Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 2 - O Algoz dos Belos Pássaros

Capítulo 2 - O Algoz dos Belos Pássaros

Tradução: Amme

Capítulo 02

O Algoz dos Belos Pássaros


Matthias estava recostado profundamente em seu assento, com o olhar perdido pela janela da carruagem, enquanto seu mordomo, Hessen, relatava-lhe minuciosamente todas as questões pendentes da família. Entre elas, a visita iminente de alguns parentes que passariam o verão em Arvis, diversos compromissos sociais e questões de seguro referentes ao navio mercante que partiria no mês seguinte. Matthias demonstrava atenção apenas com breves respostas ou leves inclinações de cabeça.

Os negócios da família eram conduzidos pelos diretores, enquanto os assuntos domésticos cabiam às duas senhoras da casa, mãe e avó de Matthias. As decisões finais, contudo, recaíam sempre sobre o próprio Matthias — responsabilidade que carregava desde os doze anos de idade. Hessen concluía seu relatório justamente quando alcançaram a Estrada Platanus, que conduzia à propriedade Herhardt.

Matthias mantinha a cabeça levemente inclinada, contemplando a paisagem já tão conhecida. A estrada era margeada por árvores altas, cujos ramos se entrelaçavam como mãos unidas. A luz do sol filtrava-se pelas folhas trêmulas, desenhando padrões delicados sobre o caminho.

Ao adentrarem a propriedade, surgiu à vista a mansão branca de teto azul-profundo. A mãe e a avó de Matthias já aguardavam diante da residência, prontas para receber o chefe da família. Enquanto ajustava a gravata já impecavelmente alinhada, a carruagem deteve-se e a porta se abriu.

— Seja bem-vindo, Matthias — disse a Duquesa-viúva Katharina von Herhardt, sorrindo radiante ao saudar o neto.

Matthias inclinou a cabeça e recebeu o beijo da avó. Sua mãe, Elise von Herhardt, saudou-o de maneira mais afetuosa, abraçando-o brevemente enquanto sorria e dizia:

— Como você cresceu.

Os cabelos negros de Elise, da mesma cor dos do filho, reluziam sob o sol do início do verão.

Matthias devolveu-lhe o mesmo sorriso. Em seguida, dirigiu saudações semelhantes aos criados alinhados para recebê-lo. Exibia, sem o menor esforço, o decoro e a etiqueta perfeitos em cada palavra e gesto. Em momentos como esse, tornava-se irrelevante se ainda era um jovem ou já um homem feito — ali, ele era simplesmente o Duque Herhardt, o chefe perfeito daquela casa.

Com a mãe e a avó ao seu lado, tomou a frente e atravessou o salão principal da mansão.

Antes de subir as escadas, ergueu os olhos para o enorme lustre, mantido aceso mesmo durante o dia. Mais além, viu o brasão da família Herhardt gravado no teto.

Ele era um Herhardt. O nome da família estava associado à inteligência serena, aos modos gentis e ao autocontrole. Matthias jamais tivera dúvidas ou queixas quanto à vida que levava como Duque Herhardt. Sabia exatamente o que essa posição exigia dele, e aceitava-a de bom grado. Era tão natural quanto respirar — e igualmente fácil. Baixando novamente o olhar, subiu as escadas a passos largos.



Os criados finalmente puderam respirar aliviados agora que o senhor da casa havia entrado na mansão.

Toda Arvis estivera em alvoroço por dias, à medida que todos se preparavam para receber o Duque Herhardt. Tudo precisava estar perfeito no dia de sua chegada — inclusive os próprios criados. Até os serviçais de posição mais humilde, sobre os quais o duque jamais poria os olhos, tinham o dever de se comportar com graça e dignidade.

Layla Llewellyn, a hóspede não convidada de Arvis, não era exceção.

— O duque já chegou? Tão rápido? — murmurou ela, em um tom levemente desapontado, parada perto de um grupo de criados. A saia do vestido branco que Bill lhe comprara esvoaçava a cada movimento.

— Você vai poder vê-lo bastante na floresta. Vou ter que pedir permissão a ele nessa hora — respondeu Bill, sem rodeios. Em seguida, começou a caminhar. Layla seguiu-o, praticamente correndo para acompanhar seu passo.

— O duque também gosta da floresta? — perguntou ela.

— Claro que gosta. Ele adora caçar.

Os olhos de Layla se arregalaram.

— Caçar? Na floresta?

Bill bufou e olhou para baixo, em direção à menina.

— Não é natural que a floresta seja o terreno de caça da família?

— Então... ele também caça pássaros?

— Acho que caçar pássaros é o passatempo favorito do duque — respondeu Bill, displicente.

Layla parou de andar de repente, chocada com aquilo.

Ao perceber o motivo da reação da menina, Bill limpou a garganta, sem jeito. Pensou em dizer alguma mentira para consolá-la, mas sabia que seria inútil. Se a confortasse com falsas palavras agora, o choque seria ainda maior quando o duque chegasse ao terreno de caça nos dias seguintes. Sentindo que precisava dizer algo reconfortante, completou:

— Você vai se surpreender com a pontaria do duque. Ele é jovem, mas é um atirador impressionante.

Ao ouvir as próprias palavras, percebeu que talvez não tivessem sido tão reconfortantes quanto pretendia.

Baixando os olhos, viu que ela já estava à beira das lágrimas.

— Por que ele caça pássaros? — perguntou ela. — Já tem tanta comida na mansão...

— Caçar é um passatempo dos nobres. De todas as espécies que se caça, os pássaros são as mais divertidas, e...

Bill se conteve, percebendo que, mais uma vez, dissera algo que não devia.

Layla o observava com uma expressão de choque no rosto.

Bill começou a se irritar. Não gostava de precisar medir tanto as palavras diante daquela menina, explicando cada detalhe só para não feri-la. Quase gritou: Por que você gosta tanto de pássaros?! No fim, porém, optou por se calar. Sabia que bastaria mais uma palavra para fazê-la chorar, e não queria lidar com isso. Detestava crianças chorando. Após hesitar por um instante, voltou a caminhar.

De ombros caídos, Layla seguiu atrás dele com passos fracos. O entusiasmo que demonstrara pouco antes com seu vestido novo havia desaparecido por completo. A maneira alegre como saltitava momentos atrás fora um espetáculo e tanto de se ver. Após um longo silêncio, ela ergueu os olhos para Bill e, com cautela, perguntou:

— Espero que o duque pare de gostar de caçar. Você acha que isso pode acontecer?

Sem saber o que responder, Bill apenas esfregou a nuca.

Layla começou a acreditar que suas preces haviam sido atendidas. Fazia uma semana que o duque havia retornado, e ele ainda não visitara o terreno de caça. Isso era apenas natural, dada a quantidade de convidados que acorria à mansão para vê-lo.

Festas animadas ocorriam todos os dias na mansão, mas a floresta permanecia silenciosa. O verão já estava em pleno vigor. Os ovos que as mães-pássaro tanto cuidavam já haviam chocado.

Os botões de rosas silvestres haviam desabrochado, agora em plena floração.

Layla vagava com frequência pela floresta, encantada com cada pequena mudança que se revelava a seus olhos.

— Não vá longe demais, Layla! — gritou Bill um dia, quando ela mais uma vez saiu da cabana para explorar.

— Não vou! Só estou indo até o rio por um instante! Te vejo depois, tio! — ela respondeu. Em seguida, virou-se e correu para dentro da floresta, os braços balançando a cada passo.

A velha bolsa de couro que levava a tiracolo saltitava a cada passo que dava.

Já bem adentro da floresta, a primeira coisa que avistou foi um ninho de filhotes de chapim em um galho de árvore. Os filhotes ainda sem penas esperavam que a mãe voltasse com alimento. Layla desceu apressadamente da árvore e anotou uma descrição dos filhotes em um pequeno caderno que guardava na bolsa. Tentou também fazer alguns esboços deles, com o cuidado que conseguia.

Tornara-se hábito anotar tudo o que via na floresta naquele caderno. Aquela terra era mais bela do que qualquer outro lugar onde já estivera, e ela queria se lembrar de tudo. No dia em que tivesse de deixar a propriedade, poderia abrir o caderno e reviver cada lembrança. Isso aliviava, ao menos um pouco, a tristeza que sentia só de pensar na partida.

Enquanto caminhava pela trilha que levava ao rio, registrava cuidadosamente cada cena da floresta. Guardou entre as páginas algumas pétalas de flores de cores bonitas e colheu framboesas à beira do caminho, comendo-as enquanto andava. O sol já estava a pino quando chegou à margem cintilante do rio.

Subiu em uma árvore enorme, que marcava a fronteira entre a floresta e o rio. Era sua árvore favorita. Os ramos longos e grossos eram tão confortáveis quanto cadeiras. Estava justamente abrindo o caderno quando ouviu, ao longe, o som fraco de cascos de cavalo vindo de algum lugar além do rio.

Apressou-se em guardar o caderno na bolsa, em segurança.

O som dos cascos, enquanto isso, se aproximava cada vez mais. Ela sentiu medo.

Conteve a respiração e abraçou o tronco da árvore. Pouco depois, surgiu um cavalo de pelagem castanha e lustrosa. Um homem montava em seu dorso. Ele deteve o animal bem sob a árvore em que Layla se escondia. Seus movimentos eram ágeis e suaves ao desmontar.

Layla pensou em descer da árvore, mas o homem desconhecido já se apoiava contra o tronco. Sentiu-se atrapalhada, sem saber o que seria apropriado dizer-lhe. Enquanto isso, o homem retirou o chapéu. Naquele instante, a bolsa que levava a tiracolo bateu contra um galho, produzindo um ruído alto. Sua memória do que aconteceu depois ficou confusa.

O homem ergueu os olhos por reflexo, e Layla viu seu rosto. Os olhos azuis dele eram como bolinhas de gude translúcidas, visíveis por entre os cabelos negros que lhe caíam sobre a testa. Antes que Layla recobrasse os sentidos, ele já havia sacado o rifle e o apontava diretamente para ela. O longo cano da arma reluzia, ameaçador.

Ela permaneceu imóvel, ainda abraçada ao tronco, o corpo todo tremendo. Observando-a, o homem soltou um suspiro e baixou lentamente o rifle de caça. Torcendo os lábios, perguntou em voz baixa:

— Quem é você?

— Eu sou a Layla... — respondeu ela, mal conseguindo falar sem cair em soluços. Seus cabelos dourados esvoaçavam ao vento que soprava do rio.

Os olhos dele se estreitaram.

— Como?

Segurando-se à árvore com tanta força que as mãos lhe doíam, ela repetiu:

— Layla. Layla Llewellyn.



— Tio! Tio Bill! Tio! — os gritos sem fôlego de Layla ecoaram pela floresta, chamando por Bill.

Bill estava sentado diante de seu galpão, afiando a lâmina de uma de suas ferramentas de jardinagem. Ao ouvir os gritos desesperados, virou a cabeça, confuso, apenas para vê-la correndo na sua direção, o rosto vermelho como um tomate.

— O que aconteceu? — perguntou.

Sem nem recuperar o fôlego, ela respondeu, apressada:

— Tem alguém na floresta! Um homem alto!

— Parece que você encontrou o duque durante uma de suas caçadas — respondeu Bill, casualmente, ao pegar a próxima ferramenta para afiar.

— Ele tinha cabelo preto e olhos azuis, a voz era macia como pena de pato.

— Sem dúvida, era o Duque Herhardt — respondeu Bill, dando uma risadinha.

Layla permaneceu parada por um instante, tentando recuperar o fôlego. O homem bonito, mas assustador, a observara por um momento, depois virara-se e se afastara sem dizer palavra. Enquanto montava novamente o cavalo, dois homens que pareciam ser seus companheiros haviam aparecido.

O homem se juntara aos outros, e os três haviam seguido juntos mais adentro da floresta. Quando finalmente desapareceram de vista, Layla descera correndo da árvore e fugira para a cabana.

— Isso significa que o duque é...

Antes que Layla pudesse terminar a frase, um estampido de tiro rompeu a quietude da floresta. Assustada, ela se voltou na direção do som. Do outro lado da floresta, um bando de pássaros assustados alçava voo. Um deles lutava para subir, até finalmente cair entre as árvores. Mais alguns tiros se seguiram.

Bill deixou de lado seu trabalho e se levantou. Layla permanecia paralisada, o olhar fixo do outro lado da floresta.

— Layla — chamou ele, pousando a mão em seu ombro.

Depois de um longo instante, ela finalmente ergueu os olhos para ele. Naquele momento, Bill se viu contendo a respiração.

A pequena estava chorando.



O algoz dos belos pássaros — esse foi o título que Layla decidiu dar ao Duque Herhardt.

Claro, esse era apenas o modo como ela o via. Todos os demais na propriedade, Bill incluído, o elogiavam como um nobre perfeito. Com talentos extraordinários e uma compostura digna de um duque, somando-se a um temperamento equilibrado e elegante, todos pareciam realmente amar e estimar o Duque Matthias von Herhardt. Todos, exceto Layla.

A mãe chapim desaparecera desde o primeiro dia em que o duque saíra para caçar. Seus frágeis filhotes haviam perdido a vida, todos eles.

Incontáveis outros pássaros também desapareceram.

No início, Layla se perguntara por que o duque caçava apenas pássaros pequenos e belos, em vez de aves grandes e comestíveis. Depois de ponderar sobre essa questão por um mês inteiro, finalmente acreditou ter encontrado a resposta. Para o duque, concluiu, os pássaros eram alvos vivos, em movimento. Quanto menores, mais desafiadores e divertidos de caçar. Depois de abatê-los, ele simplesmente se afastava, deixando o pássaro morto ali, sem nem mesmo lançar-lhe um último olhar.

Nos dias em que o duque saía para caçar, Layla recolhia os corpos frios e ensanguentados dos pássaros e os enterrava.

Bang!

Outro tiro ressoou à distância.