Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 57 - O Quanto Vale uma Vida

Capítulo 57 - O Quanto Vale uma Vida

Tradução: Amme

Capítulo 57

O Quanto Vale uma Vida

Layla correu freneticamente pela trilha da floresta, olhando para cada árvore que passava na esperança de avistar Phoebe. Os objetos dentro da bolsa chacoalhavam com barulho enquanto corria, ofegante.

O auge do outono havia passado, e o inverno se aproximava. Os pulmões ardiam ao respirar o ar frio e úmido, mas não conseguia parar de correr. A cada tiro que ouvia, a imagem do cadáver ensanguentado de Phoebe lhe cruzava a mente.

Pelo que sabia, Phoebe já podia ter sido abatida.

A cada baforada de ar frio com cheiro de ferrugem que lutava para respirar, o medo crescia. Começou a se perguntar se a promessa do duque de não atirar em Phoebe não tinha valor algum. Recordou quando aquele homem cruel havia matado todos aqueles pássaros apenas para fazê-la ir até ele na floresta, e depois matara outro bem diante dela.

Por que tinha achado que podia confiar nele?

Ele havia deixado absolutamente claro que tipo de pessoa era, e mesmo assim ela havia acreditado que cumpriria uma promessa. O pensamento a encheu de uma vergonha profunda. O que é uma promessa para um homem como ele?

Absolutamente nada. Provavelmente nem lembra de tê-la feito.

As lágrimas começaram a se formar nos olhos enquanto dobrava para a trilha que levava ao Rio Schulter. Se não encontrasse Phoebe, queria ao menos encontrar o duque para poder implorar mais uma vez que tivesse misericórdia com a pomba. Sabia que provavelmente não adiantaria, mas tinha de fazer alguma coisa. Logo o desejo se realizou, e viu o duque junto com o restante dos acompanhantes de caça ao longe.

Tentou gritar para eles, mas nenhum som saiu, então simplesmente continuou a correr em direção ao grupo de nobres a cavalo. Um dos homens mirava a espingarda de caça em direção a um pássaro branco pousado num galho de árvore. Reconheceu o homem de imediato — era o matador de pássaros bonitos, o Duque Herhardt.

Phoebe!

Tentou gritar o nome da pomba, mas só saiu um sussurro rouco. Enquanto isso, o duque puxou o gatilho.

Bang!

O tiro alto ecoou, sacudindo a floresta.



Riette e o restante do grupo fitaram em silêncio desconcertado. Parecia que o tempo havia parado. Matthias abaixou a espingarda. O cano longo brilhava na luz do sol que entrava pelos galhos.

— Nossa, Matthias — disse Riette, quebrando finalmente o silêncio. — Não acredito que o ilustre Duque Herhardt errou um tiro. É a coisa mais interessante que aconteceu nessa caçada inteira!

A risada de Riette logo se espalhou para o restante do grupo. A bala de Matthias havia errado a pomba, apenas roçando a ponta do galho em que estava pousada. O pássaro voou imediatamente, enquanto a ponta do galho caiu no chão.

Matthias havia erguido os olhos para o céu com um sorriso irônico enquanto o pássaro voava. A pomba branca havia voado em direção ao leste da propriedade.

Naquele instante, Riette foi distraído da brincadeira com o primo pela visão de uma jovem parada a uma boa distância na trilha à frente deles. — Ei, o que ela está fazendo aqui?

Matthias virou a cabeça e a viu de imediato. Layla. Ela o encarava com uma expressão vaga.

— L-Layla! — gritaram os criados enquanto corriam em sua direção alarmados.

O olhar dela permanecia fixo em Matthias. Não era o olhar habitual de dúvida ou desconfiança. Ela o encarava de frente, como se ele fosse a única pessoa no mundo.

— É perigoso aqui, Layla — disse um dos criados. — Tenho certeza de que avisei o Sr. Remmer que Sua Graça iria caçar hoje...

Ela finalmente saiu do transe quando o criado agarrou seu braço. — M-me desculpa — disse, ainda lutando para recuperar o fôlego. — Eu... me confundi com a data. Sinto muito. — Rapidamente baixou o olhar para os próprios pés.

Os criados disseram que devia sair imediatamente, depois voltaram aos seus postos. Parecendo desinteressado no alvoroço, o duque puxou as rédeas do cavalo.

Layla continuou a olhar para ele por mais algum tempo, mesmo sabendo que precisava ir. O duque partiu em direção ao lado oeste da propriedade, para longe da direção em que Phoebe havia voado.

Os olhos de Layla brilhavam com lágrimas contidas. Com aqueles olhos, havia testemunhado a pontaria perfeita do duque muitas vezes.

Ele nunca errava. Portanto, sabia que não havia sido um engano a bala ter errado Phoebe. Havia mirado intencionalmente no galho para que Phoebe se assustasse e voasse para longe, onde estaria a salvo das armas dos outros também.

Antes de dobrar numa curva da trilha, o duque olhou para trás por cima do ombro. Estava tão longe que era difícil distinguir os detalhes, mas Layla conseguia intuir que olhava nos seus olhos.

Quando saiu de vista, ela se virou e começou a arrastar os passos de volta pela trilha por onde havia corrido freneticamente. Agora que a ansiedade havia desaparecido, o corpo inteiro parecia sem forças. Sentia-se como um fantasma flutuando acima do chão.

Lembrou-se vagamente de ter tido uma sensação semelhante antes. Imagens turvas começaram a lhe cruzar a mente de si mesma caminhando tarde da noite com uma sensação similar de leveza, mas decidiu não seguir a memória. Sabia que nada de bom viria de recordá-la. Em vez disso, agarrou com firmeza a alça da bolsa e continuou a avançar.

A visão foi clareando, e logo conseguiu ver a cabana à frente. Chegou à varanda, desabou em uma das cadeiras e soltou um longo suspiro.

O duque havia cumprido a promessa. Aquele fato era tão claro quanto o céu brilhante e sem nuvens lá em cima.



Layla estava sentada em silêncio à escrivaninha do quarto. De repente ouviu um bater na janela. Por reflexo, levantou-se e foi até a janela.

— Phoebe! — exclamou, abrindo a janela.

Assim que o fez, sobressaltou-se ao ver alguém parado atrás do pássaro — o Duque Herhardt. Rapidamente colocou as mãos sobre a boca para não gritar. Bill estava no quintal da frente rachando lenha. Se gritasse, ele viria correndo imediatamente.

Fechou e trancou a porta do quarto, depois voltou à janela aberta. Detectou um leve cheiro de sangue emanando da roupa de caça dele. Olhou com mais atenção e viu que a frente da jaqueta de caça estava manchada de sangue.

— A sua pomba está ali — disse ele, olhando para a outra extremidade do parapeito, onde Phoebe estava pousada tranquilamente.

Contendo o impulso de gritar, Layla contemplou o duque pela janela. O cavalo castanho-escuro estava parado obedientemente atrás do dono. Além deles, o céu havia escurecido com a aproximação da noite. A cor azul clara e profunda combinava com os olhos do duque.

— Você já pensou nisso? — perguntou ele de repente, tirando Layla do devaneio. Apontou Phoebe com o queixo e perguntou: — Já pensou em como vai retribuir o favor?

— Bem... — Ela engoliu em seco, desconcertada com a pergunta. — Pode realmente chamar de favor quando tudo que o senhor fez foi cumprir a promessa?

Ele deu uma risadinha.

— C-claro — continuou ela —, sou muito grata que o tenha feito.

— Só grata?

— E acho que o senhor é um cavalheiro honrado que sabe cumprir as próprias promessas.

— Não foi você quem disse que estava retirando o que disse sobre eu ser um cavalheiro? — perguntou ele, apoiando o cotovelo no parapeito e descansando o queixo na mão.

— Aquilo foi... precipitado da minha parte. Falei sem pensar.

Lutava para encontrar as palavras certas, com a sensação de que estava se afundando ainda mais a cada coisa que dizia.

— Então eu era um cavalheiro, depois deixei de ser, e agora voltei a ser, é isso?

— De certa forma.

— Então isso quer dizer que você é uma rainha?

— Como...? — respondeu ela, franzindo a testa. Depois de um momento, lembrou do que ele estava falando. — Ah...!

Depois de ele tê-la perseguido até o riacho, ela havia gritado que se ele era um cavalheiro, ela era uma rainha.

Considerou fingir que não se lembrava, mas as bochechas já haviam começado a ficar vermelhas. Não sabia por que havia sido incapaz de controlar o temperamento na frente dele. Era natural que as próprias palavras voltassem para envergonhá-la agora. Quando qualquer outra pessoa a tratava mal, não tinha dificuldade em engolir e aguentar. Por algum motivo, porém, com o duque não conseguia evitar replicar.

— Peço desculpas pelo que disse naquele dia — disse ela com hesitação. — E agradeço sinceramente por ter cumprido a promessa.

Enquanto falava, a voz de Bill ecoou do quintal da frente enquanto grunhia rachando lenha. Layla se sentia insuportavelmente tensa, mas o duque parecia completamente relaxado.

— O que devo fazer, Layla? — perguntou ele, alcançando pela janela e agarrando o queixo dela. — Não cumpri a promessa só para ouvir você cuspir um pedido de desculpas forçado.

Uma sensação de mau presságio invadiu Layla e ela tentou recuar, mas como sempre o duque era mais rápido e mais forte.

Antes que percebesse, os óculos haviam saído, e a visão estava preenchida pela imagem desfocada do rosto do duque.

De repente sentiu os lábios dele nos seus. Debateu-se freneticamente, mas ele agarrou um punhado grande dos cabelos dela para mantê-la imóvel. Paralisada pelo choque, gemeu sob a dor excruciante.

Enquanto isso, a língua quente dele se abriu caminho na boca dela.

Os grunhidos de Bill e o som do machado rachando a lenha ainda eram audíveis ao fundo.

Layla tentou empurrar o ombro de Matthias, mas tudo que aconteceu foi que ele a beijou com mais intensidade. Sentia algo levemente diferente do incidente do verão anterior que havia deixado cicatrizes profundas no coração. Naquela época, ele havia parecido feroz, como se fosse devorá-la viva. Agora era mais lento e gentil ao sugar os lábios e a língua dela.

Em seguida ele afrouxou o aperto nos cabelos, dando-lhe a chance de se afastar. Enquanto tentava recuperar o fôlego, conseguiu sentir o habitual cheiro de menta dele, misturado ao cheiro de sangue de animal.

Estremecendo, cerrou os lábios com força, mas ele não iria desistir facilmente.

— É só isso que a vida de Phoebe vale para você? — perguntou ele em voz baixa, num tom vagamente brincalhão.

Mas ela não estava em condições emocionais de receber a brincadeira da forma pretendida. Sentindo como se todo o sangue do corpo tivesse congelado, só conseguia olhá-lo fixamente com a expressão vaga. No estado de distração, logo esqueceu de manter os lábios bem cerrados e abriu a boca para recuperar o fôlego.

Matthias, que havia estado esperando a oportunidade, a puxou de volta para si imediatamente. Agarrando o queixo com tanta firmeza que parecia que ia esmagá-lo, enfíou de volta a língua na boca dela. Sentia a língua dele explorando devagar e obstinadamente cada canto dentro da boca. Teria preferido a dor de ele agarrar os cabelos àquelas sensações estranhas.

Enquanto isso, os grunhidos de Bill continuavam ao fundo.

Cada vez que Matthias sugava a língua dela ou a torcia dentro da própria boca, ela sentia um gemido surgindo involuntariamente de dentro. Aquilo a perturbava profundamente, mas a mente já não controlava o corpo. Por fim toda a força escoou, e o braço que havia tentado empurrá-lo caiu flácido sobre o ombro dele.

Conforme os gemidos começaram a ser pontuados por soluços submissos, ele deixou que ela se afastasse, embora mantivesse a mão no rosto dela. Os lábios enlameados de saliva reluziam mesmo na escuridão. Ao perceber que os próprios lábios provavelmente tinham o mesmo aspecto, ela quis desabar no chão.

— Layla!

O som repentino de Bill gritando o nome dela tirou-a do transe.

— Layla! Pode me trazer um copo de água fria?

Responde, pensou. Tenho que responder.

Enquanto se debatia sem saber o que fazer, Matthias tirou rapidamente o lenço e começou a limpar devagar os próprios lábios. Depois puxou o rosto dela em direção a si e limpou também os lábios dela. Depois de pegar os óculos e recolocá-los no rosto dela, por fim a soltou.

O som da lenha sendo rachada parou conforme Bill ficou preocupado com a falta de resposta. — Layla?

Matthias colocou o lenço na mão trêmula dela e disse baixinho: — Devolve isso depois de lavar. — Em seguida se virou e montou no cavalo com elegância.

— Ei, Layla! Está acontecendo alguma coisa?

Ouviu o som dos passos pesados de Bill entrando na cabana e se aproximando do quarto. Fechou rapidamente a janela e puxou as cortinas, depois correu até a porta e a abriu. Bill já estava do outro lado.

— Me desculpa, tio Bill. Eu só... cochiiei um pouco — disse ela, tentando apressadamente arrumar os cabelos desalinhados.

— Achei que tinha acontecido alguma coisa ruim com você de novo — disse Bill.

— Jantar... eu, hum... já começo a fazer o jantar.

— Não precisa se apressar. Vai com calma — disse ele, soltando uma risada aliviada antes de voltar ao quintal para terminar o serviço.

Assim que ouviu a porta da frente se fechar, ela desabou no chão. O lenço do duque esvoaçou até o chão ao lado dela.