Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 69 - Salvador

Capítulo 69 - Salvador

Tradução: Amme

Capítulo 69

Salvador


Matthias foi tirado do devaneio pelo som de Layla sussurrando fracamente.

— Você prometeu...

Ainda dentro dela, ergueu a cabeça e viu os olhos verdes encarando-o de volta. Soltou os cabelos, que havia estado agarrando com bastante força, e pousou a mão na bochecha corada dela.

— Você prometeu... que retiraria... a queixa... — ela sussurrou enquanto lutava para recuperar o fôlego.

Quando compreendeu o que ela estava dizendo, soltou uma risada oca. Ficou surpreso de que ela estivesse implorando com tanta desesperança mesmo num momento como aquele. Mesmo assim, não se importou.

Os olhos dela eram belos como pedras preciosas, independentemente do motivo pelo qual estavam fixos nele.

Como não respondesse, ela fez esforço para erguer a mão do chão e agarrou o braço dele.

Quando viu que ela estava à beira das lágrimas, relutantemente assentiu. Ela então soltou um suspiro de alívio, soltou o braço e fechou os olhos. Ele continuou a contemplá-la.

Mais uma vez. Cheio de um desejo que não compreendia completamente, continuou a contemplá-la por um longo tempo, mas nada mudou. Com os olhos fechados e a cabeça virada para o lado, tudo que conseguia detectar no rosto dela era uma recusa obstinada.

Deu uma risadinha e agarrou os cabelos de novo para puxá-la em sua direção. A dor a fez abrir os olhos de novo.

Observando calmamente o medo nos olhos dela, inclinou-se para um novo beijo.

Um acordo justo, de fato, ele pensou.



Layla acordou em um quarto cheio de luz brilhante da manhã. Com esforço, sentou-se e se apoiou na cabeceira da cama. Por um breve momento, alimentou a esperança de que o que havia acontecido fosse um pesadelo. Mas essa esperança se apagou rapidamente quando viu as marcas dolorosas espalhadas por todo o corpo.

Depois de voltar da cabana na noite anterior, havia desabado na cama e adormecido imediatamente. Por mais que quisesse livrar o corpo de todos os rastros dele, não havia tido forças. Havia exigido todo o esforço que tinha apenas para chegar à cabana sem desmaiar.

O corpo estava coberto de marcas de mãos, manchas de sangue e outro tipo de mancha sobre o qual não queria pensar. Estremeceu ao sair da cama. O corpo doía tanto que parecia que ia se desfazer. A cada passo em direção ao banheiro, a dor física despertava memórias dolorosas que davam vontade de chorar.

Não é nada, ela disse a si mesma enquanto esfregava e esfregava o corpo. Em termos de grandes problemas, não é nada. Aferrava-se àquela ilusão, mesmo sabendo que era flagrantemente falsa.

Isso lhe permitiu recuperar boa parte da compostura até que se vestiu e se sentou à mesa do jantar.

Certo. Comer alguma coisa para ter forças, depois ir ver o tio Bill.

Concentrando-se nas tarefas à sua frente, colocou no prato um pouco da comida que a cozinheira Mona havia trazido. Não tinha absolutamente nenhum apetite, mas conseguiu engolir alguns bocados com água.

Depois de comer o quanto conseguiu suportar, notou a pilha de envelopes na borda da mesa.

Assim que puxou a pilha para perto, uma expressão de devastação tomou o rosto. Os envelopes eram todos de Kyle. A princípio não acreditou, então os conferiu um a um. Todos traziam o nome dela na caligrafia inconfundível dele.

Ficou atordoada por um momento, depois pegou o envelope do topo com mãos trêmulas e o abriu.

Era uma carta que Kyle havia enviado no começo do outono anterior. Começou a ler.

Minha querida Layla...



— Obrigado, Vossa Graça. Não sei mesmo o que dizer — disse Bill, se curvando repetidamente para o duque. O rosto estava abatido depois de vários dias na cadeia, mas os olhos estavam cheios de vivacidade. — Não acredito que o senhor retirou a queixa quando... — Deixou a frase no ar, com os olhos marejados, tomado pela emoção.

Por sorte, Layla entrou na delegacia depois que Bill havia parado de chorar.

— Layla! — A voz sonora de Bill ecoou pelo corredor da delegacia.

Todos os olhos se voltaram para Layla, inclusive os do Duque Herhardt e do advogado que havia ido até a delegacia para retirar a queixa contra Bill.

— Tio Bill! Que foi isso...? — O olhar alegre desapareceu do rosto no instante em que fez contato visual com o duque.

— Parabéns, Layla. Vossa Graça retirou todas as queixas contra o Sr. Remmer — disse um policial enquanto se aproximava.

— A-ah... sim — respondeu ela, olhando de volta relutantemente para Matthias.

Ele a olhava de volta com uma expressão indiferente, como se não tivesse nenhuma memória do que havia acontecido na noite anterior.

— Muito obrigada, Vossa Graça — disse ela, curvando a cabeça profundamente enquanto lutava para suprimir todas as emoções que borbulhavam dentro dela.

As mãos começaram a formigar, e os olhos a tremer.

Sentia-se muito constrangida, mas felizmente ninguém pareceu notar, exceto o próprio Duque Herhardt.

Enquanto o advogado conversava com os policiais, Matthias fez contato visual com Layla de novo. Ela o encarou de volta com os lábios firmemente cerrados.

Se quer me dar um show de bravura, deve começar escondendo as mãos trêmulas, ele pensou, dando uma risadinha.

Embora pudesse simplesmente ter mandado o advogado à delegacia sozinho, Matthias havia ido junto para ver Layla Llewellyn, sua descarada amante.

A memória o transportou de volta para a noite anterior na cabana. Depois que as coisas se acalmaram, estava quase tão desalinhado quanto ela. A camisa tinha sangue e faltavam botões, e os cabelos estavam encharcados de suor. Deu uma risadinha de si mesmo e se levantou.

Ela estava deitada no tapete, o corpo encolhido em posição fetal.

A luz da lareira brilhava fracamente na pele nua.

Com exceção dos sapatos e das meias ao redor dos tornozelos, não tinha nada. O som da respiração dela se misturava ao crepitar do fogo.

Depois de se revestir, sentou no sofá e ficou a contemplar. Ficou grato de ela ter obstinadamente virado o rosto para o outro lado.

Os cabelos longos e desembaraçados cobriam as costas e os ombros esguios. As nádegas e as coxas pálidas estavam salpicadas de manchas de sangue e marcas de suas mãos. Gostava do fato de que a pele dela era tão fácil de marcar.

Pensou em chamar o nome dela, depois mudou de ideia e alcançou um cigarro com mais urgência do que de costume. Depois de colocá-lo entre os lábios, porém, esqueceu de acendê-lo.

O olhar derivou devagar para os pés dela, depois subiu ainda mais devagar pelo corpo até a cabeça. Irritava os nervos o jeito como ela ficava imóvel. Sabia que, se quisesse, podia agarrá-la com uma só mão e fazê-la se submeter a ele de novo. Mas não queria aquilo.

Esmagou o cigarro apagado e o jogou no cinzeiro. O cenho se franziu ao pensar em como não havia tido paciência para carregá-la a curta distância da sala de estar até o quarto. Sabia que fazer isso não teria mudado muita coisa, mas talvez não se sentisse tão sujo quanto rolar pelo chão com ela o havia feito sentir.

Decidindo que a faria se levantar quisesse ela ou não, levantou-se do lugar. Assim que deu o primeiro passo em direção a ela, o corpo dela visivelmente ficou rígido. Admirado com a teimosia de continuar com o rosto apontado para o outro lado, deu uma risadinha quieta.

Pegou o paletó da cadeira onde estava e o jogou sobre o corpo tremendo dela. Ela se contraiu, mas continuou virada para o outro lado. Por um momento, sentiu-se incerto sobre qual dos dois essa experiência era mais vergonhosa.

Respirou fundo para aquietar a autoaversão que sentia, depois foi ao banheiro. Havia algo nela que irritava os nervos, mas não sabia o que fazer com aquilo. O que o deixava ainda mais confuso era o fato de que, em meio à irritação, sentia-se feliz e satisfeito. Depois de tomar banho, decidiu tentar consolá-la. Portanto, ficou ainda mais desconcertado quando voltou à sala de estar e a encontrou vazia.

Ela havia fugido. Chegou a essa conclusão embaraçosa depois de vasculhar toda a cabana. Tudo que havia deixado para trás eram os botões da blusa e algumas mechas de cabelo dourado.

Quando viu que ela havia arrumado cuidadosamente o paletó de volta na cadeira, explodiu numa risada perversa. Imaginou-a correndo pela trilha da floresta no meio daquela noite gelada, segurando as laterais da blusa sem botões. Era o quanto odiava estar perto dele.

Enquanto estava de pé na delegacia, pensando nessas memórias, sabia que havia se abstido de correr atrás dela apenas porque a paciência havia chegado ao limite. Se a tivesse encontrado de novo, provavelmente não a teria tratado com muita gentileza.

Vê-la agora só aumentava essa certeza, pois reacendia os maus sentimentos que havia sentido ao ficar sozinho.

— Tomou uma decisão verdadeiramente louvável, Vossa Graça. O senhor merece todo o respeito que a Casa Herhardt recebeu por gerações.

As palavras de louvor do policial trouxeram Matthias de volta ao presente. Agradeceu com humildade ao policial, depois saiu da delegacia.

Não só Bill e Layla, mas também vários policiais o seguiram até a porta para se despedir. O assistente e o motorista saíram apressados do carro para cumprimentá-lo.

— Vossa Graça, não vou esquecer a sua gentileza até o dia que eu morrer — disse Bill. — E mesmo depois de morrer, ainda não vou esquecer. Juro que não vou.

— Não foi nada, Sr. Remmer — respondeu Matthias, lançando um rápido olhar para a mulher parada ao lado do jardineiro.

Os olhos dela brilhavam belamente enquanto o olhava de volta, ou melhor, enquanto o fulminava com o olhar.

— Até Arvis — disse antes de entrar no carro.

A olhou de novo pela janela do carro; ela ainda não estava sorrindo. Virando-se, começou a sorrir. Estava determinado a vê-la de novo em estado desgrenhado.



— Você vai ficar em Arvis? Como assim? — perguntou Layla incrédula.

Bill deu uma festinha na cabeça dela, sem conseguir esconder a alegria. Haviam voltado da cidade a pé, e o portão de Arvis estava à frente.

— É graças ao duque — respondeu.

— O quê?

— Ele disse que podemos continuar morando na cabana perto do terreno de caça, e que posso continuar fazendo o jardim de Arvis.

— Mas...

— Naturalmente, tentei recusar. Como poderia continuar trabalhando como antes depois da vergonha de ter causado um acidente tão grande? Perguntei a ele. Sabe o que o duque disse a isso? Disse que a melhor forma de compensar meu erro era trabalhar ao máximo para fazer as plantas da estufa voltarem a ser como eram antes. Disse que, já que eu mesmo fiz da estufa o paraíso de Arvis, deveria ser eu a trazê-lo de volta. E sabe, acho que ele tem razão! — Ao refletir sobre isso, os olhos de Bill começaram a se encher de lágrimas.

Os dias na cadeia haviam sido um inferno na terra. Mais do que o medo de ter a própria vida arruinada, havia sido atormentado pela culpa de pensar que, se tivesse uma pena de prisão, estaria deixando Layla completamente sozinha.

— A Duquesa-viúva e a Lady Herhardt também aprovaram essa decisão?

— A Duquesa-viúva Herhardt concordou de boa vontade, e a Lady Herhardt concordou depois que o duque a persuadiu. Estou dizendo, Layla, devemos muito ao duque. Ele é verdadeiramente o nosso salvador.

Salvador.

Ela começou a sentir tontura ao ouvir Bill dizer essa palavra, que parecia tão fora de lugar ao ser aplicada a um homem tão cruel.

Não posso de jeito nenhum deixar o tio Bill descobrir.

Enquanto repetia isso internamente, conseguiu se acalmar até certo ponto, mas o coração continuou a bater furiosamente.

— Depois de décadas cuidando deles, o jardim e a estufa de Arvis me parecem parte de mim, Layla. Depois de destruir a estufa, achei que ia ser consumido pela culpa pelo resto da vida. Agora que me deram uma chance de restaurá-la, sinto como se um peso enorme tivesse sido tirado. E sinto que é uma forma de poder retribuir a gentileza do duque.

— É, tio Bill... — respondeu ela, sem conseguir esconder o tremor na voz.

— Mas não precisa se preocupar mais, Layla. Daqui em diante, vou ter o máximo de cuidado. Por sua causa.

Parando na frente do imponente portão de Arvis, pousou a mão no ombro dela. O rosto abatido estava cheio de vida.

— Bill! Você voltou mesmo!

Uma multidão de funcionários correu em direção a eles. Enquanto cumprimentavam Bill, Layla contemplou as grades de ferro do portão de Arvis, nas quais estava afixado o brasão dourado da Casa Herhardt.

Pareciam grades de prisão lindamente forjadas.