Tradução: Amme
Capítulo 65
Um Marido Adequado
Layla deu um sorriso levemente constrangido ao jovem que estava com ela. — Obrigada por ter me acompanhado até aqui. Vou seguir o resto do caminho sozinha.
Ele lhe devolveu um sorriso amável e apontou para a estrada. — Olha, já estamos quase lá. Vou te acompanhar até em casa.
— Não, de verdade. Eu... vou sozinha mesmo. Meu tio é muito rígido, sabe. — Olhou ao redor enquanto falava, nervosa com a ideia de alguém as ver juntos. Sabia que nada de bom poderia vir de um morador de Arvis a vê-la com um homem. Mesmo não havendo nada entre eles, os rumores se espalhavam rapidamente em Arvis.
— Ah, entendo. — Ele soltou um suspiro desanimado. — Então vou indo. Mas se tiver tempo neste domingo, que tal almoçarmos juntos?
— Não, eu— — Ou se estiver ocupada esta semana, a próxima também serve! A menos que esteja completamente repudiada pela ideia de ver meu rosto de novo, adoraria ver você mais uma vez — disse ele, reunindo toda a confiança mesmo com as bochechas ficando vermelhas. — Seria uma pena que nosso relacionamento terminasse depois de apenas uma xícara de chá. Gostaria de vê-la de novo e conhecê-la melhor. Depois disso, se ainda sentir o que sente agora, não vou insistir mais. — Pela expressão no rosto, era claro que não iria embora antes de ter uma resposta definitiva.
Era o filho do dono do armazém no centro de Karlsbar, e vinha à escola de vez em quando entregar materiais.
Ela o havia visto algumas poucas vezes nos corredores da escola, mas era só isso. Por isso ficou bastante surpresa mais cedo naquela tarde quando foi chamada ao escritório da diretora, apenas para encontrar o jovem esperando lá. A diretora havia dito que ele era um parente distante e que queria apresentá-los para fins matrimoniais. A mente havia ficado em branco com a proposta inesperada.
Hesitando para responder ao pedido de um segundo encontro, ela olhou ao redor nervosa de novo. Naquele instante, ouviu o som de um carro se aproximando por trás. O coração afundou. Queria acreditar que estava imaginando, mas o som continuou a crescer.
Em breve a estrada ao crepúsculo foi iluminada pelos faróis do carro. O carro desacelerou levemente ao passar por eles, depois acelerou de novo. Era o carro do Duque Herhardt.
— Senhorita Llewellyn?
O som da voz do jovem a tirou do transe.
— Me desculpe — disse ela, baixando a cabeça. — Eu... não acho que estou pronta para esse tipo de relacionamento ainda. Sinto muito.
Havia aceitado tomar chá com o jovem a pedido da diretora, mas não tinha absolutamente nenhuma intenção de procurar um marido em potencial naquele momento. Talvez um dia se casasse, mas por enquanto só queria trabalhar com dedicação e levar uma vida comum.
— Ah... entendo. — Ele não conseguiu esconder a decepção com a recusa firme, mas entendeu o que ela sentia e respeitou. Disse que era ele quem devia pedir desculpas, não ela. Esperava não ter causado desconforto ao insistir em um segundo encontro. Depois de dizer isso, foi embora com uma expressão abatida.
Sentia-se mal por magoá-lo quando ele era claramente uma boa pessoa, mas sabia que havia tomado a decisão certa. Se não o tivesse rejeitado cedo, só poderia ter resultado em uma dor mais profunda mais tarde, como havia acontecido com Kyle.
Ela se contraiu com o pensamento repentino de Kyle. Frequentemente se perguntava como ele estava, e também percebia que tudo que podia fazer era torcer para que estivesse bem. Por mais que sentisse saudade, não havia como voltar aos dias juntos, quando costumavam andar por aquela mesma estrada, rindo e conversando.
Depois que o jovem foi embora, ficou parada no mesmo lugar até a estrada ficar completamente escura. Aquilo aconteceu porque, assim que parou de pensar em quanto sentia falta dos velhos tempos bons com Kyle, a mente foi inundada de inquietação. Preocupava-se que, se caminhasse mais pela estrada, pudesse se encontrar com o duque. De repente se lembrou daquele estranho primeiro outono em que o duque havia ficado em Arvis.
Respirou devagar e fundo o ar frio do inverno e tentou imaginar a primavera que viria, quando começaria um novo capítulo em um novo lugar.
Esperava encontrar um lugar para ficar com uma janela enorme. Se o quarto recebesse muita luz solar, talvez não ficasse tão triste. O ideal seria que houvesse uma árvore do lado de fora da janela que pudesse contemplar, ou se não, pelo menos um parque ou uma floresta próxima que pudesse visitar quando sentisse falta do cheiro da vegetação exuberante de Arvis.
Por fim, esses pensamentos sobre os dias felizes que viriam foram acalmando o coração ansioso. Sentindo-se um pouco mais corajosa, caminhou com cautela pela estrada com a bicicleta. Depois de dobrar uma esquina, ficou feliz em ver que a Estrada Platanus estava preenchida apenas pela luz branca da lua e as sombras negras das árvores que a bordeavam.
Soltou um suspiro de alívio, depois saltou agilmente para o banco da bicicleta. O som do pedalar enérgico preencheu o silêncio da noite.
Kyle abriu a caixa de correio com a mesma antecipação nervosa de sempre. Ficou animado ao ver dois envelopes dentro, mas a animação deu lugar à decepção quando viu de quem eram. Havia enviado uma carta a Layla toda semana, mas até agora ela não havia lhe enviado uma única resposta.
Soltou um suspiro quieto, depois subiu pesadamente as escadas do dormitório. O quarto ficava na extremidade leste do terceiro andar. Com as férias de inverno chegando rapidamente, o dormitório estava cheio de alunos arrumando as malas em preparação para voltar para casa, mas o quarto de Kyle estava quieto como sempre.
Entrou no quarto escuro e jogou os envelopes sobre a mesa perto da porta. Havia um convite para um clube social e uma carta dos pais. Deixou-os sem abrir e se jogou na cama. Um fio de luz da lua passou por uma fresta nas cortinas e caiu obliquamente sobre o corpo.
"Já considerou fazer uma viagem durante as primeiras férias?" — o pai havia sugerido gentilmente em uma ligação telefônica alguns dias antes.
Muitos dos alunos mais abastados da capital viajavam por todo o continente para ampliar os horizontes durante as férias. Claro que o Dr. Ettman tinha outro motivo para sugerir isso.
Kyle havia respondido que pensaria a respeito. Mesmo sabendo que era inútil fantasiar sobre voltar a Karlsbar e ver Layla de novo, parecia igualmente inútil viajar. Sentia-se mais inclinado a ficar trancado no quarto estudando, como havia feito durante todo o semestre.
Fechou os olhos e imediatamente lembrou de Layla sorrindo tristemente e dizendo: "Não existe nenhum lugar neste mundo onde possamos ser felizes juntos, só nós dois." Também se lembrou de si mesmo naquele momento, sentindo-se impotente e sem conseguir dizer nada.
Como sempre, lembrar daquele momento o enchia de autoaversão. Odiava a própria fraqueza, o fato de ser nada sem os pais, e especialmente por não ter conseguido proteger quem amava.
Quando me tornar médico, ele pensou, talvez eu possa encontrar um lugar onde possamos ser felizes juntos. Mas esse dia ainda está tão distante no futuro. Como vou aguentar todos esses anos sem você? Apenas esses últimos meses separados já pareceram uma eternidade.
Baixou o braço com que havia coberto os olhos e olhou para o teto. De repente lhe ocorreu que, agora que era legalmente adulto, estava livre para usar o dinheiro que o avô havia lhe deixado como bem entendesse. Perguntou-se por que não havia pensado nisso antes. Sentou-se e varrreu o cabelo despenteado para trás.
Depois de olhar para o nada por um momento, levantou-se e foi até a escrivaninha. Abrindo uma gaveta, pegou apressado uma caneta e uma folha de papel de carta.
— Por que de repente todo mundo está tentando te arranjar um marido? — perguntou Bill enquanto Layla colocava o jantar na mesa. Ela havia acabado de lhe contar sobre o encontro que a diretora a havia pressionado a ter com o filho do dono do armazém.
— Espera... O que quer dizer com "todo mundo"? — perguntou ela.
— Ouvi que a avó do duque pediu ao Hessen do nada que procurasse algum solteiro elegível para te apresentar. A cozinheira Mona me contou.
— Por que a Duquesa-viúva Herhardt faria um pedido assim?
— Não faço ideia. Acho que gostou de você. — Uma expressão de orgulho apareceu no rosto ao dizer isso.
— Duvido — respondeu ela, dando uma risadinha. Tirou um pão recém-assado do forno, colocou sobre a mesa e sentou de frente para ele.
— Se não for isso, então não tenho ideia de por que ela estaria interessada em te arranjar um marido. Hmm... O que você acha, Layla?
— Não está cansado de me ter por perto, tio Bill?
— O que é isso? Como eu poderia estar cansado de você?
— Bom, sendo assim, gostaria de continuar morando com você por muito, muito tempo.
— Está dizendo que se a duquesa-viúva tentasse te apresentar a alguém, você recusaria?
— Talvez concordasse em conhecê-lo se fosse tão gentil quanto o senhor, tio Bill. Infelizmente, porém, não acho que existe um homem assim no mundo inteiro — disse ela, rindo.
Aquilo o fez se sentir mal por ela. Suspeitava que a razão real pela qual ela não estava interessada em conhecer homens novos era Kyle. Na verdade, não apenas suspeitava — tinha certeza.
As cartas de Kyle continuavam a chegar toda semana. A sensação de culpa havia aumentado a cada carta que havia escondido de Layla. Odiava estar impedindo-os de se comunicar quando tinham um relacionamento tão caloroso, mas sabia que não havia futuro para os dois juntos.
Por impulso, começou a falar. — A propósito, Layla... — Parou e começou a pensar. Se a Layla ainda tem sentimentos pelo Kyle, talvez devesse tentar ajudá-la a se casar com ele, mesmo estando afastada da família dele. Causaria muito alvoroço, mas ela e o Kyle poderiam ir para a capital e ter uma boa vida lá. Se isso acontecesse, talvez fosse difícil para mim continuar trabalhando como jardineiro aqui em Arvis, mas não me importaria com isso se fosse para a felicidade da Layla. E quem sabe — a cruel senhora Ettman pode mudar de coração quando tiver um neto para segurar nos braços.
— Tio Bill...? — disse Layla depois que ele ficou em silêncio por um tempo.
— Ah, hum... é... frango! Sim, frango.
— Frango...?
— D-devemos pegar um frango amanhã? Sim. Era isso que ia perguntar. Nossa, devo estar envelhecendo. Às vezes fico divagando e esqueço o que ia dizer — disse ele constrangido. Decidiu que seria melhor pensar mais no assunto antes de falar com ela.
Por sorte, ela não pareceu suspeitar de nada. Rindo, respondeu: — Claro, tio Bill. Frango assado amanhã!
Matthias aumentou o volume do gramofone e se virou. Todas as luzes do quarto estavam apagadas; a única iluminação era o brilho vindo da lareira.
Sentou na poltrona quente ao lado da lareira e olhou para o pássaro do outro lado do quarto, que estava pousado no braço do sofá. Assim que o fez, o pássaro voou até ele. Começou a assobiar a melodia da valsa que tocava no gramofone, e o canário começou a cantar como se em resposta.
Era um pássaro esperto. Sem nenhum treinamento, um dia simplesmente começou a cantar junto com a música que Matthias ouvia. Depois disso, havia se tornado um hábito regular ouvir música com o pássaro.
Ouviam principalmente valsas. De vez em quando colocava uma sinfonia ou uma peça para piano, mas o pássaro parecia cantar de forma mais bela quando uma valsa tocava.
A valsa chegou ao fim, e o quarto ficou de novo repleto do som do crepitar do fogo.
Matthias elogiou o canto do pássaro afagando a cabecinha com a ponta do dedo. O pássaro estava acostumado com o toque e começou a esfregar o bico na mão dele com carinho.
Ele deu uma risadinha, depois foi com o pássaro pousado no dedo até a gaiola. Quando abaixou a mão, o pássaro prontamente entrou na gaiola e se acomodou no ninho.
Matthias fechou e trancou a porta da gaiola dourada, depois retirou a agulha do disco, que havia começado a tocar a peça seguinte. Ao se deitar na cama e olhar para o teto, um bocejo longo e cansado escapou da boca. Virando-se para o pássaro, disse: — Durma bem.
Como se tivesse entendido, o canário adormeceu no ninho aconchegante.
Enquanto contemplava o pássaro, o sorriso havia desaparecido do rosto.
