Tradução: Amme
Capítulo 48
A Estrada Platanus
O pombo pousou com delicadeza no corrimão da varanda, depois foi direto para o comedouro e começou a bicar as sementes enquanto a luz do pôr do sol impregnava as penas brancas.
Quando viu o pássaro pela janela, Matthias repetiu o nome que havia ouvido Layla dizer com aquele tom tão desesperado:
— Phoebe. — Por que daria a uma simples pomba um nome tão grandioso?, perguntou-se, rindo para si mesmo.
Levantou-se do sofá e abriu a porta da varanda. Uma brisa fria e úmida soprou do rio. Ao se aproximar do pombo, ele não demonstrou alarme — simplesmente continuou a bicar a ração.
O pássaro dócil tinha uma personalidade bem diferente da dona.
O sol continuava a se pôr enquanto Matthias se recostava no corrimão. Fechou os olhos e ouviu o som límpido da brisa. Ouvia também o som quieto e belo das folhas de outono farfalhando ao longe.
Os sinais do outono permeavam cada canto de Arvis, e Layla estava lá também.
Observava-a pedalar diligentemente a bicicleta para o trabalho toda manhã durante a semana e voltar para casa cada tarde com um ar ainda mais cansado. Observava-a usar o tempo livre ajudando o jardineiro no trabalho ou carregando uma cesta para dentro da floresta, onde colhia montes de cogumelos e frutas silvestres.
Em Arvis, o belo mundo que possuía, tudo estava em seu lugar certo. A ordem perfeita da propriedade lhe trazia grande satisfação, e ajudava a esquecer o desencanto que havia sentido depois de se tornar um informante para secretamente ajudar a desesperada Linda Ettman a impedir o casamento do filho.
Era justo, sentia ele, que Layla fosse parte da ordem perfeita de Arvis.
Imerso naquela sensação agradável e inebriante de satisfação, abriu os olhos. O pombo, tendo comido o suficiente, alçou voo na direção da cabana, voltando para a dona.
Matthias tinha agora certeza de que o pássaro voltaria à varanda da cabana no dia seguinte e no subsequente. Não tinha interesse nos sentimentos do pássaro, mas sabia muito bem como adestrálo.
Para conquistar o coração da pomba-correio, bastava fornecer ração abundante em um local seguro. Havia aprendido essa técnica no exército. Os soldados usavam pombos-correio quando não havia boas comunicações eletrônicas ou quando havia risco de as mensagens eletrônicas serem interceptadas pelo inimigo. Matthias agora aplicava as mesmas técnicas de adestramento em Phoebe.
Depois que Kyle partiu para a capital, Phoebe rapidamente percebeu que não adiantava mais voar até a janela dele. Por volta dessa época, uma nova fonte de ração havia aparecido em um local seguro, então Phoebe havia começado a voar até lá. Diferentemente da dona tola, o pássaro era bastante esperto.
Enquanto olhava na direção para onde ela voava, Matthias franziu o cenho de repente, lembrando-se da expressão de Layla sentada na varanda no dia da excursão de outono, quando o sorriso havia sumido no instante em que os olhares se cruzaram. Tinha certeza de que havia mostrado aquele mesmo sorriso ao filho do médico sem reservas, e esse pensamento o encheu de amargura.
Desde pequena, Layla havia se abstido de sorrir na presença de Matthias, mas não havia conseguido conter as lágrimas.
Por isso a havia feito chorar. Se não conseguia fazê-la sorrir, fazê-la chorar teria de ser suficiente. Não importava para ele se ela sorria ou chorava. Se tudo que podia lhe dar eram lágrimas, faria as lágrimas escorrerem. Se pudesse lhe dar dor, a faria doer por dentro.
Mas e se houvesse algo mais que pudesse lhe dar? Ultimamente havia estado pensando nisso. Estava cansado de vê-la assustada ou com raiva. Em vez disso, queria que ela olhasse só para ele, de vez em quando insistindo com ele de forma mimada para que lhe desse algo, depois explodindo num sorriso radiante quando ele desse.
Agora sabia o que o desejo significava. Desejava Layla Llewellyn. Desejava tudo nela.
— Você engordou, Phoebe! — comentou Layla, segurando Phoebe com as duas mãos e examinando-a de vários ângulos. No começo, achou que havia criado uma camada mais espessa de penas em preparação para o inverno, mas ao examinar melhor, havia engordado. — É porque é outono?
Apesar das perguntas persistentes de Layla, Phoebe continuou simplesmente a arrulhar.
— Você está encontrando comida em outro lugar? Não pode ser pelo Kyle, já que ele foi embora... — Deixou a frase no ar.
Sempre que o nome de Kyle lhe vinha à mente, os olhos se enchiam de lágrimas, mas ela fazia o possível para não chorar. Havia prometido a Kyle que cuidaria de si mesma e pedido que ele também cuidasse de si. Portanto, tinha de cuidar de si e se manter feliz. Isso era tão importante quanto querer que Kyle fosse feliz.
Respirou fundo para se acalmar, depois pousou o pássaro rechonchudo. Phoebe vagou pelo quintal por um tempo, depois voou para o outro lado da floresta.
Era um dia comum.
Layla terminou diligentemente a rotina matinal, depois se despediu de Bill e foi para o trabalho. Pedalou a bicicleta pela estrada que saía de Arvis, rodeada pelas belas cores do outono.
Virou na rua onde ficava a escola, e várias crianças gritaram alegremente, acenando para ela. — Senhorita Llewellyn!
Desceu da bicicleta, cumprimentou as crianças e entrou na escola.
Era um dia comum, e ainda assim sentia uma leve saudade. Ao mesmo tempo, porém, sentia uma sensação de felicidade ainda mais forte.
As crianças estavam mais bem-comportadas do que de costume, e todas foram bem nos testes de aritmética e ortografia. A sala estava quente e aconchegante porque haviam acendido o aquecedor. Teve uma boa conversa com a senhora Graeber na hora do almoço. O céu estava de um azul brilhante e lindo, sem uma única nuvem. Não conseguia evitar sorrir.
Ao longo do dia, sempre que memórias de Kyle flutuavam para a mente, ela se forçava a sorrir radiante. Continuou assim enquanto começava a pedalar de volta ao fim do dia. No entanto, quando se aproximou de Arvis, havia memórias demais dos bons momentos que havia passado naquela estrada com Kyle. Agora que pedalava sozinha, a solidão que havia suprimido ao longo do dia a acertou de uma vez.
Parou no meio da estrada. Sentiu-se tola. As incontáveis memórias evocadas pela estrada se coalesceram em uma nuvem escura de arrependimento.
Não podiam viver para sempre como irmãos, já que não tinham laço de sangue. Por serem um homem e uma mulher, tampouco podiam permanecer os melhores amigos. Seu relacionamento estava destinado a terminar em separação desde o começo, e eles nem haviam percebido. Se amavam, se magoaram, e depois...
Conforme pensava nisso, a visão começou a embaçar. Sacudiu a cabeça e mordeu o lábio. Fechando os olhos, lembrou a si mesma: Ele disse que ia cuidar de si mesmo. E disse que eu também deveria cuidar de mim.
Por sorte, conseguiu se impedir de explodir em choro.
Voltou para a bicicleta e começou a pedalar de novo.
Um carro preto se aproximou ao longe e logo passou por ela.
Matthias mandou o motorista parar o carro na entrada da Estrada Platanus. Dizendo ao assistente e ao motorista para seguirem sem ele, saiu e ficou sozinho na estrada, assim como naquele dia de início de verão no ano anterior.
Começou a caminhar em passo tranquilo, aguardando a figura que se aproximava. As folhas farfalhavam sob os sapatos enquanto andava. Quando ouviu o som de uma bicicleta ao longe, desacelerou ainda mais.
Por fim, pôde ouvir o que tinha certeza ser Layla parando a uma distância moderada atrás dele. Então se virou e, como esperava, viu Layla parada ao lado da bicicleta.
Ela olhou rapidamente ao redor, depois fez uma reverência e disse com um certo constrangimento: — Boa tarde, Vossa Graça.
O coque trançado havia começado a se desfazer, e as mechas soltas balançavam na brisa. Havia notado que ela não parecia ter talento para arrumar o próprio cabelo — estava sempre ou preso com demasiada firmeza ou, como hoje, com demasiada leveza. Mesmo assim, a aparência descuidada não o incomodava.
Inclinou a cabeça para ela, colocando uma mão atrás da própria espinha ereta. Ela piscou os olhos arregalados, apertando com força o guidão da bicicleta. Ele não havia feito nada, e ainda assim havia uma expressão visivelmente inquieta no rosto dela.
— Bem... com licença, então — disse ela. Fazendo mais uma reverência, conduziu a bicicleta passando por ele.
Bem quando havia voltado para a bicicleta e estava prestes a começar a pedalar, ele disse: — Comporte-se como uma dama, Layla.
Ela parou.
— Você sabe. Se quer que eu seja um cavalheiro, você tem de se comportar como uma dama.
Ela ficou no lugar, sem descer da bicicleta, mas também sem pedalar.
Ele caminhou devagar em direção a ela. — E o seu pombo só estará seguro se eu for um cavalheiro.
Ela se virou para encará-lo depois daquele comentário. Depois de o fulminar por um instante, desceu da bicicleta.
Ele inclinou levemente a cabeça ao olhá-la. Os olhos úmidos pareciam assustados, mas a expressão retorcida nos lábios estava cheia de irritação desafiante com aquela situação. Que atitude, pensou.
Depois de um momento fitando-a enquanto ela tremia com a brincadeira sobre o pombo, passou por ela casualmente em direção à mansão. Ela o seguiu, olhando para os próprios pés e conduzindo a bicicleta.
— Não disse para agir como se fosse minha criada — murmurou ele, olhando por cima do ombro.
Ela ergueu os olhos surpresa. — Como? Ah... — Apesar da teimosia, entendeu o que ele queria dizer. Com uma expressão relutante, deu alguns passos para mais perto dele, mas permaneceu um passo atrás.
Com uma risadinha, ele deu um passo para trás, conseguindo o que queria. Voltou a caminhar, e ela cuidadosamente igualou o passo. Com a bicicleta entre os dois, caminharam pela Estrada Platanus lado a lado.
Não trocaram palavras enquanto caminhavam. Os únicos sons eram as rodas da bicicleta girando, as folhas crocando sob os pés e a brisa fresca soprando pelas árvores.
Ele caminhava muito devagar para alguém com pernas tão compridas. Ela lançou um olhar para ele ao perceber que ainda havia muito caminho a percorrer apesar do tempo que haviam andado. Sempre foi do tipo sem pressa, mas hoje parecia caminhar de forma especialmente lenta. Claro que ela pensou que poderia estar sentindo assim por causa do quanto a situação era estranha e desconfortável.
Era mais ou menos da mesma altura que Kyle, mas muito mais imponente. Talvez fosse por causa da postura ereta e elegante e dos olhos penetrantes. Enquanto continuava a olhá-lo, notou que o porte era maior e mais musculoso do que o de Kyle. Talvez fosse por isso que parecia mais dominador.
Enquanto considerava essas possíveis explicações, o olhar foi subindo gradualmente. Observou as mãos pálidas e lisas, o sobretudo cinza-escuro, a gravata exquisitamente atada, os lábios inexpressivos, e... os olhos.
Ao olhar para aqueles olhos azuis que devolviam o olhar, foi acertada por uma sensação instintiva de medo. Poderia ter se livrado do medo simplesmente baixando a cabeça, mas por algum motivo achou difícil fazê-lo.
Enquanto ficava paralisada pelos olhos dele, ele começou a falar devagar.
