Tradução: Amme
Capítulo 59
Uma Adulta Extraordinária
Matthias conduziu Claudine à sala de estar, onde a mãe e a avó aguardavam, junto com Riette.
Riette havia começado a se perguntar se Claudine estava enganada quanto ao interesse de Matthias por Layla. Se Matthias era realmente tão encantado com ela quanto Claudine dizia, não fazia sentido que não demonstrasse nenhuma preocupação com o acidente. Portanto, mesmo sabendo que fingir que o incidente nunca havia acontecido seria a opção mais sensata, havia decidido mencionar Layla na frente de Matthias.
— Por acaso a vi esperando na beira da estrada, então resolvi cumprimentá-la, mas ela pareceu muito tímida — disse Riette casualmente enquanto se sentava de frente para Matthias.
Haviam acabado de vir do jantar, que fora servido um pouco mais cedo do que de costume, logo que Matthias havia chegado com Claudine. Claudine ficou na sala de estar, tomando chá com Lady Herhardt e a Duquesa-viúva Herhardt, enquanto Riette e Matthias tinham subido ao escritório do segundo andar.
— A Layla, quero dizer — acrescentou Riette em tom suave, sorrindo para Matthias.
Riette realmente não havia tentado perturbar a pobre jovem, só havia querido provocá-la um pouco.
— Ah — respondeu Matthias, como se fosse a primeira vez que pensava no incidente desde que aconteceu. Ficou fitando Riette por um momento, depois surpreendentemente começou a rir. A risada soava calorosa e inocente demais para não ser genuína. — Então até um conquistador como você pode ser rejeitado, hein?
— Como?
— Bem feito! — Matthias riu mais um pouco, depois pegou um cigarro da caixa prateada sobre a mesa e acendeu, antes de oferecer um a Riette.
Enquanto Riette acendia o cigarro, Matthias se recostou na poltrona, ainda rindo. Por fim, Riette também deu uma risada oca. Estava começando a sentir pena sincera de Layla ao testemunhar a atitude de Matthias em relação a ela. — Suponho que não foi um dos meus melhores momentos — disse, recostando-se também na cadeira. Começou a ter a sensação de que ele e Claudine haviam sido enganados.
"Aquela garota — você não acha que se parece bastante com o canário que o duque tem no quarto?" Claudine havia perguntado numa tarde do verão anterior, rindo enquanto olhava pela janela para Layla, que havia terminado de trabalhar no jardim e caminhava de volta em direção à cabana.
A forma como os cabelos louros e espessos saltitavam a cada passo animado que ela dava realmente a fazia lembrar o passarinho de Matthias.
"Não está insinuando que o Matthias adotou aquele canário por causa dela, está?" Riette havia perguntado incrédulo.
Claudine simplesmente sorriu em resposta, o que Riette tomou como um "sim".
Claudine era uma pessoa altamente racional, então sabia que ela não teria feito tal julgamento sem consideração cuidadosa. E era bastante suspeito que Matthias, que anteriormente via pássaros apenas como alvos em movimento, de repente tivesse adotado um como bichinho de estimação querido.
Depois que ela lhe apontou isso, ele havia entendido.
Ficou ainda mais convencido quando ela mencionou o plano que Matthias havia executado para separar Layla de Kyle Ettman. Portanto, tinha certeza de que Claudine estava certa sobre os sentimentos de Matthias por Layla.
Nesse caso, porém, por que estava agindo com tanta indiferença em relação a ela agora? Quanto mais Riette pensava nisso, mais confuso se sentia com tudo. Algum homem poderia realmente agir tão indiferente quando a mulher por quem tinha sentimentos era atingida por um carro? Se Claudine não estava enganada quanto aos sentimentos dele, poderia ser que ele já tivesse encerrado o relacionamento com Layla? Mas então, por que ainda mantinha o canário de estimação?
— Riette von Lindman — disse Matthias enquanto batia calmamente a cinza do cigarro.
Riette rapidamente apagou a expressão preocupada e suspeita do rosto e encarou o primo.
— Se quer criar um escândalo, preferiria que o fizesse na sua própria propriedade — disse Matthias, sorrindo. — Tento manter as coisas aqui em Arvis o mais organizadas possível, sabe. — Apagou o cigarro fumado pela metade e acendeu um novo, mantendo os olhos fixos em Riette o tempo todo. Não parecia ciumento nem irritado. Pelo contrário, tinha no rosto uma expressão como a de uma criança inocente.
Mais uma vez, Riette se lembrou de repente das palavras gélidas que um oficial havia dito: "Seu primo é um demônio cavalheiresco." Engoliu em seco nervoso, e a mão começou a tremer enquanto segurava o cigarro.
— Tenho certeza de que entende isso melhor do que ninguém — acrescentou Matthias quietamente antes de desviar o olhar.
Enquanto Riette observava o primo dar uma tragada demorada no cigarro, a única emoção que conseguia detectar era uma leve fadiga.
No fim, chegou à mesma conclusão a que todos chegavam ao ponderar sobre Matthias: Não o entendo. Soltou um suspiro cheio de fumaça. Se quero resolver as dúvidas que tenho sobre ele, parece que preciso encontrar uma forma de provocá-lo mais. Mas se descobrir algo sobre ele, será útil para a Claudine? Ruminando sobre aquela nova questão, Riette engoliu em seco de novo.
A quietude do quarto escuro foi subitamente perturbada pelo som de Phoebe bicando a janela. Normalmente Layla teria corrido até a janela e a aberto, mas desta vez permaneceu encolhida na cama, olhando para o nada. Os olhos piscavam devagar, com um olhar vazio.
Vários minutos se passaram antes que saísse do transe. Levou ainda mais tempo antes de conseguir se levantar da cama. Não tinha nenhum corte nem osso quebrado, mas os pontos do lado esquerdo das costas e do ombro onde o carro a havia atingido doíam imensamente.
Queria dormir, mas estava com muita dor, e a dor parecia aumentar com a passagem do tempo.
Usando apenas a mão direita, abriu devagar a janela. Havia um bilhete amarrado à pata de Phoebe. Tinha certeza de que era do Duque Herhardt.
Acariciou delicadamente as penas macias de Phoebe, depois retirou o bilhete.
Phoebe foi direto para a gaiola no quintal dos fundos sem esperar ser alimentada. Presumivelmente o duque já a havia alimentado.
Layla fechou a janela e sentou com cuidado na ponta da cama.
Mal se lembrava de como o acidente havia ocorrido, ou de como havia chegado de volta à cabana. Lembrava de ter tentado desesperadamente escapar do Marquês Lindman, depois de ter sido encandilada pelos faróis de um carro, e então de sentir um choque vago e doloroso pelo corpo inteiro.
Pensando nisso, respirou fundo e fechou os olhos.
Por mais doloroso que houvesse sido o impacto, havia esquecido a dor no instante em que percebera que o carro que a havia atingido transportava o Duque Herhardt e Claudine. Não se lembrava de mais nada, exceto de um embaraço triste e de um forte desejo de ir embora o mais rápido possível.
Esfregou os olhos marejados e colocou os óculos. Depois de hesitar por mais um momento, desdobrou o bilhete e leu a mensagem tipicamente fria que o duque havia escrito.
Você ainda precisa me trazer o meu lenço, Layla. Se você não vier até mim, posso também ir até você.
Amassou o bilhete com uma mão e o jogou embaixo da cama. Enquanto se deitava de volta e encolhia o corpo dolorido, sentia vontade de soluçar, mas em vez disso caiu na risada. Tirou os óculos e os jogou de lado sem cuidado, depois enterrou a cabeça fundo no travesseiro. Sentia que estava enlouquecendo.
Quem me dera poder fugir para algum lugar distante. Em algum lugar muito, muito longe dele.
Por mais que fantasiasse sobre escapar, a realidade não mudava. Ainda estava em Arvis, e parecia que nunca conseguiria escapar daquele homem. Se não fosse até ele, ele viria procurá-la. Já havia feito isso antes e estava pronto para fazer de novo.
Ele não se importaria se o tio Bill o pegasse. Se isso acontecesse, o tio Bill iria...
O fio de pensamento foi subitamente interrompido quando lembrou das palavras simples mas calorosas que Bill havia dito: "Sei que você vai se tornar uma adulta extraordinária." Não importava o que outros dissessem — Bill sempre havia acreditado nela e sempre havia se orgulhado dela. Sabia bem disso.
Os pensamentos derivaram então para o Marquês Lindman referindo-se a ela como a amante do duque. Imediatamente o coração começou a bater de inquietação.
Logo não aguentou mais e se levantou da cama de novo. Abriu a bolsa que havia jogado sobre a escrivaninha, tirou o lenço, e saiu do quarto imediatamente. Conseguia ouvir o som dos roncos de Bill vindo do quarto dele. Havia ido direto para a cama depois do jantar.
Sem nem colocar um xale, foi para o ar frio da noite. Tudo estava embaçado sem os óculos, mas aquilo não importava no momento. Estava ocupada demais com o ódio pelo duque.
O odiava tanto que sentia que o coração estava prestes a explodir. Sabia que não era justo culpar o duque pelo acidente quando a culpa havia sido realmente do Marquês Lindman, mas não estava de humor para ser justa com o duque. Afinal, ele não era justo com ela.
A lua estava escondida atrás das nuvens, então a noite estava muito escura, mas ela caminhou livremente pela floresta. Acelerou o passo conforme se aproximava da cabana à beira do rio. Estava tão frio que grossas volutas de vapor branco escapavam da boca a cada respiração, mas as bochechas estavam coradas enquanto caminhava freneticamente quase num trote.
— Você veio — disse uma voz na escuridão.
Ela parou onde estava. Era o duque. Estava recostado no corrimão da escada externa da cabana, olhando para ela lá embaixo.
— Estava prestes a desistir e ir embora. — Começou a descer em direção a ela. Parecia completamente à vontade. Até sorria.
Parou a um passo dela.
O vento que vinha do rio sacudiu os cabelos despenteados e a saia dela.
Olhando para o que ela usava, ele franziu o cenho. — Não está com frio?
Ela desdenheu da preocupação demonstrada, depois estendeu o lenço com uma mão trêmula. — Aqui. É o seu lenço.
— Layla.
— Boa noite, Vossa Graça. Não quero mais me encontrar com o senhor assim. Nunca mais. — Virou-se e começou a caminhar. Os passos confiantes ecoavam na noite fria. Sentia vontade de chorar de dor e de frio, então mordeu a parte interna da bochecha para se conter.
— Para — ordenou o duque.
Ela tentou começar a correr, mas as pernas entorpecidas pelo frio não cooperaram.
— Layla. — A voz soou mais alta conforme ele se aproximava por trás. — Layla!
Pousou a mão no ombro esquerdo dela. Ela soltou um grito e empurrou a mão para longe.
Estreitando os olhos, ele se aproximou e a envolveu nos braços, rápido demais para ela esquivar.
— Não! Para! Me solta!
Enquanto ela lutava em vão para se soltar, ele a ergueu e a jogou sobre o ombro como se fosse um saco de batatas.
Mesmo enquanto ela batia e arranhou as costas dele, subiu as escadas sem se abalar. Os gritos dela foram crescendo enquanto ele a carregava pela porta do segundo andar, mas não havia ninguém por perto para ouvi-la.
Caminhou na direção oposta à sala de estar e abriu a porta do quarto.
