Tradução: Amme
Capítulo 31
Gentil, Mas Frio
Será que foi porque aquela última moeda não entrou?
Quando Layla ouviu que o Duque Herhardt retornaria a Arvis, a primeira coisa que lhe veio à mente foi o último arremesso que havia feito na fonte, quando a moeda havia batido na borda da bacia.
Tinha certeza de ter ouvido que o duque passaria mais um ano servindo na guarda imperial, e agora descobria que não era mais assim. Em vez disso, resolveria os assuntos pendentes na capital e então voltaria a Arvis para residir em definitivo. A idosa Duquesa-viúva Herhardt queria que o neto vivesse com ela, cuidando da propriedade, e ao que parecia ele não podia mais ignorar o desejo da avó.
Bem, tanto faz, pensou Layla enquanto espreguiçava os braços antes de amarrar o avental com firmeza na cintura. A vida dele não me diz mais nada. Só fico um pouco aborrecida que aquela última moeda que ele me deu não entrou na bacia depois de eu ter pedido para nunca mais vê-lo.
Depois de deixar Arvis no verão anterior, ele não havia visitado em nenhum momento durante todo um ano. Ela havia presumido que esse padrão continuaria até o fim do serviço militar. Enquanto se mudasse de Arvis antes disso, o pedido teria se realizado.
Sacudindo a cabeça, saiu da cabana para o quintal. Talvez o pedido se realize de qualquer forma. O duque está voltando, mas sou eu que vou sair daqui.
Soltando um suspiro de alívio, cuidou dos animais e da horta. Bem quando terminava as tarefas da manhã, Febe voltou da casa dos Ettman. Um bilhete de Kyle estava enrolado na pata: Minha mãe quer te convidar para jantar hoje à noite. Tá vendo, Layla? Eu disse que ia ficar tudo bem!
Ela sentia que podia ouvir a voz de Kyle por trás das palavras do bilhete.
Para acalmar as preocupações de Layla, ele havia garantido que a mãe acabaria gostando dela com o tempo. Havia assegurado que tudo daria certo, que no outono já seriam um casal casado passeando juntos pelo campus universitário.
Seriam felizes. Muito felizes.
— Tio Bill, vou jantar na casa dos Ettman hoje à noite — disse ela, apressando-se em direção a Bill quando ele chegou de volta à cabana. — A senhora Ettman me convidou.
— Tá vendo, Layla? — respondeu ele com alegria, repetindo as mesmas palavras que Kyle havia escrito no bilhete. — Não disse que ia ficar tudo bem?
Ela sorriu ao ver o sorriso dele. O coração estava acelerado, o que atribuiu à animação.
Matthias retornou a Arvis numa tarde. Enquanto o carro parava diante da mansão, uma expectativa nervosa se espalhou entre os criados alinhados para recebê-lo.
A recepção foi igual a qualquer outra. Foi educadamente cumprimentado por todos os criados, assim como pela avó radiante e pela mãe sorridente.
Por hábito, ao passar pelo jardineiro, baixou os olhos para o chão. Ao lado das grandes botas que Bill usava havia um pequeno par de pés em sapatos marrons simples. Layla Llewellyn estava sempre ao lado de Bill Remmer. Sabia que aquilo já não seria assim depois daquele verão.
Passou pelo jardineiro sem virar a cabeça. Olhava para frente, na direção da escadaria no fundo do salão principal da mansão.
— Vejo que seu pássaro também voltou com você — observou Elise von Herhardt com uma risada ao ver um criado segurando a gaiola dourada que abrigava o canário que o filho havia levado ao partir de Arvis no verão anterior. — Que coisa estranha. Você nunca quis um cachorro ou qualquer outro bichinho de estimação quando criança, e agora estima tanto esse pássaro.
— Se está interessado em pássaros agora, por que não expandimos a estufa e trazemos mais variedades? — sugeriu a Duquesa-viúva Herhardt, sorrindo.
— Não será necessário, avó — respondeu Matthias, devolvendo o sorriso. — Um é suficiente para mim.
Depois dessa resposta seca, caminhou para dentro da mansão. Antes de subir as escadas, ergueu os olhos para o lustre imponente, e para o brasão da família Herhardt gravado no teto. Havia nascido sob aquele brasão, vivia sob aquele brasão, e um dia daria seu último suspiro sob aquele brasão. Aquele fato lhe parecia inteiramente natural. Baixou novamente o olhar e subiu as escadas.
— Se ia terminar o serviço este ano, por que disse antes que ia prorrogá-lo mais um ano? — resmungou a Condessa Brandt, mal disfarçando a irritação.
Havia sugerido adiar o casamento por um ano apenas por respeito à decisão do Duque Herhardt de continuar o serviço militar. Se soubesse como as coisas realmente iam se desenrolar, teria providenciado que o casamento acontecesse antes do fim do verão.
— Não sabia que o Matthias era tão caprichoso.
— Embora o casamento tenha sido adiado, é bom que ele esteja voltando a Arvis mais cedo, mãe — respondeu Claudine, sem demonstrar nenhuma decepção.
— Você certamente parece calma com tudo isso. Enquanto isso, não consigo deixar de ficar chateada que o casamento da minha filha não vai acontecer este ano.
— Por que está chateada? Em vez de uma cerimônia apressada e malfeita, não vai ser melhor realizá-la depois, com tempo suficiente para preparar tudo direitinho?
— Um ano é muito tempo, Claudine. Você não percebe tudo o que pode acontecer nesse tempo?
— Não sei, mãe. Pense no último ano. Passou voando, e não aconteceu muita coisa. O próximo vai ser uma repetição disso. E de qualquer forma, com o Duque Herhardt morando em Arvis em definitivo, os preparativos do casamento vão correr ainda melhor.
— Claudine, os homens não são de confiança. E ao contrário do casamento, o noivado não é um compromisso vinculante.
— Não estamos falando de qualquer homem, mãe. Estamos falando de Matthias von Herhardt. — Claudine sorria com calma agora.
— Ele nunca vai amar ninguém além de si mesmo.
Claudine talvez estivesse tão inquieta quanto a mãe se não tivesse ouvido a notícia de que Layla e o filho do médico iam se casar. Com Layla Llewellyn fora de cena, não via razão para a preocupação excessiva que a mãe demonstrava.
— Para ele, este noivado também é uma questão de orgulho familiar. Não há nada que possa interferir nisso — disse com decisão enquanto passava a agulha pelo bastidor do bordado.
Gentil, mas frio — era assim que Matthias havia se comportado desde criança. Enquanto os outros primos de Claudine pregavam peças nela e a chamavam por apelidos, Matthias sempre havia sido educado e gentil com ela. Isso era agradável, mas também o fazia parecer mais distante e difícil de relacionar.
Às vezes ela se perguntava se ele tinha emoções de verdade. Era difícil imaginá-lo com raiva, triste, feliz ou preocupado. Parecia mais provável que olhasse para o mundo com o mesmo sorriso gracioso e arrogante até o dia em que morresse. E era exatamente isso que ela queria dele.
— Devo visitar Arvis semana que vem — disse ela, levantando-se do sofá com disposição. — Posso ver o Duque Herhardt, e posso cumprimentar minha amiga pelo casamento que está por vir. Dois coelhos com uma cajadada só.
— Uma amiga com casamento marcado? Não, não me diga que está se referindo àquela garota órfã de quem o jardineiro cuida? Está chamando ela de amiga de verdade? — perguntou a Condessa Brandt, com expressão horrorizada.
Claudine esboçou um sorriso despreocupado. — A Layla é minha amiga. Uma velha amiga. Devo arranjar um presente de casamento para ela.
Depois de longa deliberação, Layla colocou o vestido branco que havia comprado para a viagem de vestibular a Ratse. Trançou o cabelo com cuidado e o prendeu com a fita favorita.
Já havia estado na casa dos Ettman antes, mas se sentia ainda mais nervosa do que na primeira vez — tanto porque ela e Kyle estavam agora noivos, quanto porque a mãe dele havia sido ela mesma a estender o convite desta vez.
— Como estou, tio Bill? — perguntou, saindo do quarto.
Fumando um cigarro preguiçosamente sentado na janela aberta, ele deu uma risadinha ao olhar para ela. — Com o casamento à vista, vejo que está mais interessada em se arrumar do que nunca.
— Não é isso, tio. Estou nervosa de ver a senhora Ettman.
— Não tem por que ficar nervosa. Já a viu algumas vezes antes, não foi?
— Sim, mas esta noite é especial.
— Bem, você está impecável, então não precisa se preocupar.
Apagando o cigarro, ele se levantou e lhe sorriu com calor.
— Seja você mesma, Layla. Isso é suficiente. — Deu-lhe um tapinha no ombro, e a mão estava tão quente quanto o sorriso.
Embora soubesse que a avaliação era parcial por ele amá-la tanto, devolveu-lhe o sorriso e assentiu. Só depois de se acalmar graças às palavras dele percebeu o quanto havia estado ansiosa o dia todo. Naquele instante, Kyle chegou.
— Kyle, como eu fico?
— Perfeita — respondeu ele com confiança, sem nem deixá-la terminar a pergunta. — Você está como sempre, e isso é suficiente. — Sorria com calor, igualzinho a Bill. — É tudo que quero de você, Layla.
— Hmm... outro cara estava me dizendo exatamente a mesma coisa... — respondeu ela, rindo ao observar as semelhanças entre as expressões e os comentários de Kyle e de Bill.
— O quê? Quem? Que cara? Com quem você estava falando? — perguntou Kyle.
— Para de bobagem e vai logo, seu vagabundo — disse Bill, dando uma palmada nas costas de Kyle.
Kyle tropeçou um pouco com o golpe inesperado, depois olhou para Bill com uma careta. — Mas Sr. Remmer, algum idiota estava falando com a Layla —
— Esse idiota sou eu, seu tonto!
— Então eu acho que... espera, como assim?
— Seu mal-educado vagabundo, vou ter que reconsiderar seriamente se é uma boa ideia te deixar ficar com a Layla. — Apesar das palavras ameaçadoras e diretas, Bill estava dando tapinhas muito gentis e calorosos no ombro de Kyle.
Layla observava de alguns passos atrás enquanto os dois homens brigavam.
Aqueles dois homens eram as duas pessoas que ela mais amava no mundo inteiro. As duas mais preciosas para ela. As duas que nunca queria perder. Um sorriso foi se formando devagar no rosto, e a alegria foi preenchendo o coração. O tio Bill e o Kyle sempre tinham esse efeito nela. Não conseguia imaginar a vida sem eles.
Era por isso que havia finalmente decidido se casar com Kyle, depois de tanto hesitar. A cada dia que ele pedia e ela recusava, as coisas entre eles ficavam mais estranhas. Se não conseguia aceitar o amor dele, era justo que uma distância se formasse. Ele havia se esforçado ao máximo para fechar essa distância, mas como já havia pedido em casamento, restavam apenas duas opções — casar ou parar de se ver completamente.
O desejo de continuarem bons amigos, sem ir além disso, havia se tornado impossível no momento em que ele fez o primeiro pedido. No fundo ela sabia disso, e aquilo a havia angustiado ao longo do outono, do inverno e da primavera anteriores.
O casamento, e todo o resto da vida futura que Kyle lhe havia descrito, havia lhe parecido uma noção vaga e distante. Também não gostava da ideia de desejos excessivos. Mas se o casamento era a única maneira de não perder Kyle, achava que conseguiria encontrar coragem para isso.
Havia tomado essa resolução no fim da primavera, no mesmo dia em que o Duque Herhardt a havia insultado e feito chorar. Não querendo guardar nada que ele havia lhe dado, jogara todas as moedas de ouro dele na fonte. No momento em que olhou nos olhos de Kyle quando ele foi procurá-la, havia tomado a decisão.
O olhar dele havia apagado toda a sua dor e tristeza. Lembrava a luz aconchegante da cabana. Tantas vezes, caminhando pela trilha escura da floresta à noite, havia visto a luz quente da cabana e sentido uma profunda tranquilidade ao saber que Bill estava ali esperando, pronto para consolar qualquer dor ou tristeza que o mundo lhe houvesse imposto. Naquela tarde à beira da fonte, os olhos de Kyle lhe haviam dado aquela mesma sensação quente e aconchegante.
Como sempre, a briga sem sentido entre Kyle e Bill terminou com os dois rindo gostosamente. Ainda rindo, Kyle se virou e estendeu a mão para ela. — Vamos, Layla.
Hesitando levemente, ela roçou de leve as pontas dos dedos dele. Ele deu uma risadinha e segurou a mão dela de verdade. A mãozinha dela quase sumiu dentro da dele.
Embora ainda não estivesse acostumada com essas novas demonstrações de carinho que haviam começado depois de aceitar o pedido, não afastou a mão. Não queria perdê-lo.
