Tradução: Amme
Capítulo 32
Dias Felizes
A Senhora Ettman recebeu a convidada com uma mesa repleta de pratos com aspecto delicioso e belas decorações. Não só Layla, mas até o Dr. Ettman e Kyle ficaram admirados com a recepção calorosa.
— Obrigada pelo convite, senhora Ettman — disse Layla. Ao recitar aquela saudação que havia ensaiado dezenas de vezes ao longo do dia, ofereceu à Senhora Ettman os presentes que havia trazido: um buquê de rosas frescas e um vidro enfeitado cheio de pêssegos em conserva.
— Muito obrigada — disse a Senhora Ettman, aceitando os presentes.
Layla sorriu, aliviada de que o primeiro passo havia corrido bem.
Ao ver o sorriso no rosto dela, Kyle deixou que um sorriso atravessasse sua expressão séria. Quando a Senhora Ettman notou que o filho sorria, o rosto esfriou por um instante antes de voltar a uma expressão de hospitalidade calorosa.
O Dr. Ettman havia dito que permitiria que Kyle e Layla se casassem se os dois passassem no vestibular. Não havia dúvida de que Kyle passaria, e tampouco muita dúvida quanto a Layla, de modo que o casamento parecia tão bom quanto aprovado.
Não acredito que meu filho vai se casar com uma garota assim, pensou a Senhora Ettman, cerrando os punhos sob a mesa. Não estava feliz com a situação, mas havia decidido parar de resistir. Conhecia bem o marido e o filho o suficiente para perceber que resistir demais poderia sair pela culatra. Respirou fundo para recuperar a compostura, depois olhou para Layla com ainda mais cordialidade e disse:
— Espero que aprecie o jantar, Layla. Tomei cuidado de incluir muitos pratos que você gosta.
Layla, que havia ficado olhando para a mesa farta de admiração, sorriu ao ouvir que a comida havia sido pensada com ela em mente.
Olhando para o rosto bonito de Layla, a Senhora Ettman começou a sentir um ressentimento estranho borbulhar dentro dela. Você usou esse sorriso bonito para seduzir meu filho, não foi? Percebendo com um arrepio até onde seus pensamentos negativos haviam chegado, ergueu rapidamente o copo de água aos lábios. A água desceu pela garganta estranhamente fria.
— Muito obrigada — disse Layla com absoluta sinceridade, antes de lançar mais um sorriso educado.
Era uma garota gentil e bem-educada. A Senhora Ettman sabia disso muito bem, e isso havia se tornado mais um motivo pelo qual não via com bons olhos tê-la como nora.
Teria preferido muito que houvesse algum problema substancial nela, alguma desculpa para não gostar ou até detestar. Assim pelo menos não se sentiria tão envergonhada por não gostar dela apesar de todas as suas virtudes.
Na verdade, era exatamente pelas virtudes que não gostava de Layla. Detestava que ela fosse tão simpática, detestava que fosse tão inteligente, e detestava que viesse de circunstâncias tão desfavoráveis.
Notando que o sorriso estava desaparecendo do rosto da esposa, o Dr. Ettman decidiu mudar de assunto.
— Layla, há um professor na Universidade de Ratse chamado Dr. Lorenz que é especialista em biologia aviária. Certifique-se de se inscrever numa aula com ele quando o ano letivo começar. Acho que estudar sob a orientação de um grande estudioso como ele seria muito proveitoso para você.
— Querido, você está falando como se a Layla já tivesse sido admitida na universidade — interveio de repente a Senhora Ettman.
O Dr. Ettman e Kyle a olharam com expressões intrigadas.
— Não tem como ela não ser admitida — respondeu o Dr. Ettman.
— Exato, mãe. A Layla definitivamente passou no vestibular.
O pai e o filho se pareciam de forma notável, não só nas vozes e nas expressões, mas também no cuidado que demonstravam por Layla. A Senhora Ettman precisou se conter para não dar a resposta dura que queria dar. Em vez disso, mais uma vez sorriu com ternura e respondeu:
— Ah, entendo. Faz sentido, já que sei que a Layla é uma garota tão inteligente.
Layla, sentada do outro lado da mesa em frente à Senhora Ettman, sorriu acanhada com o elogio.
Quanto à vida de Layla em Lovita, Bill jamais contava nada a ninguém. Os outros moradores de Arvis sabiam apenas que quando pequena havia perdido os pais e sido passada de parente em parente em Lovita, antes de ser enviada finalmente para Berg.
Linda Ettman detestava nisso mais do que qualquer outra coisa — o fato de não ter parentes adequados para criá-la e cuidar dela, e o fato de ter sido expulsa de casa em casa, antes de ser enviada para um país estrangeiro. Quase estremecia quando pensava em que base instável isso representaria para ela ao começar uma nova família com Kyle.
Não é que eu esteja pedindo muito, pensou a Senhora Ettman.
Se Layla simplesmente viesse de uma família comum, a Senhora Ettman não seria tão veementemente contra o casamento com o filho. Mas dada a falta de uma família estável na infância de Layla, preocupava-se com que ela não conseguisse se tornar uma boa esposa ou mãe.
Também desprezava o que via como o desejo ganancioso de Layla de ir para a faculdade. Do ponto de vista da Senhora Ettman, se Layla queria isso, sendo mulher e pobre, então provavelmente era gananciosa em todos os outros sentidos também. Por isso duvidava muito de que o filho pudesse ser feliz com ela como esposa.
Preciso impedir isso, pensou a Senhora Ettman, entrelaçando as mãos sob a mesa. Preciso impedir esse casamento, custe o que custar.
A carta de aprovação de Layla na faculdade foi entregue pelo mesmo carteiro que anos antes havia entregado a própria Layla em Arvis. Layla estava dando uma caminhada quando a carta chegou, então Bill a recebeu no lugar dela. Tão logo viu o envelope, ele silenciou e ficou olhando para o nada.
— Sr. Remmer? — disse o carteiro, olhando para Bill com preocupação depois que ele não respondeu às palavras de parabéns. A expressão despreocupada havia desaparecido, e o rosto começava a corar. — Está tudo bem, Sr. Remmer?
— Ah... sim. Não se preocupe — respondeu Bill, esfregando os olhos com a mão grande. — Fiquei imerso nos pensamentos por um instante — acrescentou em voz mais alta. Os olhos estavam úmidos de lágrimas.
O carteiro já sabia o quanto Bill era sensível por baixo do exterior brusco, então fingiu não notar as lágrimas.
Assentindo, disse: — Bom, de qualquer forma, parabéns, de verdade. Fico muito feliz em saber que a Layla vai frequentar a universidade mais prestigiosa do império. — Com essas palavras adicionais de parabéns, foi embora.
Bill voltou para a varanda, segurando a preciosa carta de aprovação. Sentando na cadeira, leu a carta do começo ao fim mais algumas vezes, depois acariciou o papel com os dedos. O rubor animado foi desaparecendo aos poucos depois de algumas respirações fundas.
Naquele instante, Layla voltou.
— Tio Bill! — gritou, acenando e correndo em direção a ele assim que o viu. A velha bolsa de couro no ombro saltitava freneticamente enquanto corria.
— Essa bolsa ridícula — murmurou Bill, dando uma risadinha para si mesmo.
Era uma velha bolsa de ferramentas que lhe havia dado no verão em que ela chegara a Arvis pela primeira vez. Mesmo depois de adquirir outras bolsas mais bonitas, quando ia à floresta sempre pegava aquela surrada.
— Quando você pretende jogar fora essa porcaria? — resmungou ao vê-la se sentar ao lado dele.
— Jogar fora?! Ela ainda serve perfeitamente bem — respondeu ela.
— Por favor, joga fora. Tem que acabar com o sofrimento da coitada.
— Ainda tem vida nela. Vou continuar usando por mais um tempinho. — Sorriu enquanto passava os dedos pela alça gasta. — Vou sentir saudade quando acabar.
Em vez de dizer o quanto ela soava ridícula, ele decidiu parar de falar sobre a bolsa e em vez disso estendeu a carta de aprovação na frente do rosto dela.
— O que é isso, tio Bill?
— Lê e descobre.
Ela lhe lançou um olhar surpreso, depois pegou a carta. Em vez de explodir em uma celebração eufórica como ele esperava, conforme lia a carta ela parecia ficar cada vez mais calma e tranquila.
Por fim, a reação incomumente calma o preocupou o suficiente para chamá-la.
— Layla...?
Só então ela ergueu a cabeça e o olhou. Tinha um sorriso contido no rosto.
Seria bom se você agisse um pouco mais como uma jovem em momentos como este, pensou Bill, coçando a nuca constrangido com o fato de ela ter reagido à notícia de uma forma mais madura do que ele.
Observando a reação dele, ela começou a sorrir ainda mais radiante. Antes que ele tivesse tempo de reconhecer o sorriso, ela havia enrolado os braços ao redor dele com alegria.
— Não precisa exagerar — disse ele. Apesar das palavras indiferentes, porém, acariciou amorosamente as costas dela.
Depois de um tempo, ela ergueu os olhos para ele e sussurrou:
— Obrigada.
Os olhos estavam cheios de lágrimas. — Muito obrigada, tio Bill. — Sorriu radiante para ele. — Foi tudo graças a você, tio Bill.
— Isso é ridículo — respondeu ele. Respirando fundo, tentou se distrair contando mentalmente todas as tarefas que precisava terminar antes do anoitecer. Mesmo assim, os olhos sentiam que estavam prestes a se encher de lágrimas de novo. Por que ela é tão boa em me fazer chorar? — Foi você que estudou, foi você que foi bem no vestibular. O que eu fiz?
— Não. Não, tio Bill. — Sacudindo a cabeça com energia, pegou a mão dele, mal conseguindo envolver uma das mãos dele com as duas. — Eu...
As mãos eram macias e quentes ao segurarem a dele.
— Se não fosse por você, tio Bill, eu teria...
Naquele dia maravilhoso, ela parecia prestes a desabar em soluços. Isso assustou Bill mais do que qualquer coisa. Não gostava de vê-la derramar lágrimas, mesmo que fossem de alegria.
Só queria ver um sorriso alegre no rosto dela. Todo o amor e cuidado que havia dedicado a todas as flores e árvores que havia cultivado ao longo da vida inteira não se igualava ao amor que sentia por aquela garota. Não havia flor nem árvore que estimasse mais do que ela.
Não sabia ao certo quando havia chegado àquele ponto. Um dia simplesmente havia percebido que era assim.
Limpando a garganta para acalmar as emoções, disse: — O que acha de irmos à capital no próximo fim de semana?
— Você e eu, a Ratse? — perguntou ela, parecendo surpresa.
— Agora que foi admitida na universidade, precisa pagar a matrícula e se inscrever nas aulas, não é? Enquanto estamos lá, podemos passear um pouco. Vai ser bom. Afinal, nunca te levei a lugar nenhum antes.
— Está falando sério? — perguntou ela. Os olhos marejados brilhavam de antecipação. — Você e eu numa viagem? De verdade?
— Não vai ser uma viagem de luxo nem nada. Basicamente vamos só pagar a matrícula.
— Mesmo assim.
Ao ver o quanto ela estava animada com a viagem, sentiu arrependimento. Foi então que as palavras da cozinheira Mona sobre ele não saber cuidar de uma filha fizeram sentido. Perguntou-se por que nunca havia levado Layla a lugar nenhum, nem mesmo a uma viagem curta a algum lugar próximo onde ela pudesse conhecer alguma coisa e ele pudesse comprar uma boa comida para ela. Perguntou-se por que esse pensamento só estava ocorrendo agora, quando ela em breve se mudaria.
— A matrícula é muito dinheiro, e de qualquer forma não me sinto confortável mandando você e o Kyle juntos sem um acompanhante de novo, mesmo que vão se casar. Então não tenho outra escolha senão te levar eu mesmo... — Continuou a murmurar desculpas até se sentir envergonhado e rir de si mesmo.
Layla o abraçou de novo.
— Ei, Layla, eu não tinha razão? — disse ele, acariciando carinhosamente a cabeça dela com um sorriso radiante. — Eu não disse que você se tornaria uma adulta extraordinária?
Embora o comentário não conseguisse expressar completamente as emoções que sentia, ele desistiu de tentar encontrar mais palavras e continuou a acariciar a cabeça dela em silêncio. Para não ser dominado pelos soluços, voltou a contar mentalmente as tarefas que precisava terminar.
