Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 43 - Uma Bela Canção

Capítulo 43 - Uma Bela Canção

Tradução: Amme

Capítulo 43

Uma Bela Canção

Matthias nadou de volta à cabana, se vestiu e saiu. A cor do pôr do sol estava se aprofundando, mas Layla ainda estava sentada na árvore, chorando. Ainda não havia percebido a presença dele.

Ele parou diante da árvore. Depois de mais algum tempo, ela finalmente o notou. Mas, diferentemente das ocasiões anteriores, não se sobressaltou nem desviou o olhar. Tampouco parecia assustada ou em guarda.

Matthias se perguntou por um momento o motivo, até que a resposta lhe ocorreu — os olhos dela estavam apontados para ele, mas ela não o via. O olhar desfocado parecia estar voltado para algum lugar distante, talvez para onde o filho do médico havia ido.

Quando Matthias começou a sorrir, o olhar dela recuperou o foco. Ao enxergar o rosto dele, os olhos verdes se encheram de confusão. O rosto ficou rígido e os ombros se encurvaram. Aquela era a Layla Llewellyn que ele conhecia.

Olhando para os olhos úmidos dela, cruzou os braços. Era uma tarde tranquila. Não havia nenhum compromisso urgente a que precisasse voltar, e não havia razão para não esperar por ela. Uma expressão de alarme se espalhou pelo rosto dela ao perceber que ele não tinha intenção de ir embora.

Aquilo o fez rir. — Ele não vai vir, Layla. Você sabe disso, não sabe? — Deu um passo em direção à árvore. — Kyle Ettman. O rapaz que você espera. Ah. Talvez devesse chamá-lo de o rapaz que te abandonou? — Sorrindo diretamente nos olhos dela, a voz permanecia suave e gentil mesmo ao dizer aquelas palavras lancinantes.

Ela sorriu com um vazio e olhou para cima, vendo que os pássaros haviam deixado o céu crepuscular. A paisagem pareceu se expandir enquanto a contemplava, até que as lágrimas se formaram e começaram a escorrer pelas bochechas.

Sem dizer nada em resposta a ele, começou a morder o lábio. Percebeu que, se esperasse que aquele homem cruel fosse embora, poderia ter de ficar na árvore até tarde da noite.

Desceu pelo lado de trás da árvore, onde ele não poderia ver. Sentiu uma tontura, talvez por causa de todas as lágrimas que havia derramado, mas por sorte chegou ao chão em segurança, sem nenhum acidente.

Recostando-se na árvore, levantou o avental e enxugou as lágrimas. Depois arrumou os cabelos despenteados e ficou ereta. Em seguida, foi até o outro lado da árvore. O duque ainda bloqueava o caminho que levava de volta à cabana.

Em vez de escorregar por entre ele e a árvore, começou a se aproximar, um passo de cada vez. As lágrimas continuavam a escorrer, logo encharcando o rosto de novo, mas ela não ligou. Sabia que não podia escondê-las, então as usava com orgulho. Não queria ser reduzida a brinquedo dele.

— Desculpe a falta de educação — disse. — Vou indo agora. Até logo, Vossa Graça. — Parada a uns dois passos dele, fez uma reverência com a mais perfeita elegância. A essa altura, as formalidades que os aristocratas esperavam eram tão naturais para ela quanto respirar.

Bem quando estava prestes a passar por ele, ele disse:

— Layla.

Ela se sobressaltou, mas não parou.

— Layla Llewellyn — disse ele, rindo enquanto se virava.

Ela continuou a caminhar como se não o ouvisse.

Ele franziu o cenho, sentindo que ela estava sendo inaceitavelmente rude. Naquele instante, ela de repente tropeçou e caiu. Os ombros e as costas tremiam intermitentemente enquanto ficava curvada no chão, chorando.

Estralando a língua, ele se aproximou devagar. Aquela garota determinada, cujos olhos mantinham um olhar de independência ousada mesmo enquanto derramavam lágrimas, estava agora soluçando no chão em uma postura indigna.

Semicerrado os olhos, foi de joelho a solo na frente dela e recolheu os óculos. Ela mal ergueu a cabeça. As lágrimas dela, que tanto prazer lhe haviam dado no passado, já não o faziam mais.

Vê-la chorar por causa de Kyle Ettman lhe trouxe uma sensação que levou um momento para identificar: humilhação. Era um sentimento que jamais havia experimentado antes.

— Não chores — disse em voz baixa, segurando o queixo dela.

Ela tentou virar a cabeça, mas não conseguiu vencer o aperto firme. — Larga! — gritou, se debatendo para se soltar.

— Não chores — repetiu com calma. Ignorando a resistência, com uma só mão a dominava com facilidade.

— Você não gosta de me ver chorar? — perguntou ela com frustração. A sensação de indignação que o aperto inabalável dele lhe causava fazia as lágrimas correr ainda mais.

— Desde quando você se interessa pelo que eu gosto? — perguntou ele, rindo ao ver ela fungar. — Pensei que odiasse quando eu aproveitava as coisas.

— Não — respondeu ela, tentando conter as lágrimas e sacudindo fracamente a cabeça enquanto ele mantinha o aperto no queixo. — Você gostar ou não gostar de coisas não tem nada a ver comigo. Assim como minhas lágrimas não têm nada a ver com você.

— Ah, mas têm a ver comigo, Layla. — Inclinou a cabeça. — Não chores — disse mais uma vez, olhando para ela com uma expressão gentil.

— Preciso da sua permissão para chorar? — rebateu ela.

— Talvez precise.

— O que quer dizer com isso? Você não tem esse direito.

— Esse direito...?

— Só porque é o dono de Arvis não significa que é meu dono.

— É mesmo? — Franziu o cenho por um instante antes de sorrir de novo. — Então devo tomar posse de você agora? — O sorriso desapareceu rapidamente, deixando o rosto em branco e inexpressivo, como água parada.

Os lábios dela começaram a tremer de medo.

— Assim, serei seu dono. — Pousou o dedo nos lábios dela.

Ela estremeceu ao sentir que aquela sensação trazia de volta a memória de quando ele havia tocado os lábios dela no verão anterior. O coração, que havia estado cheio de tristeza pela perda de Kyle, de repente congelou.

— Não. — Incapaz de suportar a ideia de continuar prostrada aos pés dele, usou toda a força para erguer a parte superior do corpo do chão.

Ele a soltou imediatamente e se levantou, como uma criança que se cansara de um brinquedo.

Envolta na sombra dele, ela se ergueu cambaleando. O rosto estava sujo de terra e lágrimas, mas os olhos permaneciam fortes. — Pensar que você, um duque... um duque com uma noiva... se comportaria de forma tão desonrosa... Não gosto nem um pouco disso.

— E daí? — perguntou ele, brincando com os óculos que ainda segurava. — O que os seus sentimentos têm a ver comigo? — Não havia hostilidade na voz. — Eu te desejo.

O que ele queria, conseguia — era simples assim. Desejava Layla Llewellyn, portanto a teria. Precisava descartá-la para que a vida voltasse a ser completa, mas sabia que não poderia descartá-la antes de tê-la.

Pousou os óculos com delicadeza no rosto atônito dela.

— Vai. — Ao retirar a mão do rosto dela, ela desabou no chão de novo.

Ele a contemplou por um breve momento, depois se pôs a passear à beira do rio.

Ela permaneceu no mesmo lugar muito tempo depois de ele ter desaparecido de vista.



— Layla! Layla! Vem aqui depressa! — gritou Bill animado de seu lugar na varanda, quando Layla voltou para a cabana.

Forçando um sorriso, ela foi direto até ele. Sabia que não o enganaria com o sorriso falso quando a aparência estava tão desgrenhada, mas também não queria que ele a visse chorando como uma tola. — O que foi, tio Bill?

— Chegou um telegrama. É para você.

— Um telegrama? — perguntou ela, inclinando a cabeça.

Bill lhe entregou o telegrama. Era um aviso informando que havia uma vaga de professora aberta em uma escola de aldeia não muito longe de Arvis.

No semestre seguinte, poderia começar a ensinar lá, em vez da outra escola na cidade mais distante.

— Estranhei, pois disseram que não havia vagas em Karlsbar... — Era uma boa notícia, mas lhe causou uma sensação estranha.

Bill estendeu a mão grande e deu-lhe uma festinha na cabeça. — Não estava animado com a ideia de você ir tão longe. Que golpe de sorte, Layla — disse, soltando um suspiro de alívio.

Ela assentiu e sorriu para ele. Era uma sorte, como ele havia dito. Havia planejado ficar em uma pensão na cidade onde ficava a primeira escola e voltar a Arvis nos fins de semana para ver Bill. Mesmo assim, sentira um aperto no coração cada vez que pensava em passar tanto tempo longe dele.

No entanto, ao pensar em Arvis, o rosto do duque também lhe vinha à mente, e isso tornava difícil se alegrar com a ideia de continuar a morar lá em tempo integral. Não queria deixar o tio Bill, mas queria escapar do duque. Sentia-se uma tola.

— Está acontecendo alguma coisa de novo, Layla? — perguntou Bill.

Ela percebeu que estava com o cenho franzido. — Não — disse, sorrindo de novo, o rosto iluminado pela luz da lua. — Só fiquei um pouco atordoada com essa sorte inesperada.

— É mesmo?

— É. — Em vez de assentir, simplesmente alargou o sorriso. — Você deve estar com fome. Vamos jantar bem, tio Bill.



As cortinas que cobriam pela metade a janela aberta do quarto inflavam para dentro e voltavam ao lugar em ondas lentas ao ritmo da brisa. A peça de piano suave fluía em um ritmo semelhante.

O toque era ao mesmo tempo delicado e vistoso, por momentos temperamental.

Matthias estava sentado em uma cadeira perto da janela, segurando um lenço e uma tesoura de ponta arredondada. Estralou os dedos, e o canário voou imediatamente e pousou na mão. Até o canto dos pássaros parecia ser suscetível ao adestramento — o canto do canário havia ficado mais belo com o tempo.

Matthias sorriu para o pássaro, que parecia estar cantando em resposta à música do piano. Sacudia o corpinho miúdo com as penas macias e inclinava a cabeça como quem está em profundo pensamento.

Quando o canto cessou, Matthias o envolveu delicadamente no lenço. O tratador de aves sempre cobria os olhos dos pássaros antes de aparar as asas, para que não soubessem quem havia feito isso e não desenvolvessem medo dos humanos.

Matthias abriu habilmente as penas da asa do pássaro obediente.

Por algum tempo, havia deixado a tarefa de aparar as asas ao tratador, mas a essa altura havia aprendido a fazê-lo ele mesmo. Nas primeiras tentativas, aparou demais e o pássaro sangrou. Felizmente foram só algumas gotas, mas não gostava de ver as asinhas douradas manchadas de vermelho, então aprendeu a ser mais cuidadoso. Encontrou as penas que precisavam ser aparadas e pegou a tesoura do colo. Alguns cliques foram seguidos por algumas pluminhas minúsculas que flutuaram até os sapatos bem polidos.

Depois de aparar a outra asa também, retirou o lenço dos olhos do pássaro. Bateu as asas recém-aparadas algumas vezes, depois pousou no dedo dele. Em seguida, retomou o canto como se nada tivesse acontecido.

Era um canto belo.