Tradução: Amme
Capítulo 61
Espetáculo Beneficente
Depois de alguns dias tranquilos, as memórias de Layla daquela noite haviam ficado turvas, como se não tivesse passado de um sonho.
O Marquês Lindman havia voltado para a própria propriedade, e Matthias não havia enviado mais nenhum bilhete coercitivo nem aparecido na cabana.
Enquanto isso, a estação também havia mudado.
Layla abriu a janela e foi imediatamente recebida por uma brisa fria cheia dos cheiros do inverno. Deixou a brisa varrer o rosto por um momento, sem se preocupar com o frio. Olhou para a floresta de Arvis, permeada pela luz de inverno caracteristicamente branco-prateada.
Conforme os dedos foram esfriando, fechou a janela e se virou. As crianças da escola fariam um espetáculo beneficente no salão municipal do centro da cidade, então levou um pouco mais do que o usual para se preparar. Embora as crianças fossem as que estariam no palco, muitas das VIPs mais importantes da região estariam presentes, então precisava estar no melhor visual para causar uma boa impressão.
"Por favor, tente parecer uma professora digna. Tudo bem, senhorita Llewellyn?" — havia dito a diretora na reunião do dia anterior, acrescentando que esperava que ela não fosse de bicicleta ao espetáculo.
— Qual é o problema com a minha bike? — murmurou enquanto trançava o cabelo. Depois de um semestre inteiro de prática, já conseguia trançar com muito cuidado e facilidade.
Terminou de trançar e admirou o resultado no espelho. De repente, a memória lhe trouxe o que o duque havia dito naquela bela tarde de outono na Estrada Platanus: "Esse penteado não combina com você." Ela se contraiu como se estivesse de frente para o duque de verdade e se afastou do espelho.
Então se lembrou do que ele havia dito sobre o penteado pouco depois: "É bonito. É como as asas de um pássaro." Aquele comentário a havia perturbado ainda mais do que a crítica anterior. Ele o havia dito com uma expressão vazia.
Ficou mexendo no pente por um tempo, depois olhou no espelho de novo. Os hematomas haviam desaparecido quase que completamente, mas ainda se lembrava de certas coisas daquela noite com clareza.
O duque havia cumprido a promessa. Havia sido uma sensação estranha quando ele beijou os ferimentos, mas logo parou e calmamente começou a tratá-los. Com a mesma delicadeza cuidadosa de um médico tratando um paciente, havia esfregado pomada nos hematomas e enrolado gentilmente um curativo ao redor do ombro dolorido.
Bem quando a mente chegava ao ponto da memória em que havia recolocado a blusa e o encarado, ela se levantou de um salto e pegou o vestido e os sapatos de salto alto que havia economizado para comprar e os colocou. Não acredito que vou ter de usar esses sapatos desconfortáveis o dia todo... Os calcanhares já doíam segundos depois de calçá-los.
— Você está linda, Layla — disse Bill quando ela apareceu na cozinha. — Vai ser a mulher mais bonita do salão municipal hoje à noite.
— Não sei, tio Bill, vai ter muita nobre presente...
— E daí? Não importa que tipo de joia chique elas estejam usando, não vão se comparar a você.
— Fico feliz que pense assim — disse ela, rindo enquanto se sentava de frente para ele.
— Ah, Layla. Sabe aquele, hm... aquele colar? Que tal usar hoje à noite? — perguntou ele, olhando para o pescoço sem adorno.
— Colar? Ah! O colar que o senhor me deu?
— É. Você usou na festa na mansão do duque no ano passado. Acho que combina com o que você está usando agora, né? Não estou dizendo que precisa usar, mas certamente não me importaria.
Bill não entendia nada de moda feminina, mas lembrava vividamente de como Layla havia parecido deslumbrantemente bela na noite da festa. Parecia uma princesa, mesmo que por apenas uma noite, e ele guardava aquela memória com carinho.
Aceitando a sugestão de bom grado, Layla voltou para o quarto, vasculhou fundo no armário para encontrar o colar, e voltou para a cozinha com ele no pescoço. — Como estou, tio Bill? — perguntou, de pé na frente dele com as mãos atrás das costas.
Ele deu uma risadinha. — Cuidado com os corvos, Layla. Você está tão reluzente que estou preocupado que um deles vá te arrancar no bico!
Hmm, hoje ela vai a pé para o trabalho. Matthias sorriu ao ver alguém ao longe, além do grande jardim de rosas da mansão, caminhando pela trilha que vinha do terreno de caça. Mesmo a tão grande distância, reconheceu de imediato quem era — Layla.
Deu um passo em direção à janela. Recostando-se na moldura coberta por cortinas de damasco que se estendiam do teto alto até o chão, a contemplou enquanto ela se aproximava. Deu um assobio curto, e o pássaro imediatamente voou até ele e pousou na mão.
Aproximou a mão da janela como para mostrar ao canário a mulher caminhando lá fora. O pássaro, porém, pareceu desinteressado e voltou para a gaiola. Enquanto Layla continuava a caminhar, logo não era mais visível pela janela do quarto. Mas Matthias ficou na janela por um longo tempo.
Em algum momento recente, havia desenvolvido o hábito de começar cada dia perto daquela janela, se banhando na luz do sol e observando Layla enquanto ela ia para o trabalho.
Será que já está curada?, pensou, franzindo o cenho sem perceber ao recordar o corpo minúsculo e machucado dela.
Não havia falado com ela desde aquela noite.
Poderia ter ido visitá-la e visto por si mesmo como ela estava, mas não queria fazer isso. Era estranho. Não entendia completamente de onde vinha a hesitação.
Afastou-se da janela, sentou na poltrona perto da lareira e pegou o jornal que havia estado lendo mais cedo.
Mas não conseguia se concentrar — as palavras na página pareciam não significar nada.
Naquela noite, Layla havia chorado. Já havia a visto chorar incontáveis vezes, e ainda assim de alguma forma desta vez havia sido diferente, como se estivesse testemunhando pela primeira vez. Não conseguia tirar aquilo da cabeça.
"Espera", havia dito, impedindo-a de sair da cama.
Havia estendido um frascinho de remédio para ela. "É um analgésico."
Ela havia simplesmente erguido os olhos para o rosto dele com um olhar aturdido.
Havia retirado a tampa do frasco e se aproximado. Então havia agarrado o queixo e feito a boca abrir. Ela havia se contorcido, mas mesmo assim conseguira derramar um pouco do remédio na garganta. Era bastante amargo, mas ela havia mantido uma expressão serena ao engolir.
Ele havia dado uma risadinha, depois pegado o lenço e enxugado os lábios dela. Em seguida havia pegado um bala que havia colocado no kit de primeiros socorros e a colocado na boca dela. Ela havia ficado olhando para ele por um momento, depois, assim que a bala começou a se derreter na boca, lágrimas começaram a escorrer dos olhos.
As lágrimas inesperadas o haviam pego de surpresa. Sem emitir nenhum som, ela continuou a derramar lágrimas grossas. Ele havia ficado se perguntando por que estava tão perturbada enquanto a observava segurando a bala na boca, sem cuspir nem engolir.
Em seguida havia colocado a mão rigidamente contra o rosto dela e enxugado as lágrimas. Mas ela simplesmente continuou a chorar.
Sem saber o que fazer, havia perguntado: "Ainda está com dor?"
Ela havia assentido em resposta.
Sem saber o que dizer, simplesmente a abraçou. Tendo antes tentado empurrá-lo, ela agora resignadamente deixou ser puxada para o abraço.
A havia segurado por um longo tempo, enquanto ela soluçava e mastigava a bala. Quando parou de chorar, as lágrimas quentes e tristes haviam encharcado a frente do suéter dele. Cada vez que refletia sobre aquela memória, as emoções sombrias que havia sentido naquela noite o varriam de novo, exatamente como estavam fazendo agora.
Sem ter lido uma única palavra, pousou o jornal e se afundou fundo na poltrona, olhando para cima. Enquanto fitava o teto, podia ver de novo o rosto em lágrimas dela.
Normalmente, vê-la chorar o deixava feliz.
Anteriormente, havia gostado tanto de ver o rosto encharcado de lágrimas dela que fazia questão de fazê-la chorar sempre que tinha a oportunidade. Claro que havia momentos em que não havia gostado tanto, como quando alguém ou algo diferente dele era a causa das lágrimas. Naquelas ocasiões, havia detestado a cena e queria que o choro parasse.
Sempre havia sido tão claro quanto isso para ele. E não era só com as lágrimas dela — havia sentido o mesmo em relação a tudo de Layla. Na verdade, havia sentido o mesmo em relação a tudo na própria vida. Tudo precisava ser seu.
Refletiu sobre o tempo com Layla naquela noite como um mestre enxadrista analisando uma partida que havia perdido para ver o que dera errado.
Eram lágrimas estranhas, pensou. Normalmente ela chorava quando era tomada por raiva, vergonha ou medo. Não tinha nenhum problema em apreciar o choro nessas ocasiões.
Mas naquela noite, ela havia parecido quase como se não soubesse que estava chorando. Os olhos não continham raiva nem medo, mas também não estavam vazios. Estavam cheios de algum sentimento que não conseguia reconhecer, mesmo ao refletir.
Havia querido fazer o choro parar, mas não da forma raivosa com que havia querido fazê-lo parar quando ela havia chorado por Kyle Ettman.
A sensação dentro dele era estranha e desconfortável, mas não o incomodava especialmente. Era quase como a sensação de estar levemente intoxicado por um licor fino. Sentia-se apático e ao mesmo tempo levemente agitado, como se fosse perseguido por algo. Sentia-se confuso e feliz ao mesmo tempo.
Feliz. Sim, me sinto feliz. Sentia-se feliz de uma forma completamente distinta do prazer que havia derivado anteriormente de fazer Layla chorar. Começou a se perguntar se talvez fosse essa a razão pela qual a mantinha por perto em vez de descartá-la — para poder sentir aquela felicidade. Para poder ter aquela felicidade para si.
Pensou no momento depois que ela havia parado de chorar, quando havia contemplado o rosto cansado dela. Ela havia calmamente deixado que enxugasse as lágrimas e afastasse os cabelos. Mas como uma luz que cintilava fracamente e por fim se apagou, aquela emoção estranha nos olhos havia sumido, deixando apenas medo e resignação em seu lugar. Havia continuado a olhar para ela, perguntando-se se a emoção voltaria, mas não havia voltado.
Queria recuperar a felicidade que havia sentido naquela noite. Mas não importava quantas vezes percorresse a memória, não conseguia senti-la. Franziu o cenho. Era como se a sensação fosse areia escorregando entre os dedos. Naquele instante, houve uma batida educada na porta.
— Vossa Graça, sou eu, Hessen.
— Entre — respondeu Matthias, baixando o olhar do teto.
Hessen caminhou até ele e ficou de pé ao lado da poltrona. — Lady Herhardt perguntou sobre os planos de Vossa Graça para esta noite.
— Minha mãe perguntou?
— Sim. Havia planejado ir ao espetáculo beneficente no salão municipal esta noite junto com a Duquesa-viúva Herhardt, mas Lady Herhardt está começando a ficar resfriada e terá de ficar em casa. Portanto, se o senhor não tivesse outros planos para esta noite, gostaria que acompanhasse a avó em seu lugar. O senhor pode, Vossa Graça?
— Um espetáculo beneficente?
— Sim. Alunos de várias escolas da região de Karlsbar vão se apresentar, incluindo a escola da aldeia local.
De repente, Matthias entendeu por que Layla havia ido a pé para o trabalho. Pensando melhor, ela havia parecido estar vestida um pouco mais elegantemente do que de costume também.
— Claro — respondeu. — Vou.
