Tradução: Amme
Capítulo 56
Phoebe
— Sou muito grata ao senhor, Dr. Ettman — disse Katharina von Herhardt, olhando para o médico com o carinho de sempre enquanto ele fechava a maleta.
O Dr. Ettman lhe devolveu um sorriso gentil. — Não me agradeça, Duquesa-viúva Herhardt. Fico feliz que não tenha sido nada sério.
— Na minha idade, é só uma questão de tempo até que seja.
— Não gosto de ouvi-la dizer isso, senhora. — Levantou-se devagar e ficou de pé ao lado da cama em que a duquesa-viúva estava deitada.
Ela sofria apenas de um resfriado leve, mas tinha idade suficiente para que até isso requeresse a atenção de um médico.
— É graças ao Dr. Ettman que me mantive com boa saúde mesmo avançando na idade. — Sorriu para a nora, parada ao lado do médico. — Não é verdade, Elise?
— Com certeza — respondeu Elise von Herhardt. — Muito obrigada, Dr. Ettman.
— É um prazer, Lady Herhardt. Bom, devo ir.
— A propósito, o Kyle está bem? — perguntou Elise.
O Dr. Ettman fez uma careta ao ouvir a pergunta, depois rapidamente forçou um sorriso de aspecto tranquilo. — Sim. Fico feliz em informar que está apaixonadamente imerso nos estudos na universidade.
— Entendo. Bom, puxa ao pai, então tenho certeza de que vai se tornar um excelente médico.
— É uma honra que pense assim.
— Suponho que voltará a Karlsbar nas férias de inverno?
— Os planos para as férias de inverno ainda não foram decididos.
— Claro, já que são as primeiras, talvez queira ficar na capital para aproveitar o meio social de lá. Ou talvez queira viajar para adquirir novas experiências. Talvez em algum lugar quente, no sul.
— Sim. Pretendo respeitar os desejos dele, independentemente do que decidir.
— Me avise quando decidir. Se ficar na capital, posso lhe indicar alguns dos melhores clubes sociais de lá. Se viajar, ficaria mais do que feliz em ajudar também.
O Dr. Ettman pareceu surpreso e tocado com o apoio entusiasmado que ela oferecia.
Bem quando o médico estava prestes a sair do quarto, Elise acrescentou: — Dê meus cumprimentos à senhora Ettman também. — Disse isso em um tom surpreendentemente amigável, considerando que a família Herhardt havia cortado todos os laços sociais com a Senhora Ettman.
O Dr. Ettman sorriu educadamente e saiu. As criadas o seguiram, deixando a mãe e a avó do duque sozinhas no quarto.
— Você certamente está demonstrando muito interesse no Kyle, Elise — disse a duquesa-viúva, sorrindo enquanto se sentava na cama e se recostava em uma almofada.
— Bom, pensei no que você disse, e você tem razão — se o Kyle se tornar um bom médico, vai ser bom para o Matthias também. Mesmo que tenhamos cortado os laços com a Senhora Ettman, a família Ettman pode continuar a nos prestar cuidados médicos.
— Fico feliz que concorde — respondeu a Duquesa-viúva Herhardt, assentindo.
Se tudo corresse conforme o planejado, Kyle sucederia o pai como médico da família Herhardt.
Em breve a conversa derivou naturalmente de Kyle para Matthias, o honrado herdeiro da Casa Herhardt.
— Ouvi que o Matthias foi recentemente a uma reunião do conselho escolar na escola da aldeia — disse Elise alegremente. — Fico tão contente que esteja prestando atenção tão de perto a assuntos como esse.
— Está se tornando um chefe de família respeitável muito mais rápido do que esperávamos — respondeu a Duquesa-viúva Herhardt.
— É mesmo. Está se encaminhando para ser um dos melhores duques da longa história da nossa família.
Foi basicamente uma coincidência. Matthias tinha um dia livre, então Riette havia sugerido que fossem a um clube social, e Matthias havia concordado.
Depois de algumas horas de convívio social que Matthias achou moderadamente agradável mas também moderadamente entediante, estavam a caminho de volta quando viram Layla.
O carro em que viajavam havia acabado de dobrar na estrada que levava à mansão quando avistaram alguém que Matthias reconheceu de imediato. Era um longo caminho até a mansão de onde estavam, mas não havia dúvida de que era Layla. Usando o casaco branco que Matthias havia comprado para ela, pedalava pela Estrada Platanus naquele dia de outono tardio.
Conforme o carro se aproximava, Riette também logo a reconheceu.
— Ei, não é a Layla Llewellyn, a dama apaixonada por pássaros que mora perto do terreno de caça de Arvis? — perguntou. Apesar do tom brincalhão, havia um olhar sério nos olhos. Em vez de olhar para Layla, observava o primo olhando para ela.
Matthias assentiu com um movimento rápido da cabeça sem tirar os olhos das costas de Layla. Ela parecia cansada, talvez por ter terminado um longo dia de trabalho, mas pedalava com bastante vigor.
Logo ela sentiu o carro se aproximando por trás e se deslocou para a borda da estrada. Naquele instante, o carro passou por ela.
Ao vê-la de perto, Matthias notou que ela também usava os sapatos que havia comprado.
— Você disse que ela é professora na escola da aldeia, não é? — perguntou Riette, ainda sorrindo para Matthias. — Deve estar indo para casa depois do trabalho.
— Pode ser — respondeu Matthias. Em seguida desviou o olhar dela, mas um sorriso suave permaneceu nos lábios.
Riette ficou admirado com a forma como o primo sorria. Matthias parecia um rapaz apaixonado pela primeira vez, por mais que isso não combinasse com a personalidade dele.
Sentindo o olhar de Riette, Matthias de repente se virou para ele e perguntou: — Tem algo a me dizer?
Riette encobriu o constrangimento com um sorriso astuto, depois rapidamente pensou em uma desculpa. — Sim, queria falar sobre a caçada hoje. Você consegue vir? Convidei alguns hóspedes, então acho que ficaria estranho o senhor de Arvis não estar presente.
Depois que Riette havia anunciado os planos do fim de semana de caçar na floresta de Arvis, uma enxurrada de pedidos de convite havia chegado.
Matthias havia dito a Riette que podia convidar quem quisesse.
— Não dá para eu agir como se fosse o senhor da sua propriedade, Matthias, não é?
O carro parou na frente da mansão.
Matthias pensou por um momento, depois concordou de bom grado em se juntar a Riette na caçada. Afinal, era fim de semana, então Layla estaria por perto.
— Pronto — disse Riette enquanto saía do carro. — Agora sim está agindo como o Duque Herhardt que conheço e admiro.
Riette deu uma palmada forte no ombro de Matthias, e Matthias não fez nenhum esforço para impedi-lo.
Os primos caminharam lado a lado para o interior do salão principal bem iluminado da mansão.
Phoebe era uma pomba esperta. Esperta o suficiente para descobrir uma forma de escapar da gaiola em que havia sido confinada no quintal dos fundos da cabana.
Começou com Bill.
Numa manhã de fim de semana, Layla estava ocupada fazendo o café da manhã, então Bill foi dar ração a Phoebe. Depois de alimentá-la, esqueceu de trancar direito a porta da gaiola. Claro que Phoebe não percebeu aquilo na hora. Estava ocupada demais bicando a ração.
Só percebeu que a gaiola não estava no estado habitual quando Layla e Bill estavam varrendo as folhas no quintal dos fundos.
— Não vá à floresta hoje, Layla. Ouvi dizer que o duque vai caçar hoje com os amigos — disse Bill.
Layla soltou um suspiro fundo. — Faz tanto tempo que ele não caça que achei que talvez tivesse arranjado um novo passatempo. Parece que não.
— Não seria um desperdício se um atirador tão habilidoso quanto o duque desistisse da caça?
— Parece que está do lado dele, tio Bill.
— Não, não é isso, é só... Quem falou em lados?! Só acho que seria um desperdício, é tudo.
Layla deu uma risadinha. — Parece que todo mundo em Arvis gosta do duque.
— O que há para não gostar? Não existe outro nobre tão nobre quanto ele. Aquela nobre arrogante teve muita sorte em se novar com ele.
— É... — respondeu Layla, sorrindo radiante enquanto continuava a varrer as folhas.
Durante toda a conversa, Phoebe havia permanecido tranquilamente pousada dentro da gaiola. Layla não notou nada de errado na gaiola de onde estava, do outro lado do quintal.
Foi mais tarde naquela manhã, depois que Bill foi trabalhar e Layla entrou para limpar a cabana, que Phoebe fez a fuga.
Um vento forte soprou, fazendo a porta de madeira destrancada da gaiola ranger. Phoebe se aproximou da porta com curiosidade e tentou bicá-la. Ela se moveu levemente. Tentou bicar com mais força, e de repente a porta se abriu.
Ficou olhando pela porta aberta por um momento, depois percebeu que era a oportunidade de escapar do encarceramento cruel ao qual havia sido submetida depois de entregar uma mensagem do duque.
Abriu as asas brancas e alçou voo. Depois de dar algumas voltas pelo quintal, voou em direção à floresta. Logo depois, o duque e os acompanhantes passaram pela cabana a caminho da caçada.
Layla ouviu o som do grupo passando, então parou de esfregar o chão por um momento e enfiou a cabeça pela janela para olhar. Os cães de caça iam na frente, com os nobres montados a cavalo logo atrás — era uma cena familiar. No entanto, a visão das espingardas reluzindo na luz da manhã ainda a fazia recuar de medo.
Naquele instante, o duque virou a cabeça na direção da janela da cabana. Os olhares se cruzaram. Layla se sobressaltou e recuou. Depois de tantas experiências assustadoras envolvendo ele, a simples visão do rosto dele fazia o coração disparar de inquietação.
Ficou parada por um momento, sem saber o que fazer, depois fechou a janela e fechou as cortinas grossas. Mesmo depois que os sons do grupo se dissiparam ao longe, o coração não voltou ao ritmo normal. Não é como se fosse a primeira vez que o vejo, pensou.
Como me tornei ainda mais covarde do que era quando era jovem?
Enquanto esfregava as mãos frias, ouviu o primeiro tiro, seguido logo depois pelo latido dos cães.
Provavelmente foi ele.
Veio à mente a imagem do cadáver frio e ensanguentado de um pássaro abatido pelo duque.
Decidindo que queria sair até a caçada terminar, pegou a bolsa e saiu da cabana. Ao sair, parou no quintal dos fundos para verificar a gaiola, por hábito. Tinha certeza de que Phoebe estaria lá, mas achou que devia checar, por precaução.
— Phoebe...?
O rosto empalideceu de horror enquanto ficava parada diante da gaiola vazia, a porta aberta balançando na brisa. Bem quando as mãos começaram a tremer, ouviu mais um tiro ecoar da floresta.
Matthias foi o primeiro a acertar um alvo. A bala dele encerrou instantaneamente a vida de um cervo que corria pela floresta.
— Você adquiriu interesse em caçar animais terrestres também? — perguntou Riette enquanto aplaudia o tiro certeiro do primo. — Que pena. Estava animado para apreciar sua famosa habilidade de acertar qualquer pássaro em pleno voo.
Enquanto isso, os cães de caça perseguiram um novo alvo — um coelho cinza. Riette ergueu a espingarda e mirou.
Quanto mais fundo na floresta iam, mais crescia a paixão pela caça. Outros do grupo haviam abatido alguns pássaros, mas até então Matthias não havia abatido nenhum.
Tudo bem, desde que não seja um pássaro, certo?, pensou. No começo, não entendia por que esse pensamento estava surgindo na cabeça enquanto caçava em seu próprio terreno, e então a ficha caiu — não queria ver Layla chorar, mesmo que isso significasse uma excursão de caça entediante.
A calma da floresta foi sacudida pelo som dos cavalos trotando sobre a espessa camada de folhas que cobria o chão.
O grupo dobrou para a trilha que levava ao Rio Schulter. Muitos pássaros viviam perto da água, então aquela trilha sempre havia sido o ponto favorito de Matthias para caçar.
Olhando ao redor, avistou um pássaro familiar pousado num galho. Era uma pomba branca com um barbante vermelho amarrado à pata.
— Phoebe — sussurrou ele por reflexo. Uma névoa branca saiu da boca ao falar.
Em breve, o restante do grupo de caça voltou as cabeças para o mesmo galho.
