Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 62 - Uma Noite no Salão Municipal

Capítulo 62 - Uma Noite no Salão Municipal

Tradução: Amme

Capítulo 62

Uma Noite no Salão Municipal


— Viu, senhorita Llewellyn? O Duque Herhardt está aqui! — sussurrou a senhora Graeber, animada.

Layla, que acabara de sair para o saguão depois de assistir ao ensaio geral das crianças, reagiu com espanto. — Disse o duque? Não só a mãe e a avó?

— Sim! O próprio Duque Herhardt! Acho que veio com a avó... Ah! Olha ali!

Layla olhou na direção que a senhora Graeber apontava e viu o duque rodeado de pessoas. Naquele instante, ele virou a cabeça e os olhares se cruzaram. Ela prendeu a respiração, depois rapidamente sorriu e assentiu antes de baixar a cabeça. Felizmente, o duque foi embora logo.

Observando-o com decepção enquanto se afastava, a senhora Graeber perguntou a Layla: — Já que a senhora mora em Arvis, vê o duque pela propriedade de vez em quando?

Sentindo uma pontada de culpa, Layla entrelaçou as mãos. — Hum... sim, de vez em quando.

— Nossa! Tenho inveja. Ficaria tão feliz de poder vê-lo de vez em quando, mesmo que fosse muito raramente e de longe.

Desde a excursão de outono da escola a Arvis, a senhora Graeber havia demonstrado uma admiração sem limites pelo duque. Continuou a falar entusiasticamente para Layla sobre ele — o quanto era elegante e gentil, e por isso o quanto era um grande nobre. Por fim, voltou para o auditório para cuidar do ensaio do coral das crianças mais velhas, do qual estava encarregada.

Layla estava atravessando o saguão para se encontrar com as outras professoras quando viu o Duque Herhardt de novo. Com aparência altamente digna, ele conversava com um senhor de meia-idade. Ela parou de caminhar por um momento e o observou com cautela.

Desde pequena, sempre havia sentido medo e desconforto perto do duque. Por isso, sempre havia achado estranho quando outros o elogiavam profusamente. Normalmente não conseguia concordar com o que diziam sobre ele, mas também nunca havia sentido vontade de descobrir por que gostavam tanto dele.

Ainda sentia assim, embora pelo menos não achasse mais que os elogios eram mero palavreado vazio. Tinham razão — ele desempenhava perfeitamente o papel de Duque Matthias von Herhardt, senhor de Arvis. Aquilo fazia com que a personalidade oculta dele, que só ela conhecia, parecesse algo de um sonho — um pesadelo belo mas brutal, para ser mais exata.

Começou devagar a erguer o olhar da longa sombra que projetava no mármore do saguão. Ficou impressionada com o quanto ele era alto. Tinha uma constituição esguia, mas ao vê-lo de frente, ela quase ficou esmagada pelo quanto parecia forte.

E os olhos azuis... Espera, ela pensou, os olhos dele? Percebeu que ele olhava para ela de canto de olho, mesmo permanecendo de frente para a pessoa com quem conversava. Perguntando-se por que estaria olhando para ela, olhou de volta num estado sonâmbulo. Os olhos não demonstravam nenhuma emoção em particular, mas havia um sorriso sutil nos lábios.

— O que está fazendo aqui, senhorita Llewellyn?

Layla se sobressaltou com a voz da diretora atrás dela.

— Me desculpe por assustar. Vamos, vamos cumprimentar a todos.

A diretora então começou a caminhar com o restante das professoras em direção à área onde o Duque Herhardt estava com a Duquesa-viúva Herhardt. De alguma forma, Layla acabou na frente do grupo, perto do duque.

O olhar de Matthias passou por todas as professoras e pousou em Layla. Antes de ela baixar os olhos, captou um leve sorriso nos olhos semicerrados dele. Perguntou-se por que estaria sorrindo, mas não queria erguer o olhar. Em vez disso, ficou olhando para os sapatos bem polidos dele, desejando que o espetáculo começasse logo.

Ela mal sabia dos problemas que enfrentaria naquela noite.



— Você está com um ar bem animado ultimamente, Matthias — disse a Duquesa-viúva Herhardt alegremente enquanto contemplava o rosto do neto. — Tem alguma boa notícia para me contar?

— Não que me lembre — respondeu ele com um sorriso educado.

Apesar da resposta decepcionante, a avó sabia que havia de ter algo por trás do humor incomumente alegre dele. Percebeu com diversão que ele finalmente estava agindo de acordo com a idade. Estava agindo como um jovem no auge da vitalidade em vez de agir como muitos anos mais velho, como costumava fazer. Às vezes esquecia o quanto ainda era jovem, mas agora era impossível não notar.

— Bem, de qualquer jeito, fico feliz em vê-lo de bom humor — disse, decidindo não pressioná-lo mais sobre o assunto. — Agora, o senhor pode considerar eventos como este triviais, mas são uma das formas mais importantes de conquistar apoio e respeito públicos. — Olhou ao redor do auditório, depois voltou o olhar para o neto.

— Acho maravilhoso que como chefe de família o senhor tenha se dado ao trabalho de vir esta noite. Seu avô e seu pai nunca foram tão atenciosos.

O público gostava de se referir a Matthias como a obra-prima da Casa Herhardt. Embora a Duquesa-viúva Herhardt sempre risse e dissesse que era um elogio exagerado, no fundo acreditava nisso mais do que ninguém.

Era quase como se houvesse vivido uma vida tão longa, sobrevivendo ao marido e ao filho, apenas para estar presente nos dias gloriosos em que o neto era o chefe da família.

Aquele pensamento havia lhe ocorrido de vez em quando.

Enquanto olhava com carinho para o neto, as luzes do auditório foram baixando. O público ficou em silêncio, e o apresentador apareceu no palco.

Matthias sentou com postura impecável e aplaudiu educadamente junto com o restante do público. Não tinha, porém, absolutamente nenhum interesse no que acontecia no palco. A única coisa na mente era o colar que Layla usava.

No começo não havia tido certeza ao vê-la de longe, mas quando ela havia se aproximado, ficou claro que era o colar de esmeraldas que havia conseguido para ela. Para ele, aquele colar era como um sinal indicando que ela era sua. Mesmo que ela não soubesse, ele sabia, e aquilo lhe dava uma profunda sensação de satisfação.

A atenção finalmente foi atraída para o palco quando as crianças da escola da aldeia começaram a encenar uma peça. Vendo muitos rostos conhecidos, olhou com atenção e percebeu que eram as crianças que haviam visitado Arvis com Layla.

Deslocou o olhar para a área não iluminada na frente do palco. Como esperava, lá estava Layla, observando os alunos. As crianças nervosas continuavam a lançar olhares para a professora durante toda a apresentação.

A menor delas, que Matthias reconheceu como a menininha que havia derramado sorvete nas roupas de Layla no dia da excursão, parecia prestes a chorar. Perguntou-se que expressão a senhorita Llewellyn teria no rosto. De costas, ela parecia tão nervosa quanto os alunos.

A peça era sobre fadas vivendo em uma floresta. As crianças percorriam o palco com asas translúcidas, provocando de vez em quando gargalhadas encantadas do público. Mas os olhos de Matthias permaneciam fixos na jovem mulher nervosamente parada na frente do palco.

Por isso ficou mais sobressaltado do que os outros no público quando uma das crianças de repente começou a chorar alto.

— Ah, que susto — murmurou a Duquesa-viúva Herhardt.

Seguindo o olhar da avó, ele viu que era a menininha.

— Senhorita Llewellyn!! — soluçou ela, olhando diretamente para Layla.

Agora que a peça havia sido interrompida, uma expressão de pânico tomou os rostos das outras crianças.

Matthias semicerrou os olhos ao olhar para Layla. Ela vai conseguir lidar com isso?

A diretora correu até Layla e sussurrou algo no ouvido. Ela reagiu com uma expressão sobressaltada e sacudiu a cabeça, depois cedeu e subiu rapidamente ao palco. O auditório inteiro observou enquanto a jovem professora consolava a criança que chorava.

— Nossa, é ela — disse a Duquesa-viúva Herhardt, sorrindo ao reconhecer a professora. — É a filha adotiva do Bill Remmer.

Layla estava agachada atrás de um arbusto de flores artificiais, consolando a menininha. Por fim a menina parou de chorar, mas não parecia minimamente capaz de retomar o papel na peça. Além disso, algumas das outras crianças pareciam prontas para chorar também se a situação não fosse resolvida rapidamente.

Por fim, a diretora pareceu decidir que medidas especiais eram necessárias. Chamou Layla até a beira do palco e lhe estendeu uma pilha de papéis. Mais uma vez ela sacudiu a cabeça com veemência, mas a diretora foi insistente.

Layla voltou para trás do arbusto de flores e folheou freneticamente algumas das páginas. Depois pigarreou e começou a dizer as falas da fada das flores. — Que... l-lindas... as f-flores... venham... t-todos ver! — disse com voz trêmula.

Os murmúrios entre o público foram se silenciando. Mas as coisas não pareciam estar completamente sob controle. Pelo contrário, o público parecia ter ficado em silêncio por um choque ainda maior do que antes.

— N-não... n-não... n-não... arrancam... as f-flores. V-vão m-machucar elas!

Levou alguns momentos para Matthias compreender o que estava ouvindo.

Layla gaguejava as falas de forma desajeitada, em tom envergonhado. No entanto, conforme a peça ia retomando o curso, as outras crianças pareciam ir se acalmando.

A personagem da fada das flores não tinha muitas falas, mas cada vez que falava havia um murmúrio entre os membros do público. Por mais que soubessem que seria inapropriado rir, a visão de uma adulta tentando solenemente dizer as falas da fada das flores de forma tão desajeitada era algo que merecia ser visto.

Por fim o público explodiu em risadas. Até a Duquesa-viúva Herhardt, que havia tentado manter uma postura digna, não conseguiu evitar rir.

Matthias lançou um olhar para a avó rindo, depois voltou os olhos para Layla no palco. Ela estava agachada, lendo freneticamente o roteiro em preparação para a próxima fala. A menininha, que havia parado de chorar, estava de pé ao lado dela, olhando para o espaço. Matthias ficou sentado levemente torto na cadeira, recostado no braço, observando Layla.

Como que querendo agradecer à professora por dizer as falas no lugar dela, a menininha tirou a coroa de flores que usava e colocou na cabeça de Layla. Layla estava concentrada demais no roteiro para notar.

— E-esta... é... uma f-festa... ma-ravilhosa! Ha ha ha... E-estou... t-tão... a-nimada!

Ao ver a fada das flores rir de forma desajeitada, Matthias por fim também explodiu em risadas. As bochechas de Layla estavam agora tão vermelhas quanto as rosas da coroa na cabeça.

Conforme a peça continuava, Matthias conseguia perceber que o auditório inteiro aguardava ansiosamente cada uma das poucas falas da fada das flores.

Também conseguia perceber que, de todas as apresentações do espetáculo beneficente daquela noite, a peça encenada pelos alunos mais novos da escola da aldeia seria a favorita de todos.

Assim que a peça chegou ao fim, Layla desceu do palco às pressas. O público lhe deu uma ovação em pé.

Ainda rindo, Matthias aplaudiu de bom grado a bela fada que, apesar da atuação horrível, era claramente a estrela da peça.