Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 52 - Assunto Encerrado

Capítulo 52 - Assunto Encerrado

Tradução: Amme

Capítulo 52

Assunto Encerrado

Era fim de tarde quando o Marquês Riette von Lindman chegou à mansão Herhardt. A carruagem dele era seguida por outra, repleta de bagagem para a estada em Arvis.

— Bem-vindo, Riette — disse Elise von Herhardt, sorrindo radiante. — Queria que sua mãe tivesse vindo com você.

— Ah, sim — respondeu ele. — Mamãe está prestes a partir numa viagem.

— Vai ao sul para o inverno de novo?

— Sim, não suporta o frio — respondeu em tom gentil.

— E onde está a Duquesa-viúva Herhardt?

— Pode cumprimentá-la mais tarde. Está cochilando agora.

Elise conduziu Riette à sala de estar. Como primo e amigo de Matthias, Riette havia visitado Arvis inúmeras vezes ao longo dos anos. Os Herhardt sempre o haviam tratado como parte da família.

Depois de tomar chá com a tia, saiu para um passeio tranquilo pela floresta. Matthias não voltaria para casa até a noite, e ainda levaria um tempo até os criados terminarem de descarregar a bagagem e preparar o quarto. Mais do que qualquer outra coisa, porém, estava curioso a respeito da garota que morava perto da floresta, a garota que estava colocando em risco a vida perfeita de Matthias e Claudine — Layla.

Claro que Riette havia sabido de Layla há muito tempo, mas nunca havia prestado muita atenção a ela. A havia simplesmente agrupado com o restante do pessoal de Arvis. Tinha pena dela pelo histórico desfavorável, e sabia que era bastante bonita. Era só isso. Ficou bastante surpreso, portanto, quando ficou sabendo que ela era a mulher pelo qual Matthias havia se interessado.

Escândalos envolvendo casos entre aristocratas e as criadas eram comuns e geralmente atraíam pouca atenção. Seria uma história diferente, porém, se o aristocrata em questão fosse o Duque Herhardt, mesmo que se provasse ser apenas um capricho passageiro.

"O Duque Herhardt mentiu."

Conforme a cabana do jardineiro aparecia ao longe, algo que Claudine havia lhe dito numa noite no fim do verão anterior lhe veio à mente.

"Ele mentiu para separar a Layla do filho do médico."

Depois de dizer isso, Claudine havia se virado devagar para Riette e sorrido. Ou melhor, os lábios haviam sorrido; os olhos permaneceram frios e inexpressivos.

"Matthias von Herhardt mentiu e tramou para poder ter aquela órfã humilde para si. Consegue acreditar, Riette?" — havia perguntado ela, rindo.

Riette havia perguntado que tipo de mentiras Matthias havia contado, mas ela não havia elaborado.

"Espero que ele a consiga logo", havia dito ela, contemplando com calma o sol que se punha no horizonte depois de um longo dia de verão na propriedade Brandt. "Quanto mais cedo a tiver, mais cedo vai acabar", havia acrescentado quietamente, o rosto semelhante ao de uma espectadora entediada num espetáculo de terceira categoria.

Jamais havia demonstrado a menor sombra de ciúme em relação a Layla.

Havia exibido uma atitude levemente irônica em relação ao gosto do nobre noivo, como se estivesse decepcionada por ele não ter mirado um pouco mais alto, mas era só isso. E Riette sabia que era assim que ela realmente se sentia.

Se Claudine em vez disso tivesse parecido enciumada ou infeliz com a situação, Riette talvez tivesse tido coragem de lhe dizer para não se prender num casamento que a tornaria infeliz quando poderia se casar com outra pessoa que a tornaria feliz — o próprio Riette. Mas ela havia continuado a ver Matthias como a chave para a própria felicidade futura. E Riette sabia disso muito bem também.

Naquele dia, os dois haviam desfrutado de uma conversa leve durante o chá. O jantar havia sido igualmente agradável e despreocupado. Na manhã seguinte, Riette havia deixado a propriedade Brandt. Claudine havia permanecido parada na soleira até o carro sumir de vista.

Enquanto refletia sobre aquela memória, Riette se perguntou por que havia surgido de repente na mente. Soltou uma risada oca.

Naquele instante, chegou à cabana. Notou que a cabana estava ligada ao terreno de caça não cercado pela trilha da floresta.

O sol já havia começado a se pôr, mas o interior da cabana estava escuro. Relutando em dar meia-volta logo depois de ter caminhado todo esse caminho sem resultado, decidiu esperar um pouco. Recostou-se no corrimão da varanda e ergueu o olhar para as árvores, que haviam perdido quase metade das folhas.

Riette amava uma mulher que nunca deixaria o amor torná-la infeliz. Talvez fosse essa a razão para a própria infelicidade dele.

Aceitava esse destino. Amava a vida simples e despreocupada, e não se via acima de cometer uma travessura igualmente simples e despreocupada, especialmente se trouxesse diversão para ele e felicidade para Claudine.

O tempo passou. Bem quando acendia um cigarro, ouviu o som de passos se aproximando pela trilha da floresta. Logo ouviu também o som de duas pessoas conversando.

Fitando a direção dos sons, deu uma longa tragada no cigarro e soltou devagar a fumaça. Em breve viu um homem grande como um urso emergir da floresta ao lado de uma mulher mal na metade do tamanho dele. Pararam na borda do quintal da frente quando o viram.

Ele sorriu e começou a caminhar em direção a eles. O jardineiro lhe deu uma saudação seca ao reconhecê-lo, e a mulher inclinou a cabeça.

— Olá, você deve ser a garota dos pássaros que mora perto da floresta — disse Riette com a mesma atitude tranquila que havia demonstrado quando a encontrara chorando na floresta a caminho de enterrar os pássaros que Matthias havia abatido. — Ah, suponho que não seja mais uma garota. Agora é uma senhora dos pássaros. Ou preferiria que eu a chamasse de professora dos pássaros?

Havia um olhar desconfiante nos olhos com óculos. Ela franziu a testa enquanto ouvia a tagarelice dele.

A impressão que tinha dela permanecia inalterada. Era bonita, mas não era uma beleza deslumbrante capaz de capturar o coração de qualquer homem. Mesmo assim, conseguia perceber vagamente que havia algo especial nela, algo que havia enfeitiçado tanto o primo quanto o filho do médico.

— Bom, de qualquer jeito, prazer em conhecê-la, Layla.



— Cuidado com o Marquês Lindman — disse Bill em tom sério enquanto se sentava à mesa do jantar.

Layla riu enquanto colocava uma panela de ensopado recém-cozido no centro da mesa.

— Não é brincadeira — disse ele.

— Tio Bill...

— Você acha que aquele vagabundo veio até aqui num passeio tranquilo por acaso? De jeito nenhum. Com certeza estava tramando alguma coisa. — Rasgou a fatia de pão ao meio com força. — Foi direto até você e ficou tagarelando sobre isso e aquilo. Só estou dizendo, foi suspeito. Tome cuidado.

— Sim, tio Bill — respondeu ela, sabendo que concordar era a única forma de fazê-lo parar de insistir no assunto.

Ele franziu o cenho, percebendo que ela só estava o agradando. — Você deve levar minhas palavras a sério, Layla. Nem todos os aristocratas são tão decentes e respeitáveis quanto o Duque Herhardt.

— Sim, eu sa... hein? — Franziu a testa. Queria discordar com a caracterização do duque, mas não conseguia. Bill havia o descrito da forma como todos o conheciam, exceto ela.

Assentiu relutantemente, guardando os próprios sentimentos, e deu uma mordida rápida no pão. Enquanto mastigava, as memórias daquele homem indecoroso e irrespeitoso só se intensificavam. Ao pensar na reverência irônica que ele havia feito e na caneta excessivamente bela que havia enviado para a escola, o pão foi pelo caminho errado e ela começou a tossir violentamente.

— O que foi?

— Nada — disse ela, sacudindo a cabeça. — É que estava tão com fome que comi rápido demais. — Tirou os óculos e enxugou as lágrimas que a tosse havia causado.

Bill a fitou por um momento, depois caiu na risada. — Em momentos assim, você ainda parece uma criança — a repreendeu com carinho. — Come muito, mas devagar. — Tirou um pedaço generoso de carne da panela e colocou na tigela dela. Depois mais um. Logo havia uma pilha de carne se formando na tigela.

— Isso é demais! — ela gritou.

Ele era teimoso como sempre. — Ora, Layla, gosto de crianças que comem como um boi.

— Não sou mais criança — protestou ela.

Em resposta, ele colocou um último pedaço de carne em cima da pilha.



Passaram o restante do jantar rindo e conversando. Layla não conseguiu comer tanto quanto um boi, mas conseguiu comer o suficiente para deixar Bill satisfeito.

Depois da refeição, ele consertou a cadeira da escrivaninha que rangia enquanto ela arrumava a cozinha. Depois ela encheu duas canecas grandes de café e sentaram na varanda, contemplando as folhas caindo na floresta. O tempo já havia começado a esfriar, mas ainda terminavam cada dia conversando na varanda, como faziam todos os anos até o inverno chegar.

Depois disso, foram se preparar para dormir. Fazendo uma pausa antes de entrar no quarto, ele disse: — Durma bem, Layla.

— O senhor também, tio Bill — respondeu ela. Um fio de luz de fora entrava por uma fresta na cortina, iluminando o sorriso suave no rosto. — Boa noite.

Foi para o quarto, sentou na cadeira que ele acabara de consertar e corrigiu as provas dos alunos. Depois leu alguns capítulos de um romance policial que havia pegado emprestado na biblioteca e escreveu respostas para cartas de algumas professoras colegas com quem havia feito amizade.

Ao terminar a última resposta e tampar a caneta velha e gasta que estava usando, lembrou-se da caneta nova que o duque havia enviado.

Ficou olhando para o nada por um momento, depois abriu com determinação a gaveta da escrivaninha. Havia trazido a caneta para casa a contragosto. Lá estava ela, ainda na caixa.

Pensou nas coisas depreciativas que as pessoas sempre costumavam dizer sobre ela quando cometia pequenos erros na infância.

"Já sabia."

"O que se pode esperar de uma criança criada sem pais?"

Esses comentários sempre vinham misturados de pena e desprezo.

No começo ficava perplexa com o fato de ser mais repreendida do que os colegas por cometer os mesmos erros, ou mesmo quando era muito mais bem-comportada do que eles. Mas conforme foi crescendo, foi compreendendo que a vida não era justa. Havia padrões duplos em todo lugar que se olhasse.

Isso a fazia querer ser ainda melhor. Mesmo que nunca pudesse ser perfeita, queria pelo menos levar uma vida que os outros não se apiedassem dela. A determinação se fortalecia cada vez que enfrentava outro padrão duplo cruel. Sentia que devia isso ao tio Bill, que a havia criado com tanto amor.

Com esses pensamentos em mente, tirou a caixa com a caneta da gaveta e pegou um pedaço de papel pardo.

Depois de embrulhar a caixa no papel com esmero, escreveu cuidadosamente um endereço nela, usando a mesma caneta velha e gasta com a qual havia escrito as cartas. O destinatário era o senhor de Arvis, o Duque Matthias von Herhardt. Como endereço do remetente, escreveu o mesmo nome e endereço desconhecidos que haviam constado no pacote original recebido na escola.

Na manhã seguinte, antes do amanhecer, colocou a caixa na bolsa e saiu para o trabalho. Precisava sair mais cedo do que de costume para poder passar pelo correio da aldeia vizinha no caminho.

Depois de devolver o presente, sentiu como se um peso houvesse sido tirado do peito. Acreditava que estava tudo encerrado agora. Tinha certeza disso.