Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 64 - Um Olhar

Capítulo 64 - Um Olhar

Tradução: Amme

Capítulo 64

Um Olhar


Havia nevado tanto que a carruagem não conseguia andar muito depressa. Layla não conseguia esconder o nervosismo enquanto fitava pela janela.

Um sorriso apareceu no rosto da Duquesa-viúva Herhardt ao observá-la do outro lado da carruagem. — Não há nada com que se preocupar, minha querida.

— Ah, hum, claro, senhora. É só que— — Talvez esta não seja a viagem mais confortável, mas não há razão para ficar nervosa. Convidei a senhorita para vir conosco para a sua conveniência.

Layla se sentiu um pouco mais tranquila com a gentileza da duquesa-viúva.

— É a primeira neve da estação, e já caiu tanto — disse a Duquesa-viúva Herhardt. — Provavelmente vai nevar muito este inverno. Não acha, Matthias? — perguntou, se virando para o neto.

Sem pensar, Layla seguiu o olhar da duquesa-viúva e acabou fazendo contato visual com o duque. Desviou imediatamente, mas o coração já havia disparado de novo.

— Sim, avó — respondeu Matthias, sorrindo educadamente.

Katharina von Herhardt conduziu habilmente a conversa com Layla, perguntando sobre a escola onde ensinava e elogiando o espetáculo beneficente do qual voltavam. O sorriso alargou ao mencionar a peça que a turma de Layla havia encenado.

— A senhora pareceu bastante envergonhada lá em cima, mas acho que fez um trabalho maravilhoso.

Layla corou com a tentativa de consolo da duquesa-viúva. — Obrigada, senhora. — Logo as bochechas estavam vermelhas como uma maçã madura.

Matthias lutava para conter o riso ao se lembrar da atuação desajeitada de Layla. A contemplou. As mãos inquietas estavam entrelaçadas sobre o colo. Ela não sabe esconder as emoções, ele pensou. E é péssima em mentir. É por isso que atuou de forma tão horrível.

Recostou-se no assento e estendeu as pernas o suficiente para um dos sapatos tocar o dela. Ela puxou o pé imediatamente, mas ele não desistiu.

A carruagem começou a chacoalhar ao dobrar para uma estrada em condições ainda piores. Layla fitava o chão, com vontade de chorar. Havia puxado o pé várias vezes, mas Matthias continuava a estender as pernas e tocar o sapato no dela. Era o menor dos contatos, mas ela se sentia tão envergonhada quanto se estivesse sentada ali nua.

Depois de uma pausa, a Duquesa-viúva Herhardt retomou a conversa. — Para uma jovem tão nova, a senhora é muito boa com crianças.

Layla ergueu a cabeça de um salto. Percebendo que chamaria a atenção da duquesa-viúva se continuasse puxando o pé do sapato de Matthias, resolveu parar de pensar no assunto.

— Gosta de crianças?

— Sim, senhora.

— É inteligente e gosta de crianças. Deve ser uma excelente professora. Não concorda, Matthias? — deslocou o olhar de Layla para Matthias de novo.

Ele lançou um olhar breve para Layla, depois assentiu, sorrindo. — Sim, avó.

Os olhos de Layla se arregalaram com a amabilidade na voz dele. Mesmo que a resposta fosse mera cortesia, a atitude a surpreendeu. Esperava que desse no máximo um leve aceno. Era esse o Duque Herhardt que havia aprendido a conhecer.

— As férias de inverno estão chegando em breve, senhorita Llewellyn — disse ele, olhando nos olhos dela.

— Estão, Vossa Graça — respondeu ela, retomando relutantemente o contato visual. Fica calma, disse a si mesma. Não age de forma estranha. Você é só parente de um dos funcionários. É só isso.

— Como planeja passar as férias? — perguntou ele com naturalidade.

— Como? Ah, bom... — Era uma pergunta completamente comum, mas a mente ficou em branco e ela lutava para encontrar uma resposta.

Ele sorriu sutilmente, divertido com aquilo.

— Vou... estudar, e ajudar o tio Bill no trabalho, e...

Enquanto hesitava, ele tocou o sapato no dela. Ela quase gritou de susto antes de terminar a frase. — E me p-preparar para o próximo semestre!

Por estar tão atrapalhada, as palavras saíram muito mais alto do que havia pretendido, quase como uma proclamação solene.

A Duquesa-viúva Herhardt gargalhou encantada. — Bem, Layla, parece que vai ter umas férias de inverno bastante produtivas. O Bill fez um trabalho excelente criando a senhora.

— Fico lisonjeada que pense assim, senhora — respondeu Layla em voz sumida, desejando poder se enfiar num buraco.

Matthias descruzou as pernas com displicência. O olhar ousado que lançava para ela a fazia ficar ainda mais envergonhada.

— É de fato uma excelente professora, senhorita Llewellyn — disse. O tom era muito educado, mesmo sendo evidente que a estava provocando.

Contendo o impulso de pisar no pé dele com o salto fino, Layla respondeu com o mesmo tom cortês que havia usado com a avó. — Obrigada, Vossa Graça.

Havia resolvido não mais olhar para ele, mas era uma tarefa difícil confinada dentro de uma carruagem.

Quando ele enfim conseguiu fazer contato visual de novo, ela se contraiu e encolheu os ombros. Em contraste com a travessura anterior, havia agora um olhar calmo e inexpressivo nos olhos. Igualzinho ao do dia em que ela havia quase se afogado no rio.



Levou o dobro do tempo normal para chegar à estrada que levava a Arvis.

A Duquesa-viúva Herhardt havia começado a cochilar, e havia silêncio dentro da carruagem. Lá fora, o som ritmado das patas dos cavalos e o chacoalhar da carruagem marcavam a passagem do tempo.

Depois de olhar pela janela por um tempo, Matthias deslocou o olhar para Layla. Ela havia começado a cochilar também. Apesar dos esforços para se manter alerta, mal conseguia manter os olhos abertos. De vez em quando a cabeça começava a cair para frente. Quando isso acontecia, ela se sobressaltava e olhava ao redor.

Matthias desceu o olhar do rosto para o pescoço dela. O colar de esmeraldas que havia conseguido para ela brilhava na carruagem escura. Desceu o olhar mais até estar olhando para o chão.

Visto ao lado dos próprios sapatos, os sapatinhos dela pareciam sapatos de boneca.

Foi tomado de repente pela admiração ao pensar que aqueles pezinhos eram capazes de carregar alguém que andava sempre tão ocupada. Naquele instante, a carruagem parou com um rangido brusco.

— Ei, Bill! — gritou o cocheiro. — O que o senhor está fazendo até aqui fora?

Os olhos de Layla se abriram de um salto. Ainda sonolenta, correu para olhar pela janela.

— Estava preocupado com a Layla por causa da neve — respondeu Bill.

— A Layla está nesta carruagem. A Duquesa-viúva Herhardt estava muito preocupada com ela.

— A Layla está aí dentro?

A Duquesa-viúva Herhardt foi despertada do sono pelo som dos dois homens conversando lá fora.

Layla a olhou e sorriu. — Hum, com licença, senhora, mas posso...?

Antes que Layla pudesse terminar a frase, a Duquesa-viúva Herhardt assentiu e disse: — Sim, Layla. Pode ir para o Bill.



— Que sorte aquela garota teve em encontrar o Bill Remmer — disse a Duquesa-viúva Herhardt.

— Sim, avó. — Matthias olhou para o assento vazio à sua frente.

Layla não havia perdido tempo em sair da carruagem para ir até Bill.

Matthias assistiu impotente pela janela enquanto ela corria para os braços do jardineiro. Teve a sensação desagradável de que algo seu estava sendo levado por outra pessoa.

— Quem diria que ele era tão sensível? — continuou a Duquesa-viúva Herhardt. — Trata ela com mais carinho do que a maioria dos pais trata os próprios filhos biológicos. Acho que seria melhor para ela ficar em Arvis, se não por outra razão, pelo bem do Bill. Não sei por que está pensando em pedir transferência.

Aquele comentário casual fez Matthias se sobressaltar. — Disse que está pensando em... pedir transferência?

— É isso mesmo. Quer ir para outra cidade. Não entendo por que as jovens estão sempre tão ansiosas para deixar a própria cidade. Quando se avança na idade, aprende que a própria cidade é a melhor — disse ela, estralando a língua. — Estava conversando com a diretora esta noite. Ela disse que os alunos dela se comportam muito bem e os pais adoram ela, então a diretora gostaria muito de mantê-la como professora, mas por algum motivo ela quer pedir transferência para outra escola. Entendo que talvez quisesse ir embora depois do noivado com o Kyle Ettman ser rompido, mas por que quereria deixar o Bill quando são tão próximos?

— Entendo...

— A diretora disse a ela para considerar bem a decisão e avisar no começo do ano que vem, então suponho que não seja definitivo. Pessoalmente, espero que fique com o Bill — disse em tom lamentoso. — A diretora também mencionou que tem um parente distante que tem um grande armazém no centro. Aparentemente, o homem tem um filho que seria uma boa combinação para a Layla. Noivados de jovens são desfeitos com frequência. Ela pode não ter a melhor origem, mas é bonita e inteligente. Acho que seria uma excelente esposa de comerciante. Parece que a diretora vai tentar apresentá-los. Quem sabe — se encontrar um novo pretendente em potencial, talvez queira ficar por aqui.

— Talvez.

— Se o Bill não gostar do filho do comerciante, posso sempre tentar eu mesma. Vou ter de pedir ao Hessen que encontre um jovem bem-nascido que não more muito longe de Arvis. Pense como seria maravilhoso para a pobre garota se puder se casar e formar uma família enquanto continua ensinando na escola da aldeia e morando perto do tio Bill. Não seria ótimo, Matthias?

Naquele instante, a carruagem parou na frente da mansão.

Em vez de responder à pergunta da avó, Matthias abriu a porta e saiu. O cocheiro recuou de um salto, pois estava prestes a abrir a porta de fora.

Matthias ajeitou devagar a lapela do paletó e se virou. — Deixa eu ajudar a descer, avó — disse, demonstrando a elegância habitual ao estender a mão.

A Duquesa-viúva Herhardt pousou a mão na dele e desceu da carruagem. Entraram na mansão, e o som dos passos no mármore ecoou pelo salão principal.



Depois que a carruagem partiu na frente deles e passou pelo portão de Arvis, Bill e Layla caminharam de mãos dadas pela neve de volta à cabana.

— Achei que pelo menos você não ia rir! — ela gritou quando ele explodiu em risadas ao ouvir o relato do fiasco em que a peça da turma havia se transformado.

Infelizmente, a reclamação só fez ele rir ainda mais alto.

— Está tudo bem, Layla. Aposto que você estava adorável lá em cima no palco.

— Duvido que o público tenha achado isso — resmungou ela, dando uma risadinha. Só de ouvir Bill dizer que estava tudo bem, ela sentia que tudo realmente estava bem.

Continuaram a conversar enquanto avançavam pela neve, e eventualmente chegaram à trilha que contornava o jardim de rosas.

Por acaso ele olhou para os sapatos dela, depois olhou de novo com preocupação. Parou de caminhar e pigarreou.

— Quer carona nas costas?

— O quê? Não! — Ela riu da sugestão ridícula. — Não sou uma criancinha! Consigo andar muito bem.

— Está desconfortável. Está mancando! — Abaixou-se com as costas largas voltadas para ela.

— Tio Bill!

— Ou sobe nas minhas costas, ou te coloco no ombro — a escolha é sua.

— Acho que sou pesada demais para o senhor...

— O que você pensa de mim? Posso estar envelhecendo, mas ainda tenho força suficiente para carregar cinco meninas do seu tamanho nas costas de uma vez!

Percebendo que ele nunca cederia, ela relutantemente subiu nas costas. A preocupação desapareceu quando ele imediatamente se endireitou e saiu disparado pela trilha nevada da floresta. Ela riu alegremente, toda a ansiedade se dissolvendo.

A cada risada, um pouco de vapor branco escapava dos lábios, se misturando aos flocos de neve brancos que caíam ao redor. Ela conseguia sentir o corpo robusto de Bill tremer enquanto ele ria junto.

Os flocos de neve espessos foram preenchendo as pegadas que ele deixava na trilha.