Tradução: Amme
Capítulo 63
Você Está Bonita
A primeira metade do espetáculo beneficente encerrou com o fim da peça dos alunos mais novos, que havia arrancado tantas risadas do público.
Os alunos menores que tinham irmãos mais velhos se apresentando na segunda metade foram sentar com os pais. A maioria dos que não tinham foram levados para casa mais cedo para dormir.
— Lamentamos muito, senhorita Llewellyn. De verdade. — Os pais da pequena Monica pediram desculpas a Layla repetidamente enquanto se dirigiam à carruagem.
— Por favor, não há necessidade de pedir desculpas. Está tudo bem — respondeu ela.
— Mesmo assim, por causa da timidez da Monica, a senhora teve de suportar aquela humilhação. — O comentário severo da avó de Monica fez Layla se contrair.
Depois que a família de Monica partiu, a senhora Graeber se aproximou de Layla, sorrindo. — Quer tomar um café?
— Obrigada pelo convite, mas acho que preciso de um tempo a sós — respondeu Layla.
— Ora, venha. Você foi adorável!
— Isso não diminui em nada o constrangimento — respondeu Layla brincando, sorrindo.
— Mas foi mesmo, é sério. E fez algo incrível naquele palco. Normalmente os nobres que comparecem a esses espetáculos beneficentes mal esboçam um sorriso, e a senhora os fez gargalhar!
As tentativas de consolo da senhora Graeber só aprofundaram o desespero de Layla. É verdade. E ele provavelmente riu junto com os outros. Santo Deus.
— A diretora também ficou bastante satisfeita — acrescentou a senhora Graeber. — Disse que recebemos mais doações do que de costume graças à senhora.
— Agora realmente a odeio. — Layla soltou um suspiro e deu uma risadinha.
Depois de desejar boa noite à senhora Graeber, Layla foi até o parque atrás do salão municipal. Realmente precisava de um tempo a sós. Enquanto observava o vapor escapar da boca no ar frio da noite, sentiu como se a alma estivesse saindo do corpo.
Não acredito que isso realmente aconteceu. Sentou em um banco no parque deserto e tirou os sapatos que haviam atormentado os pés o dia todo. Depois olhou para o céu e soltou um longo suspiro. Suponho que não se morre de constrangimento, pensou. Pelo menos ainda estou respirando. Soltou mais um suspiro, que se transformou num gemido, e depois num grito. A alma continuava a vazar pela boca.
Matthias encontrou Layla exatamente onde havia esperado encontrá-la.
Sabia que, tendo ficado constrangida além do limite, ela provavelmente quereria estar em algum lugar longe das outras pessoas. E como sabia que não suportava sapatos desconfortáveis, provavelmente estaria num banco. No entanto, como se assustava com facilidade, estaria em algum lugar com pelo menos um poste de luz por perto. E provavelmente uma árvore ou duas.
— Como esperado — murmurou para si mesmo ao encontrá-la sentada no canto do parque atrás do salão municipal, em um banco sob uma grande árvore, ao lado de um poste de luz, sem os sapatos, soltando suspiros repetidos enquanto olhava para o céu.
Aproximou-se com passos lentos e leves. Quando a sombra tocou o banco, ela prendeu a respiração e olhou na direção dele. — Como é que...? — Olhou ao redor, depois voltou o olhar para ele. Em seguida pousou os pés em cima dos sapatos descartados para impedir que ele os pegasse como da outra vez.
Vendo a expressão de alarme no rosto dela, ele deu uma risadinha. — Você realmente acha que isso vai me impedir? — brincou, olhando para os sapatos dela.
Layla prendeu a respiração de novo e rapidamente calçou os sapatos. Depois de prender as tiras com firmeza e se levantar, por fim pareceu aliviada. Ao olhar para ela, percebeu que não precisava perguntar se os hematomas haviam cicatrizado. Os movimentos rápidos e ágeis deixavam claro que estava se sentindo melhor.
— Sente-se.
— Não. Estou bem, Vossa Graça. — Recuou hesitante até ficar sob o poste de luz.
A atitude dela irritava os nervos, mas havia decidido não deixar mais que aquilo o afetasse. A luz a gás iluminava suavemente o rosto. Lembrou-o de como havia parecido sob as luzes do palco. Gostou.
— Já pensou em trocar o magistério por uma carreira na atuação? — perguntou ele. — Nunca vi um ator fazer o público rir tanto quanto você fez.
Ah. Agora entendo por que foi me procurar. — Sei que fui um pouco... desajeitada lá em cima — disse ela, olhando para os próprios pés.
— Um pouco? — respondeu ele, rindo.
Talvez seja possível morrer de constrangimento, sim. Ela pensou, mordendo o lábio. As mãos inquietas começaram a tremer. — Bem, devo—
— Você está bonita.
Aquelas palavras inesperadas a atingiram como uma pancada. Ela ergueu os olhos surpresa. Ele olhava para ela com a cabeça levemente inclinada.
O que digo? "Obrigada"? Ugh, isso soa idiota. "De jeito nenhum, Vossa Graça"? Ugh, pior ainda. Vasculhou a cabeça mas não conseguiu pensar em uma resposta adequada. Considerou sair correndo sem dizer nada, mas sabia que ele a pegaria facilmente. Por fim se decidiu por: — O m-meu tio Bill me deu. — Sei que não estava falando especificamente do colar, mas tanto faz.
Na verdade, talvez seja mesmo isso que estava falando. Recebi alguns elogios pelo colar esta noite.
Ele semicerrou levemente os olhos, depois riu de novo. O olhar foi deslocando devagar das bochechas vermelhas para o pescoço branco e o colar de esmeraldas que o adornava. Ela encolheu os ombros, sentindo-se estranha com ele a olhando assim.
— Você gosta? — perguntou ele.
— Como?
— Do colar.
— Ah... sim. Claro que gosto — respondeu ela com confiança.
Ele riu de novo, parecendo divertido com a resposta. Era uma risada incomumente suave e gentil.
Não sabia que ele conseguia rir assim, ela pensou. Desconcertada com a atitude estranha que ele demonstrava, ficou olhando de perto para ele.
Quando terminou de rir, ele olhou de volta com atenção. Continuaram a se contemplar por um longo tempo até que o silêncio foi interrompido por um pássaro pousado num galho da árvore.
Ela se sobressaltou com o som do pássaro batendo as asas e voando em direção ao céu. De repente foi tomada pelo medo ao perceber que alguém poderia estar observando-os. Decidiu que precisava ir embora imediatamente, então começou a caminhar, mas antes de dar um único passo ele agarrou o braço. Ela soltou um grito de susto. Antes que percebesse, sentiu o metal frio do poste de luz nas costas enquanto ele a pressionava contra ele.
Ficou parado de frente para ela, ainda segurando o braço.
— Vou g-gritar — disse ela, com lágrimas nos olhos.
Ele estufou o peito e respondeu com calma: — Faça o que quiser. — Pousou a mão no rosto dela e ficou olhando com atenção.
Ela tentou se soltar, mas os olhos dele permaneceram imóveis.
— Onde você escondeu? — perguntou ele com um olhar determinado.
Ela prendeu a respiração. — Escondeu...? — A voz tremia. — Escondeu o quê...?
Ele ficou observando o rosto dela por mais algum tempo, depois soltou um suspiro levemente desanimado. Havia achado que viu uma pista vaga por um momento, mas ela havia desaparecido rapidamente. Aquilo o decepcionou muito, mas a mulher à sua frente era bela o suficiente para dissipar o desejo.
Acariciou a bochecha e o queixo, depois lentamente desceu a mão e a enrolou ao redor do pescoço longo e esguio. Quando os dedos roçaram as pérolas frias do colar, engoliu em seco sem perceber.
Sabia que ela ficava com hematomas com facilidade. Por isso sabia que, se apertasse a garganta, com certeza deixaria uma marca. Depois imaginou pôr a boca na pele dela e lambê-la e sugá-la. Aquilo também deixaria uma marca. Imaginou fazer isso pelo corpo inteiro, da cabeça aos pés. Deixaria a própria marca, para que todos soubessem que ela lhe pertencia.
Mesmo enquanto imaginava fazer aquilo com a mulher à sua frente, soltou mais um suspiro desanimado. Depois de acariciar o pescoço rígido de medo, pousou de novo a mão na bochecha dela.
Sentiu o interior do lábio com o dedo. Estava úmido e quente.
Provavelmente não é o único lugar assim, ele pensou.
Os olhos dela se arregalaram assim que sentiu o dedo na boca. Ele roçou a superfície interna macia do lábio inferior, depois pousou na língua macia. Foi então que ela o mordeu. Não mordeu com força suficiente para machucar, porém. Em vez disso, ele só se sentiu mais estimulado pela atitude desafiante dela. Deu uma risadinha.
— Morde mais forte, Layla — sussurrou ele —, se quer que doa.
Sim, é um psicopata, ela pensou, parando de morder o dedo.
Sabia que mesmo que mordesse com força o suficiente para machucar, ele não recuaria.
Conforme ela foi se acalmando, ele deu uma risadinha e retirou o dedo da boca. Depois pegou o dedo, reluzente de saliva, e o esfregou devagar nos lábios dela.
Se te beijar, você provavelmente vai resistir de novo, ele pensou. A essa altura havia aprendido que qualquer resistência que ela oferecesse era fácil de superar.
Podia satisfazer o desejo com facilidade se quisesse. No entanto, não conseguia se obrigar a beijá-la. Simplesmente ficou olhando para ela, ambas as mãos nas bochechas.
Imaginou ela aceitando o abraço. Não batendo nele nem tentando empurrá-lo, mas abraçando-o e o acariciando com as mãozinhas. Imaginou a felicidade daquele momento.
Desceu a mão e acariciou a nuca. Sentindo-se perdido no momento e sem saber o que fazer, engoliu em seco. Droga, pensou, quase vocalizando o palavrão antes de cerrar os punhos para se conter. Depois abriu a mão e segurou de novo a bochecha dela com gentileza antes de soltar um suspiro quieto e finalmente soltá-la. Depois que deu um passo para trás, ela por fim saiu do transe e soltou um suspiro de alívio.
Mas então, em vez de correr embora como havia esperado, simplesmente ficou parada em silêncio. Baixou os olhos como se imersa em pensamentos, depois o olhou de novo e franziu levemente a testa.
Continuou a olhar assim para ele por um longo tempo. Durante todo o tempo, ele olhava de volta.
Ela sentiu uma emoção estranha e desconhecida, como se estivesse perdida. Naquele instante, algo frio e suave pousou nas pestanas. Ela se contraiu e ergueu os olhos. Ele também ergueu os olhos devagar. Estava nevando. Era a primeira nevada do inverno.
A noite havia caído há muito tempo quando a segunda metade do espetáculo terminou. Depois de ajudar na limpeza, Layla atravessou o saguão às pressas. Não estava com vontade de caminhar todo o caminho até casa na neve, então teria de pegar uma diligência ou um ônibus para chegar o mais perto possível de Arvis. O coração disparou quando percebeu que estava quase na hora de a diligência partir.
Bem quando havia descido as escadas na frente do salão municipal, ouviu uma voz conhecida.
— Layla! Quer dizer, senhorita Llewellyn!
— Sr. Fett!
O Sr. Fett, um dos cocheiros de Arvis e amigo de Bill, acenava entusiasticamente para ela. — Vamos! — gritou, apontando para uma carruagem estacionada na beira da estrada. Era uma das carruagens da família Herhardt.
A visão do brasão da família Herhardt na lateral da carruagem fez o rosto do duque aparecer na mente. Ela sacudiu a cabeça. — Não, obrigada! Vou encontrar meu próprio caminho até —
— A Duquesa-viúva Herhardt insiste, Layla.
Ela mal pôde acreditar.
— Ela disse que já que a senhora está indo para Arvis de qualquer forma, pode muito bem ir junto com ela. Vamos, então! Estão esperando a senhora!
