Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 14 - Eu a Desejo

Capítulo 14 - Eu a Desejo

Tradução: Amme

Capítulo 14

Eu a Desejo


Layla tremia debilmente sob o olhar de Matthias.

Ela se faz de forte, mas no fundo é uma covarde, pensou, revisitando as memórias que guardava dela desde a infância. Levantou-se e se aproximou, parando a um passo de distância.

Ela olhou para a mão dele e reconheceu de imediato o que segurava: seus óculos. Mal conseguindo articular som, disse em um fio de voz:

— Eu... desculpe — um pedido de desculpas educado, apesar da raiva que ardia nos olhos. — Não imaginei que o senhor estivesse aqui, Vossa Graça. Sinto muito, de verdade...

— Você acha que estaria tudo certo em arrombar este lugar se eu não estivesse aqui? — perguntou ele, inclinando a cabeça na direção dela.

Os olhos grandes e avermelhados de Layla ficavam cada vez mais úmidos a cada piscada.

Estava à beira das lágrimas, mas mantinha a postura ereta.

— Como uma ladrona? — perguntou ele em um tom baixo e levemente zombeteiro.

As bochechas escarlates eram visíveis mesmo na escuridão.

— Só queria recuperar o que é meu — respondeu ela.

— Ah, quer dizer isto? — perguntou ele, erguendo os óculos.

O rubor nas bochechas se alastrou pelo rosto inteiro, chegando até as orelhas.

— Sim — respondeu ela com ousadia. — Meus óculos, que o senhor escondeu.

Veja como está tremendo. Sem soltar os óculos, ele foi até a janela — a mesma por onde havia atirado o chapéu no rio.

— N-não! — gritou ela, correndo atrás dele. — Me devolva! Por favor!

O xale escorregou dos ombros e caiu no chão. Ela cruzou os braços freneticamente sobre o peito para cobrir o decote fundo da camisola.

— Não é um pouco absurdo fazer tal alvoroço por me ver assim de camisola, quando você já me viu de ponta a ponta? — perguntou ele, rindo.

O pescoço agora também estava vermelho.

— I-isso não foi culpa minha! — insistiu ela, sacudindo a cabeça com desespero. — Não quis ver, não pude fazer nada a respeito...

— Você acha que eu quis ver você assim?

— O quê? Ah... desculpe. Não quis dizer isso. — Apressou-se a recolher o xale do chão e o enrolou nos ombros e no peito.

Ele deu uma risinha diante da expressão meio atordoada dela.

— Por que de repente está agindo como uma dama? Pensei que tinha dito que não era uma dama.

— Seja lá o que eu for, o senhor é um cavalheiro, Vossa Graça — retrucou ela, mantendo a polidez sem recuar um milímetro.

Ele voltou a rir.

— Bem... — A risada cessou, e a voz ficou mais baixa. — Quem sabe eu não seja um cavalheiro afinal.

— N-não! — exclamou ela com urgência, apertando as pontas do xale em um nó firme diante do peito. — O senhor é sim um cavalheiro!

— Mesmo?

— Sim! O maior cavalheiro de todo Karlsbar!

— Que apreciação generosa.

— Todo mundo que conhece o senhor pensa assim, Vossa Graça.

— Inclusive você?

Sufocando o impulso de gritar "Não!", ela sacudiu a cabeça e respondeu:

— Sim. Claro que sim.

Layla Llewellyn, você vendeu sua alma por um par de óculos.

— Por isso, por favor, Vossa Graça, me devolva. — Reprimindo as lágrimas, acrescentou: — São muito especiais e importantes para mim. — Baixou a cabeça em submissão, apesar da humilhação do gesto. Sentia uma raiva acumulada que daria para chutar todas as pedras da floresta e ainda sobraria. Mas tinha plena consciência de que estava em extrema desvantagem.

Se quisesse, o Duque Herhardt poderia chamá-la de ladra e mandá-la para longe da propriedade. Ou simplesmente atirar os óculos pela janela, no rio. Qualquer uma dessas atitudes simples seria fatal para ela.

Portanto, tinha de suportá-lo, fizesse ele o que fizesse.

Matthias jogou os óculos para cima, apanhou-os, e começou a se aproximar. Em pouco tempo estava próximo o suficiente para que sentissem o calor um do outro.

Layla ergueu os olhos para ele, chocada. Ao olhar para baixo, os olhos dele eram tão fundos e serenos quanto as águas de um rio profundo em dia de calmaria. Exatamente como o rio frio que tentara engoli-la naquela tarde quente em que tudo começou.

Enquanto esses pensamentos a percorriam, a visão turva subitamente ficou nítida. Só então percebeu que Matthias havia colocado os óculos em seu rosto. As palmas das mãos dele eram quentes e suaves contra suas bochechas, como areia ao sol.

Via-o com nitidez, enquanto tudo ao redor se tornava difuso.

Perturbada, tentou se afastar, mas as mãos dele seguravam seu rosto com firmeza. Quis perguntar por que fazia aquilo, mas então sentiu uma sensação estranha e assustadora. As mãos dele tocavam sua boca.

Os dedos se moveram devagar, pousando entre os lábios entreabertos dela. Um suspiro morno roçou sua testa. O hálito era quente e suave, assim como as mãos.

Com os olhos ainda fixos nos dela, passou o dedo lentamente pela superfície úmida do lábio inferior. Enquanto o dedo entrava e saía, a unha roçava os dentes. Esquecendo até o impulso de fugir, Layla permaneceu completamente paralisada, suportando o olhar e o toque dele.

Quando estava prestes a chorar diante daquele comportamento estranho e incompreensível, ele fechou os olhos devagar. O aperto das mãos no rosto dela se apertou um instante, depois afrouxou.

Quando finalmente a soltou, ela recuou tropeçando alguns passos. Uma onda de desconforto a inundou ao perceber que havia ficado sem respirar direito enquanto ele a segurava. O corpo inteiro estremecia ao tentar recuperar o fôlego.

Matthias abriu novamente os olhos. O olhar distante naqueles olhos azul-profundo a fez sentir-se suja e envergonhada. Depois de contemplá-la por um longo momento, disse em voz baixa:

— Vá.

Layla não retinha nenhuma memória do que acontecera entre aquele instante e o momento em que saiu da cabana. Presumia que se havia despedido, virado e saído, mas as lembranças eram vagas.

Só voltou a si ao sentir a brisa fresca, o canto dos grilos e a própria sombra se movendo ao luar, quando percebeu que já havia chegado ao final da trilha da floresta.

Ainda atordoada, caminhou em direção à cabana. Diferentemente do que era normal, não descarregou a raiva chutando galhos ou pedras, nem correu. Apenas caminhou. Avançava a um passo incomumente lento, quase flutuando, como um fantasma.

Bombeou água da torneira no canto do quintal e lavou o rosto com ela. Sem pensar, esfregou e esfregou os lábios até ficarem vermelhos e inchados. Continuou lavando o rosto até a pele arder, mas não conseguia se livrar da estranha sensação que persistia nos lábios.

Quando voltou para o quarto, o rosto, o xale e a frente da camisola estavam todos encharcados de água fria. Sem pensar em se secar, deixou-se cair sentada na beira da cama.

Não sabia ao certo o que havia acabado de viver, mas havia uma coisa da qual tinha certeza: não queria jamais voltar a vê-lo.



Matthias estralou os dedos, e o canário que estava tranquilamente na gaiola voou até ele.

Recostado no batente da janela, estendeu a mão, e o pássaro pousou prontamente no dedo. As penas cortadas haviam começado a crescer de volta, de modo que agora conseguia voar um pouco mais longe do que antes.

Precisaria cortar novamente, mas Matthias considerou que não seria preciso aparar tanto quanto da primeira vez.

Enquanto o canário cantava no dedo, contemplou a paisagem pela janela. O jardineiro, Bill Remmer, estava no meio do trabalho cuidando do jardim. Layla Llewellyn, que costumava ajudá-lo com frequência, não estava lá. Não a via havia dias — não desde a noite em que viera buscar os óculos. Desde aquele incidente, ela o evitava como se ele fosse uma praga.

Colocou o canário de volta na gaiola e vestiu o casaco vermelho do traje de caça.

Eu a desejo.

Matthias havia finalmente compreendido o que vinha sentindo. Desejava Layla.

Não havia mais razão para negar. Layla Llewellyn havia crescido e se tornado uma mulher bela — bela o suficiente para despertar o desejo de um homem. Sabia, porém, que esse tipo de desejo costumava durar pouco antes de dissipar-se.

Valia mesmo a pena manchar a própria vida só para satisfazer um desejo passageiro?

Continuava voltando àquela noite, quando Layla estivera bem diante dele. Havia chegado a uma conclusão naquele momento: não.

Concluíra que Layla Llewellyn não era digna daqueles sentimentos. Tinha confiança de que o desejo que sentia por ela estava sob seu controle. Então por quê...? Tendo chegado a essa conclusão, havia a deixado ir. Mas por que ela ainda sente a necessidade de me evitar?

— As preparações para a caçada de hoje estão concluídas, Vossa Graça — disse Hessen, aproximando-se em silêncio.

Matthias assentiu, pegou a espingarda que Hessen lhe estendia e saiu do quarto.



— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Kyle, olhando para Layla com preocupação.

Ela ergueu os olhos do caderno onde colava flores silvestres secas com calma.

— Não — respondeu prontamente, com a voz clara de sempre. Franzindo levemente a testa, perguntou baixinho: — Parece que aconteceu?

Sempre que Kyle via aquela expressão e ouvia aquela voz, as bochechas começavam a esquentar.

— É que você ficou em casa esses últimos dias. Achei estranho — disse ele, dando de ombros com displicência.

Layla o fitou por um instante em branco, depois o rosto voltou à expressão de antes. Os lábios esboçaram um sorriso tênue, e os olhos brilharam.

— Pensei que, depois de encontrar os óculos, você ia sair por aí o tempo todo, mas foi o contrário — acrescentou Kyle, apoiando o queixo na mão enquanto a contemplava.

Ela deu uma risinha leve e voltou a anotar minuciosamente as características das flores que acabara de colar, junto com os locais onde as havia encontrado.

Em alguns dias, provavelmente levaria o caderno à biblioteca para pesquisar os nomes das flores. Kyle decidiu que a acompanharia, simplesmente porque queria ver o sorriso que ela faria ao descobrir o nome de cada uma.

Era alguém que queria saber o nome de todos os pássaros e flores do mundo, e Kyle amava essa excentricidade dela.

Depois de pressionar levemente o papel mata-borrão contra a página para evitar que a tinta borrasse, fechou o caderno com cuidado. Os óculos recuperados reluziam no rosto pequeno.

— Quer dar uma volta? — perguntou Kyle. — Podíamos ir àquele lugar que você gosta, com a árvore à beira do rio.

— Não — respondeu ela de imediato.

— Você ia lá todo dia. Por que parou de repente? Viu alguma coisa assustadora na floresta de novo?

— Não, nada disso. E de qualquer forma, não podemos ir hoje à floresta.

— Por quê? Ah, é dia de caçada do duque?

Layla empurrou o caderno até a outra extremidade da mesa e assentiu. Logo depois, ouviu-se lá fora o som alto de cascos de cavalo.

— Uau, que visão incrível! — exclamou Kyle, correndo até a janela.

O Duque Herhardt e seus acompanhantes passaram pela cabana e avançaram em direção à floresta. O caçador e os cães de caça iam na frente, e os cinco rapazes a cavalo vinham atrás.

Layla foi até a janela e também olhou para fora.

O duque montava o cavalo de pelagem castanha e lustrosa que costumava usar. O casaco vermelho de caça e a espingarda reluzente também chamavam a atenção.

— Claro que eu não caço, Layla. Não caçarei enquanto viver — declarou Kyle. De repente, a expressão mudou.

Naquele momento, o Duque Herhardt havia olhado na direção da cabana. Embora Layla já estivesse atrás da cortina, levou um susto e recuou da janela.

Passara os últimos dez dias se esforçando ao máximo para evitá-lo — não só abrindo mão das visitas ao rio, mas também se mantendo longe da floresta. Embora se sentisse culpada com Bill, havia praticamente parado de ajudá-lo na jardinagem, fazendo o que podia durante as saídas do duque e desaparecendo assim que o carro dele era avistado retornando.

Pretendia passar o restante do verão assim, por mais desconfortável e desagradável que fosse. Quando o outono chegasse, o noivado do duque seria anunciado, ele partiria para a capital, e Arvis voltaria a ser um lugar de paz.

— Está se sentindo mal? Quer vir para a minha casa? — perguntou Kyle, notando com preocupação que o rosto dela havia empalidecido.

— Não, Kyle. Estou bem — respondeu ela, sacudindo levemente a cabeça enquanto voltava a se sentar à mesa. — A caçada termina hoje à tarde de qualquer forma.

Ao abrir um livro com despreocupação fingida, um disparo alto ecoou lá fora. O latido dos cães e o galope dos cavalos se seguiram em instantes.

Layla folheou o livro maquinalmente. As mãos estavam brancas — acabava de desapertar os próprios punhos.

Sabia que teria de entrar na floresta naquela tarde. Pelo som, havia muitos pássaros coitados esperando para ser enterrados.