Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 15 - Uma Caçada Amigável

Capítulo 15 - Uma Caçada Amigável

Tradução: Amme

Capítulo 15

Uma Caçada Amigável


Depois de dispensar os companheiros de volta à mansão, Matthias deteve o cavalo no meio de uma ampla trilha que cortava a floresta. Tirou o chapéu, e os cabelos despenteados caíram sobre a testa. Com o fim da caçada sangrenta, a floresta parecia ainda mais silenciosa do que de costume.

Havia sido mais uma caçada satisfatória. Matthias acertara cada alvo em que mirou, e cada abate fora tão emocionante quanto sempre. E ainda assim sentia uma insatisfação persistente — por causa de um pássaro que teimava em escapar.

Depois de encarar por um bom tempo a direção da cabana, virou o cavalo lentamente para aquele lado. Lembrou-se de como, sempre que uma caçada terminava, a menininha que morava ali perto entrava pela floresta soluçando e enterrava todos os pássaros mortos. Aquele comportamento estranho havia ficado nitidamente gravado em sua memória. O que faria aquela garota agora que havia crescido? Enquanto refletia sobre isso, apontou a espingarda para um passarinho empoleirado na ponta de um galho e...

Bang!

Antes que o eco do disparo se dissipasse pela floresta, o pássaro já havia caído no chão.

Deixando a carcaça onde estava, fez o cavalo avançar. Repetiu a mesma sequência de gestos com outro pássaro. E com mais outro. Assim continuou, apontando e atirando enquanto o entardecer descia sobre a floresta, deixando um rastro de pássaros ensanguentados pelo caminho.



Odeio ele, murmurava Layla para si mesma a cada nova cova que abria para enterrar um pássaro. Odeio o Duque Herhardt e esse passatempo abominável. Odeio com toda a minha alma.

Enxugando o suor da testa, engoliu a tristeza que lhe subia à garganta. Quando achava que havia terminado, avistava mais uma carcaça de pássaro ensanguentado a poucos metros. Respirou fundo e foi até ela, pá na mão.

Não era contra toda forma de abate. O tio Bill caçava para se alimentar, e ela mesma às vezes matava as galinhas e outros animais que criavam. O que não conseguia compreender era como alguém poderia matar animais por diversão e deixar suas carcaças abandonadas.

Quando é que este verão vai acabar?, pensou, soltando um suspiro fundo enquanto ansiava pelo fim da estação que normalmente era sua favorita. Enterrou mais um pássaro — um pintassilgo-da-europa, de marcações belíssimas.

Só quando já estava bem fundo na floresta percebeu que havia algo errado. O Duque Herhardt sempre caçava bastante durante suas estadias em Arvis, e ela sempre enterrava os pássaros que matava. Mas não se lembrava de uma vez em que os pássaros estivessem dispostos em linha reta, a intervalos tão regulares quanto desta vez. O que está acontecendo? Era como se os pássaros mortos formassem um caminho.

Talvez eu deva voltar...

Com um pressentimento de mau agouro, parou. Ergueu os olhos e viu que o céu estava vermelho como brasa. Quando baixou o olhar do pôr do sol, avistou-o além de um matagal. O Duque Herhardt estava sentado em um toco de árvore, olhando para ela.

A mente ficou em branco, as pernas bambas, quando ele a saudou com toda a calma do mundo:

— Boa tarde, Layla.

A voz de Matthias von Herhardt era tão suave e aveludada quanto as penas dos pássaros que abatia.



— Matthias está demorando. Acho que todos os companheiros dele já voltaram — disse Elise von Herhardt, franzindo os olhos enquanto pousava uma carta sobre a mesa. Já estava começando a se entediar com o jogo e gostaria de jantar mais cedo, mas o filho ainda não havia voltado da caçada.

— Disse que ia dar uma volta na floresta — respondeu Claudine. Sorria com calor, apesar de acabar de perder a partida.

As outras damas à mesa sorriram para ela com admiração, sabendo muito bem que ela havia perdido de propósito. Naquele gesto, conseguiam enxergar toda a fineza, os modos impecáveis e a graça da futura Duquesa Herhardt. Consciente de todos os olhares, Claudine sabia exatamente o quanto era admirada.

— Enfim, só estou dizendo que o Matthias claramente adora essa floresta — disse Elise. Em seguida, tocou a campainha para chamar as criadas, que logo vieram recolher e arrumar a mesa.

As damas entediadas se reuniram novamente em torno da mesa da sala de estar e conversaram enquanto apreciavam um lanche leve. Mesmo nos assuntos mais triviais, mantinham a etiqueta conversacional mais apurada.

— Claudine, por que não convida suas amigas para uma festa?

Os olhos de Claudine se arregalaram com a sugestão de Elise. — Eu? Dar uma festa aqui em Arvis?

— Tenho certeza de que você está se entediando de passar cada dia com a gente. Uma mudança de ares não seria bem-vinda?

— Não estou entediada de vocês. De maneira alguma.

— Não precisa se assustar. Era brincadeira, Claudine.

O rosto tranquilo e sorridente de Elise parecia tão jovem e belo que era difícil acreditar que tivesse um filho prestes a se novar. Ela e Matthias se pareciam bastante.

Quando Elise era duquesa, era admirada como uma das maiores belezas de todo o Império de Berg. Ainda assim, jamais conquistara o afeto do marido. Era mais um fato que reforçava o desprezo de Claudine pelas mulheres que, a seus olhos, se apegavam em demasia à ideia do amor.

O falecido Duque Herhardt, pai de Matthias, havia mantido uma amante, como era comum em homens de sua posição, mas tivera o bom senso de não complicar a vida do herdeiro reconhecendo filhos ilegítimos. Embora o casal não se amasse, respeitavam-se mutuamente e cumpriam seus deveres com fidelidade. Era uma família tranquila, sem as manchas de ambições ou ganâncias desnecessárias. Era exatamente isso que Claudine esperava do casamento com Matthias.

— Não precisa sentir pressão, Claudine. Pense nisso como um ensaio. E de qualquer forma, se a mansão estiver cheia de jovens se divertindo, nós também vamos gostar. — O sorriso de Elise se iluminou visivelmente. — Não concordam?

As damas sorriram em silêncio, cientes de que ela não estava de fato consultando as opiniões alheias.

— Minha nossa, a senhora é tão generosa e atenciosa — exclamou a Condessa Brandt.

As outras damas logo se juntaram em um coro de elogios ligeiramente exagerados à ex-duquesa.

Claudine abaixou disfarçadamente a cabeça em um sorriso acanhado. Enquanto pensava em quais amigas convidaria para a festa, algo pela janela chamou sua atenção. A visão da floresta escurecida além do jardim lhe trouxe à mente Layla, a pobre órfã que morava ali perto. Era bem-educada e sabia seu lugar, embora por vezes transparecesse um certo ar de orgulho.

— Poderia convidar também a Layla?

As damas franziam o cenho diante da pergunta animada de Claudine.

— A órfã de quem o jardineiro está cuidando?

— Sim. A Layla Llewellyn.

— Claudine, ora! — disse a Condessa Brandt, com expressão desconfortável.

Claudine não se abalou com o olhar reprovador da mãe. — Aposto que a pobre garota nunca foi a uma festa formal. Quero dar a ela uma experiência inesquecível. — Mesmo falando com firmeza, Claudine não perdia a elegância e a graça de dama.

— Parece uma boa ideia — disse a Duquesa-viúva Herhardt com um sorriso satisfeito. — Faça como quiser, Claudine.



Layla percorreu com o olhar o caminho que havia percorrido enterrando os pássaros. Quando voltou a encarar o duque, só havia uma conclusão possível.

Ele é um lunático. Era a única forma de explicar aquela situação. As mãos suaram frio sob as luvas sujas de sangue. O coração disparou de medo e raiva.

Preciso sair daqui. Obedecendo ao impulso que a mente aterrorizada lhe dava, começou a se virar quando ouviu a voz do duque outra vez.

— Layla. — O rosto permanecia composto. — Layla Llewellyn. — Pronunciava o nome como quem repete um mantra.

Layla usou a pá que segurava como apoio para endireitar a postura. Pressionou os lábios com firmeza e retesou os músculos das pernas. Sabia que seria inútil tentar fugir.

O duque a alcançaria com facilidade se quisesse. Tão logo chegou a essa conclusão, a mente curiosamente ficou mais calma e lúcida.

Inclinou a cabeça em reverência, depois ergueu o olhar trêmulo e o encarou. Enquanto se fitavam em silêncio, o som da brisa soprando pela floresta pareceu crescer.

— Continue — disse Matthias, quebrando o silêncio. — Termine o trabalho. — Lançou um olhar de soslaio para o lado da trilha, onde jazia o que pareceu ser o último pássaro abatido.

Layla arrastou os pés até o local. O pássaro ensanguentado tinha um barbante vermelho amarrado à pata — o mesmo que ela havia amarrado às patas dos borrões-de-coleira que haviam chocado perto do Rio Schulter no ano anterior.

Aquele pássaro havia migrado para um país distante no sul e voltado, apenas para perder a vida em sua terra natal. Tudo pelo simples entretenimento daquele homem. Layla cavar a cova e enterrou o pássaro em silêncio. Era uma tarefa que havia praticado muito, graças ao algoz dos belos pássaros.

— Esse barbante, foi você que amarrou? — perguntou ele, observando-a com atenção.

— Sim.

— Por quê?

— Queria reconhecer os pássaros quando voltassem da migração — respondeu ela enquanto cobria o pássaro com a terra. — Mas não era esse tipo de reencontro que eu esperava.

Sentindo a respiração acelerar, ergueu os olhos e viu o Duque Herhardt com uma expressão de absoluta serenidade.

— Você me culpa por isso? — perguntou ele, cruzando as pernas enquanto ficava sentado.

O leve sorriso de deboche nos lábios fez a paciência dela chegar ao limite. — Seria uma mentira dizer que não — respondeu.

— Qual é exatamente o problema? — perguntou ele, franzindo levemente o cenho. — Eu simplesmente caço meus pássaros, no meu terreno de caça, nas minhas terras.

— Mas Vossa Graça, os pássaros não sabem disso. — Pelo tio Bill, repetia a mente sem parar, e ainda assim ela não conseguia se calar. — Para eles, esta é apenas uma floresta. O lugar onde nasceram, cresceram e vivem. O lugar ao qual retornam ano após ano depois de migrar para longe no inverno.

— E eu realmente preciso compreender a vida interior dos pássaros?

— Talvez não, mas... — Tirou as luvas de jardinagem ensanguentadas e recuperou o fôlego. — ...mas não acho que precisasse caçá-los de maneira tão brutal. — Para dizer aquilo, precisou reunir mais coragem do que a que lhe custara embarcar sozinha em um trem de Lovita anos atrás, levando apenas uma mala e um papel com o endereço de Arvis. Logo em seguida, uma onda de arrependimento a inundou, mas logo percebeu que o duque não demonstrava nenhum sinal de raiva ou desagrado. Aquela calma enigmática só a deixava ainda mais ansiosa.

— Layla Llewellyn, especialista na vida interior dos pássaros — disse ele depois de uma longa pausa. — Fico curioso: o que você acha que é a caça?

— Como assim?

— Se não gosta do meu estilo brutal de caçar, o que deveria eu fazer? Uma caçada amigável?

O sarcasmo fez o sangue ferver. Apertou a saia para conter a indignação. — Peço desculpas, Vossa Graça. Disse algo que não devia. Por favor, perdoe minha falta de respeito.

— Por que você gosta tanto de pássaros?

— Não acho que a resposta seria muito interessante para o senhor, Vossa Graça. — Baixou os olhos, sem querer encará-lo por mais tempo.

Ele não respondeu. Inclinando a cabeça em reverência profunda, disse: — Já que terminei o trabalho, vou me retirar.

O silêncio continuou. Aliviada, virou-se. Mas assim que deu o primeiro passo, um disparo ensurdecedor rasgou o ar.

Gelada de horror, virou-se. O duque tinha a espingarda apontada para a copa de uma árvore. Baixou o cano devagar e pousou um olhar vago em Layla. Entre os dois, havia agora mais uma carcaça de pássaro ensanguentada.

— Que pena, Layla. — Acomodou-se de volta no toco com toda a calma. — Parece que o seu trabalho ainda não acabou.