Tradução: Amme
Capítulo 67
O Senhor de Arvis
— Realmente sinto muito pelo Bill Remmer — disse Katharina von Herhardt, pensativa.
Elise von Herhardt resfolegou. — Do que está falando? Por causa desse jardineiro, a estufa foi destruída, e a senhora ficou machucada!
— Meus ferimentos não são muito graves — respondeu Katharina.
— Meu Deus. Não são muito graves?! Realmente não entendo por que a senhora é tão condescendente com o Bill.
Normalmente Elise respeitava as opiniões de Katharina mesmo quando discordava, mas desta vez estava expressando o desacordo de forma bastante direta.
— O Hessen deu a ele um aviso firme sobre o gerador e ele ignorou. Como pode dizer que as ações dele não foram intencionais?
— Vamos, conhecemos o Bill há muito tempo. Ele nunca faria uma coisa dessas de propósito.
— E os meus pássaros que morreram? E as suas flores preciosas?
Elise estava ficando bastante agitada. — E não é só isso. Com o gerador quebrado, perdemos a eletricidade. Todos os nossos planos para o fim de ano estão arruinados!
O salão de recepção e a sala de jantar eram mobiliados com luzes elétricas. Sem eletricidade, não seria possível usá-los para a festa de réveillon.
— Disse que nunca deveríamos ter instalado essas luzes elétricas modernas — disse Katharina. Havia demonstrado uma atitude cética em relação à eletricidade desde o início e não parecia minimamente infeliz com a perda do gerador. — Claro que estou chateada com os danos à estufa. Mas punir o jardineiro não vai fazê-la voltar. Ele nunca poderia pagar pelo conserto.
— Talvez não, mas puni-lo ao menos serviria de aviso para os outros funcionários.
— Está falando em mandá-lo para a prisão?
— Sim, acho que a punição deve ser condizente com o crime.
— Elise, o Bill Remmer trabalha aqui em Arvis desde antes de o Matthias nascer. E se ele for para a prisão, o que vai ser da Layla? Ele é a única pessoa no mundo com quem ela pode contar.
— Não temos nenhuma obrigação de nos preocupar com a filha adotiva do nosso jardineiro. Além disso, ela já é adulta. Não pode viver em Arvis sem pagar aluguel para sempre. — Seria natural ignorar o que Bill havia feito, mas a atitude de Elise permanecia firme. — Também sinto muito pela Claudine. Você sabe quanto ela amava a estufa.
— Bom, isso é verdade — reconheceu Katharina.
— Ela queria realizar a cerimônia de casamento lá. Pense em como vai ficar decepcionada! Não há como o conserto estar pronto a tempo para o casamento.
A menção de Claudine fez Katharina hesitar. Não conseguia deixar de sentir pena da futura duquesa. O lugar favorito de toda Arvis havia sido destruído.
— Se abrirmos o precedente de deixar um funcionário se safar de uma imprudência tão grave, vai ser o caos para Arvis — disse Elise com ênfase.
— Entendo o seu ponto... mas não sei bem. — Katharina soltou um suspiro e se recostou na cama. Uma criada correu para arrumar os lençóis e os travesseiros para que pudesse se deitar com mais conforto. — Acho que o melhor a fazer é acatar qualquer decisão que o Matthias tomar.
Elise estreitou os olhos diante dessa concessão.
— Afinal, o Matthias é o senhor de Arvis — acrescentou Katharina.
Elise ficou em silêncio por um tempo, depois assentiu e disse: — Bom, é verdade. Deve ser ele a decidir. Tomara que aquele rapaz tome uma decisão sensata.
Quando Layla entrou na sala de estar da cabana à beira do rio, Matthias estava no meio de uma ligação. Não percebeu que ela havia entrado até que o assistente, Mark Evers, o alertou, momento em que se virou devagar.
Ao ver que era ela, deu a Mark um olhar indicando que podia sair. Depois continuou a conversa telefônica. Layla ficou cada vez mais ansiosa ao ouvir fragmentos do que ele discutia. Parecia estar falando com alguém sobre o conserto do gerador.
Por fim a conversa foi concluída e ele desligou o aparelho.
— As coisas ficaram bastante agitadas de repente — disse, se virando para Layla —, graças ao Sr. Remmer. — O tom não soava nem com raiva nem com compaixão. Sentou-se no sofá e apontou para a cadeira à sua frente. — Senta.
Layla sacudiu a cabeça e engoliu em seco.
Em vez de repetir o pedido, Matthias simplesmente cruzou as pernas.
Na esperança de que ao menos estivesse disposto a ouvir o pedido de desculpas, ela foi nervosamente até o lado dele e se inclinou profundamente. — Me desculpe. Me desculpe de verdade, Vossa Graça.
Ele a olhou com uma expressão sem compreensão.
— Por que está pedindo desculpas?
— Por favor... Por favor, perdoe meu tio Bill. Imploro em nome dele. — Inclinou a cabeça repetidamente. — O senhor conhece meu tio, Vossa Graça. Ele jamais faria uma coisa dessas de propósito. Ele não entende o que é eletricidade, nem o que é um gerador... Não sabia o quanto podia ser perigoso. Às vezes ele reclamava comigo de como o gerador era barulhento. Dizia que dava dor de cabeça quando trabalhava no depósito. Então... tenho certeza de que foi esse o motivo de ele ter empilhado a lenha ali. Só para bloquear o barulho. Ele nunca faria intencionalmente algo que pudesse machucar a Duquesa-viúva Herhardt, ou a e-estufa.
Havia ensaiado esses pontos para si mesma enquanto corria até a cabana. As emoções que borbulhavam dentro dela faziam gaguejar um pouco, mas Matthias ouvia com paciência.
Entrelaçou as mãos trêmulas. — Sei que dizer tudo isso não apaga o erro dele, mas por favor... por favor, perdoe meu tio Bill.
— Layla — disse ele em uma voz quieta e gentil.
Ela ergueu os olhos cheios de lágrimas e o olhou.
— Então basicamente está me pedindo para retirar a queixa? — perguntou ele, indo direto ao ponto.
Ela assentiu imediatamente.
— Hmm, retirar a queixa... — murmurou, baixando devagar o olhar até estar olhando para os sapatos dela.
Ela havia ido até a delegacia e voltado antes de tomar a trilha da floresta até a cabana, então os sapatos marrons e surrados estavam cobertos de lama.
Ele foi erguendo devagar o olhar, dos sapatos para as meias pretas cobrindo as pernas esguias, depois para a barra da saia cinza-escura logo acima dos joelhos. Comprei roupas bonitas para ela, então por que vive se vestindo como uma freira?, ele pensou, inclinando a cabeça.
Continuou a erguer o olhar, passando pelo casaco xadrez parcialmente abotoado, pelo suéter vermelho por baixo e pelo colarinho largo da blusa abaixo deste, antes de finalmente pousar nos olhos dela, que o encaravam com um olhar suplicante.
— Por que eu deveria? — perguntou, mantendo os olhos fixos nos dela.
Ela o encarou de volta como se não entendesse o que havia acabado de ouvir.
— Por que eu deveria retirar a queixa contra o Bill? — Descruzou as pernas e se levantou devagar. O brilho da lareira cintilava na testa levemente franzida. — Vossa Graça...
— O gerador explodiu. Minha avó quase morreu. A estufa foi destruída.
A cada item que listava, dava um passo em direção a ela, até restar apenas a distância de um passo entre eles.
— Tudo isso foi por culpa do Bill Remmer, e quer que eu retire a queixa contra ele? Por quê?
— Por favor, Vossa Graça.
— Acha que devo ter misericórdia com ele só porque está me implorando?
Começou a acariciar devagar o colarinho largo da blusa dela com o longo dedo indicador.
A blusa lhe parecia muito familiar. Depois de um instante, percebeu que ela a havia usado no dia em que havia levado a turma à excursão de outono a Arvis.
Lembrou então que ela também a havia usado — e tirado — na noite em que havia tratado os ferimentos. Lembrou também que ela a havia usado na noite em que havia passado de carro por ela parada na beira da estrada ao lado do filho do dono do armazém. Por tudo que sabia, provavelmente também a havia usado no dia em que havia tomado a decisão de deixar Arvis e solicitado a transferência de escola.
— Quem você pensa que é? — perguntou. O tom não era frio nem impositivo, e mesmo assim isso o tornava ainda mais ameaçador.
Ela o olhou de volta com uma expressão surpresa e magoada, como se houvesse levado uma bofetada. Ele deslocou o dedo da renda do colarinho para a ponta do queixo dela. Conseguia facilmente erguer o rosto com a força de um único dedo. — Me diz, Layla.
As lágrimas que estavam nos olhos começaram a escorrer, molhando o dedo.
— Me diz, quem você pensa que é?
O tom era muito seco e distante.
Terei sonhado com a mudança de atitude dele no outono passado?, ela pensou, fitando o rosto dele. As lágrimas continuavam a escorrer, mas manteve os olhos fixos nele. Recordou todas as coisas gentis que havia feito — cumprir a promessa de não matar Phoebe, tratar os ferimentos depois do acidente de carro, até fazer uma brincadeira descontraída de vez em quando.
Lembrava vividamente de todos esses momentos que a haviam convencido de que havia mudado. E no entanto, ao olhar nos olhos dele agora, não via nada disso.
Tentou responder à pergunta, mas não sabia o que dizer. O corpo inteiro começou a tremer. Imagens rodopiavam na mente — o tio Bill atrás das grades, o paraíso destruído de Arvis, e o homem cruel parado à sua frente.
— Você tinha orgulho demais para aceitar o presente de uma simples caneta, e agora vem com esse pedido unilateral? Não tem senso de vergonha? — perguntou, inclinando a cabeça.
Ela mordeu o lábio para tentar não soluçar, mas não adiantou.
Matthias, porém, não demonstrou nenhuma reação.
— Não aceito negócios dos quais não obtenho nada em troca — disse.
— Vossa Graça, por favor...
— Sinto muito, mas as suas lágrimas e súplicas não vão compensar o que o Bill Remmer fez.
— Vossa Graça, nunca poderíamos pagar pelo conserto...
— Não estou falando de compensação financeira, Layla. Estou falando de um acordo justo — você quer algo de mim, então é natural que eu espere algo de você. — Apertou o queixo dela com a palma da mão. — Se conseguirmos chegar a tal acordo, vou considerar retirar a queixa contra o Sr. Remmer.
— Um acordo...?
— Sim, um acordo. — A contemplou de cima a baixo cuidadosamente, como se estivesse avaliando o quanto ela valia.
Quando percebeu o que estava fazendo, ela recuou e deu um passo para trás.
Ele prontamente soltou o queixo e voltou calmamente a se sentar no sofá.
Ela o fulminando. O corpo ainda tremia, mas agora de raiva, não de medo. — Não posso fazer isso! — Sacudiu a cabeça com tanta força que o cabelo se soltou e caiu pelas costas. — O senhor está noivado com a senhorita Claudine. Vai se casar em breve!
— E daí? — perguntou, usando o lenço para enxugar as lágrimas dela da própria mão. Não havia nem culpa nem hesitação no rosto. Pelo contrário, estava começando a parecer entediado.
Enquanto ela cambaleava de choque, o telefone começou a tocar. Ele se levantou devagar e foi até o aparelho. Antes de pegar o bocal, se virou para ela e disse: — A escolha é sua. Me diz quando tiver tomado uma decisão. Vou respeitar o que decidir.
— M-mas, como posso eu...
— Pode ir agora. — Com isso, virou as costas para ela e ergueu o bocal. Instantaneamente recuperou a aparência digna de sempre. Não havia nenhum traço do homem que havia acabado de fazer uma proposta tão indecorosa.
Em vez disso, enquanto conversava com alguém sobre o estado de saúde da avó, parecia um perfeito cavalheiro — um cavalheiro para quem alguém como Layla Llewellyn não era nada.
Ela ficou parada olhando para ele por um momento, depois se virou com passos vacilantes. A cabana ainda estava toda iluminada, mas tudo parecia escuro à sua frente.
Caminhou até a metade da escadaria externa da cabana antes de desabar sentada em um dos degraus. O corpo encurvado era fracamente iluminado pela fria luz da lua refletida no rio.
Sentia como se houvesse acabado de despertar de um sonho — um pesadelo belo mas brutal.
