Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 51 - Você é um Corvo?

Capítulo 51 - Você é um Corvo?

Tradução: Amme

Capítulo 51

Você é um Corvo?

Ele é louco, percebeu Layla. Era algo que de alguma forma havia esquecido. Sim, o Duque Herhardt está completamente fora de si.

— Não vai responder? — perguntou ele, sorrindo.

Agarrava os cabelos dela com um aperto relativamente gentil, considerando a ferocidade com que havia acabado de persegui-la até o salgueiro.

Ela estava assustada e humilhada demais para notar isso, porém.

— Layla — disse ele em uma voz ainda mais baixa.

Ela tentou recuar, mas o tronco da árvore atrás bloqueava o caminho. Apesar da velocidade com que havia corrido, já havia recuperado o fôlego. Ela, por outro lado, ainda ofegava. A cada vez que o peito subia e descia, sentia com mais vivacidade a proximidade do corpo grande e forte dele, o que só aumentava o embaraço.

— Por que você... — disse ela com voz trêmula enquanto usava todas as forças para tentar empurrar os ombros dele. — Por que está fazendo isso comigo? — Percebendo que a força não era suficiente para afastá-lo, tentou se retorcer para sair do aperto.

Divertido com as tentativas inúteis, Matthias pressionou o corpo firmemente contra o dela. O sorriso ficou ainda mais satisfeito quando sentiu o corpo dela congelar de medo.

— Quero que você me responda, não que faça mais perguntas. — Olhou diretamente nos olhos franzidos dela. — Me responda, Layla.

Acariciou devagar os cabelos dela. A textura macia e suave parecia acalmar o desgosto que havia sentido durante toda a semana. Tornava até mesmo a falta de resposta dela tolerável.

— Você acha que é digno de uma dama não me escrever de volta nem responder à minha pergunta?

— ... — Layla?

— ... — Layla Llewellyn. — O aperto nos cabelos foi apertando gradualmente.

Dominada por uma sensação ominosa, ela por fim respondeu com raiva: — Não sei do que está falando!

— Você não recebeu meu bilhete?

— Não sei.

— Layla, é melhor pensar bem antes de falar. — O sorriso se intensificou ao notar a inquietação nos olhos dela. — Se aquela pomba-correio inútil não conseguiu entregar nem uma única mensagem, o que você acha que farei com ela?

— O-o senhor prometeu! — ela gritou. — Prometeu não atirar na Phoebe!

— Prometi?

— Vossa Graça!

— Agora sou eu que não sei do que está falando — disse ele com um sorriso malicioso. Se ela ia mentir descaradamente, não havia razão para ele não fazer o mesmo.

Ela o fulminando brevemente antes de baixar as pálpebras trementes.

— Me desculpa...

— Por quê?

— O senhor já sabe.

— Por ter ignorado meu bilhete, por ter fugido, ou por ter mentido?

Ela se sobressaltou ao ouvir cada uma das faltas ser apontada. Ele gostava de vê-la ficando mais dócil, mas não gostava de não conseguir ver os olhos dela.

— Chega de desculpas — disse, erguendo o queixo dela com o dedo indicador.

Estava manuseando o rosto dela como se fosse um objeto delicado e frágil.

Aquilo a fez estremecer de medo. Ele não se importou com a reação. A satisfação que sentia com o contato visual restaurado compensava a leve amargura que sentia.

— Suponho que essa caneta não significava nada para você, já que não parece se importar com o fato de tê-la perdido.

— Não, significa muito para mim! Mas...

Deixou a frase no ar e tentou virar a cabeça, mas ele apertou o queixo para mantê-la de frente.

— Mas? — respondeu ele. Não queria que a conversa terminasse mais do que queria que ela desviasse o olhar.

Com os cabelos e o queixo firmemente presos, ela soltou um suspiro resignado e disse: — Realmente não entendo o senhor.

Os olhos calmos e esmeraldinos dela refletiam a imagem dele. Eram olhos bonitos. Faziam-no pensar em um verão eterno.

— Por que fica roubando as minhas coisas? — perguntou ela.

Ele ergueu as sobrancelhas diante da pergunta acusatória. Sabia que ela era a única pessoa em Karlsbar, se não em todo o império, que ousaria lhe falar como se fosse um gatuno qualquer. Ficou tão espantado que não conseguiu evitar uma risadinha.

— O senhor é... um corvo? — perguntou ela, olhando com o cenho franzido para os cabelos negros como tinta e os olhos azuis dele.

— Um corvo? — perguntou ele com uma expressão confusa.

Ela continuou a dizer o que pensava. — Fica sempre roubando as minhas... quer dizer, é o senhor que está errado, então não entendo por que devo ser eu a ir atrás do senhor e implorar para ter as minhas coisas de volta cada vez. Não é justo.

A voz foi subindo enquanto a raiva crescia. Ele ficou satisfeito ao ouvi-la.

— Foi por isso que não respondeu ao meu bilhete? — perguntou ele, com um sorriso irônico.

De repente ela se sentiu tola e ficou sem palavras. Havia reunido toda a coragem para rebatê-lo, mas ele a havia descartado com uma única pergunta sarcástica.

Bem quando estava prestes a falar de novo, ele a interrompeu.

— Layla.

O ímpeto combativo havia desaparecido, substituído por uma sensação estranha e difícil de descrever. Ela rapidamente baixou os olhos enquanto lutava para pensar no que dizer.

— Layla — disse ele um pouco mais devagar, como se cantarolasse uma melodia.

Ela virou a cabeça de lado e a orelha tocou no peito dele. Ouviu o som fraco do coração batendo. Preocupou-se que ele pudesse ouvir o coração dela também.

Pressionou as mãos pálidas contra os ombros dele de novo. Sabia que era inútil, mas sentiu que precisava tentar.

Quando ele finalmente deu um passo para trás para condescender com ela, ela soltou o ar que havia prendido. Era tímida mas ousada, dócil mas resistente. Essas contradições só a tornavam mais fascinante para ele, e mais tentadora.

— Por favor, me devolva a caneta — disse ela.

Ele riu. Ela nunca decepciona. — Não tenho — respondeu com calma. — Joguei fora.

— O senhor FEZ O QUÊ?

— Achei que não precisava, já que não veio buscá-la.

— Então por que foi à cabana...?

— Senti que precisava lhe dizer, Layla — disse ele, dando de ombros. — Afinal, sou um cavalheiro. — Ainda segurando os cabelos, começou a acariciá-los de novo. — O maior cavalheiro de Karlsbar, como até você reconheceu, senhorita Llewellyn.

Soltou o aperto e os cabelos caíram sobre os ombros dela. Ela deu um passo para trás, fulminando-o. Antes que pudesse dar outro, porém, soltou um grito de dor.

Ele havia de repente agarrado a última mecha antes que escorregasse pelos dedos.

— Não sou? — perguntou, olhando com prazer para os olhos dela se enchendo de lágrimas pela dor.

Ele é louco, ela pensou de novo enquanto lutava para soltar os cabelos do aperto dele.

Sorrindo, ele começou a brincar com a ponta da mecha que segurava.

Não acredito que esse cara é o chefe da Casa Herhardt! Enquanto começava a se preocupar com o futuro de Arvis, ela cambaleou para trás. Ele havia de repente soltado os cabelos. Ouviu o som da gargalhada dele enquanto caía no chão, e então tudo ficou escuro.

Quando recobrou a consciência, o rosto dele estava bem na frente de novo. Só quando sentiu o braço envolvendo a cintura percebeu que ele a segurava no próprio abraço.

Devo mordê-lo?, pensou, sentindo-se como um camundongo encurralado, quando de repente ele a soltou.

A expressão displicentemente indiferente no rosto dela a fez estremecer.

Correu rapidamente até a beira do riacho. Ele ficou onde estava, verificando o relógio com calma.

— Retiro o que disse — gritou ela. — O senhor não é um cavalheiro. De jeito nenhum!

— De repente virou uma crítica severa — disse ele, rindo.

As bochechas ficaram vermelhas. — É verdade.

— Ah, é?

— Sim! Se o senhor é um cavalheiro, eu sou uma rainha! — Odiava ter lhe dado elogios tão servis antes.

Ele ergueu as sobrancelhas e sorriu ironicamente enquanto ajeitava a lapela do paletó. Depois se curvou profundamente para ela, como um servo se curvando perante uma rainha, antes de se virar e começar a ir embora. A elegância requintada do gesto a encheu de embaraço.

Ela ficou olhando fixamente para as costas dele enquanto se afastava. Havia a perseguido como uma fera selvagem, a atormentado, e depois a humilhado ainda mais com aquela despedida graciosa.



O carro estava à espera quando Matthias chegou à cabana.

Entrou diretamente. A irritação e o desgosto que havia sentido ao sair da cabana haviam desaparecido completamente.

O carro acelerou pela estrada ao lado do rio. Ele contemplou o Rio Schulter por um momento pela janela.

O leve sorriso que persistia no rosto desapareceu quando se virou para os documentos e cartas que o assistente havia trazido.

Para animar o ânimo de novo, enfiou a mão no bolso do paletó e retirou a caneta.

Layla Llewellyn — as letras douradas reluziam ao sol da tarde.

Passou os dedos devagar pela superfície brilhante da caneta. Retirou a tampa, sorrindo. O som da caneta riscando o papel preencheu o interior ensolarado do carro.



Depois de entregar o restante da correspondência à escola, o carteiro estendeu um pacote pequeno para Layla. — Isto é para a senhora, senhorita Llewellyn.

— Para mim? — perguntou ela, pegando o pacote. Era estranho receber um pacote na escola em vez de em casa, e não reconheceu o nome nem o endereço do remetente. — Tem certeza de que não é um engano?

— Como? — Olhou de perto para a etiqueta de endereço. — Hmm... Não, está definitivamente certo.

Ela sorriu e sacudiu a cabeça. Apesar do remetente e do endereço desconhecidos, o nome dela estava claramente escrito no pacote.

— Obrigada — disse antes de correr para dentro da escola.

Era dever da professora mais nova receber e distribuir a correspondência todos os dias. Sempre começava no escritório da diretora e seguia dali para cada sala. Quando terminou de distribuir toda a correspondência, o intervalo já estava quase acabando.

Voltou para a sala de aula, sentou à escrivaninha e abriu o pacote que havia recebido. Dentro havia uma caixa longa e estreita, sem bilhete nem nenhuma outra marcação.

Verificou o nome e o endereço do remetente de novo. Era um nome desconhecido, de uma cidade desconhecida.

Inclinou a cabeça e abriu a caixa, depois olhou maravilhada para o objeto dentro. Era uma caneta preta com acabamento em ouro.

No instante em que a viu, tudo fez sentido. Sabia quem havia mandado e por quê. As lembranças desagradáveis do fim de semana anterior vieram inundando a memória, e ela suspirou. A caneta parecia muito mais cara do que a original.

Recolheu-a cuidadosamente da caixa. O nome dela estava gravado na tampa, igualzinho ao da caneta que o duque havia jogado fora.

O sino indicando o início das aulas tocou, e as crianças entraram na sala em bando.

Ela colocou a caneta de volta na caixa e guardou-a no fundo de uma gaveta da escrivaninha. Esperava que as memórias do fim de semana ficassem lá junto com ela, embora soubesse que era uma esperança vã.

Foi até o pódio e sorriu radiante. — Olá, crianças. Vamos começar!