Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 1 - Uma Garota Entregue

Capítulo 1 - Uma Garota Entregue

Tradução: Amme

Capítulo 1

Uma Garota Entregue

A menina surgiu em um dia de início de primavera, viajando na carruagem de correio. Era fim de tarde, e Bill Remmer estava ocupado plantando mudas de roseiras.

— O senhor é o Bill Remmer? — perguntou a garota, cautelosa.

Bill a encarou, atônito. A pronúncia dela era perfeitamente fluida, mas havia algo peculiar em seu sotaque.

— Sim, sou Bill Remmer — respondeu.

A jovem observou enquanto ele limpava a terra das mãos e tirava o chapéu de palha. Ela sobressaltou-se ao ver o rosto bronzeado, que já não estava obscurecido pela sombra da aba larga do chapéu. Essa reação não era novidade para Bill; a maioria das pessoas reagia de forma semelhante ao se deparar pela primeira vez com suas feições rústicas e seu porte avantajado.

— Quem é você? — perguntou, franzindo o cenho, o que o deixava com um aspecto ainda mais ameaçador.

— Olá, tio Bill. Meu nome é Layla Llewellyn. Venho de Lovita — disse, falando de forma clara e pausada.

Lovita... Bill finalmente compreendeu o motivo do sotaque estrangeiro.

— Cruzou a fronteira e veio sozinha até Berg? — indagou.

— Sim. Vim de trem — respondeu ela, exibindo um sorriso sem jeito e empertigando-se de maneira pouco natural.

O cocheiro que a trouxera aproximou-se.

— Ah, vejo que já se encontraram, Sr. Remmer.

— Boa hora — replicou Bill. — Por que a trouxe aqui?

— Vi a menina caminhando sozinha com as malas em frente à estação. Perguntei para onde ia, e ela disse que estava a caminho de encontrar o Sr. Bill Remmer, o jardineiro da família Herhardt. Como eu já estava vindo para estes lados entregar a correspondência, resolvi trazê-la — explicou o homem com um sorriso, estendendo uma carta. O envelope indicava que a mensagem vinha de parentes distantes que residiam no país vizinho, Lovita.

Bill rasgou o envelope de imediato e pôs-se a ler. A missiva narrava a história de uma órfã acolhida por vários parentes sucessivos, todos necessitados demais para continuar a sustentá-la. A criança chamava-se Layla Llewellyn; logo, a pequenina diante dele era a órfã mencionada. Ele soltou uma risada perplexa e resmungou:

— Gente maldita. Essa notícia sim viajou rápido.

Nenhum daqueles parentes em Lovita tinha condições de criá-la. Embora Bill fosse apenas um primo distante, sua situação era melhor do que a de qualquer um deles, por isso a enviaram. No entanto, acrescentaram que, se as circunstâncias não permitissem que ficasse com ela, poderia deixá-la em um orfanato.

— Que essa gente vá para o inferno. Por piores que estivessem as coisas, como puderam mandar uma menina tão nova sozinha até aqui? — praguejou, amarrotando o papel e jogando-o ao chão.

Agora que compreendia toda a situação, o rosto acendia-se em indignação. A menina fora jogada de família em família como uma batata quente, até que não restou mais ninguém. Então, simplesmente lhe entregaram o endereço de um parente distante em terras estrangeiras e a despacharam pela fronteira. Era como se tivesse sido banida de sua terra natal.

Nesse momento, a jovem, que o observava em silêncio, interveio:

— Com licença, tio Bill. Eu não sou tão criança assim. Farei doze anos em poucas semanas.

Esforçava-se para falar da maneira mais madura possível e erguia sutilmente os calcanhares para parecer mais alta. Ainda mais pasmo, Bill soltou outro riso abafado. Ela era tão franzina que, à primeira vista, julgara que tivesse cerca de dez anos. Contentou-se, ao menos, em saber que era mais velha do que imaginava.

Por fim, o cocheiro que trouxera a incômoda passageira partiu, deixando os dois a sós no jardim. Bill levou as mãos à cabeça, rogando aos céus por uma luz. Embora fosse legalmente aparentado com o falecido pai da menina, não o via há mais de vinte anos. E agora, a filha desse parente distante era deixada sob seus cuidados. Uma menina tão minúscula com um viúvo como Bill Remmer!

Apesar de o clima do início da primavera ainda ser bastante frio, a garota vestia apenas trajes simples e finos. Parecia também magra como um palito, destacando-se apenas os grandes olhos verdes e os cabelos loiros, que reluziam como fios de ouro. Bill concluiu categoricamente que não tinha condições de cuidar dela. Ocorreu-lhe então que a única alternativa seria interná-la em um orfanato, um pensamento que o perturbou na mesma medida. Voltou a amaldiçoar mentalmente os parentes que causaram aquele desalinho em sua pacata vida.

A menina sobressaltou-se, mas sustentou uma expressão corajosa; contudo, era incapaz de ocultar o tremor das mãos ou o lábio inferior, que avermelhara de tanto ser mordido.

— Siga-me — disse ele, balançando a cabeça e pondo-se a caminhar. — Vamos comer primeiro, depois eu penso no que fazer. — Suas palavras ríspidas foram levadas pela brisa da tarde.

Layla, que permanecera estática desde que chegara, começou a segui-lo. A princípio, seus passos eram lentos e vacilantes, mas logo se tornaram leves e quase alegres.



— Vai comer apenas isso? — perguntou Bill, franzindo o cenho diante da porção mofina que a menina servira no prato.

— Sim. Eu como pouco, de verdade — respondeu ela, sorrindo.

O jargão dele azedou um pouco mais.

— Escute aqui, menina, eu não suporto crianças de pouco apetite.

Os olhos de Layla arregalaram-se com o comentário severo. Ela havia puxado as mangas, expondo os pulsos finos à luz do candeeiro da mesa.

— Não importa o que lhe sirvam, deve comer muito, como uma vaca. — Decretou, endurecendo ainda mais o semblante.

Por um instante, ela fitou o vazio, piscando devagar enquanto ponderava o aviso. Em seguida, pegou mais um pedaço de carne e uma fatia de pão, colocou-os no prato e começou a devorá-los com avidez, revelando que, afinal, estava faminta.

— Talvez eu não consiga comer feito uma vaca, mas sou boa de garfo, tio — disse, sorrindo com os lábios sujos de migalhas.

— Sim, agora estou vendo — respondeu ele, rindo entre dentes enquanto bebericava seu licor. — Não tem medo de mim? — questionou logo após, forçando uma careta intimidadora.

No entanto, a menina sustentou-lhe o olhar, sem vacilar ou desviar os olhos por um segundo sequer.

— Não — declarou. — O senhor não grita comigo e me deu toda esta comida deliciosa. Sou grata por isso. O senhor parece ser uma boa pessoa.

Que espécie de vida levava antes disso para que gestos tão simples a fizessem tão grata?, pensou Bill. O pensamento deixou-lhe um amargor na boca, fazendo com que se levantasse para servir-se de uma generosa caneca de cerveja. A carta dizia que a mãe da menina fugira com outro homem, abandonando a filha e o marido. O pai, desolado, entregara-se ao vício e acabou falecendo ao entrar em alcoólico. Depois disso, a jovem passara de lar em lar entre os parentes. Refletindo sobre tudo aquilo, Bill percebeu que a vida dela fora longe de ser branda. Ainda assim, mantinha a convicção de que era descabido que ele próprio a criasse. Enquanto virava a cerveja, resolveu que tomaria uma decisão sobre o destino da garota na semana seguinte.



— Vocês souberam? O Sr. Remmer, o jardineiro, adotou uma menina! — exclamou uma jovem criada ao entrar apressada na sala de descanso dos empregados.

Todos os presentes voltaram-se para ela.

— Uma menina? O Sr. Remmer? Eu acreditaria mais facilmente se dissesse que ele adotou um leão ou um elefante — desdenhou um lacaio, bufando.

Bill Remmer, o jardineiro da Casa de Herhardt, possuía um dom nato para o cultivo de flores. Graças a esse talento, conservava o emprego há vinte anos, a despeito de seu gênio curto e de sua personalidade brenha. Era tão resoluto em seu trato que agia com os Herhardt da mesma forma que agia com os colegas de trabalho. Contudo, a família depositava nele profunda confiança, e ninguém mais do que a matriarca, a Duquesa Viúva Herhardt. Ela nutria uma afeição excêntrica por flores, de modo que possuía uma tolerância sem limites para tudo que envolvia seu jardim. Até mesmo a cabana oferecida a Bill nos bosques atrás da mansão fora ideia dela.

Bill levava uma existência pacata; trabalhava no jardim e recolhia-se em sua cabana. Fora um trago ocasional com os companheiros de ofício, passava a maior parte do tempo na companhia de flores e árvores. Fazia mais de uma década que a esposa falecera devido a uma enfermidade e, desde então, raramente buscava a companhia de mulheres. E agora, aquele homem de feições endurecidas estava cuidando de uma menina?

No momento em que todos concordavam que o boato devia ser falso, uma criada junto à janela exclamou:

— Valha-me Deus, pois parece que é verdade! Olhem lá. — Disse, apontando pelo vidro com os olhos arregalados.

Todos correram para a janela. Assim que avistaram o que ela indicava, a surpresa foi geral. Bill estava no extremo oposto do jardim, trabalhando em sua habitual postura curvada. E, logo atrás dele, caminhava uma garotinha, tal como o boato dizia. Os cabelos dourados, presos em uma trança, balançavam como um pêndulo a cada passo dado.

— Ainda não tomei uma decisão — repetia Bill sempre que alguém o questionava sobre a menor. — Ela não pode permanecer aqui, terei de encontrar outra solução.

Enquanto ele adiava indeterminadamente tal resolução, a primavera deu lugar ao verão. Nesse ínterim, Layla Llewellyn tornou-se, gradualmente, parte da rotina, e a criadagem acostumou-se a vê-la se movendo ativamente pelos jardins e bosques da propriedade.

— Parece que ela espichou um pouco — comentou a cozinheira Mona, rindo consigo mesma ao olhar pela janela. Layla passeava pelo bosque atrás da cabana, examinando as diversas ervas e flores que ali brotavam.

— Ainda falta muito — rebateu Bill. — Continua miúda para a idade.

— Ora, Bill. Criar crianças não é o mesmo que cultivar plantas. Elas não crescem até a altura máxima de um dia para o outro — retrucou Mona, balançando a cabeça enquanto pousava a cesta sobre a mesa.

— O que tem aí? — quis saber Bill.

— Biscoitos e bolo. Houve um chá na mansão ontem.

— Eu detesto doces.

— E quem se importa? São para Layla — respondeu Mona displicentemente.

O cenho escuro de Bill cerrou-se. A estada da menina deveria ser temporária, mas, sem que percebesse, os empregados da casa haviam começado a adotá-la. Perguntavam por ela, traziam mantimentos e, às vezes, iam visitá-la. Isso o embasbacava.

— Você deveria comprar roupas novas para ela. Se crescer mais um palmo, a saia não passará dos joelhos — observou Mona, estalando a língua ao ver Layla correr atrás de um pássaro.

Bill não pôde contestar; não entendia nada de crianças, mas até ele notava que os trajes da menina estavam flagrantemente curtos. Quando a cozinheira se dispunha a sair, olhou novamente pela janela e sobressaltou-se.

— Misericórdia! Minha nossa! Olhe para ela! — gritou, correndo de volta ao vidro.

Bill olhou calmamente na direção indicada. O pássaro que Layla perseguia pousara em um galho, e ela imediatamente começou a subir na árvore de forma célere, movendo-se com a agilidade e leveza de um esquilo.

— É, ela leva jeito para subir em árvores — comentou ele, impassível.

Mona fulminou-o com o olhar.

— Bill! Você sabia que ela tinha esse hábito e simplesmente permite? É essa a sua ideia de educação?

— Como pode ver, ela está crescendo forte e saudável.

— Está criando essa menina como um moleque! Valha-me Deus — queixou-se Mona em voz alta.

Contudo, Bill limitou-se a espiar pela janela, dando-lhe pouca atenção. Layla estava empoleirada em um galho, observando as aves revoarem entre as copas das árvores. Nos últimos meses em que estivera na propriedade dos Herhardt, ficara evidente que a jovem transbordava de curiosidade pelo mundo ao redor. Flores, ervas, pássaros e insetos... qualquer coisa que lhe despertasse atenção atiçava-lhe o assombro e o desejo de saber mais.

Certo dia, como ela não voltara para o jantar, Bill fora procurá-la no bosque. Acabou por encontrá-la sentada à beira do rio, contemplando um bando de aves aquáticas. Estava tão cativada pela cena que não escutara o homem chamar seu nome repetidas vezes.

Mona estendeu-se em seu sermão por mais algum tempo antes de finalmente retirar-se. Bill sacudiu a cabeça para afastar o eco daquela reprimenda e dirigiu-se aos fundos da cabana. Assim que o avistou, Layla acenou e gritou alegremente:

— Tio!

Desceu da árvore com a mesma rapidez com que subira e correu em direção a ele, parando bem à sua frente. Trajava um vestido cinzento e desbotado cuja saia e mangas mostravam-se nitidamente curtas. Compreendendo que seria impróprio que ela se deparasse com o Duque Herhardt vestindo farrapos doados, Bill resolveu que era chegado o momento de comprar-lhe uma veste nova.

Ao chegarem à porta dos fundos da cabana, ele virou-se e disse de chofre:

— Vá para dentro e apronte-se. Esperarei aqui fora.

Ela pareceu confusa por um instante mas, logo, uma expressão de receio cruzou suas feições.

— Mas... por que, tio? — gaguejou.

— Não tenha medo. Vamos apenas à cidade comprar algumas roupas. — Ele pigarreou, coçando a nuca, antes de emendar — O Duque Herhardt chegará em breve. Você não pode se apresentar a ele com esse aspecto.

— O duque? Esse é o proprietário destas terras, não é?

— Exatamente. São as férias de verão, por isso ele está retornando.

— Férias de verão? O Duque ainda estuda? — indagou Layla, inclinando a cabeça e semicerrando os olhos.

Bill riu e afagou os cabelos desalinhados da jovem.

— O Duque tem apenas dezoito anos. Não lhe resta outra alternativa senão frequentar a escola.

— O quê?! Ele tem dezoito anos? O Duque?

Bill achou a reação tão honesta que riu com mais gosto, acariciando novamente os fios loiros, que, sob suas palmas calejadas, pareciam suaves como o mais puro algodão.



O trem vindo da capital encostou na plataforma da Estação de Karlsbar. Os lacaios que aguardavam adiantaram-se em perfeita ordem até a porta do vagão de primeira classe, onde se enfileiram em posição de respeito. Em seguida, um rapaz alto e esguio desceu do comboio.

— Saudações, Milorde — proferiu Hessen, o mordomo. Após a cortês saudação, ele e os demais criados curvaram as cabeças respeitosamente.

Ostentando um porte elegante, Matthias inclinou levemente a cabeça em sinal de reconhecimento. Seus lábios avermelhados esboçavam um sorriso sutil, embora longe de ser hostil. O comboio da Casa de Herhardt só se pôs em marcha quando o jovem Duque deu os primeiros passos à frente. A multidão de curiosos afastou-se prontamente para abrir caminho.

Matthias cruzou a extensão da plataforma com passos firmes e céleres. Ao sair da estação e deparar-se com a carruagem que o aguardava, soltou um riso abafado:

— Ora, uma carruagem.

— Ah... sim, Milorde. A Duquesa Viúva não confia em automóveis.

— Eu sei. Para minha avó, os automóveis não passam de engenhocas de metal vulgares e perigosas.

— Peço desculpas. Da próxima vez eu...

— Não há necessidade. Não me desagrada fazer as coisas à moda antiga de tempos em tempos.

Matthias tomou assento na carruagem com elegância. Seus braços e pernas longos, que apesar de ainda mostrarem o desalinho próprio da juventude, moveram-se com suavidade e sem pressa. Assim que ele embarcou, começaram a se mover, ganhando velocidade até que os cavalos rompessem em galope. Após cruzarem a praça da cidade e o movimentado distrito comercial, o silêncio instalou-se no interior do transporte. Uma segunda carruagem, que conduzia as bagagens de Matthias, seguia a uma distância moderada, ostentando o brasão dourado da família, reluzindo sob o sol.