Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 53 - O Dono Daquele Pássaro

Capítulo 53 - O Dono Daquele Pássaro

Tradução: Amme

Capítulo 53

O Dono Daquele Pássaro

— Isso parte o meu coração cada vez que vejo, Matthias — disse Riette, estralando a língua enquanto abria o armário de bebidas do primo.

Matthias não era muito chegado a álcool, mas o armário de bebidas do quarto estava sempre repleto das melhores bebidas.

— Não é certo negligenciar essas garrafas preciosas — disse Riette com um sorriso atrevido enquanto levava uma garrafa até a mesa.

Como sempre, Matthias parecia indiferente ao que o primo estava fazendo.

A música vinda do gramofone se misturava agradavelmente ao estalar dos troncos na lareira. Riette encheu um copo de licor que um criado havia trazido e o estendeu a Matthias. O gesto gracioso com que Matthias o aceitou lembrava a melodia de piano que fluía pelo quarto.

Riette se recostou tanto no sofá que quase estava deitado e fitou Matthias de perto como se observasse um estranho. Matthias estava imerso em pensamentos, olhando fixamente para a borda do copo. O canário pequenino, que agora parecia ter se tornado parte do quarto, saltitava alegremente ao lado dele.

Enquanto continuava a observar Matthias, Riette se lembrou de algo que alguém havia dito sobre ele num clube social: "Seu primo é um demônio cavalheiresco."

Matthias nunca havia lhe falado sobre o tempo que servira como capitão na frente de guerra no exterior. Em vez de humildade, isso parecia decorrer do fato de não atribuir nenhuma significância ao serviço. Eram da boca de outros oficiais aristocratas que haviam servido ao lado dele que as histórias de seus feitos heroicos se espalhavam.

Riette não havia servido naquela guerra, mas pelas descrições, sentia como se tivesse visto Matthias no campo de batalha com os próprios olhos.

Tinha uma atitude peculiar — diferente de outros jovens soldados, não era um lutador apaixonado intoxicado pelo frêmito da batalha nem estava absolutamente entediado pela monotonia das obrigações militares. Executava sistematicamente as tarefas que lhe eram designadas e, embora não negasse a satisfação de realizá-las, também não parecia achar que nada disso tinha muito significado. Qualquer um que falasse sobre o Capitão Herhardt inevitavelmente concluía o relato dizendo: "Então... realmente não o entendo."

Riette sabia melhor do que ninguém que aquele comentário desalentado resumia Matthias von Herhardt melhor do que qualquer outra descrição.

"Não o entendo", sempre dito com um suspiro.

Riette suspirou ao pensar nisso agora. Não o entendo.

Uma vida inteira observando Matthias o havia levado à mesma conclusão. Assim como combinar todas as belas cores do arco-íris produz luz branca pura, todas as qualidades variadas de Matthias combinadas produziam um todo insondável.

Era um aristocrata nobre, um herdeiro digno, um bom primo e um soldado honrado. Cada uma dessas qualidades era clara e distinta em si mesma, mas o homem a que se somavam era impossível de decifrar.

Alguns elogiavam o Duque Herhardt pela maneira como suprimia os desejos pessoais para cumprir os deveres, mas Riette era cético quanto a isso. O Matthias que conhecia não tinha desejos a suprimir.

E isso tornava a atitude dele em relação a essa Layla Llewellyn ainda mais desconcertante.

Riette sorriu, os lábios úmidos da bebida. Matthias olhou para ele.

O canário estava agora sentado no ombro dele. Qualquer pessoa poderia pensar que isso incomodaria Matthias, mas ele não parecia se importar nem um pouco.

— Por quanto tempo você acha que vai continuar a agir como o dono daquele pássaro? — perguntou Riette.

— Pelo tempo que quiser — respondeu Matthias sem hesitar. Por fim tomou um gole do copo que havia estado segurando. O pássaro voou brevemente antes de pousar de volta no ombro e esfregar o bico na alça do suspensório.

— Por quanto tempo você acha que vai ser? — perguntou Riette.

— Quem sabe. — Matthias pousou o copo e se recostou no braço da poltrona. Os abotoaduras de ônix refletiam a luz da lareira.

— Você não está curioso com nada? — perguntou Riette. — Por que estou aqui em Arvis, o que estou planejando fazer aqui, nada disso?

— Não — respondeu Matthias com indiferença. Riette havia aparecido em Arvis do nada e ficado por semanas antes. Não era nada fora do comum.

— Tudo bem, seja assim — respondeu Riette, rindo alto antes de esvaziar o copo. Fitou Matthias de perto e pensou: É desejo? Parecia a explicação mais provável. É só o desejo de um homem por uma mulher bonita. É natural. Até alguém sem emoções ainda teria instintos naturais. Mas por que aquela órfã, de todas as pessoas?

Sempre foi imune ao charme de mulheres muito mais belas e elegantes do que ela. Logo sentiu que os pensamentos estavam girando em círculos, então decidiu parar de remoer o assunto.

O pássaro agora saltitava sobre a mesa. Matthias deu um assobio curto e ele voou de volta imediatamente.

Depois de testemunhar isso, Riette tentou chamar o pássaro ele mesmo, assobiando uma melodia elaborada. Pousado no dorso da mão de Matthias, o pássaro inclinou a cabeça mas não demonstrou nenhuma inclinação de voar em direção a Riette.

— Que diabo — disse Riette, rindo incrédulo. — Um pássaro consegue reconhecer o próprio dono?

De repente Riette se lembrou do olhar desconfiante que Layla havia lhe lançado. Não esperava que a fachada hostil durasse. Se havia se aberto com o filho do médico e com o duque, por que não se abriria com ele também? Tinha também a certeza de que Matthias acabaria por abandonar Layla em nome de Claudine. Era esse o desfecho desejado por Claudine.

— Quer ir caçar no fim de semana? — perguntou Riette enquanto se servia de mais uma dose.

Matthias pensou por um momento e deu uma resposta inesperada. — Vai você. Vou garantir que esteja tudo pronto para você.

Riette ficou surpreso. — Como? — Por onde se lembrasse, Matthias nunca havia recusado uma oportunidade de caçar. — Está falando sério?

Antes que Matthias pudesse responder, houve uma batida à porta. Era Hessen, o mordomo. — A correspondência chegou, Vossa Graça — disse, caminhando em direção a Matthias com uma bandeja com vários envelopes e um pacote.

Riette fitou o mordomo com indiferença. Por que tem de entrar aqui agora por algo tão trivial assim? Depois de um momento, percebeu que o mordomo lhe lançava um olhar que parecia sugerir que precisava deixar o quarto de Matthias. — Até amanhã, então, Duque Herhardt — disse, acenando. Em seguida pegou o copo e saiu do quarto.

Hessen esperou até os passos de Riette não serem mais audíveis, depois disse: — Há um pacote, Vossa Graça.

— Um pacote? — respondeu Matthias, aceitando a caixinha que Hessen segurava rigidamente. Não reconheceu o nome nem o endereço do remetente. — Quem é esse?

— Um parente meu — respondeu Hessen. — Usei esse nome e endereço ao cumprir o seu recente comando.

— O meu recente comando...? Ah. — Só depois de um momento percebeu que Hessen se referia ao comando da semana anterior de enviar uma boa caneta para Layla. Uma vez que percebeu isso, tudo fez sentido de repente.

— Vossa Graça, posso — — Tudo bem — disse Matthias, cortando Hessen como frequentemente fazia. — Pode ir.

Hessen lançou um olhar para os dedos do senhor que tamborilavam sobre a caixa, depois saiu imediatamente.

Assim que a porta se fechou, Matthias se levantou, segurando a caixa na mão. Arrancou o papel de embrulho e o jogou na lareira.

Abriu a caixa e encontrou uma caneta e um bilhete cuidadosamente dispostos dentro. Ergueu o bilhete e o leu com atenção.

Pensando melhor, percebi que perder a caneta foi culpa minha. Foi culpa minha ter caído, não ter recolhido tudo que derrubei e não ter recuperado o meu pertence na hora certa.

Não há necessidade de Vossa Graça assumir responsabilidade pelo meu erro. Estou portanto devolvendo algo que nunca deveria ter recebido.

O bilhete não estava assinado, mas estava suficientemente claro pela atitude confiante da mensagem que havia vindo de Layla. Enquanto Matthias o lia mais algumas vezes, ergueu as sobrancelhas e começou a sorrir, até que soltou uma risada seca.

O fogo crepitante devorou o bilhete amassado num instante. Depois fez o mesmo com a caixa e a caneta nova e reluzente.

Contemplando as chamas, o rosto de Matthias exibiu um sorriso de autoescárnio, depois raiva, depois humilhação, e por fim diversão. Essas emoções distintas se fundiram em uma, depois desapareceram do rosto, deixando em seu lugar uma expressão tranquila banhada pelo brilho do fogo.



As aulas terminavam mais cedo naquele dia, mas Layla estava mais ocupada do que de costume porque era o dia da reunião do conselho escolar.

O prédio da escola era bastante antigo e relativamente pequeno, por isso discutiriam a possibilidade de ampliá-lo.

Layla havia sido encarregada de preparar a sala de reuniões. Arranjou escrivaninhas e cadeiras suficientes para todos os membros que estariam presentes e preparou também canetas e blocos de anotações.

A senhora Graeber se aproximou a passos apressados. — Senhorita Llewellyn, terminou?

Layla olhou ao redor da sala de reuniões mais uma vez, depois sorriu e assentiu. — Sim, está pronto.

— Então vamos. Os patrocinadores estão chegando.

— Já? — Layla ajeitou rapidamente o vestido e seguiu a senhora Graeber para fora da sala.

Havia uma longa fila de carruagens e automóveis suntuosos dos patrocinadores entrando pelo portão da frente da escola.

Layla sentiu uma sensação ominosa por um instante, depois sacudiu a cabeça para se livrar dela. Havia lido a lista de patrocinadores que estariam na reunião naquele dia várias vezes, e não havia ninguém da família Herhardt. Mesmo assim, uma sensação de inquietação persistia no peito.

Concluiu que provavelmente era por causa do presente que havia devolvido. Já haviam se passado alguns dias, mas o duque não havia respondido de nenhuma forma. Não havia escrito de volta nem havia feito uma visita para questioná-la como havia feito no passado. Havia estado em alerta por dias com medo de que ele a submetesse a mais uma humilhação. Talvez tivesse ferido o orgulho do duque. Bom, era para ter acontecido mais cedo ou mais tarde, pensou.

Por mais que não entendesse nada de romance, já tinha idade suficiente para ter uma noção vaga da lascívia do duque e saber que isso poderia ser um problema para ela.

Odiava tudo aquilo — o duque, a lascívia dele, e o impacto que aquela lascívia poderia ter sobre ela. Estava cansada de ser arrastada para um mundo com o qual não tinha nada a ver. Estava cansada de se machucar. Havia tentado expressar isso no bilhete que incluíra com a caneta, então talvez o duque entendesse agora. Talvez o silêncio daquele homem distante indicasse que estava se submetendo aos desejos dela.

Acalmando-se gradualmente, tomou seu lugar no fim da fila de funcionários da escola que cumprimentavam os patrocinadores. Era um dia frio e chuvoso de outono. Havia preocupação de que o mau tempo pudesse reduzir o comparecimento, mas por sorte não foi o caso — todos da lista de presença apareceram.

Layla cumpriu fielmente o papel designado, cumprimentando cada patrocinador com educação e um sorriso alegre. Seria encarregada de servir o chá assim que a reunião começasse. Depois esperaria quietamente até a hora de se despedir dos patrocinadores. Se conseguisse chegar a esse ponto sem contratempos, a primeira reunião do conselho escolar seria um sucesso.

Depois que a última nobre a chegar entrou na escola, a diretora se virou. As professoras estavam prestes a se virar também quando mais um carro parou na frente da escola.

A expressão perplexa no rosto da diretora rapidamente deu lugar a um sorriso radiante. — Meu Deus! Vossa Graça!

Layla havia estado se preparando para dar mais uma saudação cordial, quando percebeu quem era. Não é possível. Sacudiu a cabeça incrédula, depois olhou de novo com ansiedade.

Com efeito, era o próprio Duque Herhardt, parado com a postura ereta característica sob um guarda-chuva que o assistente segurava para ele.

O olhar passou devagar por cada uma das professoras alinhadas para cumprimentá-lo antes de pousar no rosto lívido de Layla.

No instante em que os olhares se cruzaram, ele sorriu. Para qualquer outra pessoa que estivesse assistindo, era um sorriso extraordinariamente gentil.