Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 66 - O Paraíso Destruído

Capítulo 66 - O Paraíso Destruído

Tradução: Amme

Capítulo 66

O Paraíso Destruído


Chegou mais um envelope. Este era bem grosso.

— O que vai fazer com isso, Sr. Remmer? — sussurrou o carteiro. Havia sido cúmplice de Bill na intercepção das cartas de Kyle desde o outono. O peso no coração era tão grande quanto o de Bill. — Não pode ficar escondendo as cartas para sempre.

— Eu sei — respondeu Bill, suspirando. — Vou contar para a Layla, então não diga nada até que eu —

— Claro. Entendo. Meus lábios estão selados.

— Me desculpa por ter te metido nessa confusão.

— Sei que está fazendo pelo bem da Layla, Sr. Remmer. Não invejo a posição em que o senhor está. — Deu a Bill um sorriso compassivo.

Como a pessoa que havia trazido a menina chamada Layla Llewellyn a Arvis pela primeira vez, o carteiro sabia melhor do que ninguém o quanto a vida de Bill havia mudado desde a chegada dela. Também sabia que aquela mudança era fruto do amor pelo qual ele a criara, e havia resultado em ele ser uma pessoa muito mais feliz do que antes.

Depois que o carteiro foi embora, Bill levou a carta para dentro da cabana. Layla estava no trabalho, então a cabana estava vazia.

Bill abriu a gaveta onde havia guardado as cartas de Kyle e estava prestes a colocar a nova dentro, mas por impulso mudou de ideia e tirou a pilha inteira. Sabia que Layla ficaria decepcionada e magoada quando contasse. Não estava animado com isso, mas não conseguia mais suportar a farsa. Amarrou as cartas com um pedaço de barbante e as colocou sobre a mesa da sala de jantar.

Planejava contar a ela naquela noite. Achou que se as cartas já estivessem sobre a mesa, impediria que mudasse de ideia. Tendo tomado essa decisão, já sentia como se um peso tivesse sido tirado. Sabia que era certo deixar que Layla tomasse a própria decisão sobre como lidar com a situação, e tencionava apoiar a escolha dela, qualquer que fosse.

Pensando no jantar daquela noite, foi ao galinheiro e escolheu o que queria comer — um bem gordo e apetitoso. Depois partiu em direção à estufa da mansão. Depois de cuidar dos canteiros, estava prestes a entrar no depósito ao lado da estufa onde guardava lenha quando ouviu uma voz conhecida o chamando aos gritos.

— Ei, Bill! — Era o tratador de aves dos Herhardt, um amigo e colega que Bill conhecia havia muitos anos. Vindo em direção a Bill com pressa, disse alegremente: — O mordomo pediu que o senhor pare de empilhar lenha perto do gerador no depósito.

Bill franziu o cenho. — Então aquela engenhoca nova tem precedência sobre mim agora, é?

Um gerador havia sido instalado recentemente no depósito para fornecer à mansão uma estranha substância nova chamada "eletricidade". Bill havia sido informado de que o gerador produzia eletricidade, mas mal entendia o que era eletricidade ou qual era o propósito dela. Para ele, o gerador nada mais era do que uma enorme tralha irritante que fazia um barulho horrível.

— Tudo bem — resmungou —, diz a ele para não se preocupar, que eu cuido do assunto.

Entrou no depósito, e imediatamente os tímpanos foram assaltados pelo estrépito alto do gerador. — Seu treco idiota! — disse, fulminando a máquina com o olhar como se fosse um inimigo. — Esse barulho que você faz é tão irritante quanto no primeiro dia que ouvi.

O desprezo de Bill por todos os produtos novos e chamativo da era moderna era mais uma coisa que tinha em comum com a Duquesa-viúva Herhardt.

Pensando amargamente no quanto o depósito costumava ser silencioso antes da eletricidade, começou a empilhar a lenha ainda mais perto do enorme aparelho. Pensou que, se construísse uma parede grossa o suficiente, bloquearia um pouco do barulho e tornaria o trabalho mais fácil.

— Esse troço parece até mais barulhento do que de costume hoje — murmurou, sacudindo a cabeça.

Lembrou de algo que havia ouvido a Duquesa-viúva Herhardt dizer muitas vezes: "As coisas eram muito melhores antes." Concordava com aquele sentimento mais do que nunca naquele dia.



As atitudes das crianças em relação às férias de inverno que se aproximavam estavam nitidamente divididas. Algumas praticamente saltavam de alegria, enquanto outras estavam tristes e abatidas.

Entre as do segundo grupo, Monica era a mais triste de todas.

Deixou manchas de lágrimas na saia de Layla antes de finalmente ir embora. Layla acenou para a menininha enquanto ela caminhava devagar com os pais, olhando para trás repetidamente e fungando. Doía o coração pensar em como Monica certamente ficaria triste quando soubesse que a professora estava indo para outra escola.

É melhor eu encontrar um momento para me despedir de todas as crianças antes de pedir a transferência, resolveu enquanto arrumava diligentemente as coisas.

Para ter tempo de assar o frango, precisaria começar os preparativos do jantar mais cedo do que de costume. A caminho de casa, precisava comprar meias grossas de inverno e um suéter para Bill, e também planejava pegar uma boa garrafa de vinho para compartilharem. Esperava que isso suavizasse o golpe quando dissesse que a partir do próximo semestre estaria trabalhando em outra cidade. Decidiu pegar também uma garrafa de licor, por garantia.

Enquanto tirava os sapatos de interior e calçava os de exterior, deu uma risadinha ao se lembrar de um comentário bobo que o duque havia feito na noite do espetáculo beneficente: "Você realmente acha que isso vai me impedir?"

Havia ficado bastante surpresa com o comentário. Não havia percebido que ele era capaz desse tipo de brincadeira descontraída.

Ultimamente ele não havia a atormentado como no passado. Perguntou-se se era porque tudo havia se acalmado para o inverno.

No começo havia ficado desconfiada, preocupada que estivesse tramando algo, mas gradualmente havia relaxado. Perguntou-se por que o comportamento dele havia mudado, mas não estava com vontade de remoer o assunto. Ele provavelmente havia simplesmente perdido o interesse nela. Certamente esperava que fosse esse o caso.

Depois de abotoar o casaco de inverno, saiu da escola para o frio. Colocou a caixa com as coisas na cesta da bicicleta e começou a pedalar em direção à cidade, mais rápido do que de costume. Como a cesta estava cheia, as compras tinham de ser amarradas no banco traseiro da bicicleta.

— Dê um alô ao Sr. Remmer da minha parte — disse o dono do armazém enquanto ajudava a amarrar a carga.

— Faço isso. Até mais!

— Cuidado, Layla! Pensa em como o Sr. Remmer ficaria triste se você caísse e quebrasse essas garrafas!

Ela riu alegremente com o aviso bem-humorado.

O vento estava muito frio, mas o sol estava claro e quente. Pedalou rapidamente pela luz dourada do fim da tarde. Que dia agradável, ela pensou. No entanto, assim que chegou a Arvis, percebeu que algo estava errado.

De repente, uma carruagem de bombeiros passou veloz por ela em direção à mansão. — Layla! Layla! — gritou a cozinheira Mona enquanto corria freneticamente em sua direção, segurando as mãos quando chegou.

— O que está acontecendo, cozinheira Mona? Por que toda essa confusão...?

Olhou ao redor e viu que havia fumaça subindo da área onde ficava a estufa. — Nossa, tem fogo?

— É pior do que isso! — respondeu Mona. — O gerador explodiu e destruiu metade da estufa, e estão dizendo que é culpa do Bill!

— O quê? O que o tio Bill fez?

— Disseram que o gerador explodiu por causa de algo que o Bill fez, mas não ouvi mais detalhes. A Duquesa-viúva Herhardt se machucou quando a estufa começou a desabar, então a mansão inteira está em alvoroço. Parece que já controlaram o incêndio, e agora a polícia está conversando com —

— Tio Bill! — gritou Layla, vendo Bill sendo conduzido por dois policiais até o carro. Saiu correndo em direção a eles imediatamente.

O rosto de Bill estava vazio até ouvir a voz de Layla, momento em que a olhou com uma expressão impotente.

— O que está acontecendo, tio Bill? É verdade que o senhor causou o acidente? Não é, né? É tudo um mal-entendido, né?

— Está tudo bem, Layla. Está tudo bem. Não é nada grave — respondeu ele, forçando um sorriso mesmo com o rosto empalidecendo.

— Por favor, se afaste — disse um dos policiais para Layla.

Quando Layla não se moveu, uma expressão ameaçadora varreu o rosto do policial. A cozinheira Mona correu e puxou Layla para o lado.

— Tio Bill! — gritou Layla enquanto via Bill ser praticamente empurrado para dentro do carro de polícia.

Bill acenou urgentemente para ela recuar enquanto continuava com o sorriso forçado. — Vai esperar em casa! Logo chego, não se preocupa. Tá bom? Ah, e Layla...

Parecia ter mais algo a dizer, mas os policiais haviam perdido a paciência. O empurraram para o banco traseiro e fecharam a porta com força, depois partiram de Arvis, deixando Layla para trás, chorando.

Ela cambaleou alguns passos para frente, depois caiu sentada no chão. Vários funcionários de Arvis correram para o lado dela. Enquanto a ajudavam a se levantar, algo ao longe chamou sua atenção. Era o Duque Herhardt, parado na escadaria da entrada principal da mansão. Parecia estar olhando para ela, mas não tinha certeza porque, num piscar de olhos, as lágrimas grossas já haviam embaçado a visão.

Muito depois que o alvoroço havia se dissipado, o som do choro dela ecoava pela tarde de inverno.



Layla saiu da delegacia com o rosto abatido. Depois de ter mal conseguido se recompor o suficiente para ir até a delegacia onde Bill estava detido, disseram-lhe que não havia nada que pudesse ser feito.

O gerador havia explodido e destruído o depósito por causa do superaquecimento causado pela lenha empilhada ao lado. A parede da estufa ao lado do depósito havia então se partido, ferindo a Duquesa-viúva Herhardt, que estava olhando um dos canteiros perto daquela mesma parede. A criada que atendia a Duquesa-viúva havia reagido rapidamente assim que ouviu a explosão, envolvendo o próprio corpo ao redor dela para protegê-la dos cacos de vidro. Como resultado, a duquesa-viúva não havia sofrido nenhum corte grave, mas havia quebrado um osso na queda. A bela estufa que todos chamavam de o paraíso de Arvis estava irreparavelmente destruída, assim como todas as plantas raras e preciosas do lado que havia desabado.

A polícia entendia que Bill não havia pretendido fazer isso, mas como o acidente já havia acontecido, ele era legalmente culpado, especialmente considerando que a Duquesa-viúva Herhardt havia sido ferida.

O policial com quem havia conversado claramente sentia pena dela e até a deixou visitar Bill brevemente. Layla havia ficado tão perturbada que havia se ajoelhado e implorado ao policial que fizesse tudo que pudesse. No entanto, ele havia dito que a menos que a família Herhardt retirasse a queixa, a polícia não tinha outra opção senão processar Bill na medida máxima da lei.

— Se o Bill for condenado, vai ter mesmo de ir para a prisão? — havia perguntado.

— Isso não está claro neste momento. O processo civil provavelmente vai demorar muito para ser resolvido no tribunal, e vai custar muito caro. Se ele não conseguir pagar a indenização, então receio que... — o policial havia dito, deixando a frase no ar.

Layla conseguia perceber pela postura envergonhada dele que, fosse lá qual fosse o fim da frase, não seria nada bom.

Caminhou de volta até Arvis, mal consciente da própria volta. A única coisa que podia fazer pelo Bill naquele momento era implorar à família Herhardt para retirar a queixa. Perguntou-se se concordariam. A Duquesa-viúva Herhardt estava machucada, e a amada estufa de Lady Herhardt havia desaparecido. Se entrasse na mansão para implorar, podia piorar as coisas.

Enquanto olhava para a mansão ao longe, de repente uma centelha de esperança apareceu nos olhos. E o Duque Herhardt? Ao olhar para a mansão, o rosto do senhor de Arvis lhe veio à mente, junto com o comportamento novo e mais ameno que havia demonstrado desde o outono, tão diferente do jeito irritante e assustador com que havia agido com ela anteriormente.

Sim, talvez o duque esteja disposto a ajudar, ela pensou, juntando as mãos como numa prece.

Começou a caminhar diretamente pelo jardim de rosas adormecido a passos largos. Foi acelerando continuamente enquanto caminhava pela trilha da floresta. Quando chegou à beira do rio, estava respirando com bastante dificuldade. Através do vapor que subia da boca a cada respiração, conseguia ver a cabana do duque. As luzes estavam acesas.

Agora em ritmo de corrida, foi direto em direção à cabana.