Tradução: Amme
Capítulo 16
Algo Que Não é Nada
Com o pôr do sol, a floresta foi rapidamente se fechando na escuridão.
Layla fitava o pássaro morto com o olhar perdido, enquanto Matthias a observava. Já haviam se passado vários minutos em silêncio, mas ele não estava preocupado. Layla ainda estava à sua vista e não parecia que fosse fugir tão cedo.
Erguendo a cabeça, ela finalmente falou:
— Só... — Enquanto o encarava, a raiva nos olhos era nítida mesmo através da escuridão.
Matthias não se incomodava com o fato de ela ousar encará-lo de frente. Preferia isso a quando ela desviava o olhar por completo.
— Me diga — continuou ela. — Me diga que mal eu fiz a você.
— Que mal?
— Sim. O que fiz para que o senhor sentisse necessidade de... me punir desta forma horrível?
— Não a puní — respondeu ele com solenidade. — Fiz meu trabalho, e você fez o seu. É simples assim, Layla. — Era o que genuinamente sentia. — Quanto a algum mal que tivesse cometido, não sei... — Afundou por um instante nos próprios pensamentos e então a olhou com olhos tranquilos e perguntou: — Por que você gosta tanto de pássaros?
Era a mesma pergunta que já havia feito antes, no mesmo tom de voz inalterado.
Layla abriu os olhos, olhou para o céu que escurecia, depois para o pássaro morto, depois de volta para Matthias. Os ombros tremiam levemente, mas nos olhos ainda havia um brilho penetrante.
Matthias achou aquilo ao mesmo tempo divertido e irritante.
— Porque estão sempre por perto — respondeu ela em um tom neutro. Estava claramente ainda com raiva, mas a voz era sem emoção. — Desde que era pequena, ando de um lado para o outro, mas onde quer que eu fosse, quando quer que fosse, havia sempre pássaros. Alguns partiam com a mudança das estações, mas se eu esperasse o suficiente, eles voltavam. Os pássaros sempre voltam para mim. — A voz foi se acalmando enquanto falava, e ficando mais suave também. — Há pássaros em todas as estações. Em todo lugar também. São as criaturas mais livres e mais belas do mundo, e estão sempre por perto. Por isso gosto deles.
— É mesmo?
— Sim. Embora tenha certeza de que isso não significa nada para o senhor, Vossa Graça. — Estava à beira das lágrimas.
Matthias soltou uma risinha baixa e se levantou. Havia percebido que era quase hora do banquete.
Vendo que ele parecia se preparar para ir, ela perguntou com urgência:
— O senhor não vai continuar caçando assim, vai, Vossa Graça?
— Quando for necessário — respondeu ele sem hesitar. Sentiu satisfação ao ver o desespero, o medo e a raiva que aquelas palavras despertaram no rosto dela. Estava prestes a passar por ela e ir embora, mas mudou de ideia e decidiu ficar mais um pouco. — Layla, quero que tudo no meu mundo esteja em seu lugar. Não quero que ninguém se esconda ou fuja desnecessariamente.
— O que o senhor quer dizer com isso, Vossa Graça?
— Fique onde você pertence.
— Onde eu pertenço...? Não sei a que lugar o senhor se refere.
— Pense bem.
— Vossa Graça...?
— Encontrou a resposta? Se encontrar, talvez eu comece a praticar a caçada amigável que você pediu. — Em seguida, foi embora, deixando Layla parada, aturdida.
Não queria nada de específico de Layla. Só queria que ficasse em seu lugar. Como a órfã que vivia em sua floresta. Como a estudiosa curiosa. E em breve, como professora. Esses eram os papéis que constituíam o lugar dela.
Montou o cavalo e olhou para trás, na direção do matagal. Layla estava agachada diante do pássaro morto. As bochechas estavam úmidas — provavelmente de lágrimas. Aquilo lhe deu uma sensação de satisfação.
Havia nascido em um mundo de ordem perfeita, e se tornara seu senhor. Dentro dessa ordem, tudo era simples e claro. Não achava difícil viver de acordo com as expectativas de seu papel. Às vezes era fácil demais — entediante, até.
Para a avó e a mãe, era um herdeiro digno. Para os criados, um senhor generoso. No campo de batalha, um soldado nobre. Para os diretores da empresa, um empresário capaz.
Em todas as relações de sua vida havia um papel adequado para ele desempenhar, e desempenhava todos com boa vontade. O mesmo valia para as partes do outro lado de cada uma dessas relações. Cada qual desempenhava seu papel, com as atitudes e os sentimentos apropriados ditados pela ordem do mundo. Eram os sentimentos que Matthias havia visto, ouvido e aprendido.
Mas e aquela pobre órfã que vive na minha floresta? Estreitou os olhos ao olhar para Layla. Ela não é nada.
Sorriu diante da facilidade com que chegara a essa conclusão.
Era a primeira vez que se deparava com algo que não era nada. Nunca havia lugar em sua vida para uma entidade sem papel predeterminado.
Agora que havia tal entidade, sentia-se estranho — mas não de uma forma desagradável. Na verdade, as emoções que aquela mulher que não era nada exibia lhe traziam alegria, ainda que estivessem fora da ordem normal do seu mundo. Era a mesma alegria que sentia ao derrubar um pássaro em pleno voo com um único tiro.
As lágrimas dela eram o melhor de tudo. Gostava de ver Layla chorar. Era bonita quando chorava. Bonita o suficiente para que ele quisesse fazê-la chorar de novo e de novo.
Saiu da floresta sentindo-se revigorado.
Voltou à mansão e repetiu a mesma rotina que já havia vivido incontáveis vezes. Um jantar animado. Conversa requintadamente vazia. Champanhe gelado e risadas efervescentes.
A noite de verão passou depressa, e acordou na manhã seguinte com o pensamento de que talvez uma caçada "amigável" valesse a pena tentar. Olhou pela janela para o jardim de rosas lá embaixo.
Layla estava lá. Como sempre, ajudava silenciosamente o jardineiro no trabalho.
Está vendo?
Virou-se da janela com um sorriso.
É simples assim, Layla.
— Obrigada, Layla — disse Claudine. A amiga ao lado também expressou gratidão com um leve sorriso.
— De nada, senhorita — respondeu Layla, inclinando a cabeça com respeito.
Entrelaçou as mãos. Os dedos tinham manchas verdes de aparar flores, além de alguns arranhões de espinhos de rosa.
— Vou indo então —
— Pode pegar também aquelas rosas vermelhas ali? — interrompeu Claudine. — Um buquê já está bom.
Layla virou-se para onde Claudine apontava. Era um canteiro de rosas vermelhas esplêndidas que desabrochavam no centro do jardim.
— Sim, senhorita — respondeu, obedecendo às ordens como sempre. Pegou a cesta e a tesoura de poda de volta.
Claudine a observou em silêncio enquanto ela se dirigia ao canteiro.
Claudine havia encontrado Layla ao dar um passeio pelo jardim com uma amiga que estava de visita — ela estava ocupada ajudando o jardineiro depois de dias sumida. Em vez de irem tomar o chá conforme planejado, Claudine perguntou à amiga se preferia fazer arranjos de flores. Emilia aceitou com alegria a mudança de planos, e Claudine mandou as criadas prepararem o material sob a pérgola coberta de roseiras.
Em seguida, mandou uma criada chamar Layla. Era algo que fazia desde quando eram crianças. Claudine sentava sob a pérgola e fazia os arranjos; o papel de Layla era colher as flores e trazê-las.
Layla não era boa o suficiente para ser sua companheira de brincadeiras, mas era uma auxiliar excelente. Às vezes, quando estava muito entediada, Claudine a mandava chamar para conversar também.
— Essa moça se comporta com muita educação, mas não tem um certo ar de arrogância? — perguntou Emilia, fazendo beicinho para Claudine. — Parece que não sabe bem qual é o seu lugar.
— Não fale assim, Emilia. A Layla teve uma vida difícil — respondeu Claudine, franzindo levemente o cenho enquanto aparava as rosas que Layla acabara de trazer. — Você não está errada quanto às falhas dela, mas devemos tentar ser tolerantes.
Emilia deu uma risadinha. — Mas você não está sendo leniente demais com ela? Afinal de contas, ela não passa de uma ajudante.
— Criadas que cumprem seus deveres com fidelidade merecem nosso respeito — disse Claudine em um tom gentil e tranquilo. Foi colocando as flores aparadas uma a uma em um vaso de porcelana azul.
Pouco depois, Layla voltou com um buquê de rosas vermelhas. Mais uma vez as colocou sobre a mesa com etiqueta impecável.
Claudine parou de aparar por um momento e olhou para ela.
A crítica de Emilia tinha fundamento. Ao recordar todas as interações que tivera com ela ao longo dos anos, não havia como negá-lo.
Achava que sabia também o motivo. O comportamento obediente de Layla parecia vir menos da reverência do que da indiferença. Muitas filhas de nobres morriam de vontade de ser amigas de Claudine von Brandt, mas Layla nunca demonstrava especial entusiasmo ou alegria na presença dela. Raramente parecia preocupada com a impressão que causava em Claudine, e jamais tentava bajulá-la.
Ao contrário — em geral parecia estar suportando Claudine em silêncio enquanto obedecia às ordens.
Claudine não estava acostumada a esse tipo de indiferença de ninguém. Era ligeiramente constrangedor perceber que a única pessoa que se comportava assim com ela era aquela órfã.
Mesmo assim, sorriu para ela e disse:
— Bom trabalho, Layla.
Layla inclinou profundamente a cabeça e recuou alguns passos, e a criada que esperava nas proximidades se aproximou. Claudine havia esperado com maior ansiedade por este momento. Era o instante em que aquela órfã arrogante receberia uma moeda de ouro, e seus olhos finalmente brilhariam com uma emoção genuína.
Mesmo depois de tanto tempo, Layla ainda não aprendera a disfarçar a reação nesses momentos. Claudine observou com satisfação a mão de Layla tremer ao receber a moeda, como se segurasse uma brasa. Naquele dia, Claudine lhe daria um presente adicional — entregaria àquela pobre garota um bilhete para uma experiência inesquecível.
Os olhos de Layla se arregalaram ao ver o convite para a festa que a criada lhe havia entregue junto com a moeda.
— É para mim? — perguntou, olhando para Claudine.
— Sim. Fiz um pedido especial em seu nome, e tanto a Duquesa-viúva Herhardt quanto a senhora Elise deram permissão.
— Mas, senhorita —
— Ficaria muito feliz se pudesse vir, Layla — disse Claudine, rindo baixinho.
Conforme o rosto de Layla empalidecia, o sorriso de Claudine se alargava.
— Tenho certeza de que não vai recusar meu convite, Layla — disse ela, como se falasse a uma velha amiga. Em seguida, voltou a atenção para as flores.
Preciso domar essa garota teimosa antes de me tornar Duquesa de Arvis, resolveu enquanto voltava a aparar as rosas. O buquê que havia arranjado com habilidade estava impecavelmente belo.
