Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 3 - Tragam Aquela Menina Até Aqui

Capítulo 3 - Tragam Aquela Menina Até Aqui

Tradução: Amme

Capítulo 03

Tragam Aquela Menina Até Aqui


O sol estava forte, mas a sombra das árvores trazia um ar fresco e agradável. Layla estava sentada sobre uma manta, os braços envolvendo os joelhos. Bill e os demais jardineiros se ocupavam em retirar do solo uma roseira murcha, plantando em seu lugar rosas de floração tardia.

O jardim atrás da mansão parecia reunir praticamente todas as variedades de rosas existentes no mundo. A rosa era a flor nacional do Império de Berg, e também a favorita da mãe e da avó do duque.

Mais cedo naquele dia, ao ouvir novos tiros ecoando pela floresta, Layla se sentira tão agitada que não conseguira ficar quieta, e passara a andar de um lado para o outro dentro da cabana, ansiosa. Ao notar isso, Bill lhe estendera a mão. Por reflexo, ela a aceitara. Ele então a levara consigo para o jardim. Conforme o som dos tiros se distanciava, ela finalmente se acalmara.

Será mesmo certo eu ficar aqui sem fazer nada enquanto o tio Bill trabalha sob esse sol forte?, pensou ela, olhando para Bill com certo desconforto. Em seguida, soltou um suspiro discreto e fechou os olhos.

Bill já lhe dissera que se metaria em problemas caso ela tentasse ajudá-lo no trabalho. Afirmara que detestava crianças que não faziam o que lhes era dito. Por isso, não lhe restava alternativa além de esperar sentada até que ele terminasse, ainda que se sentisse culpada.

Depois de chegar, a contragosto, a essa conclusão, voltou a abrir os olhos — e se assustou com o que viu. Um garoto desconhecido estava parado bem na sua frente. Vestia-se bem e parecia ter mais ou menos a mesma idade que ela.

Assim que seus olhares se cruzaram, ele sorriu e disse:

— Olá.

Tinha cabelos dourados e um sorriso cativante. Olhou em volta por um instante e, com certa solenidade, perguntou:

— Você mora aqui?

— Sim. Eu moro com o Bill — respondeu ela, observando-o com os olhos estreitados.

— Bill? Você quer dizer aquele jardineiro assustador?

— Ele não é assustador.

O garoto inclinou a cabeça.

— É mesmo? Para mim, ele parece assustador.

Sentou-se displicente ao lado de Layla. Ela ainda não tinha certeza se podia confiar nele.

— Você também mora aqui? — perguntou.

O garoto sacudiu a cabeça, rindo.

— Não. Eu vim com meu pai. Ele é o médico da família Herhardt. Veio hoje examinar a Duquesa-viúva Herhardt. De vez em quando, eu o acompanho nessas visitas. A Duquesa-viúva disse que não havia problema.

— Entendo — respondeu Layla.

— Quantos anos você tem? — perguntou o garoto.

— Doze.

— Igual a mim. Mas você é tão pequena.

O garoto explodiu em risadas.

Layla ficou levemente ruborizada.

— Você também é pequeno — retrucou.

— Bem, eu sou o mais alto da minha turma — respondeu o garoto, esticando-se o quanto podia. De fato, ele parecia mais alto do que a média dos garotos de sua idade.

— Tudo bem, mas... você não é tão alto quanto o tio Bill — murmurou Layla, com menos confiança do que antes.

O garoto a observou por um instante, depois riu de novo. Parecia rir com muita facilidade.

— Ora, o Bill é um homem alto. Nenhuma criança é mais alta do que ele. Aposto que nem mesmo entre os adultos existe alguém maior.

— Não tenho tanta certeza disso — respondeu Layla. Sentindo-se sem jeito, arrancou um punhado de grama do chão ao lado da manta, manchando os dedos de verde. Esperava que o garoto fosse embora em breve, mas ele não dava nenhum sinal de que pretendia fazer isso.

Ao notar um pêssego que havia deixado mais cedo na borda da manta, perguntou, por impulso:

— Quer um pouco?

O garoto assentiu com entusiasmo. Parecia que, além de rir com facilidade, também era uma pessoa ousada e extrovertida, em geral. Layla retirou um canivete da bolsa e começou a cortar o pêssego. O garoto deu uma risadinha.

— Você é bem divertida. Não acredito que uma garota carregue um canivete na bolsa.

— Foi o tio Bill que me deu. Não fica tirando sarro — respondeu ela, fazendo uma careta para o garoto. Em seguida, entregou-lhe metade do pêssego. O aroma doce da fruta flutuou no espaço entre os dois.

— Por que você está com essa cara triste? — perguntou ele, depois de terminar sua metade do pêssego. — Aconteceu alguma coisa?

— O duque e os amigos dele não param de caçar pássaros — respondeu ela, taciturna.

O garoto pareceu confuso.

— O que tem de errado nisso?

— Eles matam os pássaros só por diversão.

— Mas não é esse o sentido da caça? Matar por diversão?

Ela ergueu os olhos verdes e o encarou com seriedade.

— Você também faz isso?

O garoto parecia ser do tipo que dificilmente conseguiria sequer erguer um rifle de caça.

— Ah... bem... não — respondeu ele. Depois de um instante, sacudiu a cabeça com firmeza e declarou:

— Não, eu não faço isso. Sinto pena dos bichinhos.

Ao ouvir aquilo, a expressão sombria de Layla foi se transformando, pouco a pouco, em um sorriso. Em tom animado, ela perguntou:

— Quer mais um pêssego?

Outra vez, o garoto assentiu com entusiasmo. Layla cortou o segundo pêssego de maneira bem desigual e deu a metade maior ao garoto.

As bochechas do garoto ficaram levemente rosadas. Ele parecia um tanto incomodado em suas roupas semiformais. De repente, uma voz se fez ouvir à distância:

— Kyle! Kyle!

O garoto, que já havia terminado seu segundo pedaço de pêssego e brincava com o caroço, levantou-se de um salto ao ouvir o chamado.

— Eu preciso ir agora.

— Tudo bem. Tchau.

— Kyle Ettman — disse o garoto, estendendo a mão na direção dela. — Esse é o meu nome. E o seu?

— Eu sou a Layla. Layla Llewellyn — respondeu ela, aceitando a mão dele com certo desajeito.

As duas crianças trocaram um aperto de mãos solene, mesmo com os dedos pegajosos de suco de pêssego.

— Tchau, Layla. A gente se vê por aí. Da próxima vez, eu trago o lanche! — ele gritou, olhando para trás enquanto corria.

Layla pensou em dizer que talvez não se encontrassem de novo, já que poderia ter de se mudar em breve, mas desistiu e apenas o acenou timidamente. Ela não gostava de falar sobre essa possibilidade em voz alta. Fazer isso sempre a enchia de ansiedade.

Agora que Kyle havia partido, o mundo de Layla voltava a ser tranquilo.

Ela permaneceu sentada na brisa perfumada de rosas, esperando que Bill terminasse o trabalho. Por fim, adormeceu. Ao ouvir Bill chamar seu nome, abriu os olhos ainda sonolenta e viu que o longo dia de verão já se aproximava do fim.

Levantou-se de um salto, agarrou a bolsa e recolheu a manta. Correu até Bill, com um ar muito mais despreocupado do que antes.

— Tio, eu acabei de conhecer um garoto, e...

Antes que pudesse terminar de contar sobre o menino com quem dividira os pêssegos, avistou silhuetas de pessoas saindo do outro extremo da floresta. Ficou paralisada.

Era o Duque Herhardt e seus amigos.



Matthias deteve os passos no meio do jardim de rosas. Viu o rude jardineiro Bill Remmer inclinar a cabeça diante dele. Pouco depois, notou uma pequena criança escondida atrás do homem.

— Há quanto tempo, Sr. Remmer — disse, devolvendo um leve aceno de cabeça. O restante do grupo de caça permaneceu a uma distância respeitosa, atrás de Matthias.

— Esta menina vai ficar morando aqui em Arvis por algum tempo — disse Bill, com uma expressão pouco à vontade. Em seguida, deu um leve tapinha nas costas de Layla, que, hesitante, deu um passo para fora de seu esconderijo.

Ao ver os cabelos dourados e brilhantes da menina, Matthias a reconheceu de imediato. Era a garota que estivera na árvore — aquela que ele confundira com um pássaro e quase alvejara.

— Já obtive a permissão da senhora Elise e da Duquesa-viúva Herhardt, mas deveria ter pedido a sua também — disse Bill, inclinando novamente a cabeça. Layla, ao seu lado, seguiu o exemplo e também se inclinou.

Matthias baixou lentamente o olhar. Ao cruzar os olhos com os da menina, ela se encolheu, mas não desviou o rosto. Viu seus olhos estreitados e os lábios firmemente fechados. Era a mesma expressão com que ela o encarara da primeira vez que se haviam encontrado na floresta.

— É você, a garota que vive na floresta — disse Riette, prima de Matthias, dando uma risadinha.

Layla enrubesceu e voltou a se esconder atrás de Bill. Comportava-se exatamente como sempre fazia ao ver o grupo de caça na floresta. Sempre os fitava com olhar hostil, e depois se escondia atrás de uma árvore. Quando a caçada terminava, ela procurava os pássaros mortos e os enterrava, chorando o tempo todo.

— Ah, sim, está tudo bem, Sr. Remmer — disse Matthias, sorrindo. Não lhe importava que o jardineiro quisesse cuidar de uma criança.

— Agradeço, Vossa Graça — respondeu Bill, inclinando-se uma vez mais. Matthias respondeu com um leve aceno de cabeça e voltou a caminhar.

Somente quando o grupo começou a se afastar, Layla ergueu a cabeça. Os parentes e amigos do duque o seguiam. Por causa do calor, todos haviam tirado os casacos e dobrado as mangas. Apenas o próprio Duque Herhardt mantinha intacto seu traje de caça completo. A única exceção era o boné, que retirara e levava na mão.

Atrás do grupo principal, vinham os criados. Layla os observou atentamente. Recuou, horrorizada, ao perceber que eles carregavam não apenas os rifles de caça, mas também diversas carcaças de animais. O cheiro forte de sangue invadiu suas narinas. Encolheu os ombros e fechou os olhos.

Percebendo que ela tremia, Bill deu-lhe um tapinha no ombro.

Foi um gesto sem jeito, mas cheio de gentileza.



Com o queixo apoiado na mão, Claudine soltava uma sucessão de suspiros exagerados. Seus cabelos castanhos e cacheados balançavam a cada suspiro.

A Condessa Brandt fechou a cara para a filha e sussurrou:

— Claudine, comporte-se como uma dama, por favor.

Sua voz transbordava impaciência.

Embora Claudine ainda fosse jovem demais para ser chamada de dama, as circunstâncias exigiam que se comportasse como tal. Percebendo o quão impossível aquilo parecia ser para a filha, a Condessa Brandt soltou um longo suspiro.

— Estou tão sozinha e entediada — reclamou Claudine.

A outra nobre sentada à mesa de chá voltou os olhos para ela.

Ruborizada de constrangimento com a infantilidade da filha, a Condessa Brandt respondeu:

— Então vá brincar com os garotos.

Claudine, porém, não se moveu.

— Eles me tratam como se eu nem estivesse lá, e falam coisas que eu não entendo.

A expressão lamentosa de Claudine arrancou risinhos discretos das demais senhoras.

— Bem, é natural que ela se sinta entediada. Ela não tem amigos da própria idade — disse Elise von Herhardt, assentindo enquanto fazia carinho no cachorrinho em seu colo.

— Viu, mamãe? A senhora Herhardt entende! — exclamou Claudine, encantada por ter encontrado alguém de seu lado. Em seguida, voltou-se para o jardim. Depois de um instante, apontou e perguntou:

— Quem é aquela garota ali?

A nobre olhou na direção indicada e viu uma garotinha seguindo o jardineiro enquanto ele cuidava das rosas.

— Posso brincar com ela? — perguntou Claudine. — Ela parece ter mais ou menos a minha idade.

— Não sei, Claudine. Ela não é uma órfã de um país estrangeiro? Não é o tipo de criança com quem você deveria fazer amizade — respondeu a Condessa Brandt.

— Mas eu não me importo, mamãe. Tenho certeza de que ela será mais divertida do que um cachorrinho — respondeu Claudine, em um tom calmo e confiante, maduro demais para sua idade. A Condessa Brandt ficou tão ruborizada que até as orelhas lhe ficaram vermelhas. Elise von Herhardt riu, encantada, e tocou o sininho para chamar uma criada.

— Tragam aquela menina até aqui. A que o jardineiro está cuidando.



A criada conduziu Layla a um mundo desconhecido — um mundo onde pessoas glamorosas, vestidas em tecidos de cores vivas como balas coloridas, estavam sentadas sob um toldo branco que se agitava ao vento.

— Ai, que menininha mais fofa — disse uma nobre de beleza impressionante. Voltando o olhar de Layla para a garota de cabelos castanhos sentada ali, perguntou:

— O que acha, Claudine? Gostou dela?

A garota que acabara de ser chamada de “Claudine” sorriu e assentiu, dizendo:

— Obrigada, senhora Herhardt.

Layla começou a se sentir tonta em meio àquela conversa que não compreendia. Desejava desesperadamente voltar para a cabana do tio Bill, mas ninguém demonstrava o menor interesse em como ela se sentia. A nobre que Layla supôs ser a mãe do duque disse algo a uma criada.

A criada que trouxera Layla do jardim a entregou a outra criada, que então a conduziu para longe. Layla ainda não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Ao se encontrar no banheiro mais luxuoso que já vira na vida, tomou banho e, em seguida, vestiu um vestido branco incrivelmente suave que lhe haviam dado. Enquanto a criada penteava seus cabelos emaranhados, a dor era grande, mas ela mordeu o lábio e suportou em silêncio. Temia que, se reclamasse ou se mostrasse contrariada, isso pudesse causar problemas para o tio Bill.

— A senhorita Claudine é filha do Conde Brandt. É melhor você se comportar diante dela. Entendido? — advertiu a criada que levara Layla até o segundo andar da mansão.

Layla assentiu por reflexo. A criada então abriu lentamente a porta da sala de estar. Claudine as recebeu, esforçando-se para parecer tão adulta quanto possível.

— Olá. Qual é o seu nome? Quantos anos você tem?

Ela inclinou a cabeça e fitou os olhos de Layla.

— Meu nome é Layla Llewellyn, senhorita. Tenho doze anos.

— Sério? Você é tão pequena que pensei que fosse mais jovem do que eu.

Essa era a frase que Layla menos gostava de ouvir, mas ela se manteve em silêncio.

Repetiu mentalmente, várias vezes, a frase Pelo tio Bill. Isso lhe dava paciência extra. Claudine parecia não considerar necessário se apresentar. Simplesmente se virou e começou a andar. Layla a seguiu, rígida.

Claudine sugeriu diversas atividades para as duas, entre elas tocar piano, cantar e fazer flores de papel. Layla sacudiu a cabeça. Não sabia fazer nenhuma daquelas coisas. Claudine ofereceu outras opções, como jogos de dados, jogos de palavras e xadrez. Layla também não sabia jogar nenhum deles.

Claudine alternou o olhar entre a mesa repleta de brinquedos e Layla.

— Pobrezinha — disse, sorrindo com doçura. Depois soltou um suspiro de decepção e se levantou lentamente. Layla sentiu uma sensação extrema de impotência ao observar aqueles objetos desconhecidos sobre a mesa.

Claudine parou diante da cadeira de Layla e lamentou:

— Você não sabe absolutamente nada.

Layla percebeu que Claudine se esforçava para falar da maneira mais gentil possível, sem deixar transparecer sua frustração ou irritação. Isso só fazia Layla se sentir ainda mais humilhada. Ela sentia que deveria responder algo, mas não sabia o que seria apropriado dizer naquela situação.

Por sorte, Claudine simplesmente se afastou sem esperar resposta. Antes de sair da sala, suspirou e murmurou:

— Não acredito nisso. Ela não é melhor do que um cachorrinho.

Layla ficou sozinha na luxuosa sala de estar. Sentiu vontade de ir embora imediatamente, mas decidiu permanecer. Afinal, a outra garota talvez voltasse. No entanto, mesmo quando a luz clara da tarde amadureceu em um tom dourado e profundo, Claudine não voltou.

Quando a criada que trouxera Layla até ali finalmente reapareceu, já era noite.

— Pode ir agora — disse ela, em um tom muito mais gentil do que antes. — A senhorita Claudine disse que você pode ficar com o vestido. E isto também.

Ela estendeu a Layla uma moeda de ouro reluzente.

— Pegue. É de boa educação aceitar com gratidão o que seus superiores lhe oferecem. Entendido?