Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 30 - Vou Fazer o Meu Melhor

Capítulo 30 - Vou Fazer o Meu Melhor

Tradução: Amme

Capítulo 30

Vou Fazer o Meu Melhor


Depois de um jantar farto, Layla e Kyle caminhavam pela rua, cada um com um sorvete de casquinha na mão. Já estava escuro, e ela havia insistido que ele voltasse para a casa onde estava hospedado para se preparar para a prova do dia seguinte, mas ele estava sendo teimoso.

— Isso faz parte da minha preparação — insistiu. — Caminhar com você vai ajudar na digestão.

Ela não tinha como contestar aquela lógica. — Tudo bem, então vamos andar um pouco mais. Mas, Kyle...?

— Sim?

— Por que você quer se casar comigo? — perguntou ela com cautela, lambendo o sorvete frio e doce nos lábios. — Se for por pena...

— Layla — disse ele com firmeza.

Ela se assustou com aquele tom incomum nele.

Ele deu a volta para ficar de frente para ela. — Você acha que sou algum tipo de louco que se casaria com alguém por pena?

Assustada com o tom duro, ela não respondeu.

— Claro — disse ele. — O mundo é grande, e tem muitos loucos por aí, alguns dos quais provavelmente fariam isso. Mas eu não sou um deles, Layla. — Soltou um suspiro longo para acalmar a indignação. — Você quer saber por que quero me casar com você? Porque te amo.

— Kyle...

— É isso. Esse é o motivo. Porque amo Layla Llewellyn.

Olhando para o rosto nervoso dela, ele suspirou de novo e deu uma risadinha.

— De qualquer forma, por que eu teria pena de você? Já tentei te pedir em casamento centenas de vezes, e você recusou todas. Se alguém deveria sentir pena de alguém, é você de mim, Layla.

Despenteou delicadamente o cabelo dela, depois foi andando na frente, sem querer que ela visse a expressão boba que tinha certeza de estar no próprio rosto.

Como se entendesse aquilo, ela ficou um passo atrás enquanto caminhavam.

Continuaram em silêncio por algum tempo, chegando por fim ao hotel.

— Boa noite, Layla — disse ele, sorrindo. — Ah, espera, quase esqueci.

Olhando para o sorvete derretendo, ergueu devagar a cabeça para olhar nos olhos dela. — Vamos nos casar, Layla. — Mesmo sabendo que ela ia recusar, pedir em casamento havia se tornado um ritual diário, e parecia estranho omiti-lo.

Desta vez, porém, em vez de dizer "Boa noite, Kyle" e entrar, ela simplesmente ficou parada, sem dizer nada.

Ele a encarou com estranheza. Esperava plenamente que ela dissesse a frase amigável mas direta: "Não vou me casar."

Em vez disso, disse algo que ele mal conseguiu acreditar.

— Tudo bem.

— Q-que... Layla? — Derrubou o cone de susto. O sorvete derretido respingou no sapato, mas ele não ligou. — Eh... você acabou de dizer... que vai se casar comigo? — gaguejou.

Com os olhos baixos, ela assentiu.

— Você... está concordando em se casar? Com... comigo? — perguntou ele de novo com a voz trêmula.

Ela o olhou com uma expressão acanhada e assentiu mais uma vez.

Parecia que ia dizer mais alguma coisa, mas antes que pudesse, Kyle soltou um grito eufórico enquanto a envolvia nos braços.

— Uhul!

Vários transeuntes se assustaram e pararam para olhar, mas Kyle não ligou. Ergueu Layla no ar e a girou repetidamente, sem dar atenção aos gritos surpresos dela.

Era uma doce noite de primavera.



Naquela noite, Kyle sonhou que ele e Layla se casavam e levavam uma vida comum e feliz como casal.

Certa vez, sorrindo acanhada, Layla havia lhe dito: — Um dia daqui a muito tempo, quando tiver minha própria casa, quero ter um pequeno canteiro de flores. Vou plantar rosas. Quando elas abrirem, vou ficar muito feliz.

No sonho, ela estava parada ao lado do canteiro, mais bela do que as rosas que floresciam nele. As crianças corriam alegremente por perto. As risadas delas soavam ao sol.

— Papai...! — gritou uma das crianças, correndo na direção de Kyle.

A menina tinha cabelos louros, igualzinho ao de Layla. Ao lado dela havia um menino mais novo, ainda na primeira infância, que se pôs de pé e o cumprimentou.

Kyle abraçou a menina e a ergueu nos braços. Caminhando em direção a Layla, sentiu uma brisa suave soprar. Ela trazia o perfume adocicado das rosas. Layla sorriu para ele. O sorriso era ainda mais belo do que tudo no lindo sonho até aquele momento.

Por fim, Kyle acordou, ainda sentindo as sensações do sonho presentes na consciência. Talvez por causa da alegria que o sonho lhe trouxera, saiu-se ainda melhor no vestibular do que havia esperado. Será que o meu sonho está prestes a se tornar realidade? Poderia existir uma bênção tão maravilhosa neste mundo?

Estava tão feliz ao sair da sala de provas que sentia que poderia voar. Quando viu Layla, que o esperava em um banco nas proximidades, realmente sentiu que estava começando a flutuar no ar.

— Layla! — gritou.

Voltando-se para ele, ela fechou o livrinho que estava lendo e o guardou na bolsa a tiracolo, depois foi caminhando animada ao encontro dele.

— Como foi o vestibular? Foi difícil? Você acha que foi bem?

— Você com suas preocupações — disse ele, erguendo o queixo com arrogância. — Layla, eu sou Kyle Ettman. Em matéria de estudos, nunca fico em segundo lugar.

— Ah, é, verdade... — respondeu ela, assentindo de forma exagerada antes de explodir em risadas. — Como pude esquecer o quanto você é inteligente, Sr. Ettman.

— Nossa, que pena. Não esqueça mais — respondeu ele, entrando na brincadeira. Em seguida, foi discretamente pegar a mão dela.

Ela se encolheu, mas não puxou a mão. A luz do sol da tarde de primavera incidia no rosto de Kyle enquanto ele sorria para ela.

— Você acha mesmo que foi bem? — perguntou ela, incapaz de deixar de sentir uma leve ansiedade.

Ele deu uma risadinha com a pergunta.

— Não se preocupe. Não vamos ter o azar de eu reprovar e de a gente não conseguir ir para a faculdade juntos.

— Não era isso que eu estava falando... — Ela começou a corar.

Ao ver as bochechas ficando vermelhas, elas começaram a lembrar pêssegos bem maduros, e logo o pescoço aqueceu. Lamentou que ainda estivessem no campus movimentado ao redor da sala de provas.

Se estivessem em uma rua vazia, talvez tivesse coragem de beijá-la. Não. Se eu fizer isso, ela pode se assustar e recuar. Preciso esperar um pouco mais. Isso mesmo, pensa na pá. Pensou na pá grande e encardida de Bill, e no sorriso ominoso no rosto de Bill.

Os dois deram uma volta pelo campus de mãos dadas, do prédio da faculdade de medicina onde Kyle estudaria até o prédio de biologia onde ela estudaria. Enquanto andavam, anotaram mentalmente a distância entre os prédios e riam enquanto conversavam.

— Você vai passar com certeza, mas eu não tenho tanta certeza de mim mesma — murmurou ela quando chegaram na frente do prédio de biologia.

— Por que você está preocupada com isso? Não disse que achava que foi bem no vestibular?

— Fui, mas admitem um número muito pequeno de alunas por ano. — A expressão ficou sombria.

— Ah — respondeu ele —, é verdade.

Havia apenas alguns anos desde que as universidades do Império de Berg haviam começado a aceitar alunas, e ainda admitiam uma proporção muito pequena das candidatas, de modo que era muito mais difícil para as mulheres obterem educação universitária do que para os homens.

— Mesmo assim, você vai entrar — afirmou ele com confiança. — Quem mais poderiam escolher acima de você?

— Não acha que está sendo um pouco excessivamente confiante?

— Nem um pouco. É uma conclusão altamente confiável a que cheguei com base nos oito anos em que te conheço.

— Oito anos... o tempo realmente voa. — Ainda se lembrava vividamente de andar na diligência dos correios em direção a Arvis. De alguma forma, oito anos haviam passado desde então. De repente, foi tomada pela visão do jovem adulto em que Kyle havia se transformado.

— O que foi? — perguntou ele, sem entender por que ela o encarava com tanta atenção.

— Você cresceu tanto — exclamou ela com solenidade.

Sempre que ela fazia esse tipo de comentário aleatório, ele a amava ainda mais. Dava-lhe uma sensação calorosa e aconchegante por dentro. Mesmo assim, não sabia bem como responder.

— É — disse finalmente, sorrindo. — Cresci o suficiente para ser o seu marido.

Ela ofegou de brincadeira com aquele comentário astuto.

— Você gosta de como eu fico? — perguntou ele.

— Bem... difícil dizer. — Sem jeito, ela começou a andar na frente com passos rígidos.

Vê-la agindo com aquela timidez só fez seu sorriso ficar ainda mais caloroso.

No caminho de volta, ele lhe contou sobre o belo sonho que em breve se tornaria realidade — a casa deles, a vida que compartilhariam lá, as crianças bonitas, e o novo capítulo da história da família Ettman que escreveriam juntos com os filhos. Notou com alegria que ela ouvia com o que parecia ser uma antecipação tímida. Queria transformar aquela antecipação em realidade. Chegou até a se perguntar se era para isso que havia sido posto neste mundo.

— Quantos filhos devemos ter? — perguntou. — Pessoalmente, gostaria de ter uma filha e um filho.

— Hmm... acho que cinco seria o certo.

Ele ficou chocado com o número que ela nomeou, que parecia ser bem inconsistente com a forma hesitante como ela costumava falar sobre a vida futura deles.

Sorrindo radiante, ela continuou: — Se tivermos muitos filhos assim, nenhum deles vai se sentir solitário. E vão poder contar uns com os outros quando precisarem de ajuda. Adoro a ideia de nossa casa cheia de rostos que se parecem uns com os outros.

Apesar da expressão alegre no rosto dela, sentiu uma pontada no peito. O sorriso radiante só o fez perceber o quanto a vida que ela havia levado havia sido solitária.

— Cinco filhos...? Tudo bem, Layla. Vou fazer o meu melhor!

— Hein? — Os olhos dela se arregalaram com a resposta ousada dele.

Olhando um para o outro, os dois começaram a corar quase ao mesmo tempo.

— Eu n-não estava falando sobre... isso — disse ele, dando um passo para trás. Estava corando mais do que ela. — Não fico pensando só nisso, sabia!

— Eu também não! — respondeu ela.

Os dois estavam constrangidos demais para se olhar nos olhos. Soltaram as mãos e começaram a andar com um pouco de distância entre eles.

Logo, lançando um olhar de canto para ela, ele estourou em risadas: — Mas Layla, se você tem vergonha demais para esse tipo de conversa, como espera que a gente faça cinco bebês?

Ela ofegou e se virou para encará-lo furiosa.

— Senhorita Llewellyn, sei que a senhora vai bem em todas as matérias, exceto geometria. Não esperava que uma cegonha viesse trazer cinco bebês no bico, esperava?

Já que ele estava a provocando ainda mais, ela começou a andar mais rápido, ainda franzindo a testa. A risada encantada dele foi crescendo junto com o som acelerado do salto dela no calçamento.

— Espera, Senhora Ettman! — gritou ele de brincadeira. A voz ecoou pelo campus.

Ela começou a correr. O rabo de cavalo trançado saltitava e balançava atrás dela.

Ele saboreou a visão enquanto a observava pelas costas. Sentia que estava de volta naquele lindo sonho. Não queria acordar.

Jamais.