Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 33 - O Paraíso de Arvis

Capítulo 33 - O Paraíso de Arvis

Tradução: Amme

Capítulo 33

O Paraíso de Arvis


A notícia de que Layla, a garota criada por Bill Remmer, havia sido aprovada na Universidade de Ratse se espalhou rapidamente por Arvis.

Ao mesmo tempo, corria a notícia de que o filho único do Dr. Ettman havia sido admitido na faculdade de medicina da mesma universidade depois de se sair de maneira brilhante no vestibular — mas essa notícia não gerou tanto burburinho, pois todos já esperavam que acontecesse.

A notícia de Layla, porém, era outra história. Por vários dias, sempre que duas ou mais pessoas se encontravam, Layla Llewellyn inevitavelmente se tornava tema de conversa. E isso valia inclusive para as conversas que aconteciam na estufa do duque.

— Só de pensar: uma órfã comum, e ainda por cima mulher, indo para a faculdade. O Bill Remmer deve ter feito um trabalho extraordinário ao criá-la — disse a Duquesa-viúva Herhardt. Normalmente não participaria de fofocas sobre uma criança de origem humilde, mas naquele dia demonstrava tanto interesse em Layla quanto qualquer outra pessoa.

— Ela deve ter nascido com muita sorte. Primeiro encontrou o Bill, seu salvador, e depois conseguiu se novar com o filho do Dr. Ettman — acrescentou Elise von Herhardt.

Claudine, que estava tomando o chá em silêncio, sorriu educadamente e assentiu. — Fico tão feliz que aquela pobre garota tenha tido tanta sorte.

Sentia-se mais capaz do que nunca de elogiar Layla com sinceridade.

Naquele instante, uma criada que a Duquesa-viúva Herhardt havia mandado à cabana voltou acompanhada de Layla, que estava muito bem arrumada.

— Venha e sente-se — disse a Duquesa-viúva Herhardt com calma.

Os olhos de Layla se arregalaram de surpresa, assim como os de Lady Herhardt e de Claudine.

— Não há nada de errado em oferecer uma xícara de chá a uma garota especial, não é? — perguntou a Duquesa-viúva Herhardt, sorrindo. Embora todos os Herhardt fossem aristocratas distantes e de sangue azul, Katharina von Herhardt era especialmente assim. Por isso foi uma surpresa para todos que convidasse uma garota órfã criada por um jardineiro para o chá.

Com uma expressão nervosa no rosto, Layla sentou no lugar para o qual a criada a conduziu.

Assim que o chá de Layla foi servido, a Duquesa-viúva Herhardt começou.

— Então, fiquei sabendo que foi admitida em uma universidade na qual até filhos das famílias mais distintas têm dificuldade de entrar.

— É tudo graças ao tio Bill — respondeu Layla, os olhos baixos com educação.

— Claro. Não devemos esquecer seu salvador, Bill Remmer.

— De fato, senhora.

— Ouvi dizer que é de Lovita.

— Sim, senhora. Minha mãe era de Lovita, mas meu pai era de Berg.

— Somos parecidas nisso.

Elise e Claudine reagiram com espanto ao comentário casual.

O pai da Duquesa-viúva Herhardt havia sido um marquês de prestígio com laços com a família imperial de Berg, enquanto a mãe vinha da linhagem da família real de Lovita. Era surpreendente que estivesse comparando sua linhagem à de uma pobre garota órfã.

— Me diga uma coisa que gostaria de receber — disse a Duquesa-viúva Herhardt, pousando a xícara.

Layla ficou desconcertada com aquela ordem repentina.

— O Bill Remmer é um dos meus funcionários favoritos. Como você é para ele como uma filha, gostaria de lhe dar um presente de congratulações — disse a Duquesa-viúva Herhardt com calma.

De surpresa, Layla esqueceu os modos e ficou olhando diretamente para a Duquesa-viúva. Naquele instante, mais duas pessoas entraram na estufa.

— Duque Herhardt! — exclamou Claudine com alegria.

Todos olharam na direção do olhar de Claudine, incluindo Layla.

Matthias von Herhardt estava parado junto à mesa. Fez contato visual com Layla, após o qual os dois franzeram a testa por razões diferentes. Havia uma leve tensão no ar, até que Layla a dissolveu ao desviar os olhos.

— Esta jovem foi admitida na Universidade de Ratse. Queríamos parabenizá-la, então a convidamos para tomar chá conosco — disse Elise von Herhardt, sorrindo enquanto explicava a situação incomum.

Matthias assentiu e sentou ao lado de Claudine, em um lugar que ficava exatamente de frente ao de Layla.

— Você voltou cedo — disse Claudine ao noivo, sorrindo para ele com ternura.

Agora que assumira integralmente os negócios da família, Matthias normalmente saía da mansão de manhã cedo e não voltava até tarde da noite. Já fazia uma semana desde que Claudine havia chegado para sua visita a Arvis, mas era a primeira vez que o via voltar para casa ainda com luz do dia.

— A reunião terminou mais cedo do que o esperado, Lady Claudine — respondeu ele.

— Fico feliz em saber. Estava preocupada que estivesse trabalhando demais ultimamente.

— A Claudine tem razão, Matthias — observou Elise von Herhardt. — Não deve se exceder no trabalho ou pode prejudicar a saúde.

A conversa à mesa do chá então derivou para a situação de Matthias e os negócios da família. Em um instante, foi como se Layla não estivesse mais ali.

Graças a isso, pôde respirar aliviada e tomar um gole do chá, que a essa altura estava morno. Queria nada mais do que escapar daquela situação desconfortável, mas não podia sair sem antes ser dispensada, especialmente com a mãe e a avó do duque presentes.

Pousou a xícara no pires, tentando não fazer barulho ao fazê-lo. Então olhou distraidamente para cima, e ficou tão assustada com o que viu que recuou na cadeira. Matthias, sentado entre a noiva e a mãe enquanto conversavam, a olhava diretamente. Os olhos frios eram exatamente iguais aos do dia em que havia pisoteado o seu coração.

Em vez de pegar a xícara de novo, apressou-se a esconder as mãos sob a mesa. O olhar de Matthias então se voltou para Claudine, que começou a falar com ele. Quando Claudine voltou a conversar com Elise, o olhar dele retornou a Layla.

Layla baixou a cabeça rapidamente, mas ainda sentia o olhar pesado dele sobre ela. Logo as memórias do verão anterior começaram a invadir a mente. Recordar aquelas memórias na presença de Claudine a fazia sentir-se ainda pior. Um calafrio percorreu a espinha. Era Matthias quem havia cometido os erros, mas Layla era quem se sentia culpada.

— Então, já pensou em algo que gostaria de receber? — perguntou a Duquesa-viúva Herhardt. Com aquela pergunta, a atenção da mesa voltou a Layla.

Layla ergueu reflexivamente a cabeça ao ouvir o próprio nome, depois sem querer começou a morder o lábio. Era porque os olhos azuis de Matthias ainda estavam fixos nela. Tentando esconder a ansiedade, virou-se rapidamente para a Duquesa-viúva Herhardt e respondeu:

— A senhora já me deu um presente enorme. Não preciso de mais nada.

— Já recebeu um presente?

— Sim. Simplesmente ao me permitir ficar na cabana do tio Bill aqui em Arvis, a senhora já fez por mim mais do que jamais poderei retribuir. É o maior e mais maravilhoso presente que já recebi, e sou eternamente grata por ele.

— Tudo que fizemos foi aprovar o pedido do Bill.

— A aprovação desse pedido foi um presente que mudou toda a minha vida, senhora. — Um leve sorriso se formou nos lábios. — Meu mais profundo agradecimento à senhora também, Lady Herhardt — disse, virando-se para Elise. — E a você também, Vossa Graça, e a você, senhorita Claudine. — Como a única coisa que realmente queria naquele momento era ser dispensada — o que sabia que não poderia pedir —, expressou sua gratidão a todas aquelas pessoas de quem não era especialmente próxima.

— Nunca vou esquecer a gentileza que me estenderam, mesmo depois de partir de Arvis. — Em seguida, inclinou profundamente a cabeça para indicar a recusa educada de qualquer presente adicional.

A Duquesa-viúva Herhardt a observou de perto por um momento, depois assentiu. O ato de recusar a generosidade da família Herhardt era ousado, mas Layla havia expressado aquela recusa de uma maneira muito refinada, bem diferente do que se esperaria de uma garota de origens tão humildes.

— Já está se despedindo? Isso me entristece, Layla — disse Claudine. — Entendo como se sente, mas ainda gostaríamos de lhe dar um presente. Ah, que tal pagarmos sua matrícula?

— Não, obrigada, senhorita. Fico feliz em aceitar a gentileza que já me demonstrou como meu presente — respondeu Layla, ainda sorrindo educadamente. — O tio Bill já juntou dinheiro para a minha matrícula. Ele me disse que quer muito pagar pelo meu primeiro semestre na faculdade.

— É mesmo? Então precisamos pensar em outra coisa. Não posso deixar uma velha amiga partir de mãos vazias, quando ela acaba de entrar na faculdade e de se novar. — Sorrindo, voltou-se para Matthias. — Não é verdade, Duque Herhardt? — A voz era doce como mel ao pressioná-lo com suavidade.

Ele lançou um olhar breve a Layla, depois assentiu levemente.

Depois de mais algumas amenidades e saudações, Layla finalmente pôde se afastar daquela mesa de chá desconfortável. Ao caminhar para longe dos Herhardt, pôde observar o interior da estufa.

Todos que a visitavam a elogiavam entusiasticamente, chamando-a de o paraíso de Arvis.

Agora que conseguia olhar ao redor do suntuoso espaço, Layla se sentiu inquieta. Ao ver todas as belas aves com as asas cortadas e todas as flores excessivamente coloridas e perfumadas, começou a se sentir oprimida. Aquela sensação foi intensificada pelo som da água correndo na fonte de mármore e pela luz do sol amplificada ao atravessar as paredes de vidro.

Saiu da estufa imediatamente, sem olhar para trás nem uma vez. Só quando estava do lado de fora, no abraço gentil da brisa e da luz natural do sol, conseguiu soltar um suspiro de alívio.

A sombra longa do fim do dia a seguia enquanto caminhava de volta em direção à floresta.



— Linda, você sabe o que está dizendo agora? — perguntou Daniel Raynor com incredulidade. Os raios do sol poente que entravam pela janela sem cortinas o faziam franzir os olhos enquanto estava sentado de frente para a prima, Linda Ettman. — Linda!

— Baixa a voz, Daniel — disse ela. O rosto permanecia surpreendentemente calmo enquanto ela lançava um olhar para a porta fechada.

Daniel soltou um gemido angustiado. Depois que um investimento malsucedido em um empreendimento de mineração no exterior havia deteriorado rapidamente sua situação financeira, havia procurado diversas vezes o parente mais abastado — a prima Linda Ettman — pedindo ajuda. Em cada ocasião, ela o havia recusado com frieza, mas com elegância. Para sua grande surpresa, desta vez ela havia vindo vê-lo e se oferecido para ajudá-lo voluntariamente.

Claro que ele não havia esperado que a ajuda viesse de graça. Mas quando ouviu o que ela queria em troca, hesitou, apesar da situação difícil em que se encontrava.

— Isso é furto, Linda. Como eu poderia —

— Não — disse a Senhora Ettman, cortando-o. Fechou e abriu os olhos devagar, depois disse: — É só esconder algo temporariamente e depois devolver.

— Mas...

— Você não se importa com o Kyle?

— Claro que me importo.

— E você precisa da minha ajuda, não precisa? — Tirou as mãos do colo e massageou as têmporas.

O rosto de Daniel começou a corar, mas ele parou de argumentar, exatamente como ela sabia que pararia.

— Você vai pegar o dinheiro, e quando chegar a hora, vai devolvê-lo. É só isso. Fazendo esse simples favor para mim, você vai poder proteger a sua família, e eu vou poder proteger o meu filho.

Endireitou a postura e o encarou nos olhos.

— Parece um bom negócio para mim. O que você acha, Daniel?