uma naquela manhã. Não precisou perguntar ao tio Bill por que havia guardado as cartas. Entendia por que havia sentido que não tinha outra escolha. Aquilo só a deixou ainda mais triste.
— Ah, Layla, sobre as cartas que deixei aqui na mesa... — Bill havia dito na manhã seguinte ao retorno da delegacia. — Me desculpa.
Ela havia ficado em silêncio, com um sorriso gentil no rosto.
— Acho que tenho bastantes razões para me envergonhar diante de você — havia acrescentado.
A luz pálida do sol de inverno havia deixado os cabelos grisalhos dele parecerem brancos naquela manhã.
— Quero que saiba, Layla, que se ainda tiver sentimentos pelo Kyle, vou apoiar você totalmente — havia dito com um olhar de determinação nos olhos. — Foi errado da minha parte tentar decidir que caminho você deveria tomar na vida. Percebi isso agora, e me desculpo.
Ele havia continuado a pedir desculpas, mas ela não estava com humor para ouvir.
— Estou bem — havia dito por fim. — Agora, vamos tomar café da manhã, tio Bill.
Ele havia a contemplado com o sorriso melancólico por um momento, depois assentiu e começou a comer. Nenhum dos dois terminou a refeição naquela manhã.
Antes de passar pelo portão de Arvis, respirou fundo e cerrou os punhos.
Se não sou nada para ele, ele não é nada para mim. Pensava aquilo toda vez que memórias da noite com o duque lhe cruzavam a mente.
Como não é nada para mim, não pode me machucar.
As pernas tremiam, e os punhos estavam ficando úmidos, mas passou pelo portão com confiança. Por causa do passo acelerado, estava quase sem fôlego quando chegou à cabana.
Correu para dentro e soltou um suspiro de alívio. Bill estava determinado a retribuir a gentileza que o duque havia demonstrado, então havia estado trabalhando na restauração das plantas da estufa todos os dias, de manhã cedo à noite. Por isso a cabana estava vazia.
Cambaleou até o quarto e desabou na cama.
Minha querida Layla — não conseguia parar de pensar nas cartas de Kyle, então fechou os olhos para bloquear os pensamentos. Assim que o fez, porém, a mente foi inundada de memórias da noite com o duque. Bem quando estava prestes a desabar em soluços, ouviu um bater na janela. Aquele som, que costumava a encher de animação, agora só lhe causava medo.
Abriu a janela com as mãos frias e trêmulas. Phoebe estava lá com um bilhete do duque.
— O senhor realmente teve de permitir que o jardineiro continuasse trabalhando em Arvis? — perguntou Claudine quietamente, mantendo o sorriso no rosto.
Todos os presentes na sala de estar da mansão olharam para ela.
A mãe, sentada ao lado, lançou-lhe um olhar que parecia dizer: Fica quieta!
Claudine, porém, não recuou. — Retirar a queixa contra esse jardineiro imprudente foi um gesto nobre. Mas não sei se permitir que fique em Arvis foi a decisão mais sábia, Duque Herhardt. Como saber se não vai causar outro acidente?
— Entendo a preocupação da senhora, milady — respondeu Matthias, também sorrindo —, mas é importante lembrar que foi o próprio Bill Remmer quem cultivou as plantas da estufa que a senhora tanto amava. Se quisermos restaurá-la à glória anterior, não há ninguém mais indicado para o trabalho do que ele.
Apesar do tom amigável de Matthias, Claudine percebia que ele não tinha nenhuma intenção de mudar de ideia.
— Certamente adoro o paraíso de Arvis — respondeu ela. — Se ele é a única esperança de recuperá-lo, então suponho que vale a pena mantê-lo no quadro de funcionários por algum tempo.
A Condessa Brandt soltou um suspiro de alívio ao ouvir a filha fazendo essa concessão.
A conversa progrediu do estado de recuperação das feridas da Duquesa-viúva Herhardt ao elogio público pela decisão da família Herhardt de retirar a queixa contra o funcionário, depois para os preparativos do casamento que se aproximava. Claudine manteve o sorriso e as habilidades refinadas de conversação ao longo de todo o tempo. Ninguém conseguia dizer que ela estava pensando em Layla o tempo todo.
Tinha certeza de que Matthias havia dormido com ela. Era esse tipo de homem. Quando havia algo que queria, fazia o que fosse necessário para obtê-lo. Não havia como alguém como Layla conseguir evitá-lo.
Quando Claudine havia soubera do acidente em Arvis, havia sentido ao mesmo tempo tristeza e alívio — tristeza por a amada estufa ter sido destruída, mas alívio ao pensar que isso significaria que o jardineiro, e portanto Layla, teria de deixar Arvis.
Claro que sabia que a partida de Layla de Arvis não significaria o fim do caso de Matthias com ela. Mas aquilo era entre Matthias e Layla. Só queria que Layla fosse embora de Arvis antes de se mudar para lá. Planejava ser uma esposa tolerante, mas não tolerante a ponto de aceitar que o marido mantivesse uma amante na propriedade deles!
Agora temia, porém, que Matthias estava planejando exatamente isso, já que havia permitido que o jardineiro ficasse em Arvis.
— Se eu fosse você, Claudine, teria cuidado para não provocar o Matthias — havia dito Riette alguns dias antes. — Se o caso já acabou, ótimo. Se não, provavelmente a melhor estratégia é só sentar e deixar seguir o próprio curso. — Havia dado esse conselho insondável com uma expressão mais séria do que de costume.
Claudine não havia nem concordado com ele nem entendido o motivo pelo qual havia dito aquilo.
Sabia exatamente para quem Matthias havia decidido deixar o jardineiro em Arvis. Não acredito que a Layla consegue controlar o Duque Herhardt assim, ela pensou. Parece inocente, mas aparentemente é bastante habilidosa em manipular homens.
Conforme foi se cansando de pensar em Matthias e Layla, fez um esforço para participar do jantar com ainda mais graça e entusiasmo. Quando a refeição acabou, estava exausta.
Felizmente, a Duquesa-viúva e Lady Herhardt haviam mencionado antes que iriam dormir mais cedo, então o jantar terminou antes do usual.
Mais tarde naquela noite, a Condessa Brandt visitou a filha no quarto de hóspedes onde estava hospedada. — Não disse nada antes porque o Matthias estava presente, mas sinto o mesmo que você. Não faz nenhum sentido manter o jardineiro no quadro de funcionários depois de ter causado um acidente tão grave. Coisas assim mostram como a família Herhardt pode ser indulgente.
Claudine, que havia estado contemplando a estufa destruída pela janela, se virou e sorriu calmamente para a mãe. — Não se preocupe, mãe. O jardineiro só vai ficar aqui até o próximo verão, no máximo.
— O que está dizendo, Claudine? Não me diga que está planejando demitir o jardineiro em quem a Duquesa-viúva Herhardt e o Matthias depositam tanta confiança!
— Só estou dizendo que é natural que uma nova duquesa queira um novo jardineiro.
— Terminei os preparativos que o senhor solicitou — disse Hessen quietamente a Matthias. Matthias lançou um olhar para a grande cúpula de prata em forma de domo sobre a mesa da sala de estar da cabana. — Muito bem — disse. Depois foi para o sofá, como de costume.
Hessen entregou-lhe a correspondência do dia, depois saiu da cabana. Era principalmente convites para festas e eventos sociais de fim de ano. Havia também uma carta informando que o príncipe herdeiro e a princesa herdeira visitariam Arvis no início do ano seguinte como parte de uma tournée pelo norte do império.
Pegou a caneta-tinteiro do bolso do paletó e começou a escrever uma resposta. Depois de terminá-la e assinar, recolocou a tampa e deu uma risadinha.
Layla Llewellyn.
O nome, gravado em letras douradas, cintilava na luz fraca da lareira. Havia estado usando a caneta desde o outono anterior. Havia começado a usá-la por brincadeira, mas logo havia se acostumado.
"Por que fica roubando as minhas coisas?" Dava uma risadinha toda vez que pensava no jeito com que Layla havia lhe feito aquela acusação. A pergunta seguinte o divertia especialmente: "Você é... um corvo?"
Girando a caneta entre os dedos longos, verificou o relógio de pulso. Deve ser a qualquer momento agora, ele pensou. Naquele instante, ouviu uma batida à porta.
Guardou a caneta de volta no bolso do paletó, levantou-se e abriu a porta. Era exatamente a pessoa que havia esperado — sua amante, Layla.
