Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 42 - Nenhum Lugar Neste Mundo

Capítulo 42 - Nenhum Lugar Neste Mundo

Tradução: Amme

Capítulo 42

Nenhum Lugar Neste Mundo

Os olhos de Layla começaram a tremer ao observar o olhar vazio de Kyle, o rosto pálido, as roupas e os cabelos despenteados.

— Não fica assim, Kyle. Vamos apenas —

— Vamos a algum lugar. Em qualquer lugar — murmurou ele. Era como se não tivesse ouvido. — Só nós dois. Vamos a algum lugar onde possamos ser felizes. Vem. — Em seguida, agarrou a mão dela e começou a caminhar, puxando-a.

Ela tentou resistir, mas ele não deu atenção e continuou a caminhar a passos largos.

— Sr. Remmer! Sr. Remmer! Olha ali! Estão arrastando a Layla! — gritou um dos ajudantes de jardinagem de Bill que trabalhava por perto.

Assim que Bill olhou na direção que o ajudante apontava, o rosto corou de choque. Jogou a tesoura de poda no chão e correu freneticamente atrás de Kyle.

Os ajudantes perturbados logo se juntaram à perseguição.

— Kyle Ettman! Solta a mão dela agora mesmo! — gritou Bill com uma voz furiosa e trovejante que ecoou por todo lado. Quando o alcançou, Kyle ainda não havia soltado a mão dela. Bill ergueu o enorme punho e acertou Kyle no rosto.

Kyle cambaleou e começou a cair, mas ainda não soltou a mão dela. Assim, ela foi arrastada junto e os dois tombaram no canteiro de rosas.

— Layla! — gritou Bill enquanto corria para ela e a ajudava a se levantar. As bochechas e as mãos estavam cobertas de arranhões dos espinhos das rosas.

Os olhos de Kyle finalmente pareciam estar recuperando o foco. Olhou horrorizado para os arranhões ensanguentados no rosto dela enquanto se levantava.

— L-Layla! Você está bem? Está sangrando...

— Estou bem — respondeu ela, afastando calmamente a mão dele do próprio rosto. — Você está muito mais machucado do que eu.

— Não. Eu estou... — Só então percebeu o sangue escorrendo das mãos e as manchas vermelhas na camisa. Sentia uma dor aguda nas bochechas e no pescoço, mas não ligou.

— Estou bem, tio Bill — disse Layla rapidamente, percebendo que Bill parecia pronto para se aproximar de Kyle de novo. — Kyle — disse, olhando para Kyle com os olhos inchados e vítreos. — Não existe esse lugar. — Os lábios se frmiaram em um sorriso triste e trêmulo. As bochechas estavam coradas, mas a voz era calma. — Não existe nenhum lugar neste mundo onde possamos ser felizes juntos, só nós dois.

— Layla...

— Se você continuar agindo assim, vai ficar muito difícil para mim. Acho que não vou aguentar.

— Layla, por favor.

— Então, cuide de você, e eu cuido de mim.

— Como vou fazer isso sem você?

— Você devia ir para a faculdade como planejado. Fica bem, estuda muito, para se tornar um bom médico. — Continuou sorrindo mesmo ao ver a expressão de dor nos olhos dele. A visão começou a embaçar com as lágrimas que caíam. — Kyle. Onde está o amigo gentil que eu conhecia? É assim que quero te ver.

Kyle também havia começado a chorar. Cerrando os dentes, se conteve para não soluçar, e a encarou com olhos vermelhos.

— Se você está bem, eu fico bem também — disse ela. — Se a gente continuar indo bem em nossas vidas separadas, quem sabe. Com o tempo, talvez consigamos nos cumprimentar com sorrisos de novo.

— Desculpa... me desculpa, Layla — disse ele. Os soluços que havia contido irromperam.

Entre soluços e tentativas de recuperar o fôlego, disse: — Foi tudo culpa minha. Foi por causa de mim que você... me desculpa. — Desabou no chão de novo. Os feixes de sol incidiam sobre ele como cacos de vidro.

Sacudindo a cabeça em silêncio, ela se agachou na frente dele.

— Não. Não diz isso, Kyle. Não guardo rancor. Como poderia?

— Layla...

— Então, cuide de você por mim. Tá bom? Vai fazer isso?

Arquejando como se estivesse sendo sufocado, ele a abraçou com força. A blusa branca impecável foi logo encharcada pelas lágrimas e pelo sangue dele.

Bill, que havia suspirado repetidamente enquanto os observava, não aguentou mais e se virou. Os ajudantes de jardinagem ao redor fizeram o mesmo. Com os olhos cheios de ressentimento, Bill ergueu o olhar para o sol escaldante. Mais do que nunca, ansiava pelo fim daquele verão horrível.



Kyle partiu para a capital mais cedo do que o planejado originalmente. O motivo dado foi que tinha muito a preparar na capital antes do início das aulas, mas ninguém acreditou nessa desculpa.

Na manhã da partida, Layla acordou mais cedo do que de costume. Ao ouvir o arrulho de um pássaro, virou a cabeça para a janela e viu Phoebe.

Colocou os óculos, caminhou devagar até a janela e a abriu bem. Havia um bilhete amarrado à pata de Phoebe. Como Phoebe era treinada para levar bilhetes entre ela e o quarto de Kyle, sabia de quem era o bilhete sem nem precisar olhar.

Depois de hesitar por um instante, pegou o bilhete e o desdobrou.

Layla, estou indo para a capital hoje. Como um covarde, vou para o lugar onde deveria ter ido com você.

Não vou mentir dizendo que isso é o melhor para você e para mim.

No fundo, estou fugindo. Estou virando as costas para a bagunça em que a vida real se tornou e te deixando para trás. Como um covarde, estou fingindo que o que você disse é verdade, que tudo vai ficar bem.

Me desculpa. Sei bem que dizer desculpa não vai apagar suas feridas, mas ainda assim quero dizer. Me desculpa pela dor que minha mãe te causou, e me desculpa por não ter conseguido detê-la. Te machuquei por ingenuamente achar que tudo poderia ser consertado facilmente. Só estou percebendo isso agora.

Mas Layla, vou voltar. Vou voltar para você, e não será tarde demais. Pode ser que você tenha razão que não existe nenhum lugar neste mundo onde possamos ser felizes juntos. Mas Layla, mesmo que não exista um lugar assim agora, vou criar um lugar desses para a gente, e vou te levar para lá.

Até lá, vou cuidar de mim, assim como você me disse. Cuida de você também.

Até logo, minha querida Layla.

Layla leu devagar o pequeno pedaço de papel coberto pela caligrafia caprichada de Kyle. A brisa da manhã sacudiu os cabelos despenteados da bochecha. Depois de algum tempo, se virou da janela e guardou o bilhete no fundo de uma das gavetas da escrivaninha, antes de se apressar para começar a manhã.

Foi um dia extremamente agitado. Limpou a cabana minuciosamente, sem deixar um único grão de poeira, e fez muita comida gostosa. Depois de terminar o almoço, Bill voltou ao trabalho. Naquele instante, alguns colegas dele de Arvis passaram pela cabana.

— Está bem, Layla? — perguntou a cozinheira Mona, estendendo uma cesta cheia de biscoitos e cupcakes.

— Sim — respondeu Layla, sorrindo ao receber o presente. — Obrigada. Por que não entram para uma xícara de chá antes de ir?

— Não, não precisa de chá — respondeu Mona. As criadas que haviam ido junto assentiram.

— É isso mesmo. Só viemos para saber se você está bem — disse uma delas.

— É. Dizem que o primeiro amor nunca dá certo. Tenho certeza de que vai aparecer outro homem muito melhor do que o Ky —

— Nossa, olha as horas! — disse Mona, cortando a segunda criada antes que dissesse algo que pudesse magoar Layla. — É melhor a gente voltar para a mansão. Precisamos nos preparar para o chá da tarde da Lady Herhardt.

Layla se despediu delas, depois carregou a cesta pesada de volta para a cozinha. Foi tirando os biscoitos e os cupcakes um a um, quando de repente ficou paralisada. Havia um biscoito com geleia de pêssego — o favorito de Kyle.

Fixou o olhar na cadeira do outro lado da mesa, onde Kyle sempre costumava sentar. Os dias em que os três se sentavam juntos à mesa haviam acabado e não voltariam mais. Todas aquelas refeições de comida gostosa e conversa animada sob a luz calorosa da lamparina eram agora coisa do passado.

Depois de encarar a cadeira vazia por mais um momento, sacudiu a distração e terminou rapidamente de tirar as guloseimas da cesta. Depois, pegando o chapéu e a velha bolsa, saiu apressada pela porta dos fundos e tomou a trilha da floresta.

— Funcho... Gipsofila... Budleia... — Sussurrava os nomes das flores que cresciam à beira da trilha enquanto caminhava. — Pintassilgo... Andorinha-de-cauda-de-andorinha... Gafanhoto... — Sussurrava também os nomes dos pássaros e insetos que avistava. Os objetos dentro da bolsa tilintavam ritmicamente acompanhando o som cantante do murmúrio.

Caminhou e caminhou, e por fim parou diante de uma árvore grande que crescia à beira do Rio Schulter. Subiu na árvore quase como se estivesse se escondendo. Sentada em um galho robusto no alto do tronco grosso, contemplou a água azul que corria serenamente lá embaixo.

A luz do sol cintilava na superfície da água de forma ofuscante.



— Tudo foi providenciado conforme as instruções de Vossa Graça — disse Hessen depois de encerrar uma curta ligação telefônica.

Matthias assentiu devagar, como se entendesse o que Hessen queria dizer sem necessidade de mais explicações. O olhar estava fixo no rio visível pela janela grande.

— Vão enviar um telegrama ainda hoje — acrescentou Hessen, concluindo o relatório. Em seguida, tratou de outros assuntos: a lista de convidados para o jantar programado para a semana seguinte, a próxima visita do Conde e da Condessa Brandt, questões de contratação de funcionários e similares.

Cada novo assunto recebeu uma resposta concisa de Matthias.

— Vou me retirar, Vossa Graça — disse Hessen quando chegou ao fim da lista. Fez uma reverência e saiu.

Matthias, agora sozinho na cabana, desceu preguiçosamente os degraus para o primeiro andar. A cabana era construída como uma espécie de casa flutuante sobre a água. O espaço do cais ocupava a metade do primeiro andar e dava acesso direto ao rio. Para cruzar para o outro lado, bastava soltar uma das embarcações que flutuavam no cais e começar a remar.

Parado no chão do cais, Matthias se despiu e mergulhou na água. Enquanto nadava pelo arco de saída do cais, a luz do sol brilhava no corpo nu.

Nadou devagar, deixando a corrente o levar. Com a técnica suave e fluida, parecia fazer parte do rio.

Era natural que a fixação em algo que não se pode ter crescesse e se intensificasse. Sabia que era verdade, embora soubesse também que obter o objeto do desejo o faria perder o encanto. Sabia que com ela não seria diferente.

Chegou a essa conclusão ao ofegar para respirar. Sabia que era tolo ter se deixado arrastar por uma cobiça passageira, mas mesmo assim aceitava com boa graça o desejo que sentia por ela. E agora podia tê-la à vontade. Depois de não ter conseguido proteger o primeiro amor, o rapaz havia ido embora e deixado Layla para trás. Tudo no mundo de Matthias estava em seu lugar certo, em ordem perfeita.

Quando se virou e começou a nadar de volta para a cabana, o sol havia começado a se pôr. Ao contemplar a árvore familiar à beira do rio, estreitou os olhos. Mal podia acreditar, mas ela estava lá.

Layla. Repetiu o nome em silêncio, e ondulações se formaram na superfície da água.