Tradução: Amme
Capítulo 44
O Primeiro Outono
— Meu Deus! Não acredito! Layla, de novo, não!
O grito frenético vindo do pé da árvore quase fez Layla largar a maçã que havia acabado de começar a comer.
Segurando a maçã antes que caísse, olhou para baixo e viu exatamente quem esperava — a cozinheira Mona, fitando-a de braços cruzados.
— Oi, cozinheira Mona! Que dia lindo, não é? — disse ela descontraidamente antes de guardar a maçã e o livro na bolsa.
O cenho de Mona se aprofundou enquanto observava Layla descer habilmente pelo tronco da árvore. Naquele instante, Bill voltou para a cabana.
— A culpa é sua, Sr. Remmer! — gritou Mona, estralando a língua para Bill enquanto ele deixava o carrinho de mão de lado. — Eu disse que precisava criá-la para se tornar uma jovem bem-educada. Criei três filhas, então pensei que fosse ouvir meu conselho, mas ignorou tudo, e olha ela agora! Só de pensar: uma adulta de pleno direito, professora, que deveria ser um modelo para as crianças, subindo em árvores!
— Há alguma lei que proíba professoras de subir em árvores? — respondeu Bill, perplexo. — Sempre pensei que uma boa professora deveria saber fazer de tudo!
Desde que Layla chegara para morar em Arvis, Bill e Mona discutiam sobre a maneira certa de criá-la.
Layla pensou em dizer que agora era adulta e que não precisavam mais se preocupar com ela, mas desistiu da ideia e se aproximou de Bill com cautela.
— Olha ela! — exclamou Mona. — A culpa é sua, Bill. Devia ter passado a mão nela quando era pequena. Então talvez não tivesse se tornado esse moleque!
Com aquele comentário assustador, Layla se sobressaltou e pôs a mão atrás. Bill também ficou paralisado, como se estivesse sendo punido por ter feito algo errado.
Mona ficou ralhando com Bill por mais algum tempo, depois, lembrando-se de repente do motivo pelo qual havia ido até lá, entregou-lhes uma cesta cheia de guloseimas e foi embora. Bill e Layla ficaram imóveis por um segundo, depois se entreolharam e explodiram em gargalhadas.
— Me sinto como se tivesse levado um tapa de verdade, só pelas palavras dela — disse ela.
— Isso não está bom, Layla. De agora em diante, tenta não deixar ela saber quando estiver subindo em árvores. Estou com medo de ficar surdo com tanto ralhete.
— Claro, vou fazer isso por você, tio Bill. — Ergueu a cesta pesada e caminhou em direção à cabana. A velha bolsa no ombro chacoalhava a cada passo.
— De qualquer forma, essa bolsa velha precisa ir para o incinerador em breve. — Bill havia resolvido jogá-la fora muitas vezes, mas nunca tinha conseguido. Esboçou um sorriso ao mesmo tempo aliviado e amargo.
Apesar das preocupações de Bill, Layla estava vivendo a vida plenamente. Quando o novo semestre começou, ela iniciou o trabalho como professora novata.
Havia cometido algum erro ocasional, mas nunca ficava desanimada por muito tempo. Em vez disso, sempre usava os erros como oportunidades de melhoria.
A essa altura, parecia estar se divertindo muito ensinando na escola. Bill havia se preocupado no começo, pois ainda a via como uma criança. Mas logo percebeu que não precisava se preocupar com a competência dela.
Mesmo assim, sabia que ela ainda guardava uma ferida triste no fundo do coração.
Suspeitava que a recusa em jogar fora a bolsa era porque a associava aos dias felizes perdidos da infância. Sabia melhor do que ninguém o quanto Kyle significava para ela. Haviam sido os melhores amigos antes de ela ter se tornado o primeiro amor dele. Ele havia sido como família. A dor de perdê-lo não cicatrizaria rapidamente. Sabia que ela precisaria de mais tempo.
Ainda não, pensou, enfiando a carta que havia chegado de Kyle fundo no bolso.
Mesmo depois de se mudar para Ratse, Kyle havia enviado uma carta a Layla todas as semanas. O carteiro havia entregado essas cartas especificamente a Bill.
Bill havia pedido isso, e o carteiro havia prontamente concordado.
Sabia que era covarde e cruel da sua parte. Sabia que não era maduro. Mas apesar da culpa que sentia em relação a Kyle, considerava mais importante proteger os sentimentos de Layla.
— Tio Bill! — gritou ela de seu lugar na varanda, acenando para ele.
Sorrindo envergonhado, caminhou até ela.
Sentaram-se lado a lado, dividindo uma maçã enquanto apreciavam a brisa fresca. A floresta havia tomado uma paleta de cores majestosa de outono.
— Ah, a propósito — disse ela —, preciso falar com o mordomo sobre uma coisa. Você poderia conversar com ele por mim?
— O mordomo? O Hessen?
— Sim. É sobre meu trabalho na escola. — Tirou um lenço do bolso do avental e limpou os dedos do suco. — Gostaria de saber se seria possível trazer meus alunos à floresta de Arvis para uma excursão de outono.
— Ah, sim. O Hessen pode perguntar aos responsáveis e nos informar se está tudo bem. Falo com ele.
— Estou um pouco preocupada que achem um pedido indelicado.
— Indelicado? A mãe e a avó do duque são muito generosas com essas coisas. Tenho certeza de que vão permitir. Ainda mais porque são patrocinadoras da escola.
— Patrocinadoras? — perguntou ela, surpresa. — A família Herhardt patrocina a escola onde eu ensino?
— Não sabia? — perguntou ele com naturalidade. — A Casa Herhardt patrocina praticamente todas as escolas do distrito.
— Entendo... — murmurou ela. De repente, o rosto do duque lhe veio à mente, então fechou os olhos tentando apagar a imagem.
Às vezes tinha a sensação de que onde quer que fosse em Karlsbar, nunca conseguia escapar do nome "Herhardt". Claro que não era só uma sensação. Era a realidade.
O Rei de Karlsbar — era esse o apelido que os moradores da cidade haviam dado ao Duque Herhardt.
A Casa Herhardt era uma família aristocrática do mais alto escalão, com riqueza e poder comparáveis aos da própria família imperial. Era fonte de orgulho para o povo de Karlsbar e tinha grande significado simbólico.
— O que foi? — perguntou Bill. — Aconteceu alguma coisa entre você e os Herhardt? A noivazinha grã-fina do duque está te incomodando de novo?
Assustada com a pergunta, ela sacudiu a cabeça. — Não, nada disso.
Mais uma vez, os pensamentos foram tomados pelas imagens do rosto do duque, dos olhos dele, e das diversas experiências angustiantes que havia vivido com ele. Não se sentia capaz de contar isso a Bill, então simplesmente disse: — Vamos tomar um chá, tio Bill.
Antes que ele tivesse chance de responder, ela havia se levantado da cadeira de um salto e corrido para a cozinha. Verteu o chá em duas xícaras e colocou em um prato alguns dos doces que Mona havia trazido.
Os dias estavam ficando mais curtos, então já estava escuro dentro de casa, mas ela não acendeu a luminária. Era quase como se quisesse esconder as preocupações na escuridão.
Não há pressa. Essa era a sensação de Matthias em relação a Layla Llewellyn. Pretendia tê-la para si, mas não sentia necessidade de se apressar.
— Parece que a senhorita Llewellyn está vindo por aqui — disse o assistente de Matthias, Mark Evers, rindo ao notar Layla caminhando pela Estrada Platanus com os alunos.
Desde que Layla havia se estabelecido como adulta respeitável e professora, os moradores de Arvis haviam começado a se referir a ela como senhorita Llewellyn.
— Devem estar tendo a excursão hoje — acrescentou o motorista.
A avó de Matthias havia dado permissão para que as crianças da escola da aldeia fizessem uma excursão de outono em Arvis. A mãe também havia concordado que estaria tudo bem. Tais assuntos eram tradicionalmente da alçada da senhora da casa, portanto Matthias havia respeitado o julgamento delas.
Layla estava rodeada de alunos do primário tão miúdos quanto ela havia sido quando chegara a Arvis pela primeira vez. Ainda gostava de explorar a floresta como uma criança durante o tempo livre, mas diante dos alunos se comportava como uma adulta madura.
Matthias deu uma risadinha silenciosa enquanto a contemplava pela janela do carro. O carro logo passou por Layla e as crianças, mas a imagem dela ficou na mente por um longo tempo depois.
Ultimamente, importunar Layla Llewellyn havia se tornado o passatempo favorito dele. Quanto mais formas engenhosas encontrava de atormentá-la, mais vivas se tornavam as reações dela. As emoções dela nessas ocasiões se limitavam a embaraço, raiva, vergonha e medo, mas ele não se preocupava com tais rótulos. Gostava muito mais de vê-la ficar perturbada, se enervada e replicar do que de vê-la sorrir obedientemente.
No fim de semana anterior, havia se deparado com ela na estufa, quando ela ajudava Bill Remmer a cuidar dos canteiros. Ela havia se assustado tanto ao ver Matthias que deixou cair a cesta que carregava, e os bulbos cobertos de terra rolaram pelo piso de pedra. Bill estava ocupado cuidando de outro canteiro no outro extremo da estufa e não havia notado a confusão.
Matthias havia se aproximado com calma e ficado parado diante de Layla. Quando começou a chutar alguns dos bulbos na direção dela, ela o havia encarado com raiva. Parecia nervosa, talvez preocupada que alguém pudesse ver, mas os olhos estavam cheios de desafio.
Havia dado uma risadinha ao pensar que para todos os outros ela era uma mulher gentil e bondosa, incapaz de falar mal de ninguém. Era uma sensação agradável. Nunca tendo aprendido a compartilhar, apreciava que Layla parecesse reservar a raiva exclusivamente para ele.
Os belos pássaros que moravam naquele paraíso de Arvis, como era chamada a estufa, cantavam alto. Depois de respirar fundo algumas vezes, Layla havia rapidamente recolhido os bulbos, colocado de volta na cesta e se levantado.
Fez uma reverência e estava prestes a sair correndo quando, por impulso, ele havia colocado o pé na frente dela. Ela cambaleou, perdendo o aperto na cesta, e os bulbos haviam rolado novamente pelo chão. Mas não caiu. Antes que isso acontecesse, ele havia envolto os braços na cintura dela para ampará-la.
Pondo as mãos sobre a boca para não gritar, ela se debateu freneticamente. Embora já estivesse bem passada a temporada das rosas, ele havia detectado um leve perfume de rosa vindo dela.
Em seguida, havia a soltado, dado um passo para trás e apontado com a cabeça para os bulbos no chão. Ela havia franzia o cenho com severidade em resposta, os olhos cheios de relutância. Mas não havia tido outra escolha senão obedecer.
Mordendo o lábio, havia se abaixado de novo para recolher os bulbos.
Mais uma vez, ele havia chutado alguns na direção dela. As bochechas ficaram vermelhas. Era uma cor bonita.
Teria gostado de ver o corpo inteiro dela naquela cor. Que cor bonita, pensou. Minha cor.
— Qual é a minha agenda esta tarde? — perguntou ele enquanto o carro se aproximava do centro da cidade.
— Só a reunião com o conselho de administração, Vossa Graça.
Gostou da resposta.
Verificando o relógio de pulso, assentiu. Estaria de volta a Arvis até o início da tarde, no máximo. Saindo do carro, ergueu os olhos para o céu sem nuvens. A luz do sol era quente e a brisa era fresca.
Era o tempo perfeito para uma excursão de outono.
