Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 27 - Uma Temporada de Rosas Sem Você

Capítulo 27 - Uma Temporada de Rosas Sem Você

Tradução: Amme

Capítulo 27

Uma Temporada de Rosas Sem Você


A noite havia caído quando Matthias terminou o banho e saiu do banheiro. Amarrando o cinto do roupão frouxamente na cintura, recostou-se na moldura da janela aberta que dava para o jardim lá embaixo.

Comparado ao belo jardim e à floresta das extensas terras da renomada propriedade de Arvis, o jardim desta mansão era mais modesto. Como a mansão ficava no meio da cidade, o jardim era naturalmente menor, e nem Matthias nem nenhum dos duques anteriores havia demonstrado interesse especial em paisagismo.

Assim, o jardim da mansão de Ratse era simples, condizente com a arquitetura e a decoração sóbrias da própria mansão. Porém, a cada ano, quando a temporada das rosas chegava, uma grande quantidade de rosas era transportada de Arvis para o jardim da mansão de Ratse, transformando temporariamente o pequeno jardim em um espetáculo extraordinário.

Uma brisa de passagem trouxe o perfume das rosas até o quarto de Matthias, e ele pensou nas férias de verão que viriam, quando voltaria a Arvis. Enquanto refletia sobre isso, a mente derivou de repente para Layla ajudando o jardineiro nas diversas tarefas ao longo de cada dia de verão. Franziu o cenho.

Ela sempre cheirava a rosas. Como as rosas plantadas pelo jardineiro-chefe. As rosas mais belas do mundo. Matthias jamais havia esperado que a queda viesse de outra coisa cultivada pelo jardineiro — Layla, a garota que não era nada. O que há em um nome?

Fechou a janela e se virou. Os cabelos molhados pingavam nos pés.

Parece que as coisas deram certo para ela. Normalmente uma garota como ela nem sonharia em poder se casar com o filho de um médico. Graças ao amor tolo de Kyle Ettman, vai se tornar a Senhora Ettman e ainda vai para a faculdade aqui na capital. É de uma sorte extraordinária.

— Layla... — murmurou para si mesmo.

Se aquela bela incômoda desaparecesse de sua vista, seria também bom para ele. Por isso deveria estar totalmente a favor do casamento dela. No entanto, mesmo depois de fechar a janela, o perfume de rosas ainda persistia no nariz. Depois de um instante, percebeu que era porque havia um vaso de rosas no aparador do quarto. Pareciam ser rosas do jardim.

Desviou o olhar do vaso para a gaiola dourada no outro canto do quarto, depois voltou ao vaso.

— Layla. — Ao pronunciar o nome em voz alta, soou ainda mais doce aos ouvidos. É a temporada das rosas, mas você não está aqui.

Ainda imerso nas memórias, estendeu a mão e agarrou as rosas do vaso. Eram de um rosa-claro, exatamente a cor das bochechas de Layla quando chorava. Apertou as rosas com mais força, esmagando-as.

É bom que as coisas tenham se resolvido assim, pensou. Queria acreditar nisso. Mas... Os olhos foram se estreitando devagar. Será que pode mesmo haver uma temporada de rosas sem você? Sempre volto a Arvis quando as rosas estão em plena floração. Será mesmo possível que você não esteja lá?

As dúvidas que se seguiram a esses pensamentos o levaram a uma percepção inesperada — ela sempre havia estado no jardim nos verões em que as rosas estavam em plena floração. Era como se fosse parte de Arvis. O que também significava que era sua.

Depois de arrancar as rosas do vaso e esmagá-las, não conseguiu descartá-las. Naquele instante, o pássaro começou a cantar. Ao mesmo tempo, pela primeira vez na vida, sentiu o desejo de matar alguém. Aquele desejo lhe pareceu absolutamente claro.

O que não estava claro, porém, era contra quem era dirigido — o filho do médico, ou ela.

Quando finalmente soltou o punhado pastoso de corolas esmagadas, a noite já havia caído por completo. As mãos impregnadas de perfume de rosa pegaram então um documento sobre a mesa e o rasgaram ao meio. Era um pedido de prorrogação de um ano do serviço militar.



— Dou minha aprovação — disse Bill por fim, com grande convicção, depois de hesitar por muito tempo. Layla o olhava do outro lado da mesa com uma expressão intrigada.

— Ao malandro do Kyle, quero dizer. Aprovo de todo o coração. Apoio completamente.

— Tio Bill... — Layla resmungou, franzindo a testa.

Bill não parou. — Por que você não aceita o pedido de uma vez? Casa com ele e os dois vão para a faculdade juntos. Quero muito isso para você, Layla.

— Não posso.

— Você não gosta dele?

— Gosto, mas não faz sentido eu me casar com ele.

— Como assim não faz sentido? O que não faz sentido em duas pessoas que se gostam se casarem? — Bill estava começando a se animar.

Os olhos de Layla permaneceram tranquilos.

— Se eu me casasse com o Kyle, ele e a família dele virariam motivo de chacota na sociedade.

— O Dr. Ettman em pessoa aprovou o casamento.

— Mas...

— Layla, limpa a cabeça de todos esses pensamentos e olha para dentro do coração. — Bill falava mais alto agora. — Se gosta do Kyle, casa com ele. Se não gosta, não casa. É simples assim.

Layla ficou em silêncio por um momento, depois ergueu o copo de cerveja à sua frente e deu um gole longo.

Exatamente como Bill havia previsto, havia crescido para se tornar uma excelente bebedora. Eram agora companheiros de mesa que conversavam regularmente tomando cerveja.

— Gosto do Kyle — disse ela, limpando a espuma do canto da boca. — Duvido que encontre um amigo tão caloroso e gentil quanto ele. — Olhou para Bill com uma expressão mais séria. — Por isso não quero envergonhá-lo.

— O que está dizendo?! De onde veio essa autoestima tão baixa, Layla?

— Não é isso. Gosto de mim como sou, tio Bill. Não me envergonho de mim mesma, não importa o que as pessoas digam. E estou trabalhando duro para me tornar uma adulta extraordinária, como o senhor quer.

Franziu a testa. Havia um olhar pensativo nos olhos. — Mas não entendo nada de casamento, tio Bill. Pelo que sei, se me casasse, todos os esforços para me tornar uma adulta extraordinária iriam por água abaixo.

Bill deu uma risadinha. — Não me diga que está planejando passar a vida inteira nesta cabana com um velho viúvo, Layla.

— Quero sim. Nunca quero deixar a floresta de Arvis. E nunca quero te deixar.

— Isso é uma coisa terrível de se dizer, Layla.

— Agora que tenho o certificado de professora, quero conseguir emprego em uma escola perto daqui. E quero continuar vivendo assim para sempre. Bem aqui, com o senhor, tio Bill. E agora vou poder ajudá-lo também.

— A floresta não vai a lugar nenhum. Vai ficar bem aqui para sempre. Assim como eu. Claro, com o tempo vou ficar velho demais para continuar trabalhando como jardineiro e vou ter que partir. Mas ainda sou forte e saudável. Aposto que ainda tenho bem mais de uma década de trabalho pela frente. — Tomou alguns goles de cerveja. — Não importa para onde você vá ou o que faça, mesmo que se case, mesmo que vá para a faculdade, sempre vai ser minha pequena Layla. — Estendeu a mão pela mesa e apertou a mãozinha de Layla.

O vestibular estava chegando muito em breve, mas Layla não havia dado nenhum sinal de mudar de ideia. Bill estava tão preocupado com isso que havia arranjado aquela conversa.

— Se você se casar com a família Ettman, seremos vizinhos. O que poderia ser melhor do que isso?

— Tio Bill.

— E Layla, é raro encontrar um homem de quem se pode ter certeza que seria um bom marido e um bom pai. Mas o Kyle é exatamente esse homem. — Sorriu e deu uns tapinhas no dorso da mão dela. — Pensa bem. Como seria maravilhoso se casar com esse rapaz extraordinário e começar uma família de verdade com ele. A casa vai estar cheia do riso dos seus filhos. E o Kyle vai garantir que você nunca sinta solidão.

— Já somos uma família de verdade, não somos? — ela perguntou, acariciando os dedos dele. Ergueu os olhos para ele. Os seus estavam úmidos. — O senhor e eu somos uma família, tio Bill. Uma família de verdade.

— Bem... — Agora Bill também estava com os olhos marejados. Por que ela sempre me faz chorar? — Se acha que somos uma família de verdade, então tem ainda mais razão para me ouvir! — Colocou à sua frente um envelope que havia preparado com antecedência.

Ela o pegou e abriu, e os olhos se arregalaram. Continha uma passagem de trem para Ratse e algum dinheiro para as despesas de viagem.

— O vestibular é semana que vem, então é melhor começar a estudar com força total amanhã cedo. Sei que você sempre se esforça, mas para passar neste exame vai ter que ir além. Se não for a Ratse, significa que acha que somos uma família falsa.

— Tio Bill!

— E se não fizer o vestibular, não quero mais te ver, Layla. — Soltou a mão dela e, endireitando os ombros, a olhou com seriedade. Por trás da severidade, porém, havia uma ternura sem limites.

Segurando o envelope nas mãos, ela afundou nos próprios pensamentos. Ele a olhou com um olhar fundo. Estava tão brilhante e encantadora quanto quando a conhecera.

Logo ela pareceu ter tomado uma decisão. Com uma expressão solene no rosto, ergueu o copo de cerveja e o estendeu na direção dele, exatamente como havia feito com o suco de maçã quando era pequena.

Bill prontamente ergueu o copo e bateu no dela. Ela esvaziou o copo num gole só. Em breve as bochechas ficariam coradas, mas por enquanto estava dando um bom trabalho imitando uma bebedora experiente.

— Se eu reprovar no exame, ainda seríamos uma família de verdade, né? — perguntou com olhos brilhantes.

Aquela pergunta quase o fez chorar de novo. — Vou ter que pensar nisso — respondeu secamente, antes de lhe lançar um sorriso terno.

Ela lhe devolveu um sorriso caloroso. Como fazem os membros de uma família de verdade.



— Sim, acho que você vai gostar mais de todos os outros — afirmou Kyle com convicção. — O museu de história natural. Para você, vai ser como o paraíso.

Havia estado recitando uma lista de todos os lugares imperdíveis de Ratse, e ficara mais animado quando chegou a hora de falar sobre o museu de história natural.

A paisagem florida da primavera era visível pela janela enquanto o trem avançava ritmadamente.

Era a primeira visita de Layla a Ratse, mas Kyle havia estado lá muitas vezes para visitar parentes e conhecia bem a capital. Havia sugerido que ela ficasse com ele na casa dos parentes, mas ela optou por se hospedar em um hotel próximo.

— Você provavelmente vai estar cansada demais para ir hoje, então que tal amanhã? — perguntou ele.

— Tenho que estudar para o vestibular.

— Que adiantamento vai ter estudar agora com o vestibular tão próximo? Você já estudou bastante com antecedência.

— Uau, você está bem cheio de confiança, Sr. Ettman.

— Claro que sim, senhorita Llewellyn.

— Impressionante!

— Por isso você deveria se casar comigo.

Claro. Por que não previ que ele ia dizer isso hoje, como faz todos os outros dias? Em vez de recusá-lo verbalmente desta vez, ela simplesmente o encarou com atenção.

Ele ficou desconfortável com aquela reação inesperada. — Q-que foi?

— Kyle, você consegue imaginar?

— Imaginar o quê?

— A gente como marido e mulher. — A expressão dela ficou séria, enquanto ele começou a corar.

— Claro que consigo! Consigo imaginar! Com facilidade! — respondeu ele.

— Não sei. Para mim parece um pouco esquisito. A ideia de a gente se casar, ter filhos, e tudo mais.

— Como assim? Para mim não parece esquisito nem um pouco.

— É mesmo? A ideia de a gente ter comportamento reprodutivo para criar um filho, gestar esse filho e criá-lo, isso não parece esquisito para você?

— Comp... reprodut... hein? — Mal acreditou nos próprios ouvidos. Certo de ter ouvido errado, simplesmente ficou olhando.

Layla o encarou de volta com uma expressão inocente e lançou a bomba mais uma vez.

— Comportamento reprodutivo. Não tem nada de embaraçoso nisso, Kyle. É uma função natural da qual todos os seres vivos participam, inclusive pássaros e flores, para preservar a espécie.

— Você realmente entende o que está saindo da sua boca agora?

— Claro. Não sou boa em geometria, mas me saio bem nas outras matérias — respondeu ela, sorrindo orgulhosa.

Kyle estava agora completamente sem jeito.

— Então sim, Kyle, acho apenas esquisito pensar na gente fazendo esse tipo de coisa, e...

— É... toma, Layla, come isso — disse Kyle, enfiando metade de um sanduíche na boca dela para silenciá-la.

Ainda não era verão, mas dentro do trem fazia calor de forno.

Layla mastigou e engoliu o sanduíche, depois abriu a boca para voltar a falar.

Antes que pudesse, Kyle enfiou um biscoito na boca dela.

— Come esse também. — Por favor, por favor não fale mais sobre isso, pensou, sacudindo a cabeça.

Vieram à mente as palavras que Bill havia dito a ele pela manhã quando fora buscar Layla: "Se tiver alguma ideia estranha, pensa na minha pá." O sorriso de Bill ao dizer isso havia sido gentil, mas de alguma forma ominoso.

Kyle imaginou a pá enorme e coberta de terra, que parecia quase uma arma nas mãos de Bill.

— Então, Kyle, o que eu estava dizendo é... — disse Layla, tendo terminado o biscoito. As migalhas nos lábios os tornavam ainda mais adoráveis do que de costume.

— Layla, se você disser mais uma palavra... — murmurou Kyle, segurando a própria cabeça.

— Hein?

— Se disser mais uma palavra... — repetiu ele, pensando na pá de Bill, — ...vou pular do trem.