Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 26 - Vamos Nos Casar

Capítulo 26 - Vamos Nos Casar

Tradução: Amme

Capítulo 26

Vamos Nos Casar


A estação quente chegava um pouco mais cedo em Ratse, a capital do Império de Berg, localizada ao sul de Karlsbar. Enquanto as roseiras em Arvis mal começavam a brotar, a cidade inteira de Ratse já estava impregnada do perfume de rosas.

Matthias percebeu esse fato de repente enquanto passeava pelo jardim do palácio do príncipe herdeiro. Parou, e os outros oficiais que caminhavam com ele também pararam.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou um deles.

— Não — respondeu Matthias de forma sucinta, esboçando um leve sorriso. — Nada.

Seguiu-se um breve silêncio, que foi quebrado quando retomaram a caminhada.

Os oficiais da guarda imperial, todos jovens nobres, conversavam animadamente sobre vários assuntos. Ao discutirem com entusiasmo como passariam aquele belo fim de semana de primavera, a maioria chegou a planos semelhantes: festas, corridas de cavalos ou encontros de primavera com as amadas.

— Nosso capitão vai ter uma primavera solitária, já que a noiva está longe — comentou um dos oficiais.

O restante do grupo riu da observação. Até o próprio Matthias sorriu em reconhecimento.

A cerimônia de noivado do Duque Herhardt e da Lady Claudine Brandt, realizada no fim do verão anterior, havia sido um sucesso.

Após o noivado oficial, os círculos sociais fervilharam de fofocas sobre os dois por um bom tempo.

Matthias, porém, não havia sentido grandes mudanças em sua vida. Uma semana depois da cerimônia, partiu para a capital para servir na divisão da guarda imperial das forças militares de Berg. Enquanto isso, Claudine deixou Arvis para voltar à Casa Brandt, localizada em uma cidade próxima a Karlsbar, longe da capital Ratse.

Assim, nada mudou em suas vidas, exceto pelo fato de que o noivado havia sido formalmente anunciado. Durante a temporada social, Claudine fazia visitas ocasionais a Ratse, onde ficava na mansão que a família Brandt mantinha na cidade. Mas nem isso era novidade — ela já fazia isso havia anos. Ela e Matthias também compareciam juntos a eventos sociais, como faziam no passado. A única mudança real era que ela era sua noiva e ele era seu noivo.

— Meu serviço militar está quase terminando. E o seu, Matthias? — perguntou um dos oficiais. O restante do grupo voltou a atenção para Matthias.

— Estou pensando em estender mais um ano — respondeu.

Todos reagiram com espanto à resposta inesperada.

— Não estava planejando se casar e começar a cuidar dos negócios da família? — perguntou um dos oficiais.

— Acho que o casamento pode esperar até o ano que vem — respondeu Matthias.

— Todo o burburinho nos círculos sociais sobre o iminente casamento Herhardt-Brandt já está começando a diminuir, e mesmo assim vai adiá-lo?

Matthias assentiu. Mais do que um adiamento, via aquele calendário como o resultado natural das circunstâncias. Queria passar mais um ano na capital, enquanto os Brandt queriam que a filha passasse a lua de mel em Arvis.

Quando a família Brandt havia pedido para adiar a cerimônia de noivado por um ano, a família Herhardt havia prontamente concordado.

Claudine ainda era jovem, então não havia necessidade de apressar. Ambas as famílias queriam que o casamento fosse perfeito desde o início.

Depois de deixar o palácio imperial, Matthias foi direto para a mansão onde estava hospedado.

A mansão de pedra, localizada no coração de Ratse, era a segunda mais antiga da família Herhardt, atrás apenas da de Arvis, a propriedade principal. Por ser a residência onde por gerações o chefe da família ficava ao tratar de assuntos na capital, sua arquitetura e decoração eram mais sóbrias e modestas do que as de Arvis, que refletia mais o gosto da senhora da casa.

— As duquesas chegaram — informou um assistente quando Matthias desceu do carro.

— Minha mãe e minha avó?

— Sim, Vossa Graça. Chegaram esta manhã. Vieram assistir ao casamento de Sua Alteza a princesa herdeira.

Matthias assentiu e entrou devagar na mansão.

Depois de sofrer o constrangimento de ser preterida para o papel de Duquesa Herhardt, a princesa herdeira havia se apressado a encontrar outro pretendente com quem se novar. Havia se decidido pelo grão-duque de um ducado vizinho, de posição social semelhante à do Duque Herhardt.

— Quanto tempo, Matthias! — exclamou Katharina von Herhardt, sorrindo radiante e abrindo os braços para receber o neto assim que ele entrou no salão principal da mansão.

— Parece que só nos vemos quando vem a ocasião — observou Elise von Herhardt, sempre mais direta do que a sogra.

Matthias devolveu o sorriso às duas enquanto se aproximava. Era uma tarde de fim de semana comum e tranquila.



— Que brisa boa esta tarde, Layla — disse Kyle enquanto estacionava a bicicleta e caminhava em direção a ela, sorrindo.

Layla virou a cabeça ao ouvir a voz conhecida. Estava ajudando Bill a carregar o carrinho que ele acabara de trazer do jardim. Bill, que segurava uma pá, também se virou para olhar.

— Vamos nos casar — acrescentou Kyle em um tom cotidiano. Havia dito aquilo tantas vezes que já não era novidade para ninguém.

Layla e Bill logo voltaram ao trabalho.

— Oi, Kyle — disse Layla com calor enquanto trazia as últimas mudas para o carrinho. — Não vou me casar — acrescentou em um tom extraordinariamente suave, o que só tornava a recusa mais definitiva.

Bill soltou um suspiro amargo.

Kyle, por outro lado, simplesmente deu uma risadinha, já acostumado às rejeições repetidas de Layla, e passou a ajudá-la no trabalho com toda a naturalidade.

— Tudo bem — disse. — Já recebi minha rejeição do dia. Tento de novo amanhã.

— Não, não tente.

— Vou tentar sim. O coração das pessoas muda de um dia para o outro. — Aquele jovem inexperiente talvez tivesse o espírito mais descarado e obstinado de todo o império.

Bill tentou conter o riso enquanto lançava olhares furtivos para Kyle e Layla.



Aquele vagabundo da família Ettman havia pedido Layla em casamento pela primeira vez no fim do verão anterior e continuara a fazê-lo regularmente ao longo de várias mudanças de estação. Quando Bill ouviu sobre o primeiro pedido, concluiu que devia ser por uma de duas razões: ou o leviano Kyle havia bebido, ou simplesmente havia enlouquecido. Por isso, havia se abstido de acertar a cabeça de Kyle com a pá.

Para surpresa de Bill, porém, Kyle aparecera no dia seguinte com aparência perfeitamente sã e sóbria, e havia pedido Layla em casamento mais uma vez.

Bill já havia perdido a conta de quantas vezes Kyle havia pedido.

Conforme o outono ia virando inverno e o inverno virando primavera, Kyle havia pedido todos os dias, e ela havia recusado todas as vezes. No começo, Bill havia apoiado as recusas firmes de Layla, mas recentemente havia começado a sentir pena de Kyle. Se Kyle falasse só por si mesmo, Bill seria menos compreensivo, mas mudou de opinião ao descobrir que o Dr. Ettman também havia dado a sua bênção.

No outono anterior, o Dr. Ettman havia visitado a cabana de Bill e sugerido que ele mandasse Layla para a faculdade. Quando Bill respondeu hesitante que adoraria fazer isso, mas as circunstâncias não permitiam, o Dr. Ettman sorriu radiante e disse:

— Se a Layla e o Kyle gostam um do outro e querem se casar, não seria bom deixá-los fazer isso e depois mandá-los para a faculdade juntos?

Era uma sugestão profundamente comovente, mas Bill havia simplesmente olhado fixamente para o médico em resposta, mal acreditando no que ouvia. Bill estimava Layla mais do que qualquer coisa no mundo, mas ainda havia muitas coisas no mundo que não compreendia — inclusive a posição elevada que a família Ettman ocupava nos círculos sociais de Karlsbar.

O Dr. Ettman parecia ter entendido isso, então acrescentara:

— O Kyle me disse que a Layla traz o melhor dele e que quer viver com ela e ser uma boa pessoa por causa dela.

Bill havia ficado bastante surpreso ao saber que o jovem malandro que vivia aparecendo na cabana e comendo toda a sua comida havia dito uma coisa dessas.

— Ele parecia muito sincero ao dizer isso — acrescentara o Dr. Ettman. — Tanto que não consegui descartar como conversa de criança.

— Mas doutor, a Layla é... — Bill havia começado a dizer, sem conseguir terminar.

O sorriso do Dr. Ettman ficara ainda mais gentil. — Não exijo que a noiva do meu filho venha de uma família rica ou de prestígio. Sei que a Layla é uma pessoa muito boa, apesar das origens humildes. — O sorriso era igual ao do filho. — Se o Kyle não mudar de ideia quando definir o caminho da carreira no ano que vem, gostarei de permitir que se casem. E o senhor, Sr. Remmer?

Se Bill tivesse expressado os verdadeiros sentimentos naquele momento, teria colocado o anjo da guarda Dr. Ettman nas costas e saído correndo por Karlsbar — ou talvez por todo o Império de Berg — de tanta alegria. Claro que sabia que fazer isso envergonharia Layla, então conteve o entusiasmo.

Mas o que fazer diante das recusas obstinadas de Layla?

Resolvido a encontrar uma maneira de persuadi-la a mudar de ideia, jogou a pá no galpão.



— Ah, Matthias. Você conhece o filho do Dr. Ettman, não é? — perguntou Lady Herhardt em voz baixa, mudando de assunto para longe da discussão tediosa que se arrastava sobre o casamento da princesa herdeira. A Duquesa-viúva já havia se recolhido mais cedo, de modo que Matthias e a mãe eram os únicos à mesa do jantar.

— Sim, mãe — respondeu Matthias com calma depois de um gole de água. — Kyle Ettman. O filho único do Dr. Ettman, certo?

— Exato. Pois bem, ouvi dizer que ele vai se casar — disse ela. O tom afiado da voz sugeria que sabia que a noiva de Kyle não era alguém a mencionar casualmente.

Matthias esperou em silêncio que a mãe continuasse.

— A noiva é aquela órfã que o jardineiro da nossa propriedade criou. Acho que o nome dela é Layla?

Matthias repetiu o nome em silêncio com os lábios: Layla.

— É difícil acreditar que a família Ettman a consideraria uma noiva adequada — disse em um tom baixo e neutro.

— É o que há de mais absurdo — respondeu Lady Herhardt. — Sua avó se esforçou tanto tentando encontrar um bom partido para o rapaz Ettman, e tudo em vão. — O tom era mais nervoso do que antes.

Matthias não respondeu mais nada, mas a mãe passou a recontar todos os rumores que havia ouvido sobre a decisão de casamento de Kyle Ettman, que estava causando muito burburinho em Arvis.

Segundo um dos rumores, a Senhora Ettman estava bastante descontente com a escolha do filho. Havia esperado que Kyle se casasse com uma nobre, o que teria garantido à família Ettman um título aristocrático.

Outro rumor dizia que, se tudo corresse conforme o planejado, Layla iria para a faculdade depois de se casar com Kyle. O casal passaria a lua de mel em Ratse e depois frequentaria a faculdade juntos. Tudo isso aconteceria quando o verão acabasse, quando a temporada das rosas tivesse passado.

— Sua avó está de coração partido — disse Lady Herhardt. — Ela sempre foi tão apegada ao filho do Dr. Ettman.

— É verdade, não é? — Matthias pousou o garfo e a faca e pegou o guardanapo, apertando-o com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram.

— E a pobre Senhora Ettman! — continuou Lady Herhardt. — Ela construiu uma posição tão sólida nos círculos sociais, apesar de não ter título. E agora vai perder tudo por causa dessa nora ridícula. — Tomou um gole de vinho para umedecer os lábios. — Que nobre vai querer se relacionar com uma mulher cujo herdeiro se casou com uma órfã de origem humilde?

— Talvez as circunstâncias mudem — disse Matthias, endireitando a postura. — Afinal, eles ainda não se casaram.

— Não sei, Matthias. Se isso fosse possível, a Senhora Ettman não estaria tão angustiada. O Dr. Ettman apoia firmemente a escolha do filho, e por tudo que se ouve, o Kyle está perdidamente apaixonado por aquela órfã. — Estralou a língua em sinal de compaixão pela Senhora Ettman, que em breve seria excluída da alta sociedade. — A garota é certamente bonita. Foi um erro dos pais deixarem o filho conviver com ela. — Tocou a campainha, e as criadas entraram imediatamente com as sobremesas. — Mal acredito que ela conseguiu se tornar a futura Senhora Ettman. Que descaramento! Ou devo dizer, que esperteza? — Deu de ombros e ergueu o garfo de sobremesa. — Suponho que seja tolice culpá-la. O verdadeiro tolo é o Kyle, que está trazendo desonra à própria família por estar cego de amor.

Tendo chegado à conclusão desejada, Lady Herhardt mudou de assunto. Enquanto passava a tagarelar sobre várias pessoas da alta sociedade, Matthias ficou sentado em silêncio, mal ouvindo.

Layla. O nome persistia na língua, como o sabor de um bom vinho. Layla. Layla Llewellyn.