Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 17 - Uma Surpresa

Capítulo 17 - Uma Surpresa

Tradução: Amme

Capítulo 17

Uma Surpresa


A notícia de que Layla, a moça de quem o Sr. Remmer cuidava, havia sido convidada para uma festa na mansão se espalhou rapidamente entre os criados de Arvis. Ao ouvir, a maioria reagiu primeiro com incredulidade, depois com compaixão pela pobre Layla. Os que trabalhavam em Arvis havia mais tempo sabiam muito bem que a senhorita Claudine tratava Layla como se fosse o cachorrinho dela.

— Isso fica entre nós, mas não entendo como os nobres podem ser tão cruéis — disse a cozinheira Mona. Assim que soube da notícia, correra até a cabana de Bill para contá-la. Ainda estava ofegante.

Bill, que descansava à sombra para escapar do calor do meio-dia, ficou chocado ao ouvir.

— Dizem que são considerados — continuou Mona —, mas imagina como uma situação dessas seria intimidadora para a Layla.

— A Layla não se intimida com festa nenhuma — respondeu Bill. — Ela aparece, fica um pouco, e volta para casa.

— Ora, Bill. Você não faz ideia do que está falando. Por que os homens são tão desligados?!

Sentindo o olhar fulminante de Mona, Bill coçou a nuca e apagou o cigarro.

— Acho que devemos dar um recado a eles — disse Mona.

— Hã? O que quer dizer com isso?

— Você sabe o que quero dizer, Bill. Vamos mandar a Layla para a festa tão elegante que vai tirar o chão dessas nobres.

— Mas, é mesmo necessário —

— Vai lá, Bill. O que você esperava que ela fosse vestir? O uniforme da escola?

Qual seria o problema disso?, perguntou-se Bill, desconcertado com a intensidade apaixonada de Mona.

Mona estralou a língua e sacudiu a cabeça.

— Olha, Bill. Depois de todos esses anos, não você acha que já deveria saber cuidar da sua filha?

— Que filha? Ela não é minha filha. Ainda estou pensando para onde mandá-la...

— Claro que está. Vai continuar pensando nisso no dia do casamento dela, vai continuar pensando quando segurar o primeiro filho dela no colo, vai ainda estar pensando nisso quando estiver no caixão.

— Que papo de casamento é esse? Ela ainda é uma garota! Você está falando bobagem.

Vendo que Bill estava ficando irritado, Mona suavizou o tom.

— Você diz que ela não é sua filha, mas reage assim? Juro que não te entendo, Bill.

— Se vai continuar com essa conversa boba, pode ir embora.

— Vai lá, vamos comprar um vestido bonito para ela, Bill. Como uma surpresa. As meninas adoram vestidos — imagina a felicidade dela! — Acrescentou em tom de comando: — A Layla não é do tipo que pede vestido, e você certamente não é do tipo que toma iniciativa e compra um, então vou ter que dar uma força.

— E como vai dar essa força...?

— Você me dá o dinheiro, e eu cuido do resto.

— Tá bem, como quiser — resmungou. Entrou na cabana e voltou com o saquinho de dinheiro. Guardava todas as economias em casa porque não confiava em bancos.

Mona se certificou de pegar dinheiro suficiente não só para o vestido, mas também para os sapatos.

Naquele instante, Layla voltou de cuidar do chiqueiro das cabras. Bill e Mona esconderam o dinheiro rapidamente e fingiam inocência.

Layla ofereceu a Mona uma xícara de chá, mas ela recusou e saiu da cabana. Enquanto isso, Bill sentou discretamente em cima do saquinho para escondê-lo.

— A cozinheira Mona estava te implicando por minha causa de novo? Sei que não me viu subir em árvore nenhuma ultimamente, então o que foi desta vez? — perguntou Layla ao se sentar na cadeira ao lado da de Bill.

— Não se preocupe, não foi nada disso — respondeu Bill, antes de limpar a garganta sem jeito e reacender o cigarro.

Layla sorriu. — Fico aliviada. — Tirou o chapéu e afundou na cadeira.

Layla havia usado o chapéu de palha que Bill lhe dera praticamente todos os dias naquele verão. O coração de Bill se aquecia cada vez que a via com ele. Ocorreu-lhe que ficaria ainda mais feliz de vê-la com um vestido bonito que tivesse pago, por isso não sentiu nenhum rancor de Mona por tê-lo pressionado a dar o dinheiro.

— Layla — disse de repente.

Layla se virou para olhá-lo.

— O que vai fazer? Com a festa na mansão, quero dizer.

— Vou aparecer, dar um oi, e sair. Os Ettman também foram convidados, então vou junto com o Kyle.

— É mesmo? Parece que aquele vagabundo finalmente vai retribuir depois de toda a comida que comeu aqui. — Bill ficou muito aliviado ao saber que Kyle estaria na festa. Mesmo disfarçando sempre o ressentimento com ele, no fundo confiava nele muito. — Mas vai precisar de alguma coisa, não vai? Um vestido para usar, algo assim?

— Estou bem, tio Bill — respondeu Layla, rindo baixinho. Era a mesma risada suave de sempre, desde quando era pequena, e sempre deixava Bill ligeiramente desconfortável.

— Está bem? O que vai vestir, o uniforme da escola?

— Não é uma ideia tão ruim — respondeu ela, com uma risadinha de brincadeira.

Ver a descontração dela deixou Bill inseguro. Será que realmente sou desligado e não sei cuidar da minha filha? — Não — murmurou, surpreso com o próprio pensamento. O que estou pensando? Sacudiu a cabeça.

Ela não é minha filha.

Layla o olhava com uma expressão intrigada.

Bill sentiu o desconforto aumentar ao notar o brilho da armação dos óculos dela. Sabia muito bem como ela evitava dar-lhe trabalho ou contrair qualquer dívida com ele. Entendia esse sentimento e até simpatizava com ele em certa medida. Mas não sabia como expressar isso para ela. Qualquer coisa que tentava dizer saía seca e brusca demais.

De qualquer forma, isso só o tornava ainda mais grato a Mona por ter tomado a iniciativa de ajudá-lo a fazer aquele gesto gentil por Layla, por mais que Mona pudesse ser um tanto mandona às vezes.

Reunindo coragem, tentou falar de novo.

— Layla... Está muito quente hoje. — Mais uma vez, não conseguiu expressar o que sentia. Envergonhado com o comentário desnecessário, limpou a garganta.

Rindo com ternura, Layla estendeu a mão e pegou a dele, pousada no braço da cadeira.

Queria confortá-la, e agora é ela que me conforta, pensou Bill. Olhou para a mãozinha dela e sentiu um leve acanhamento, mas não a afastou.

Layla lhe sorriu com calor, sem que ele soubesse bem por quê.

Que sorriso bonito.



Layla acordou de um sono profundo. O sol mal havia começado a nascer, e o quarto ainda estava mergulhado numa escuridão espessa.

Deitada imóvel na cama, percorreu o quarto com os olhos devagar — o teto familiar, as cortinas cor de creme cobrindo a janela, a velha escrivaninha com alguns livros, o cobertor macio que exalava um leve cheiro de sol...

Soltou um suspiro de alívio ao perceber onde estava.

Ainda bem, estou no meu quarto.

Havia tido o primeiro pesadelo em muito tempo. Passava-se logo depois de ficar órfã, quando era passada de casa em casa entre os parentes. Naquela época, a vida havia sido uma sequência de pesadelos. As coisas tinham melhorado muito desde que se mudara para a cabana de Bill, mas ainda se lembrava vividamente do período horrível na casa onde nascera seu medo da água.

— A culpa é toda dessa menina!

Sempre que o tio daquela casa estava bêbado, descarregava a raiva nela. Era um homem quieto e tímido quando sóbrio, mas Layla se lembrava principalmente de como ele era quando bebia, o que acontecia pelo menos cinco dias por semana. Nos dias em que havia perdido dinheiro no jogo, ficava mais agressivo, gritava xingamentos nela e a batia.

Era horrível. Ela o detestava. Mas como órfã sem para onde ir, não havia outra saída senão aguentar.

Esforçou-se o quanto pôde naquela casa. Nunca parava de ajudar nos afazeres domésticos e comia muito pouco. Tentava ser o mais quieta e discreta possível, como se fosse um móvel. No dia em que finalmente a expulsaram, a tia lhe deu alguns biscoitos em um saquinho de papel. Layla olhou para o rosto roxo de hematomas da tia e agradeceu pelos biscoitos.

Na diligência a caminho da casa do parente seguinte, tirou um biscoito do saquinho e comeu. O biscoito de gotas de chocolate era tão gostoso que deu vontade de chorar.

Mas não chorou. Passou a viagem inteira praticando o sorriso plácido de uma criança obediente. Quanto mais sentia vontade de chorar, mais largo sorria. Sabia que ninguém gostava de uma órfã que chorava. Cada vez que era expulsa de uma casa, parecia ficar um pouco melhor em sorrir.

Mas no dia em que teve de cruzar a fronteira para Berg sozinha, foi difícil sorrir. Ainda era jovem, mas acreditava que o endereço que segurava na mão era sua última esperança. Tinha certeza de que se aquela casa não desse certo, iria parar em um orfanato.

Ainda assim, se esforçou ao máximo para sorrir. Ainda hoje se lembrava do olhar de compaixão e pena nos olhos do tio Bill quando o conheceu; e ainda se lembrava de ter cruzado a soleira do quarto em que estava deitada agora. Aquele dia em que finalmente ganhou uma família e um lar era um que provavelmente nunca esqueceria enquanto vivesse.

Sim, tudo vai ficar bem.

Confortada pelos próprios pensamentos, sentou-se na cama e levantou.

A festa era aquela noite. Não seria honesto dizer que estava completamente tranquila, mas não queria se deter nas ansiedades que sentia. Pretendia entrar com confiança, ficar um pouco e sair.

Claudine provavelmente não fazia ideia de que Layla faria o que fosse necessário para proteger o tio Bill e aquela cabana aconchegante.

Abriu a janela e rapidamente lavou o rosto e se vestiu. Ao abrir a porta do quarto, viu Bill prestes a sair para o jardim. Sorrindo radiante, foi até ele e disse:

— Vamos juntos, tio Bill!



A mansão estava pronta para receber os convidados no meio da tarde. Seria uma festa grande, mas eventos desse porte eram rotina para os criados de Arvis.

Cada um cumpria suas responsabilidades com habilidade e precisão. Restava apenas esperar o sol se pôr para que a festa suntuosa pudesse começar. Ninguém em Arvis tinha a menor dúvida de que seria um sucesso. Como tudo que levava o nome da família Herhardt, aquela soirée seria perfeita.

Matthias saiu do vestiário usando o fraque. Os cabelos estavam penteados para trás, deixando à mostra a testa e as sobrancelhas, o que lhe dava uma aparência fria e elegante. O leve sorriso nos lábios pouco fazia para suavizar o brilho duro dos olhos ou as linhas afiadas do rosto.

— Tudo foi feito conforme as instruções de Vossa Graça — relatou Hessen em voz baixa.

Com um cigarro entre os dedos, Matthias ergueu levemente uma sobrancelha ao se virar para Hessen.

— Saíram há cerca de uma hora, portanto os itens já devem ter sido entregues — acrescentou Hessen.

— Entendido — respondeu Matthias, acenando com um leve sorriso enquanto acendia o cigarro. — Bom trabalho.

Hessen inclinou a cabeça em resposta.

Matthias ficara sabendo que Claudine havia convidado Layla para a festa quando ouviu a mãe elogiar o gesto como uma demonstração de compaixão e gentileza. Ao menos era o que acreditava ter entendido.

Não havia levantado nenhuma objeção. Achou que seria divertido ver como Layla se sairia em uma festa aristocrática. Imaginou que ela apareceria com um vestido modesto, e Claudine a encheria de pena e simpatia.

Entendia muito bem o que motivara Claudine a convidá-la. Layla costumava transmitir um certo ar de arrogância, e Claudine certamente aproveitaria a oportunidade para colocá-la em seu lugar.

Mas uma vez que descobrira as intenções de Claudine, não quis deixá-la ter essa satisfação. Queria reservar esse prazer para si mesmo. Matthias von Herhardt nunca dividia suas posses com ninguém.

— O que faço com isso, Vossa Graça? — perguntou Hessen, apontando para uma caixa perto da lareira. Era o presente que a cozinheira havia encomendado em nome de Bill.

Originalmente deveria ter sido entregue na cabana de Bill, mas Matthias havia mandado Hessen interceptá-la e trazê-la até ali. Em seguida, mandara Hessen entregar um presente diferente na cabana.

Matthias deu uma longa tragada no cigarro enquanto contemplava a caixa. Mesmo sem abri-la, não era difícil imaginar o conteúdo. Enquanto a fumaça escapava dos lábios, respondeu com calma:

— Jogue fora.