Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 35 - O Que o Ladrão Roubou

Capítulo 35 - O Que o Ladrão Roubou

Tradução: Amme

Capítulo 35

O Que o Ladrão Roubou

Mais uma vez, o nome de Layla Llewellyn estava na boca de todos os funcionários de Arvis por vários dias — mas desta vez por um motivo muito diferente. Agora era porque a cabana do jardineiro havia sido roubada.

A notícia se espalhou pela mansão num piscar de olhos. Ao ouvi-la pela primeira vez, a maioria das pessoas duvidou que qualquer ladrão tivesse ousado entrar na propriedade Herhardt, mas essa dúvida se dissipou quando viram o Bill Remmer à beira da loucura vagando por todo lado à procura do ladrão.

Matthias saiu da mansão quando o rebuliço por causa do roubo estava no auge. Precisava partir para não se atrasar no almoço.

Enquanto o carro deixava a alameda arborizada da mansão, começou a sentir que o que estava acontecendo não era uma questão de fofoca trivial.

Havia policiais a cavalo se aproximando do outro lado da estrada. Como ela terminava em Arvis, não havia necessidade de adivinhar para onde se dirigiam.

— Me informaram que um ladrão invadiu a casa do jardineiro — disse o assistente, antecipando a pergunta.

— A casa do Bill Remmer?

— Sim. Parece que o dinheiro que havia juntado para a matrícula da filha desapareceu, o que explica o alvoroço.

Um ladrão. Matrícula. Layla. Matthias inclinou levemente a cabeça enquanto repetia essas palavras na mente com fascínio. Bem quando o carro saía da sombra da Estrada Platanus, lembrou-se do desconhecido que havia encontrado naquela manhã enquanto caminhava à beira do Rio Schulter.

O homem havia se apresentado, dizendo que se chamava Daniel Raynor e que era primo da esposa do Dr. Ettman. Explicara que estava na cidade visitando os Ettman e havia parado na propriedade de Arvis para parabenizar Layla pela aprovação na faculdade. Continuara dizendo diversas coisas sobre a pequena empresa de investimentos que administrava, direitos de mineração internacional, o mercado de ações e outras questões, mas Matthias havia parado de ouvir em determinado momento e por isso não se lembrava bem do que havia sido dito.

O que se lembrava era da hora. Enquanto o homem de meia-idade tagarelava com o suor escorrendo pela testa, Matthias havia lançado um olhar para o relógio de pulso dele e notado que ainda não eram nove horas da manhã. Era uma hora incomumente cedo para um homem de negócios refinado visitar a noiva do filho do primo para parabenizá-la pela aprovação na faculdade.

No entanto, como o assunto não lhe dizia respeito, havia deixado passar e não pensara mais sobre isso — até ouvir a notícia surpreendente de que a cabana do jardineiro havia sido roubada.

Mas por quê?

Independentemente do tipo de problema financeiro em que pudesse estar, a ideia de que teria se infiltrado em um lugar desconhecido como Arvis para roubar o dinheiro do jardineiro soava ridícula. Por que não teria simplesmente roubado da casa da prima abastada?

Bem quando estava prestes a deixar de pensar no cenário estranho, se viu murmurando:

— Linda Ettman.

Linda Ettman era o elo perdido que tornava mais plausível a ligação entre Layla e aquele homem. Ainda era apenas uma conjectura, mas com ela no quadro, as peças pareciam se encaixar muito melhor — e isso o intrigou.

O carro parou diante do hotel onde o almoço seria realizado. Antes de sair, instruiu o assistente:

— Descubra tudo que puder sobre Daniel Raynor. O mais rápido possível.



A comida sobre a mesa do jantar estava praticamente intocada.

Bill e Kyle normalmente tinham excelente apetite, mas não naquela noite. Claro que Layla sabia o motivo, e eventualmente se levantou e começou a recolher a mesa em silêncio. Com o prato ainda mais do que na metade cheio, Bill se levantou, foi para a varanda e acendeu um cigarro.

Desde o roubo, o clima na cabana estava sombrio e abatido.

— Vai ficar tudo bem, Layla — disse Kyle enquanto a ajudava a recolher a mesa.

As mãos ocupadas pararam por um instante e ela o olhou com os olhos verdes.

— Tenho certeza de que vão pegar o ladrão — disse ele.

— É.

— E mesmo que não peguem, não precisa se preocupar com a matrícula. Meu pai quer que eu te diga que vai cobrir.

— Kyle.

— Nem pense em recusar. Ele queria cobrir a matrícula desde o começo. Só cedeu porque o Bill insistiu em pagar ele mesmo. — Kyle falava com mais firmeza do que de costume. — Vamos nos casar, Layla. Isso significa que somos família. Não precisa se preocupar em ficar em dívida com meu pai. Membros da família se ajudam — é a coisa mais natural do mundo. Não é?

Com os olhos baixos, ela ficou imóvel por um breve momento, depois assentiu devagar. Ele olhou para o rosto dela, que havia emagrecido visivelmente em poucos dias, e sentiu um ódio amargo pelo ladrão que havia perturbado a tranquilidade da floresta.

— De qualquer forma, por enquanto, vamos partir do princípio de que vão pegar o ladrão.

Sabia muito bem que as chances de o ladrão ser pego eram muito baixas, mas queria preservar um senso de esperança para ela.

Depois daquele comentário, ela o olhou com um sorriso de esperança.

— É. Obrigada, Kyle.

— Obrigada por quê? O que eu fiz?

— Só obrigada. Por tudo.

Sorriu de novo, mas de alguma forma isso só fez o coração dele ficar ainda mais pesado.

Lembrava vividamente a alegria transbordante no rosto dela quando havia dito que ia fazer uma viagem à capital com o tio Bill. O propósito da viagem era pagar a matrícula, mas na realidade seria o primeiro passeio que fariam juntos. Ela havia ficado tão feliz quanto uma criança ao falar sobre o assunto, dizendo que como seria a segunda visita à capital, poderia servir de guia para ele. Kyle havia provocado, mas estava tão feliz quanto ela.

Ela havia falado animadamente sobre os lugares que visitaria com o tio Bill, a comida que comeria com ele, as coisas que fariam juntos. Ao ouvi-la falar com tanto entusiasmo, Kyle quase havia sentido inveja de Bill.

O ladrão, porém, havia estragado tudo. Mesmo que o dinheiro fosse recuperado, parecia impossível que Layla e Bill pudessem desfrutar de uma viagem tão feliz e despreocupada quanto a que haviam planejado. E Kyle sabia que não havia nada que ele pudesse fazer quanto a isso.

Respirou fundo e soltou o ar para sacudir a profunda sensação de desânimo, depois foi até a varanda e sentou ao lado de Bill, que estava com uma expressão azeda. Bill lançou-lhe um olhar, depois acendeu mais um cigarro. Havia passado os dias desde o roubo fervendo por dentro e imaginando dezenas de maneiras de matar alguém. Agora, porém, a raiva havia dado lugar ao abatimento. Depois de um tempo, falou:

— É tudo culpa minha. — A voz soava fraca e desanimada. — Estava guardando todo aquele dinheiro em casa sem nem me dar ao trabalho de trancar a porta.

— Não é culpa sua — respondeu Kyle. — Quem imaginaria que um ladrão teria se infiltrado em Arvis?

— Semana que vem é o prazo para a matrícula, e não sei se aquele miserável do ladrão vai ser pego até lá.

— Não se preocupe com isso. Se não houver progresso na busca até então, meu pai disse que vai cobrir a matrícula da Layla. Já contei a ela.

Os olhos de Bill afundaram ao olhar para o rosto sorridente de Kyle.

— Meu pai vai ligar para a delegacia amanhã — continuou Kyle. — Tem um amigo lá, e vai pedir que façam uma investigação minuciosa sobre o caso.

— Obrigado, Kyle. Estou tão em dívida com a sua família que me sinto envergonhado.

— Lamento ouvir isso. Acho que ainda não paguei nem metade da comida que comi aqui.

Bill deu uma risada fraca. — Por favor, dê meus agradecimentos para os seus pais. Não, melhor ainda — fale que vou pessoalmente visitar assim que esse assunto se resolver. — Apertou o ombro de Kyle.

Kyle pensou em dizer que não havia necessidade de se dar ao trabalho de uma visita, mas mudou de ideia e assentiu devagar. Não tinha certeza, mas tinha a sensação de que a visita seria mais para benefício do próprio Bill do que dos pais, e não queria decepcioná-lo.



A mansão do duque abrigava dois escritórios separados. O do segundo andar era uma sala grande e espaçosa com tantos livros quanto uma biblioteca pública. O do corredor do terceiro andar, ao lado do quarto principal, era menor. Repleto principalmente de livros de história, política e economia, o escritório do terceiro andar havia sido usado por gerações como espaço para o duque trabalhar e receber visitas. Era o que Matthias também fazia com ele.

Mark Evers caminhou em direção ao escritório do terceiro andar a passos apressados. Mark havia sido o assistente pessoal de Matthias desde que o duque atingira a maioridade, mas nunca havia recebido uma ordem tão urgente quanto a daquele dia.

No começo, havia presumido que Matthias era simplesmente de natureza tranquila. Com o tempo, porém, começara a se perguntar se era antes que não havia nada em todo o Império de Berg capaz de deixá-lo ansioso. Afinal, tinha tudo que poderia querer, e sua vida sempre corria com suavidade.

Matthias von Herhardt era um homem que sabia que estava ganhando na vida. Mark tinha certeza de que essa era a origem de sua gentileza e generosidade. Era a fleuma de um predador de barriga cheia.

Talvez fosse por isso que Mark sentia que até o ar se movia mais devagar na presença de Matthias. Esse era o Duque Herhardt que conhecia.

Por isso havia duvidado dos próprios ouvidos ao ouvir Matthias acrescentar a expressão "o mais rápido possível" à ordem de investigar Daniel Raynor. Depois de ter certeza de que não havia ouvido errado, tratou de conduzir a investigação com urgência.

Quase correndo pelo corredor, chegou depressa ao escritório do terceiro andar.

— Vossa Graça, sou eu, Mark.

Pela fresta sob a porta estava claro que a luz estava acesa lá dentro, mas não havia resposta — o que significava: Entre. Abriu a porta com cuidado e entrou no escritório. Matthias estava recostado no grande sofá de couro. Estava tarde da noite, mas acabara de encerrar uma reunião com os diretores dos negócios da família e ainda estava formalmente vestido.

— Este é o dossiê sobre Daniel Raynor, conforme solicitado. — Mark pousou a pasta com cuidado sobre a mesa.

Matthias esfregou as têmporas, depois pegou a pasta e começou a folhear as páginas. Observando-o percorrer as páginas com descontração, Mark se sentiu aliviado ao ver o Duque Herhardt de sempre.

O alívio, porém, não durou. Logo viu Matthias se comportar de maneira ainda mais estranha. Depois de ler cuidadosamente cada página da pasta, Matthias explodiu em uma gargalhada.

Daniel havia investido uma soma considerável em um empreendimento de mineração no exterior e penhorara a própria casa ao tomar dinheiro emprestado do banco para isso. O empreendimento havia se revelado uma fraude, e ele havia perdido todo o dinheiro e em breve estaria reduzido a viver na rua. Por isso Mark não fazia ideia do que havia na história de Daniel que poderia ter levado o impassível Duque Herhardt a explodir em gargalhadas.

— Deixa eu adivinhar: em algum momento nos últimos dias, Daniel Raynor miraculosamente quitou todas as dívidas com o banco, não foi? — perguntou Matthias, segurando a pasta. Havia um sorriso irônico nos lábios.

O rosto parecia gentil quando não demonstrava emoção, mas a frieza transparecia quando ria ou sorria daquele jeito.

— Sim, Vossa Graça. Estava prestes a relatar isso. Não foi o total, mas pagou o suficiente para impedir que o banco tomasse a casa. Aconteceu ainda hoje à tarde, então não consegui incluir no dossiê.

— E eu apostaria que o dinheiro veio da família Ettman? — Continuava sorrindo. — Especificamente da Linda Ettman? — Parecia saborear o nome ao pronunciá-lo devagar.

— Como o senhor sabia —

— Muito bem. Mande chamar o Hessen.

Mark ficou desconcertado, mas não fez mais perguntas e saiu imediatamente para chamar o mordomo.